Sociedade

Sociedade da mentira | António Pedro Dores

Foto de Darren Halstead na Unsplash

Resumo: o dito popular “anda meio mundo a enganar o outro!” pretende descrever a civilização moderna. Para convencer os povos a alinhar em explorar a Terra – incluindo a si próprios – a civilização envolve-nos num rolo compressor de mentiras que tornam a verdade irreconhecível: responsáveis não são, não podem ser, os líderes irresponsáveis.

  

A sociedade imperial, aquilo a que chamamos civilização, é uma sociedade da mentira.

 

Quando assistimos às actuações de Trump, nem os seus partidários podem ignorar que se trata de um mentiroso compulsivo. Em termos domésticos, noutro espectro político, temos o engenheiro. Mas a mentira não é apenas o facto de gente que mente ser tão apreciada que é colocada por coligações populares de eleitores a cumprir as missões mais prestigiadas do mundo, alegadamente contra as elites. A maior mentira é a noção de que é natural sermos mentirosos compulsivos. Só os ingénuos procuram a verdade?

 

A matemática é uma das conquistas da civilização. Faz sentir inteligentes os que aprendem a jogar com ela. E é capaz de explicar esse fenómeno de autoconvencimento de as mentiras que nos contamos uns aos outros serem irremediáveis.

 

Isto funciona como as regras de sinais. Quando se trata de multiplicar e dividir, quando se trata de assuntos sociais, a conjugação de duas mentiras (sinal menos) é igual à conjugação de duas verdades (sinal mais). Tanto vale um mentiroso compulsivo – geralmente um homem branco com poder – como quem procure a verdade. É essa triste situação que faz com que haja quem imagine que um filósofo na política seria melhor do que um político normal. Porém, envolvido em política até um filósofo perde a vontade de procurar a verdade.

 

Viver em verdade é considerado uma heroicidade, própria de cientistas ou de santos. Viver na mentira é considerado humano, normal. É o dilema intelectual com que lidam Hobbes e Rousseau. Para o primeiro, como para Maquiavel, só a legitimação institucional da violência (e da mentira) pode oferecer alguma ordem social. A verdade ou é oficial ou não o é. Para o segundo, acompanhado por Kant, tal legitimação ocorre de facto, mas não é desejável. As sociedades teriam o poder para suavizar a violência institucional e as mentiras que a justificam, por exemplo, através da democracia.

 

A aprendizagem de gozar a boa vida, como o faziam os bons selvagens de Rousseau, está a ser esmagada por genocídios contra a diversidade cultural, contra as culturas de hospitalidade, contra o respeito pela natureza (e pela humanidade). A boa vida é tema para utopias, para ideologias, concebendo arranjos celestiais fora da realidade, que pouco mais são do que resignação prática.

  

Imaginar sociedades diferentes não é apenas a procura individual de sentir momentaneamente esperança. Politicamente é preciso dar crédito à possibilidade de sair do labirinto em que nos enredamos por nítida falta de imaginação e inteligência. A melhor esperança não é apenas imaginá-la. É preciso construí-la persistentemente à margem da resignação. Podemos chamar a isso democracia?

 

O caminho de verdade é tolerante à mentira, mas não se deixa viciar por ela, como o fazem as utopias e as ideologias. Ao invés, como os alcoólicos anónimos, mantém presente a necessidade de identificar as mentiras recorrentes e sedutoras e de as denunciar.

 

Sim, essa do ser humano ser o animal inteligente, lamento dizê-lo, é também uma mentira. A prova provada disso é o destino ambientalmente suicida que a modernidade construiu para si própria, incapaz de lhe escapar como um rato de laboratório. Só porque não nos agrada, temos muita dificuldade em reconhecer a verdade, ainda que ela seja evidente.

 

A esmagadora maioria de nós foi educada a naturalizar a mentira. As mentiras organizadas racionalmente pela publicidade, pelas instituições, pelos estados, pela política, a que também chamamos ordem ou justiça, seriam melhor do que a natureza e melhor do que a natureza humana (a dos bons selvagens), apontadas como nossas inimigas. O homem seria lobo do homem, para parafrasear Hobbes. Que estupidez!

 

Fomos educados a pensar que sempre fomos assim. Só os bons selvagens – pré-humanos – poderiam ter a candura de procurar a verdade. Uma característica distintiva dos humanos civilizados seria sermos mentirosos compulsivos.

