Sociedade

Policrise: a saída não está na política, mas na cultura: parte I | Antonio Sales Rios Neto

Foto de Pedro Lima na Unsplash

“Enquanto todas as demais ciências progrediram,

a de governar marcou passo; 

está sendo praticada, hoje, um pouco 

melhor do que há três ou quatro milênios.”

John Adams, em 1813

“Caso John Adams tenha razão, 

não podemos esperar muita melhoria.

Poderemos, tão somente, seguir entontecidos, 

como temos feito nesses mesmos 

três ou quatro mil anos, 

com alternâncias de glória e declínio, 

grandes esforços e sombras.”

Barbara Tuchman, em 1984

 

Não obstante o recorrente ceticismo em relação à irrefletida classe de agentes políticos, sempre houve um consenso entre governantes e governados (e até mesmo entre opressores e oprimidos, tiranos e tiranizados) em torno da ideia de que não há saída para os conflitos humanos fora da política, a reverenciada arte de gerenciar interesses dissonantes na busca de um modus vivendi na pólis, que germinou nas ágoras atenienses 2.500 anos atrás. Se assim o é, cabe então investigar em profundidade por que essa mesma política nunca conseguiu cumprir, a despeito de uma infinidade de assembleias, leis e regras de convivência já postas em prática, seu propósito de promover relações minimamente harmoniosas entre povos, sociedades e nações, bem como de solucionar a histórica relação predatória dos humanos com o meio ambiente. Relação esta que, no atual e agônico contexto geopolítico, alcançou o inaudito patamar de colapso civilizatório, o que coloca a humanidade diante de uma policrise de dimensões existenciais.

 

O fato é que, diferentemente dos avanços observados na ciência e na tecnologia, o ethos humano só tem regredido ao longo da história, contrariando tudo o que se esperava da política, a principal expressão desse ethos. Pelo menos três momentos de depressões civilizatórias profundamente agudas são bem representativos dessa vacuidade do ato de fazer política:

  1. durante o desastroso século XIV, a Peste Negra, herdada da ignorância que reinava na Idade Média, e as invasões mongóis dizimaram metade da população da Europa e 2/3 da população da China, respectivamente;

 

  1. no trágico século XX, com duas guerras mundiais e os muitos totalitarismos patrocinados pelo Estado, eliminou-se, deliberadamente e com as melhores técnicas, instrumentos e métodos científicos até então desenvolvidos, entre duas e três centenas de milhões de pessoas;

 

  1. e agora, neste agonizante início de século XXI, que já nasce marcado pela policrise resultante da imbricação e sinergia entre o acelerado processo de colapso socioambiental em curso, a supressão dos regimes democráticos, a crescente insegurança energética e alimentar, a perspectiva sombria de novas pandemias, a amplificação das instabilidades do sistema-mundo capitalista, a potencial ameaça de uma conflagração nuclear global e, mais recentemente, os riscos envolvidos no avanço da inteligência artificial.

 

A política não só tem sido inócua, ela reflete a perene insensatez dos que governam e, assim, parece preparar as circunstâncias para a próxima tragédia, que, como a história demonstra, normalmente é mais devastadora que a precedente. Após 2.500 anos dessa busca do ideal de progresso emancipatório levado a cabo por toda a humanidade, chegamos agora no século XXI numa confluência de crises terminais que está pondo em questão a sobrevivência da nossa espécie. Como bem percebeu o escritor inglês John Gray, “o progresso na ciência e na tecnologia é um fato, ao passo que o progresso na ética e na política é uma ficção. (…) Os velhos demônios regressam, geralmente com novos nomes. O que vemos como características inalteráveis da vida civilizada se desvanece em um piscar de olhos.”

 

Para refletirmos em profundidade sobre essa contradição inerente à política, vou resgatar aqui o pensamento do pesquisador da Unicamp, Luiz Marques, que vem fazendo um meticuloso trabalho de investigação científica acerca da ameaça que o processo de colapso climático em curso representa para a humanidade. O resultado desse trabalho está bem articulado em três obras: Capitalismo e colapso ambiental (Editora Unicamp, 2015); O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência (Elefante, 2023); e Ecocídio, por uma (agri)cultura da vida (Expressão Popular, 2025). Essa trilogia de Marques trata-se, na verdade, de um dos dossiês mais consistentes e abrangentes já produzidos, que atesta a inviabilidade do sistema-mundo capitalista face ao acelerado processo de falência ambiental e civilizacional que ele tem desencadeado.

