
Conteúdo
Abertura
Parte I – Nunca Foi Apenas Sobre Dançar
Parte II – Porque na China? O Espaço Público e a Procura de um Terceiro Lugar
Parte III – Quando o Espaço se Torna Comunidade
Parte IV – Para Além do Ruído: Que Cidade Queremos para Envelhecer?
Parte V –A Dança de Praça e a Reinvenção da Pertença numa Sociedade Envelhecida
Conclusão
Nota
A dança de praça chinesa (guǎngchǎngwǔ, 广场舞) é uma prática cultural popular de base comunitária, na qual sobretudo mulheres reformadas na casa dos cinquenta e sessenta anos — juntamente com alguns participantes mais idosos — se reúnem, ao final da tarde, em praças públicas para dançar, conviver e fortalecer um sentimento de pertença coletiva.
Abertura
À medida que o dia chega ao fim, as praças públicas das cidades chinesas começam lentamente a transformar-se. Depois do jantar, sobretudo ao início da noite, os moradores saem dos edifícios residenciais trazendo leques, garrafas de água e pequenas colunas portáteis. As crianças correm de um lado para o outro, alguns homens mais velhos concentram-se em redor dos tabuleiros de xadrez, enquanto vendedores ambulantes preparam mais uma noite de trabalho. Pouco depois, quase sem anúncio, a música começa a ecoar pelo espaço.
Grupos compostos maioritariamente por mulheres reformadas caminham em direção ao mesmo local com uma naturalidade que revela uma rotina já consolidada. Algumas cumprimentam-se como velhas amigas, embora se tenham visto apenas na véspera. Outras ocupam silenciosamente o lugar de sempre, formando filas cuidadosamente organizadas. Em poucos minutos, dezenas de pessoas começam a mover-se em perfeita sintonia. Não existe palco, nem instrutor profissional. A coreografia é simples, a roupa é comum e o cenário faz parte da vida quotidiana. Ainda assim, o conjunto cria uma das imagens mais reconhecíveis da China urbana contemporânea: a chamada dança de praça.
Para muitas destas mulheres, a reforma representa muito mais do que o fim da vida profissional. Marca igualmente a entrada numa nova etapa da vida, em que os papéis familiares tradicionais se alteraram profundamente. Com famílias cada vez mais pequenas e filhos adultos que frequentemente vivem de forma independente, os espaços públicos passaram a desempenhar uma função social inesperada: tornaram-se lugares onde é possível reconstruir relações sociais, estabelecer novas rotinas e recuperar um sentimento de pertença.
Para muitos visitantes estrangeiros, este fenómeno é simultaneamente fascinante e difícil de compreender. A Europa possui danças populares tradicionais, normalmente associadas a festas locais ou celebrações comunitárias. Em Portugal existem associações recreativas, cafés e coletividades de bairro onde a população mais idosa se reúne regularmente. No Japão, os parques acolhem exercícios físicos matinais, enquanto muitas outras sociedades envelhecidas incentivam os idosos a participar em atividades organizadas no interior de centros comunitários. No entanto, em nenhum destes contextos a dança se tornou uma utilização tão visível, quotidiana e massiva do espaço público urbano como aconteceu na China continental. Como explicar que uma atividade aparentemente tão simples se tenha transformado numa das imagens mais características das cidades chinesas?
Fora da China, a dança de praça é frequentemente retratada pelos meios de comunicação social através das polémicas que suscita. Notícias sobre o volume elevado da música, conflitos com moradores e disputas em torno da utilização do espaço público ocupam frequentemente o centro da narrativa. Estes problemas existem e merecem atenção. Contudo, limitar a análise a estas controvérsias significa ignorar uma transformação social muito mais profunda. Por detrás da música encontra-se uma história sobre envelhecimento demográfico, urbanização acelerada e o quotidiano de milhões de mulheres cuja reforma coincidiu com um dos períodos de mudança social mais rápidos da história moderna da China.
Este artigo defende que a dança de praça chinesa nunca foi, verdadeiramente, apenas sobre dançar. Trata-se antes de uma história sobre envelhecimento, urbanização e procura de pertença. Através desta prática quotidiana, milhões de mulheres reformadas transformaram discretamente espaços urbanos comuns em comunidades de cuidado, amizade e apoio mútuo. Vista desta perspetiva, a dança de praça deixa de ser apenas uma curiosidade cultural e torna-se uma janela privilegiada para compreender a forma como a sociedade chinesa responde ao envelhecimento populacional — e, talvez, às mesmas questões que todas as sociedades envelhecidas acabarão inevitavelmente por enfrentar.
