
Homenagem a Edgar Morin (1921-2026) e a Espinosa
Resumo: o avanço das ciências, naturais e sociais está condicionado às circunstâncias do seu financiamento e exercício. Há quem note o contraste entre os avanços tecnológicos e (a falta de) avanços morais, em condições de modernidade. As ciências sociais são mais tardias, menos efectivas e menos influentes. Estando a mudar as circunstâncias, haverá oportunidade de fazer avançar de forma mais realista as ciências de forma mais equilibrada entre si?
Com Bruno Latour, Norbert Elias e outros, Edgar Morin é um exemplo de quem contribuiu para transformar em ciências as filosofias sociais. Grupos de admiradores alimentam memórias inspiradas nos trabalhos destes autores. Porém, reduzem as respectivas contribuições à inovação, como a epistemologia humanista de Morin, a configuração social de Elias, a teoria do actor-rede de Latour. Aquilo que melhor os caracteriza a todos é a vontade de romper com os limites das disciplinas. Na prática, só marginalmente são referidos nos cursos de ciências sociais pelo que os seus grupos de admiradores são empurrados a criar subdisciplinas, recantos onde possam resistir com a memória destes vultos da ciência.
As contribuições para o avanço das ciências são autopsiadas e classificadas para catalogação em prateleiras académicas onde a missão de melhorar para expandir a influência das ciências jaz inerte, de forma centrípeta, obrigada a recolher-se ao abrigo de subdisciplinas acossadas pelo espectro da irrelevância. A forma prática de tentar conservar as lições destes mestres é criar um espaço para sua protecção. Focados em honrar quem admiram, os diferentes grupos de cientistas alheiam-se uns dos outros e da missão que poderiam assumir em conjunto, caso acordassem em reflectir sobre a resposta à pergunta: de onde vêem tantas resistências sociais à elaboração e compreensão das epistemologias, das teorias e dos métodos mais sensatos e promissores?
Max Weber chamou racionalidade à mania classificatória e seus instrumentos. A racionalidade atacou os coleccionadores de borboletas e de outros insectos, os promotores de zoológicos, os organizadores do trabalho. É a mania estruturante da modernidade que inspira burocracias e as suas disciplinas e subdisciplinas departamentalizadas, como descrito por Jeremy Bentham sob a forma de panóptico. As organizações, pensou, eram zoológicos humanos: laboratórios de classificação minuciosa. Os tratadores desse zoológico humano são os cientistas da organização do trabalho, como Taylor, Ford, Toyota, os informáticos e a sua Inteligência Artificial (Pasquinelli, 2023).
As ciências também são organizadas pela governança dos números, para usar a terminologia de Alain Supiot. Mas os cientistas que se destacam da mole de ciência normal praticam ciências centrífugas. Insistem em não respeitar as fronteiras cognitivas impostas pelas políticas científicas organizadas para explorar a ciência e os cientistas. Infelizmente, compreensivelmente, porque são profissionais especializados, mesmo os cientistas centrífugos não identificam as fontes políticas que obrigam à dispersão disciplinar das ciências. Não explicam a hegemonia das ciências centrípetas, as que são profissionalizantes, nas escolas e nas profissões – simplesmente alheiam-se desse assunto que parece não lhes dizer respeito.
Bernard Lahire, por exemplo, espanta-se consigo próprio por ter vivido a maior parte da sua vida profissional como sociólogo e académico, sem se dar conta de estar a partir do princípio, como faz toda a ciência social, de que as sociedades humanas são estranhas à evolução da vida na Terra. O autor propõe uma resposta fundada em trabalhos científicos que reconhecem esse problema (Lahire, 2023), mas não questiona de onde vêem as convicções infundadas de independência cognitiva entre a biologia e as ciências sociais.
As ciências foram fundadas para servir as missões das navegações transatlânticas e as ciências sociais para integrar os trabalhadores de boa vontade nessas missões, a partir do século XIX. Como explicaram Marx e Engels (1997), caberia aos trabalhadores levar o capitalismo a níveis impossíveis de alcançar sem a sua colaboração empenhada, revolucionária. E foi isso que aconteceu: com a adopção do estado social foi possível uma intensificação da exploração da Terra e da humanidade. Intensificação imoral e suicidária que levou as gerações mais escolarizadas de sempre conduzidas pelas elites mais pequenas de sempre a pôr fim ao Holoceno, a jovem idade geológica mais favorável à vida humana que fenece precocemente.