 

Transcrevo, a seguir, o trecho de um artigo-síntese desse elucidativo trabalho de Marques. Nele estão listadas as inúmeras crises interdependentes que, agindo em sinergia e reforçando-se mutuamente, compõem a policrise global que se abate sobre a humanidade. Para sairmos dessa policrise, Marques conclama as sociedades a uma insurreição, apostando na radicalização da política como nossa alternativa última para evitar o abismo civilizatório:

“Se não houver uma revolta política das sociedades à altura da extrema gravidade dessa poliédrica crise planetária, a condenação ao pior num futuro cada vez mais próximo é inapelável.

 

Essa revolta política contra o caos tem por condição primeira de possibilidade a revalorização da política e a recusa de sua substituição pela guerra. Clausewitz está errado quando afirma que a guerra é a continuação da política por outros meios. Essa tese é repetida ad nauseam pelos que lucram com a guerra ou, mais amplamente, pelos que a consideram inevitável, posto que resultante da agressividade de nossa espécie. Ninguém ignora que nossa espécie é extremamente agressiva e que a guerra é parte constitutiva da história humana. Mas justamente por isso a política é a mais importante invenção de nossa espécie, pois sua finalidade é dupla. Antes de mais nada, a política permite conter e controlar essa agressividade, sublimá-la e canalizá-la para o jogo de enfrentamentos extremos, mas civis e pacíficos, entre grupos sociais, entre alianças partidárias, parlamentares e eleitorais. É justa a inversão da fórmula de Clausewitz proposta por Michel Foucault, quando afirma em 1976 que “a política é a guerra continuada por outros meios”.

 

Mas se a política é uma forma de guerra pela qual se pode evitar a guerra, ela é também a invenção pela qual é possível fortalecer a outra componente constitutiva de nossa espécie e de nossa história: a cooperação. A política permite imaginar outras formas de civilização nas quais a linguagem, a lógica, o conhecimento da experiência histórica, os padrões de causalidade, a argumentação, o direito e as aspirações à justiça têm melhores condições de prevalecer sobre nossa agressividade. Política e linguagem são duas faces da mesma moeda. Ambas constituem em geral o domínio do simbólico e do imaginário e é delas que se faz a substância do melhor de qualquer civilização. A guerra, ao contrário, é a negação do poder da linguagem e, portanto, a desistência do projeto humano. Além de negar esse projeto, a guerra funciona, hoje, como: (1) uma poderosa alça de retroalimentação de todas as crises acima enunciadas [ver artigo] e (2) um obstáculo fundamental a qualquer esforço de concertação entres as sociedades para atenuar os impactos atuais e vindouros das crises planetárias, de modo a torná-los menos adversos às sociedades e à vida pluricelular em geral. Hoje, mais que nunca, a guerra deve ser evitada, se temos, de fato, alguma intenção de sobreviver.”

 

Ao que a história tem mostrado, a saída dessa policrise planetária a partir da política, como propõe Marques, é improvável, mas os principais constituintes da cultura (no sentido antropológico que este termo comporta) que forjou tal policrise parecem estar todos bem articulados nessa síntese de Marques. Sempre bem amparado nas melhores evidências das ciências que lidam com as mudanças climáticas, Marques é muito preciso no diagnóstico da condição terminal da nossa e das demais espécies por nós ameaçadas que habitam a Terra, cuja interdependência biológica encontra-se num acelerado processo de degradação. Já quanto à salvaguarda que poderá nos livrar dessa situação de policrise descontrolada, ou seja, se ela virá da radicalização da política como “uma forma de guerra pela qual se pode evitar a guerra”, se não indica uma saída factível, pelo menos parece apontar os principais elementos implicados nessa crise existencial na qual estamos imersos, a saber: a linguagem, a cooperação e a agressividade.