Parte I
Nunca Foi Apenas Sobre Dançar
À primeira vista, a dança de praça parece surpreendentemente simples. A música começa, as pessoas aproximam-se, dançam durante uma ou duas horas e regressam a casa. A conclusão parece evidente: os reformados chineses gostam simplesmente de dançar.
Mas basta passar alguns fins de tarde na mesma praça para perceber que a dança representa apenas uma pequena parte do que realmente acontece.
Muitas participantes chegam bastante antes de a música começar. Enquanto ligam a coluna portátil ou organizam o espaço, conversam sobre a família, mostram fotografias dos netos, comentam o aumento do preço dos alimentos ou falam dos acontecimentos do bairro. Algumas ensinam pacientemente os passos às recém-chegadas. Outras acompanham com especial atenção uma colega que regressa depois de uma doença, certificando-se de que consegue acompanhar o grupo sem esforço excessivo. Os aniversários raramente são esquecidos. Quando alguém deixa de aparecer durante alguns dias, a ausência rapidamente desperta preocupação. Antes da primeira música e muito depois da última dança, desenrola-se uma longa sucessão de conversas aparentemente banais que, pouco a pouco, constroem relações de confiança.
A própria forma de dançar revela muito sobre o espírito desta prática. Poucas pessoas procuram a perfeição técnica. Não existem jurados, prémios nem espectadores à espera de uma atuação impecável. As coreografias são deliberadamente simples, repetitivas e acessíveis, permitindo que qualquer pessoa se integre sem receio de errar. Quem já conhece os movimentos ajuda naturalmente quem ainda está a aprender. Mais importante do que executar cada passo com precisão é fazer parte do grupo.
Com o passar do tempo, a ida à praça deixa de ser apenas uma atividade física e transforma-se num hábito quotidiano. Depois do jantar, existe um destino familiar e um grupo de pessoas que espera por cada membro. Aquilo que começou como exercício converte-se numa rotina, e a rotina acaba por oferecer algo ainda mais valioso: estabilidade emocional. Quando uma participante falta durante vários dias, alguém telefona ou envia uma mensagem para saber se está tudo bem. A preocupação nasce naturalmente da convivência repetida, sem necessidade de qualquer formalidade.
É precisamente aqui que se percebe porque é insuficiente definir a dança de praça como um simples passatempo. É verdade que promove a saúde física, mas o seu significado social vai muito além disso. A prática cria amizades, devolve estrutura ao quotidiano depois da reforma, reforça um sentimento de identidade e oferece apoio emocional numa fase da vida em que muitas redes sociais construídas ao longo de décadas começam inevitavelmente a desaparecer.
Muitas destas mulheres deixaram para trás locais de trabalho onde passaram grande parte da vida adulta. Outras mudaram-se para cidades diferentes para ajudar os filhos a cuidar dos netos, afastando-se dos amigos de uma vida inteira. Numa sociedade marcada por uma urbanização extremamente rápida e por profundas transformações familiares, a praça pública torna-se um dos raros lugares onde ainda é possível construir novas relações de forma espontânea, sem convites, sem despesas e sem qualquer barreira social.
Para quem observa de fora, o que mais chama a atenção é a dança. Para quem regressa todas as noites, porém, a dança é apenas o ponto de encontro visível de algo muito mais importante: uma comunidade que se vai formando discretamente, dia após dia.
No fundo, dançar é apenas a expressão exterior de uma necessidade muito mais profunda: a necessidade humana de pertencer a um lugar e de sentir que continuamos a fazer parte da vida coletiva.
Parte II
Porque na China? O Espaço Público e a Procura de um Terceiro Lugar
Se a dança de praça nunca foi apenas sobre dançar, surge então uma pergunta inevitável: porque é que este fenómeno ganhou uma dimensão tão visível precisamente na China?
A resposta não está numa maior paixão pela dança. Também não pode ser explicada apenas pelo envelhecimento da população. A Europa envelhece há décadas. O Japão é uma das sociedades mais envelhecidas do mundo. No entanto, em nenhum destes países surgiu um ritual quotidiano comparável ao das praças chinesas ao cair da noite.
A diferença reside, em grande medida, na forma como cada sociedade organiza a vida depois da reforma.
