
Vivemos em tempos em que nos é difícil distinguir a realidade da ilusão, ou do irreal. Comumente vemos, nas redes sociais, vídeos que, quando assistimos, assemelham-se à realidade; devido ao seu nível de perfeição, aparentam ser reais. Só com muita atenção é que descobrimos que esses vídeos são produtos de Inteligências Artificiais (IA). Voltamos à velha questão trivial: o que é real? o que é realidade?
Num olhar comum, a realidade é aquilo que os meus olhos conseguem ver, o que as minhas mãos conseguem tocar e sentir. Tudo o que vejo, toco e sinto é, por isso, real?
Para quem assiste à sétima arte, precisamente o cinema — especialmente a ficção e a ficção científica —, pelo facto de ser arte, há uma admissão intrínseca de que aquela realidade é criada, de que é uma ilusão: uma realidade fundida com a realidade. A ficção é uma projecção daquilo que futuramente pode acontecer. Platão já abominava a arte, afirmando que ela distorce a realidade, na medida em que é a sua imitação.
No seriado de ficção Westworld, vemos um mundo — um parque de diversões — criado com o intuito de entreter os ricos. Nesse mundo é possível ver robôs humanoides, com uma aparência verosímil à do ser humano: eles entretêm-se, cantam, choram, fazem sexo — tudo o que o ser humano faz. Na mesma senda, o famoso filme Matrix, com a sua trilogia, mostra o programador Neo, que é levado a uma viagem a um submundo das inteligências artificiais, onde é alertado sobre a manipulação da realidade no mundo concreto.
O que é realidade? É o que tocamos? O que vemos? A realidade está reduzida aos cinco sentidos que temos, ou a realidade é aquilo que interpretamos? A realidade pode estar circunscrita à minha rotina, ao meio em que estou inserido. Platão, no seu Mito da Caverna, alude a essa questão quando fala de um grupo de indivíduos acorrentados, com a cabeça virada para baixo; por um triz, um deles solta-se, corre e vê o sol. Sai de uma realidade à qual, desde há muito, estava sujeito.
Fernando Pessoa, num dos seus poemas, afirma: a realidade não depende de mim. Para ele, a realidade é o que está fora, o que não depende de mim para existir; aquilo que, independentemente da minha existência, sempre existirá. Essa é a realidade para Pessoa.
A ficção projecta filmes que fazem simbiose com a vida quotidiana e, por sabermos de antemão que são, na verdade, uma demonstração da realidade, temos uma espécie de liberdade para assimilar a informação transmitida. Sabemos que a arte é usada para comunicar uma certa realidade humana.
No entanto, com a abundância das inteligências artificiais, vemos vídeos nas redes sociais que nos confundem a realidade. Já não sabemos o que é real e o que é fruto da inteligência artificial. A título de exemplo, há dias vi um vídeo em que um cão salvava uma criança; no momento, fiquei comovido, mas depois descobri que era IA. O sentimento já não foi o mesmo, embora a sétima arte também faça algo semelhante.
Na arte em geral, há uma informação que o artista procura comunicar ao outro. Sendo assim, o meu desgosto estaria no facto de o vídeo ser falso ou no sentimento que o vídeo dissimulou, sentimento esse que depois descobri ser falso? Se partirmos da ideia de que é a mente que cria a realidade, então estamos susceptíveis a ser manipulados pelo que vemos na internet. Voltamos à mesma questão colocada pelo personagem Bernard, da série Westworld: qual é a natureza da nossa realidade?
Edgar Morin afirma que, na arte — precisamente no cinema —, há uma espécie de dialéctica, em que o cinema acaba por influenciar o quotidiano, e o quotidiano acaba por influenciar o cinema. A diferença que podemos retirar dessa dialéctica, em termos quantitativos, é que o artista mergulha no quotidiano, observa e retira uma fracção para criar a sua arte; e o seu produto acaba por atingir mais pessoas.
Há dias vi um vídeo que circulava na internet, no qual produtores de conteúdos se faziam passar por famosos, através de vídeos fabricados por IA. Eles alertavam para a facilidade com que criminosos poderiam enganar as pessoas, fazendo-se passar por um familiar, um amigo ou mesmo um famoso, como aconteceu com uma senhora que foi burlada por alguém que se fazia passar por Brad Pitt.
O paradoxo das IAs é que tornam a vida mais simples quando usadas como ferramentas técnicas: podem gerar empregos, precisamente na criação de conteúdos, correcção de textos, entre outros. Não obstante, há o risco de se perderem profissões, como acontece na série Black Mirror, num episódio em que alguns actores são clonados e os seus clones passam a encenar no seu lugar.
O problema não está nas IAs, mas no nosso uso. É preciso reeducar o homem para saber utilizá-las; mas como saber usar, se quem precisa de ser educado é o próprio homem que as cria? Outro paradoxo é que os donos das grandes techs criam-nas e libertam-nas para as massas, sob a forma de adições nas suas aplicações. As massas usam-nas para criar conteúdos e, na corrida por likes e dinheiro, toda a ética se torna desnecessária; resta apenas a moral de obter likes para gerar rendimento.
O trágico das inteligências artificiais não é substituir o homem, mas substituir tarefas que tendem a torná-lo mais evoluído, se partirmos da ideia de que a evolução do homem resulta do esforço em exercer actividades mentais, assim como físicas.
Marlon Langa
Marlon Langa é um pensador inquieto, criador de ideias e construtor de projectos que cruzam fronteiras entre o conhecimento, a cultura e a prática profissional. Natural de Moçambique, formou-se em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane, cultivando desde cedo o gosto pela reflexão crítica, pela busca de sentido e pelo diálogo profundo sobre questões humanas, sociais e políticas. Encontra nas palavras um refúgio e um espelho: escrever é para ele tanto uma fuga ao peso da existência quanto uma forma de mergulhar na sua maravilha.
A sua sensibilidade foi moldada pela convivência íntima com poetas como Fernando Pessoa, Rui de Noronha e Camões; pela narrativa de mestres como Saramago, Fernando Sabino, Jorge Amado, José Luís Peixoto e Vergílio Ferreira; e pelo pensamento profundo de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Luís Pondé, Severino Ngoenha e Edgar Morin. Sob a máscara de pseudónimos como Íngrid Phra, Jordão António Lopes e Gistofen Mayer, explorou múltiplas vozes e olhares, libertando textos que desafiam fronteiras de género e estilo.
Inquieto, Langa transita entre o estudo e a criação, entre a reflexão filosófica e a observação atenta do mundo, mantendo sempre a convicção de que a palavra — lida, escrita ou dita — pode ser um ato de resistência, revelação e transformação.