 

Entender como esses três elementos forjaram o comportamento do Homo sapiens moderno pode estar a chave para vislumbrarmos, ainda que remotamente, a possibilidade de saída dessa policrise terminal na qual estamos existencialmente imbricados neste século XXI. Se é que essa saída ainda é possível, ela seguramente não está na política, mas na cultura (entendida como atributo humano que delimita seu modo de estar e se relacionar com o mundo). A intenção aqui, portanto, é tentar mostrar que essa perspectiva, embora muito incongruente à primeira vista, pode ser a mais razoável para compreendermos que talvez estejamos presos ao autoengano de que a política um dia possa livrar a humanidade de uma policrise que ela mesma inaugurou e sustenta cotidiana e sistematicamente.

 

A primazia da Cultura sobre a Política – uma ontologia da cognição humana

 

A principal característica da cultura, compreendendo-a como conceito antropológico definidor do comportamento e modo de vida dos hominídeos, é que ela é um sistema conservador fechado. Em decorrência desse atributo de autorreferenciamento da cultura, nós humanos tendemos a antropomorfizar tudo, até mesmo a compreensão sobre como se deu a longa evolução do Homo sapiens e de seus ancestrais. Recentemente, o cientista político José Luís Fiori, que considero uma das melhores referências aqui no Brasil para o entendimento da conflagrada geopolítica atual, ao explicar o porquê de existir “a guerra, como forma regular, organizada e estratégica de exercício da violência entre os povos”, recorreu à seguinte justificação de cunho científico: 

“Já faz tempo que a pesquisa antropológica e arqueológica acumula evidências de que a ‘violência’ nasceu junto com os primeiros primatas, e foi companheira inseparável do Homo sapiens, através de todo o seu processo evolucionário.” (grifo meu) (Boletim de Conjuntura nº 17, maio de 2026, do Observatório Internacional do Século XXI, NUBEA-UFRJ)

 

De fato, não podemos negar que há uma inarredável incongruência inerente à convivência humana, que fez da guerra não só o modus operandi da política, mas a principal característica definidora da suposta natureza humana. No entanto, a violência, e consequentemente a política (as relações de força e poder) forjada a partir dela, estão longe de constituir o fundamento primário indutor do comportamento humano. A política constitui antes um desdobramento da cultura, embora haja sempre uma relação de retroalimentação entre ambas. Política e cultura estão tão imbricadas que o que se convencionou chamar de guerra cultural – a perene e irremediável disputa ideológica e social pelo controle de narrativas, visões de mundo e valores morais – tornou-se uma constante na conflituosa convivência humana.

 

A noção de cultura aqui utilizada diz respeito a capacidades desenvolvidas e internalizadas pelos seres humanos no sentido antropológico, o qual inclui valores, crenças, premissas, teorias, modelos, símbolos e rituais, todos elaborados a partir de cosmovisões e concepções da realidade que nos cerca. Logo, a cultura pertence ao âmbito do imaginário humano, que comumente representamos pela noção de mitos, ficções ou ilusões. Portanto, a cultura, enquanto modo de viver, é o esteio que forja e sustenta a política, influenciando, assim, as várias dimensões da experiência humana: religião, economia, filosofia, ciência, ética, educação, moral, costumes etc. Em resumo, a cultura define e delimita o viver humano, induzindo e sendo induzida pelo comportamento e pela interação dos seres humanos com as suas diversas realidades.

 

Assim, podemos afirmar que a cultura e a política operam no âmbito da cognição humana. Enquanto a cultura fornece o repertório de significados, valores e símbolos de uma sociedade, a política é o processo pelo qual esses significados são mobilizados para tentar organizar e harmonizar a convivência, gerir as relações de poder e distribuir equanimemente os recursos materiais necessários à vida na pólis. A cultura funciona, desse modo, como um sistema autopoiético: ela produz a si mesma continuamente, em processos recursivos, por isso é inerentemente fechada, portanto, conservadora. A política é o mecanismo de regulação desse sistema, garantindo que a identidade cultural se conserve e se mantenha. Essa imbricação tem a ver com aquilo que o sociólogo alemão Niklas Luhmann chamou de sistemas autorreferenciados. Todo sistema social é “fechado” na sua própria realidade e, assim, se mantém preso a ela, por mais incongruente que esta realidade percebida esteja em relação ao mundo externo.