Quando o trabalho deixa de estruturar os dias, desaparece também uma parte importante da vida social. Os colegas deixam de ser companheiros de todas as manhãs, os horários deixam de existir e muitas das pequenas conversas quotidianas simplesmente deixam de acontecer. A questão passa então a ser simples, mas decisiva: onde encontrar novos espaços de convivência?
Foi precisamente esta realidade que o sociólogo urbano norte-americano Ray Oldenburg procurou explicar ao desenvolver o conceito de terceiro lugar. Para além da casa e do trabalho, argumentava, todas as comunidades saudáveis necessitam de espaços informais onde as pessoas se encontram regularmente, criam relações de confiança e desenvolvem um sentimento de pertença. Podem ser cafés, associações locais, centros comunitários, clubes recreativos ou qualquer outro lugar onde a convivência aconteça de forma espontânea. Não pertencem inteiramente à esfera privada nem às instituições formais; são simplesmente os lugares onde a vida quotidiana se transforma em comunidade.
Para muitas mulheres reformadas na China, esse terceiro lugar acabou por ser, de forma quase inesperada, a praça pública.
Em muitos países europeus, os idosos continuam ligados a redes construídas ao longo de décadas. Em Portugal existem coletividades, associações de freguesia, cafés de bairro, coros, universidades seniores e comunidades paroquiais que mantêm ativa a vida social muito depois da reforma. Em Espanha, as festas locais e as organizações cívicas continuam a desempenhar um papel semelhante. Na Alemanha, a longa tradição dos Vereine — clubes dedicados ao desporto, à música, à cultura ou aos interesses da comunidade — oferece há gerações uma estrutura sólida de participação social. Nos países nórdicos, os municípios investiram fortemente em centros comunitários e programas destinados especificamente à população mais idosa.
A China apresenta uma realidade diferente.
Para muitas mulheres, a reforma coincide com profundas transformações pessoais e familiares. Algumas deixam para trás a antiga danwei (单位), a unidade de trabalho que durante décadas organizou não apenas o emprego, mas também uma parte significativa da vida social. Outras mudam-se para cidades desconhecidas para ajudar os filhos a cuidar dos netos, rompendo os laços de vizinhança construídos ao longo de toda uma vida. Ao mesmo tempo, a urbanização acelerada produziu bairros novos, densamente povoados, onde milhares de pessoas vivem lado a lado sem necessariamente se conhecerem.
Neste contexto, a praça oferece uma solução surpreendentemente simples.
Não exige inscrição, mensalidades ou convites. Não distingue profissões, níveis de escolaridade ou rendimento. Basta aparecer. A participação constrói-se pela repetição diária, e é precisamente essa rotina que, pouco a pouco, transforma desconhecidos em vizinhos e vizinhos em amigos.
Vista desta perspetiva, a dança de praça deixa de ser apenas uma atividade recreativa ao ar livre. Funciona como uma resposta prática a uma necessidade profundamente humana: a necessidade de encontrar um lugar onde continuar a pertencer depois de terminada a vida profissional.
No fundo, todas as sociedades envelhecidas enfrentam a mesma pergunta. Quando o trabalho deixa de organizar o quotidiano, onde continua a existir a comunidade?
Na China, essa resposta foi sendo encontrada, todas as noites, nas praças das cidades.
Parte III
Quando o Espaço se Torna Comunidade
Criar um lugar onde as pessoas se possam encontrar é apenas o primeiro passo. A verdadeira questão surge depois: porque continuam elas a regressar, noite após noite, ano após ano?
A resposta dificilmente se encontra na dança. Encontra-se, antes, nas relações humanas que se vão construindo quase sem que ninguém dê por isso.
Ao contrário de um clube desportivo ou de uma associação formal, a dança de praça exige muito pouco. Não há inscrições, quotas ou horários obrigatórios. Também não existe qualquer compromisso institucional. Paradoxalmente, é precisamente essa ausência de formalidades que permite integrar a atividade na vida quotidiana. As pessoas regressam porque sabem que encontrarão rostos familiares. Retomam conversas interrompidas na noite anterior. Novas amizades nascem discretamente, alimentadas por centenas de encontros aparentemente banais.
Pouco a pouco, aquilo que começou como uma simples atividade recreativa transforma-se em algo muito mais difícil de construir: confiança.
O cientista político Robert Putnam, ao estudar o funcionamento das comunidades, descreveu este fenómeno através do conceito de capital social. A confiança entre vizinhos, a disponibilidade para ajudar e o sentimento de responsabilidade mútua não surgem por decreto nem dependem apenas das instituições. Constroem-se lentamente através de encontros repetidos, pequenos gestos e relações quotidianas que, com o tempo, fortalecem os laços entre as pessoas.