 

Não nos importamos com as evidências de as mentiras que contamos com tanta convicção nos serem prejudiciais, pessoal e socialmente. De os nossos interesses não estarem salvaguardados por estados preparados para fazer a guerra e explorar a Terra e as pessoas. Medimos o valor não pelos resultados práticos do que fazemos para viver melhor, mas pelo reconhecimento imperial organizado, geralmente medido em vil metal. Por prestígio ou por dinheiro ou para sermos autorizados a exercitar poder, dispomo-nos a mentir compulsivamente e a admitir que outros o façam. Estamos presos a processos de hierarquização que nos inibem as emoções e limitam o pensamento. Por isso temos famílias cada vez mais curtas e vivemos uma pandemia de depressão.

 

As hierarquizações organizadas pela civilização imperial de que fazemos parte encontrou formas de nos desesperançar, de nos exaurir de qualquer esperança, de desencantar o mundo, permitindo a todos e a cada um achar normal tomar a Terra como inimiga a destruir, a explorar, e com ela todos os seres humanos utilizados por quem acumula as riquezas. O nosso envolvimento subalterno na modernização convence-nos de estarmos a viver no único mundo possível, no melhor dos mundos possível, que nunca se viveu tão bem. Perdemos voluntariamente a esperança.

 

Tal desesperança é insustentável. Ninguém pode viver sem esperança. Em vez de esperar uma vida melhor, os modernos esperam manter-se ou subir nas hierarquias. Basta-nos fazê-lo simbolicamente para sentir alguma satisfação, ainda que fugaz. Parece-nos serem objectivas as melhorias das condições de vida quando vemos aumentados os rendimentos: é a forma moderna de sublimar a desesperança em falsa esperança. A economia é a disciplina moderna para a mentira parecer verdade, vinculando uma e outra às ideologias. Como dizia Mark Twain, atribuindo a frase a um primeiro-ministro do império britânico, há as mentiras, as grandes mentiras e as estatísticas (as económicas e as outras).

   

As pessoas são surpreendidas por esperanças espontâneas variadas, paixões arrebatadoras que são admiradas e desejadas, mas também temidas. Os artistas chamam-lhes amor, os empresários risco. Ver e dizer que o rei vai nu, ou que há uma oportunidade de negócio no mercado, além de ser uma experiência emocionalmente empolgante, pode ser um perigo de vida. A missão imperial persegue e destrói tudo no caminho e recupera para si, como o faz com as ideologias/religiões e com as start-ups, as emoções que são mais fortes que ela e os bons negócios que permitem contrapor realismo às emoções. A missão imperial transforma em instrumentos a melhor moral e os melhores empresários.

 

Apesar de vivermos numa civilização de mentira generalizada, de que fazemos irremediavelmente parte, a maioria como vítimas-cúmplices, a prova de que a mentira não é parte da natureza humana é haver sempre quem insista em procurar a verdade. Tal procura cansa, sobretudo quando o seu mérito não é socialmente reconhecido e apoiado. Sabendo disso, as instituições imperiais gastam muito esforço e dinheiro a dispersar os pequenos sucessos da verdade. Mas o maior sucesso imperial é haver santos e cientistas que tratam a mentira imperial com condescendência, como o fizeram em geral os povos colonizados quando receberam os conquistadores. Admitiram-nos ao seu convívio, conversaram para chegar a acordos que respeitassem todos os interesses em presença. Foram torpedeados pelos representantes do império, mentirosos compulsivos, traidores sem remorso das suas próprias convicções que, afinal, quando existem, são mentira.

 

Estou a ouvir aquela mentira vulgar de que os trabalhadores e os povos colonizados (como as mulheres em geral) são inferiores, menos inteligentes, que se satisfazem com pouco por estarem habituado/as a serem pobres e submissas, e que, objectivamente, beneficiaram com o contacto com a nossa civilização masculina ocidental. Fomos “nós” quem lhes permite viverem no melhor dos mundos possível. Prova disso seria que as mulheres continuam a gostar de homens e os imigrantes procuram chegar ao Norte. O problema com esta tese supremacista disfarçada de evidência é que também no Norte, nas sociedades que alegadamente inventaram a civilização, os povos, quando podem, repudiam a civilização com motins, movimentos sociais, revoluções, mobilizados em torno de injustiças reiteradas e evidentes produzidas imperialmente.

 

Há poucas décadas, a escravatura, o patriarcalismo, o clericalismo, o capitalismo, o colonialismo, o totalitarismo, as discriminações sociais, deixaram de ser considerados característica da natureza humana e passaram a ser imoralidades a evitar. As revoltas dos povos obrigaram o império a reconhecer o mérito das verdades. Mas, desde logo as transformou em mentiras.