 

Uma das decorrências do caráter conservador de uma cultura é que estamos sempre projetando fenômenos circunstanciais – portanto circunscritos a um contexto ambiental e histórico – como se fossem algo inato aos hominídeos, cujas culturas são forjadas em processos que duraram milhões de anos. Logo, se considerarmos a longa história da evolução do Homo sapiens e de seus ancestrais hominídeos, esse acoplamento entre cultura e política é um fenômeno cognitivo não só anômalo, mas também biologicamente insustentável e, em razão disso, parece constituir o âmago da impossibilidade civilizacional que se apresenta neste século XXI.

 

Embora haja um argumento aristotélico já sacramentado de que uma suposta racionalidade política seja algo inerente à natureza humana, tal axioma só tem apenas 2.500 anos de prevalência, correspondendo ao longo período de predomínio da chamada cultura ocidental. Essa suposta racionalidade humana que fundamenta e sustenta a cultura ocidental mostrou-se irracional agora neste século XXI, em face da sua convergência com a policrise em andamento, haja vista que não há até agora nenhuma ação política humana, racional e consistente, de entendimento e mitigação de seus efeitos catastróficos e terminais para a humanidade. Pelo contrário, essa policrise, que é subproduto da cultura ocidental, aproxima-se de seu estágio mais agudo, daí a constatação da atipicidade dessa cultura estabelecida. 

 

Para entendermos como este fenômeno cognitivo atípico chamado cultura ocidental pode ter emergido, faremos antes uma digressão acerca de um trabalho seminal do neurobiólogo chileno Humberto Maturana (1928-2021) em parceria com o biólogo e filósofo Francisco Varela (1946-2001), chamado biologia do conhecer (ver livros Autopoiese e cognição: a realização do vivo, 1972; A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano, 1984; e Cognição, ciência e vida cotidiana, 2001).

 

Para explicar a evolução dos seres vivos, a biologia utiliza dois campos interdependentes de estudo: a ontogenia, que estuda a história do ser vivo, incluindo mudanças morfológicas, fisiológicas e comportamentais; e a filogenia, que estuda a história evolutiva considerando as relações de parentesco entre diferentes grupos de seres vivos. Maturana e Varela dão um salto nesse entendimento ao conceber a biologia do conhecer, por meio da qual eles explicam que a humanidade surgiu não pela sobrevivência do mais forte (ideia oriunda do consenso científico, contido na manifestação de Fiori, de que a natureza dos primatas hominídeos é essencialmente violenta), mas por uma deriva evolutiva forjada na cooperação e na linguagem. 

 

Segundo Maturana e Varela, a ontogenia é a história da mudança estrutural que um ser vivo está sujeito desde o momento da sua concepção até a sua morte. A mudança em qualquer ser vivo se dá por meio de um acoplamento estrutural (conceito também elaborado por Maturana e Varela), em que o ser vivo, para manter sua organização, precisa estar em um permanente estado de congruência com o ambiente em seu entorno. O mundo vivo constitui-se, assim, de uma grande comunidade com variadas formas de vida, todas em um contínuo estado de interação, em diversas ordens de organização, cujos comportamentos afetam-se mutuamente (ser vivo e meio) e, assim, vão estabelecendo consensos contextuais que garantem a coexistência e a coevolução de todos os integrantes dessa imensa rede que é a comunidade de biodiversidade na qual estamos inseridos. Como diz Maturana, “o que define uma espécie é o seu modo de vida, uma configuração de relações variáveis entre organismo e meio”. 