As praças chinesas oferecem um exemplo particularmente claro deste processo.
No início, muitos participantes aproximam-se apenas para aprender a coreografia. Com o passar dos meses, porém, a dança deixa de ser a principal razão para regressar. Se uma presença habitual desaparece durante vários dias, alguém pergunta por ela. Surge uma mensagem no grupo de WeChat a perguntar se está tudo bem. Uma vizinha oferece-se para acompanhar outra a uma consulta médica. Depois da sessão, alguém distribui comida preparada em casa. Durante um feriado, organiza-se um passeio coletivo. Nenhum destes gestos aparece nas notícias ou nas estatísticas. No entanto, são precisamente eles que sustentam a vida de uma comunidade.
Para muitas mulheres reformadas, sobretudo para aquelas que se mudaram para outras cidades para ajudar a cuidar dos netos, estas novas relações adquirem um significado especial. As amizades construídas ao longo da vida profissional ficaram para trás. Muitos antigos vizinhos vivem agora a centenas ou milhares de quilómetros de distância. A família continua a ocupar um lugar central, mas os filhos trabalham durante o dia e os netos têm a sua própria rotina. A praça oferece então um segundo círculo de pertença: uma comunidade que não nasce dos laços familiares, mas da convivência repetida.
É também por isso que muitas críticas dirigidas à dança de praça acabam por não compreender o essencial. Por vezes, parte-se do princípio de que bastaria substituir esta atividade por outra forma de exercício físico. Mas o exercício nunca foi o verdadeiro centro da questão. Trocar a dança por outra atividade não significa reconstruir automaticamente a rede de relações que se formou ao longo de anos.
Aquilo que leva tantas pessoas a regressar todas as noites não é apenas a música, nem sequer o prazer de dançar. É a certeza de que encontrarão pessoas que, pouco a pouco, passaram a fazer parte da sua vida quotidiana.
A praça pública torna-se, assim, muito mais do que um espaço aberto. Converte-se num lugar onde os laços sociais são tecidos pacientemente, noite após noite.
Num tempo marcado pela urbanização acelerada, pela mobilidade geográfica e pelas profundas mudanças na estrutura familiar, estas reuniões aparentemente banais recordam-nos uma verdade frequentemente esquecida: as comunidades raramente nascem de grandes políticas públicas. Na maioria das vezes, constroem-se de forma silenciosa, através do simples hábito de aparecer, todos os dias, no mesmo lugar.
Parte IV
Para Além do Ruído: Que Cidade Queremos para Envelhecer?
Falar da dança de praça na China implica reconhecer também as controvérsias que a acompanham.
Durante anos, o debate público concentrou-se nas mesmas críticas. Há quem se queixe do volume da música que se prolonga pela noite dentro. Pais lamentam a escassez de espaço para as crianças brincarem. Depois de um longo dia de trabalho, muitos gostariam de regressar a casa e encontrar tranquilidade, mas deparam-se com praças já ocupadas por dezenas de pessoas a dançar. Em algumas cidades, estes conflitos deram origem a discussões acesas e, por vezes, chegaram mesmo aos tribunais.
Estas queixas são legítimas. Não devem ser desvalorizadas nem interpretadas como uma simples falta de tolerância.
No entanto, é precisamente aqui que o debate tende a seguir um caminho enganador. A pergunta costuma ser formulada de forma muito simples: devemos incentivar a dança de praça ou limitar a sua prática?
Talvez esta não seja a pergunta certa.
A verdadeira questão é outra: que tipo de cidade queremos construir para uma população que envelhece?
A Organização Mundial da Saúde tem insistido, ao longo dos últimos anos, que uma cidade amiga das pessoas idosas não se define apenas pela qualidade dos serviços de saúde. Depende igualmente da existência de espaços públicos seguros, acessíveis e inclusivos, onde seja possível manter uma vida ativa, cultivar relações sociais e continuar a participar plenamente na comunidade. À medida que a esperança de vida aumenta em praticamente todas as regiões do mundo, o desafio deixa de ser apenas viver mais anos. Torna-se igualmente importante garantir que esses anos sejam vividos com autonomia, dignidade e ligação aos outros.
Vista sob esta perspetiva, a polémica em torno da dança de praça adquire um significado diferente.