 

Algumas das principais instituições criadas para servir a missão imperial foram atacadas com sucesso, infelizmente sem sucesso suficiente para abolir a missão imperial. As instituições modernas continuam a insistir nos valores moralmente derrotados pelos movimentos sociais: continuam a explorar trabalho grátis, a usar as discriminações sexuais, a religiosidade das pessoas, as discriminações entre povos, para quebrar pessoas e povos, para abrir possibilidades ao autoritarismo carismático promotor de avaliações de mérito que servem para dividir e reinar. Tem bastado ao império negar ser sua intenção fazer isso. A credulidade hospitaleira que derrotou os povos sujeitos a genocídio colonial é a mesma que faz com que os povos cansados das revoltas acolham as mentiras compulsivas que servem o império, uma e outra vez.

 

Embora combatidos ou mesmo proibidos por lei, a exploração, o assédio, os privilégios, a dualidade de critérios, a estigmatização, são não só institucionalmente tolerados, mas utilizados e reproduzidos.

 

A hipocrisia que separa as teorias normativas, como os direitos humanos, e as práticas institucionais que as desrespeitam é assumida como natural pelas pessoas civilizadas. A característica que distingue a nossa civilização é a de a mentira imperial ser a respeitável verdade oficial, como a das armas de destruição maciça no Iraque e todas as outras, todos os dias. O facto de outros impérios usarem a mentira como propaganda pode querer dizer que esses impérios também são civilizados, mas não torna a mentira um valor moral aceitável.

 

Para quem viveu o 25 de Abril percebeu que com a implosão da propaganda fascista, virtualmente no dia seguinte, a generalidade das pessoas (excepto as que fugiram) passou a achar a censura, a polícia política, a guerra colonial, a miséria, intoleráveis. Hoje, mesmo a juventude neofascista acha a democracia um valor a reter e a tortura e a guerra um desvalor a denunciar – é o que dizem os seus representantes. Mas o poder da propaganda digital é muito mais poderoso do que a dos 48 anos de fascismo. As verdades hoje (como, por exemplo, que os neofascistas são promotores de violência social quotidiana) estão soterradas por camadas de mentiras mutuamente articuladas nos seus aspectos comerciais, económicos, políticos, mediáticos, profissionais, escolares e até científicos.

 

A Primavera Árabe, resposta à falência do sistema financeiro global feita de esperança de democracia dos povos foi mobilizada através das redes sociais, na altura imaginadas espaços de libertação. Porém, foi esmagada com sangue e guerras organizadas pela Inteligência Artificial ligada à rede de satélites de localização. A internet e a órbita terrestre foram privatizadas por monopólios que pretendem tudo e todos controlar, sem serem controladas. Os utilizadores colaboram…

 

A história do pós-guerra e da globalização é a história da exponencial incorporação do espírito imperial virtualmente por toda a humanidade entusiasmada com a perspectiva de, finalmente, realizar o sonho da pacificação geral, da aldeia global, da sociedade do conhecimento, da suficiência da economia para substituir o direito. Com tais regras de convivência, pensou-se, a repressão, a guerra e as misérias tenderiam a ser residuais. Mais uma grande mentira. Os adeptos de Trump também estavam convencidos de que a presidência dos EUA seria promotora da paz. Mas, claro, tais adeptos, como todos os membros das sociedades civilizadas, são mentirosos compulsivos que seguem mentirosos compulsivos mentindo compulsivamente uns aos outros.

 

É muito fácil, é ainda uma mentira, assistir ao que se passa e dizer: isto é tudo resultado da demência diabólica do Trump (ou do Putin, ou do Zelensky, ou do Khameney, ou do Xi, ou de um chefe qualquer). É muito fácil pensar que o império são os outros, e o mal se encarna nalgum líder quando passa de bestial a besta. Tais mentiras encobrem a nossa opção individual por apoiar, por ser cúmplice, da civilização das mentiras, dos líderes irresponsáveis, mesmo quando temos vergonha disso.

 

É certo que também nos revoltamos, aqui e acolá, com uma injustiça ou outra. A verdade é que precisamos de deixar de ser hospitaleiros para com o império que abusa de nós e que ajudamos a construir quotidianamente, como o fazem também muitas das vítimas de violência doméstica com os respectivos abusadores ou os viciados fazem com os empresários que fornecem os meios para manter os vícios. 

Fotografia de António Pedro Dores

António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e  https://libertacao.hypotheses.org/

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