 

Por isso, Maturana preferia usar termo deriva ontogenética (ou deriva estrutural) em vez de adaptação, pois sugere que o indivíduo apenas deriva e sobrevive nas circunstâncias em que sua estrutura permite. A linhagem só continua existindo se for capaz de conservar sua autopoiese (capacidade de produzir a si mesma) e seu acoplamento com o meio. A filogenia passa então a ser a história dessa deriva estrutural de uma infinidade de linhagens de organismos interagindo-se mutuamente ao longo de gerações. Ou seja, para Maturana, a evolução não decorre de uma suposta “sobrevivência do mais apto” (expressão cunhada pelo filósofo, biólogo e antropólogo inglês, Herbert Spencer, considerado o profeta do capitalismo laissez-faire), mas sim da conservação da organização e do acoplamento ao longo do tempo. Portanto, não há um progresso (uma teleologia) em que o ambiente atua como um filtro (um agente seletivo) que busca aperfeiçoar cada espécie de ser vivo. O meio ambiente apenas estabelece limites de viabilidade. Se o organismo sobrevive e se reproduz, ele continua a sua deriva estrutural.

 

A transição dos primatas bípedes para humanos ocorreu através de um entrelaçamento profundo entre as mudanças biológicas das interações entre uma infinidade de espécies existentes (filogenia) e as experiências de aprendizagem em cada espécie (ontogenia). A filogenia deu-se, desse modo, na conservação de uma dinâmica de sociabilidade e proximidade. A característica central da filogenia nos hominídeos foi a evolução de uma linhagem de primatas bípedes em que o compartilhar de alimentos e a vida em intimidade foram predominantes, ou seja, desenvolveram-se numa relação de autorrespeito e aceitação mútua. O ser humano tornou-se o que é porque, ao longo das gerações na sua deriva evolutiva, passou a viver imerso em conversações e afetos, ou seja, no entrelaçamento do linguagear com o emocionar. Dizendo de outro modo, o tecido da nossa existência é sempre emocional e relacional.

 

Portanto, o marco definidor da linhagem humana foi o desenvolvimento da linguagem, que surgiu não apenas para comunicar, mas como uma coordenação de ações e comportamentos compartilhados. Logo, o traço principal que guiou a filogenia dos hominídeos foi a convivência na cooperação, intimidade e aceitação mútua. Inclusive, Maturana chamou esse fenômeno relacional de “biologia do amor”, que o fez concluir que “a origem antropológica do Homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação”; e ainda acrescentava que “o amor é a emoção central na história evolutiva humana desde o início”. A palavra “amor” utilizada por Maturana está associada à noção de cuidado mútuo e não a qualquer conotação cristã ou romantizada que ela enseja no senso comum, ou seja, diz respeito à “emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência”.

 

É exatamente nessa perspectiva que a linguagem representa um fator determinante na formação antropológica da cultura. A origem do humano está no surgimento da linguagem e no seu entrelaçamento com o emocionar. O âmago do modo de viver humano está nesse emaranhamento, ao contrário do que pensa o establishment científico que dá centralidade à razão e à objetividade nas ações humanas, entendimento que constituiu o fundamento da revolução científica e do iluminismo, ocorridos nos séculos XVI ao XVIII, na Europa, e que, por sua vez, deu esteio ao racionalismo econômico que se consolidou nos séculos XIX e XX. Como Maturana mesmo dizia, “todo sistema racional tem um fundamento emocional”. No entanto, “pertencemos a uma cultura que dá ao racional uma validade transcendente, e ao que provém de nossas emoções, um caráter arbitrário.”

 

Portanto, a linguagem não é um mero sistema de códigos inventado para transmitir informações sobre um mundo que existe independentemente de nós. Pelo contrário, a linguagem é um fenômeno biológico de coordenação contínua de ações que não apenas descreve a realidade; ela a faz emergir. A linguagem molda a percepção do que é real para um grupo social. Como a linguagem está entrelaçada ao emocionar, as coordenações de ações dos humanos estão biologicamente propensas a convergir para a cooperação.

 

Porém, em circunstâncias muito atípicas, o emocionar humano pode convergir para a agressividade, o que pode explicar a emergência da cultura ocidental na qual estamos imersos. Há vastas evidências arqueológicas de que uma profunda ruptura cultural interrompeu o curso dessa filogenia humana baseada na cooperação, por volta de sete ou seis mil anos atrás, possivelmente causada pelas invasões kurgan, referentes às sucessivas ondas migratórias indo-europeias dos povos pastores guerreiros vindos do Leste, na qual emergiu gradualmente uma nova identidade cultural, a cultura patriarcal europeia, estabelecendo-se uma sociabilidade de dominação em contraposição a uma sociabilidade de parceria que sempre caracterizou o ethos humano. Com essa ruptura, o viver humano passou a se sustentar na negação do outro e no domínio da natureza, operando num linguajear da agressividade.