O avanço das ciências é favorecido em tempo de guerra. Os interesses imperiais financiam-no e exigem dele resultados. Há cientistas assassinados por inimigos dos interesses com que colaboram e por amigos que não querem ver segredos científicos revelados. Não é preciso uma análise erudita das fontes de constrangimento das práticas científicas para as identificar. Os cientistas centrífugos vivem em instituições legitimadas por ciências centrípetas, que são as que pagam as despesas. Isso explica porque é tão difícil fazer ciência centrífuga e porque as descobertas de autor são parciais e têm tanta dificuldade em convergir com as de outros autores centrífugos. Manter viva a contribuição parcelar de cada autor é, em si, um esforço difícil de manter para os seus seguidores. Ao tentarem proteger-se do ambiente científico hostil, recorrem, naturalmente, à criação de círculos de iniciados promotores da sua nova subdisciplina, em concorrência com as outras.
António Damásio é um desses autores científicos alvo de admiração. O processo de investigação levou-o a compreender que a consciência não é uma secreção do cérebro, mas um regime de coordenação vital que regula todo o corpo e as relações sociais que evoluem ao longo da vida e termina com a morte. Fréderic Lordon e Sandra Lucbert (2025) seguem criticamente as tradições psicanalíticas que se mantêm exteriores às especializações das ciências sociais por insistirem no estudo conjugado das construções psíquicas, mentais e corporais. Os três autores, com Lahire, referem-se à controvérsia ideológica que polariza Descartes e Espinosa, duas referências centrais da filosofia liberal do Renascimento, ambiente em que nasceu a ciência. A saber, há ou não distinção ontológica entre a mente e a natureza? Os quatro reconhecem viver no seio de uma cultura científica cartesiana, cuja separação ontológica irrealista entre os sujeitos e as suas teorias, entre a inteligência da humanidade e a natureza alegadamente agressiva, violenta, criminosa, instintiva, selvagem, justifica anticientificamente tal separação. Nenhum dos quatro refere a artificial divisão ideológica entre esquerdas e direitas no seio das ciências sociais, cujo fogo cruzado encobre os problemas epistemológicos, teóricos e metodológicos mais profundos: há ou não um Deus autónomo e oponível à Natureza, à semelhança do qual as melhores mentes elaboraram a nossa ciência?
Em sociedades ideologicamente laicas, a resposta lógica deveria ser a de Espinosa: Deus e a natureza são nomes que designam a mesma coisa: aquilo de que depende a nossa existência, a vida, a Terra, o cosmos: o conatus. Mas não é essa a resposta que estrutura as práticas científicas modernas. Por isso, os cientistas centrífugos descobrem limites irracionais dos conhecimentos hegemónicos e procuram remediá-los, pelo que podem ser reconhecidos, mas do que é difícil tirar avanços efectivos para as ciências.
Norbert Elias (1990) definiu espírito civilizado ocidental como aquele que promove repugnância face à violência. Na verdade, ninguém lhe ligou nenhuma nas décadas em que a ciência continuava associada à ameaça existencial que foi a produção da bomba atómica, de que Einstein se penitenciou. Até que pelos anos 70, trinta anos depois da publicação da tese doutoral de Elias, com as políticas de desanuviamento e de contenção das armas nucleares, a União Europeia, para atrair mais adesões ao seu clube, entendeu ser oportuno anunciar estarmos a viver um período de paz inaudito (que está em risco de terminar por estes dias). Para surpresa de Elias, a sua tese de doutoramento foi publicada em muitas línguas e tornou-se um clássico instantaneo. (Hoje é acusado de ser demasiado optimista). As disputas ideológicas do momento manipulam os resultados científicos, desbaratando o seu valor, reduzindo-os utilitariamente e deitando-os fora assim deixam de servir.
No caso de Norbert Elias, além da teoria das configurações, ele forneceu teorias sobre as relações entre o estado, a racionalidade e a promoção das profissões científicas centrípetas – distantes dos interesses das populações alvo das manipulações dos estados; forneceu um poderoso exemplo da configuração de estados de espírito e da sua formação histórico-institucional. Tudo expressões da filosofia de Espinosa, embora Elias não se refira à controvérsia actual que polariza esse filósofo e Descartes.
Um clube das ciências centrífugas não seria uma cobertura para mais uma subdisciplina. Seria um apelo sob a forma de processo de institucionalização para que as subdisciplinas não se alheiem umas das outras. Que se juntem, especializando-se também em denunciar e ultrapassar as circunstâncias que distorcem e limitam os efeitos cognitivos das melhores práticas científicas.
Referências:
Elias, N. (1990). O Processo Civilizacional (Vol I e II) ([1939]). D. Quixote.
Lahire, B. (2023). Les structures fondamentales des sociétés humaines. La Découverte.
Lordon, F., & Lucbert, S. (2025). Pulsion. La Découverte.
Marx, K. (1997). Manifesto do Partido Comunista ([1848]). Edições Avante.
Pasquinelli, M. (2023). The Eye of the Master – A Social History of Artificial Intelligence. Verso.
António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e https://libertacao.hypotheses.org/