O problema talvez não seja o facto de existir demasiada dança nas praças chinesas. Talvez o verdadeiro problema seja existirem ainda poucos espaços públicos pensados para responder às necessidades específicas da população mais idosa.
Quando diferentes gerações são obrigadas a partilhar o mesmo espaço limitado, o conflito torna-se quase inevitável. Os idosos procuram exercício físico, companhia e convivência. As crianças precisam de locais seguros onde possam brincar. Quem trabalha durante o dia deseja descansar ao regressar a casa. Os moradores têm toda a legitimidade para esperar noites tranquilas. Nenhuma destas expectativas é excessiva ou incompatível com uma cidade saudável.
A dificuldade surge quando se espera que uma única praça consiga responder simultaneamente a todas elas.
Este desafio está longe de ser exclusivo da China.
Em toda a Europa, as sociedades enfrentam um envelhecimento demográfico cada vez mais acelerado. Municípios e governos interrogam-se sobre a forma de adaptar bairros construídos para populações muito mais jovens. Como reorganizar o espaço urbano para responder às novas necessidades? Como evitar o isolamento social sem criar novas tensões entre diferentes grupos? Que equipamentos públicos podem favorecer o encontro entre gerações em vez da competição pelo mesmo espaço?
Sob este ponto de vista, a dança de praça deixa de ser apenas uma curiosidade chinesa.
Ela transforma-se num ponto de partida para refletir sobre urbanismo, políticas públicas e coesão social. Mais do que uma manifestação cultural, revela uma questão que cedo ou tarde todas as sociedades envelhecidas terão de enfrentar: como desenhar cidades capazes de acompanhar a transformação demográfica do século XXI?
Talvez, afinal, o verdadeiro debate nunca tenha sido saber se as pessoas idosas devem ou não dançar nas praças.
A questão mais importante é outra.
Terão as nossas cidades evoluído ao mesmo ritmo que as pessoas que as construíram?
Parte V
A Dança de Praça e a Reinvenção da Pertença numa Sociedade Envelhecida
À primeira vista, as praças chinesas podem parecer um fenómeno profundamente ligado à realidade da China. No entanto, as questões que ali se colocam estão longe de ser exclusivamente chinesas.
À medida que as populações envelhecem, um número crescente de países confronta-se com desafios semelhantes. Como podem as pessoas manter uma vida social ativa depois da reforma? Onde encontrar espaços públicos acessíveis que favoreçam o encontro entre gerações? De que forma é possível reconstruir um sentimento de pertença quando o trabalho deixa de organizar o quotidiano e as estruturas familiares se tornam cada vez mais reduzidas?
Vista deste modo, a dança de praça deixa de ser apenas uma curiosidade cultural.
Ela torna visível uma das grandes questões do nosso tempo: como impedir que o envelhecimento conduza, pouco a pouco, à invisibilidade social.
Mas as discussões em torno deste fenómeno revelam também outra dimensão, menos evidente.
Porque é que algumas pessoas olham para estas reuniões e veem uma expressão espontânea de convivência, enquanto outras veem apenas ruído, desordem ou uma manifestação cultural sem valor?
O sociólogo francês Pierre Bourdieu recordava-nos que o gosto raramente é uma questão puramente individual. Aquilo que uma sociedade considera cultura “elevada” ou cultura “popular” resulta frequentemente de processos históricos, educativos e sociais que refletem diferentes formas de capital cultural. Em muitas ocasiões, aquilo que parece ser apenas uma preferência estética acaba por reproduzir distinções sociais muito mais profundas.
Talvez seja também isso que acontece com a dança de praça.
Nem todas as críticas dizem verdadeiramente respeito à música ou ao espaço público. Algumas parecem dirigir-se, ainda que de forma implícita, às próprias pessoas que ali se encontram: mulheres reformadas, habitantes comuns das cidades, práticas culturais quotidianas que dificilmente correspondem às ideias tradicionais de sofisticação ou prestígio artístico.
Uma sala de concertos, uma galeria de arte ou um espetáculo de música clássica são habitualmente associados ao conhecimento, ao requinte e ao estatuto cultural. Um grupo de mulheres idosas a dançar numa praça dificilmente beneficia da mesma perceção.
Contudo, talvez a diferença seja menor do que imaginamos.
Em ambos os casos, encontramos pessoas que procuram exatamente a mesma coisa: expressar-se, encontrar os outros e sentir que pertencem a uma comunidade.
Por isso, a questão relevante dificilmente será saber se a dança de praça pertence à chamada “alta cultura” ou à “cultura popular”.