 

A partir de então, pôs-se em marcha o conflito interno, ou seja, o permanente entrechoque do novo viver patriarcal, que opera sob a lógica da apropriação, com a filogênese cooperativa e não-hierárquica do Homo sapiens e de seus parentes animais. A noção do que seja patriarcal utilizada aqui não é, portanto, a do consenso acadêmico que se restringe à superioridade de gênero, mas a que diz respeito ao atributo de apropriação característico de um modo de viver (ver explicação de Maturana). Abordei mais aprofundadamente sobre essa ruptura cultural nesses dois textos: Como nasceu e germinou a civilização patriarcal? e Uma autópsia do Ocidente.

 

Portanto, a linguagem emaranhada com a cooperação constitui dinâmica que permitiu a evolução dos primatas hominídeos por milhões de anos, enquanto a linguagem imbricada com a agressividade constitui um fenômeno cognitivo antropológico anômalo na história evolutiva da nossa espécie, catalisador tanto da pulsão de morte quanto do permanente mal-estar civilizatório que essa pulsão acarreta. Desencadeou-se, desse modo, um fenômeno desestabilizador da psiquê individual e coletiva, ao qual se dedicou o criador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), para quem as noções de cultura e civilização representavam a mesma coisa. “Recuso-me a separar cultura e civilização”, dizia Freud. Daí a relevância da cultura como principal fator constitutivo do viver humano e da profunda imbricação existente entre esses três elementos fundantes da cultura (a linguagem, a agressividade e a cooperação), muito bem concatenados na síntese acima de Marques.

 

O fato é que estamos aprisionados cognitivamente a este desvio antropológico da cultura patriarcal, e o conflito interno daí gerado está intimamente associado às três ordens políticas estabelecidas pela cultura ocidental: a militar, a religiosa e a comercial. Também abordei recentemente num texto intitulado Mercado, a última parada do Ocidente patriarcal?, no qual tratei da gênese e da evolução dessas três ordens políticas. A partir delas, generais, sacerdotes e mercadores se reversaram no poder e sempre dominaram, sob um falso pressuposto filogênico da “guerra de todos contra todos”, o destino dos povos e civilizações, legitimando a percepção hobbesiana de que estaríamos, desde sempre, condenados a uma de vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” (Thomas Hobbes, em Leviatã, de 1651).

 

A biologia do conhecer concebida por Maturana e Varela nos mostra que a cultura é uma variante antropológica inerente à ontologia do animal humano. Amparados não só numa reformulação das bases biológicas que explicam a vida, mas também em evidências arquelógicas, paleontológicas e etnográficas, eles descobriram que o Homo sapiens e seus ancestrais são um animal emocional e relacional, e não racional superior aos demais. Somos um animal cooperativo com a mesma relevância evolutiva dos demais, cujo comportamento foi forjado numa perene interação de cuidados e afetos mútuos.

 

Portanto, o atributo político dado ao Homo sapiens é apenas uma constante sociológica circunstancial inerente à cultura patriarcal instalada há seis mil anos, da qual derivou a cultura ocidental. Por isso, cabe se debruçar sobre a armadilha cognitiva que nos faz acreditar na ideia de que só há salvação dentro da política, o que equivale a afirmar que só dispomos da cognição ocidental–patriarcal para a compreensão e atuação no mundo em nossa volta.

 

(termina no próximo número)

Fotografia de Antonio Sales Rios Neto

Antonio Sales Rios Neto: servidor público federal. Estudioso da cultura patriarcal (entendida como principal elemento constitutivo do processo civilizatório e propulsor do antropoceno) e das novas abordagens da Complexidade (um dos meios de superação do patriarcado). Coordenador, representando o Brasil, do projeto “La Emergencia de los Enfoques de la Complejidad en América Latina”, iniciativa da Comunidad de Pensamento Complejo (CPC), sediada na Argentina.

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