A pergunta mais importante é outra.
Serão as cidades contemporâneas capazes de reconhecer formas diferentes de participação cultural e de criar espaço para todas elas?
As praças chinesas não oferecem respostas definitivas.
Mas convidam-nos a olhar para o envelhecimento sob uma perspetiva diferente. Recordam-nos que uma sociedade amiga das pessoas idosas não depende apenas de melhores cuidados de saúde ou de infraestruturas mais acessíveis. Depende igualmente da capacidade de valorizar as pequenas culturas do quotidiano — aquelas através das quais milhões de pessoas continuam a construir amizades, identidade e sentido para a sua vida muito depois da reforma.
Talvez seja este o significado mais profundo que a dança de praça chinesa nos ajuda a compreender.
Ela permite-nos ver não apenas a imagem de pessoas reunidas ao fim da tarde, mas também uma forma através da qual uma sociedade procura adaptar-se à mudança: à medida que as estruturas tradicionais da vida se transformam, as pessoas continuam a reconstruir ligações, a encontrar novos sentidos e a confirmar que continuam a fazer parte deste mundo através dos encontros quotidianos.
A dança nas praças deixa, assim, de ser apenas um movimento do corpo. Torna-se uma expressão da ligação social entre as pessoas.
Conclusão
Ao cair da tarde, quando o calor começa finalmente a diminuir, as praças das cidades chinesas voltam a encher-se de vida.
As luzes acendem-se lentamente. A música começa a ouvir-se ao longe. Pouco a pouco, chegam as mesmas pessoas de sempre. Cumprimentam-se, ocupam naturalmente o lugar habitual e, quase sem palavras, deixam que os primeiros movimentos acompanhem o ritmo da música.
À primeira vista, trata-se apenas de um grupo de pessoas a dançar.
Mas, depois de observar estas cenas durante algum tempo, torna-se difícil olhar para elas da mesma forma.
Para muitas destas mulheres e destes homens, a dança faz parte de algo muito maior. É o motivo para sair de casa, a oportunidade de encontrar amigos, a continuidade de uma rotina que dá sentido aos dias e, sobretudo, a certeza de continuar a fazer parte de uma comunidade.
É precisamente por isso que este fenómeno dificilmente pode ser compreendido apenas como uma particularidade cultural chinesa.
Em praticamente todo o mundo, as sociedades envelhecem. A esperança de vida aumenta, as famílias tornam-se mais pequenas, os percursos profissionais terminam mais cedo do que nunca e milhões de pessoas descobrem que viver mais tempo significa também reinventar a forma de viver em comunidade.
Perante esta realidade, os desafios vão muito além dos sistemas de saúde ou das pensões. Tornam-se também questões de urbanismo, de participação cívica e de convivência quotidiana. Como construir cidades onde o envelhecimento não conduza ao isolamento? Como preservar espaços onde seja possível criar novas amizades depois da reforma? Como garantir que a vida pública continua a incluir aqueles que ajudaram a construir a sociedade de hoje?
As praças chinesas não oferecem um modelo universal, nem uma solução pronta para todos os contextos.
Mas revelam algo que talvez seja universal.
Recordam-nos que o sentimento de pertença não nasce apenas das grandes instituições nem das políticas públicas. Constrói-se, muitas vezes, através de gestos simples e repetidos: aparecer no mesmo lugar, reconhecer rostos familiares, conversar durante alguns minutos e descobrir, quase sem dar por isso, que continuamos a fazer parte da vida dos outros.
Talvez seja precisamente isso que a dança de praça chinesa nos revela.
Ela mostra-nos não apenas a imagem de centenas de pessoas a dançar ao fim da tarde.
Revela também a forma silenciosa como uma sociedade procura responder a uma das grandes questões do nosso tempo:
Quando a vida muda, quando o trabalho termina e quando as próprias cidades envelhecem, como podemos continuar a pertencer?
Amélie Lu Yuqing é doutorada pelo Instituto de Investigação sobre os Países de Língua Portuguesa (IROPC) da Cidade Universitária de Macau. Concluiu um curso de um ano intitulado “A China e os Países de Língua Portuguesa no Comércio Mundial” na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em Portugal. Obteve o grau de Mestre em Relações Internacionais (lecionado em francês) pela Universidade de Provença Aix-Marselha I, em França, e a licenciatura em Economia Política pela Universidade de Jinan, na China.










