
O centenário de nascimento de um homem de espírito, de maneira legítima, é ensejo para homenagem e celebração. Todavia, parece razoável considerar que o complemento necessário, capacitado a conferir ao instante festivo uma altitude e uma durabilidade superiores, consiste em tornar rediviva a sua presença, em autêntica restituição da ausência do homenageado, transmutando-o em objeto de reflexão, repensando o por si pensado, em busca, como queria Martin Heidegger, do impensado. É consabido que centros editoriais, complexos universitários e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura — UNESCO, com efeito, têm cumprido o relevante papel de revivificar a memória dos protagonistas, quer antigos quer modernos, da sabedoria a perpassar milênios e séculos, conforme as efemérides de Aristóteles, São Paulo, Santo Agostinho de Hipona, Santo Tomás de Aquino, Jean-Jacques Rousseau, Martin Heidegger e, entre outros, o filósofo, romancista e teatrólogo Jean-Paul Sartre.
Eis o sentido magno, neste ano da graça de 2026, das solenidades intelectuais relativas ao primeiro centenário de nascimento do filósofo e psicólogo Paul-Michel Foucault, nascido na França, em Poitiers, a 15 de outubro de 1926 e falecido em Paris, a 25 de junho de 1984. Polímata, o pensador gaulês em questão foi crítico de literatura, analista de cinema e exegeta político, com uma carreira acadêmica vivenciada na Suécia, na Polônia, na Tunísia, nos Estados Unidos e, sobretudo, no seu país natal, em que chegou à condição de professor no prestigioso Collège de France entre 1970 e 1984, ali ditando treze cursos, referentes a pesquisas em desenvolvimento. Chamava-se a disciplina ministrada História dos Sistemas de Pensamento, em cuja cátedra as temáticas desenvolvidas foram: a vontade de saber (1970-1971); teorias e instituições penais (1971-1972); a sociedade punitiva (1972-1973); o poder psiquiátrico (1973-1974); os anormais (1974-1975); em defesa da sociedade (1975-1976); segurança, território, população (1977-1978); o nascimento da biopolítica (1978-1979); do governo dos vivos (1979-1980); subjetividade e verdade (1980-1981); a hermenêutica do sujeito (1981-1982); o governo de si e dos outros (1982-1983); e a coragem da verdade (1983-1984). O guia de estudo proposto para os treze cursos proferidos no Collège de France realizou a construção tipológica de quatro eixos temáticos, em seguida enunciados: saber, poder judiciário e punição; psiquiatria e anormalidade; poder sobre a vida, ou biopoder, a diferença entre governar território e governar população; e governamentalidade, discurso verdadeiro, experiência ética e política nas práticas de si.
Como nenhum pensador é formado por geração espontânea, é de todo conveniente remontar a cartografia espiritual de Michel Foucault, à luz dos mestres de pensamento que interferiram, direcionaram e, no limite, moldaram a sua educação universitária. Jean Hyppolite, autor de Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito, bem como Lógica e Existência e Marx e Hegel, o qual foi simultaneamente filósofo, linguista e tradutor, responsável pela vinculação do seu discípulo com a dialética e a fenomenologia hegelianas e por sua aproximação com a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria. Georges Canguilhem, autor de O Normal e o Patológico, Estudos de História e Filosofia das Ciências e O Conhecimento da Vida, que foi filósofo, epistemólogo, historiador das ciências e, como Paul Foucault, pai do seu orientando doutoral, médico, conectando-o com as temáticas da normalidade, do normal e do anormal, do saber e do poder, da historicidade das ciências, do conceito de ruptura e seu potencial reconfigurador e, no mínimo, as formas institucionais de hierarquia, autoridade e controle. Maurice Merleau-Ponty, autor de Fenomenologia da Percepção, A Estrutura do Comportamento e O Visível e o Invisível, refinado filósofo com ancoragem na fenomenologia e no existencialismo, com profundo interesse pelas artes, em particular, visuais, vocalizando para o seu aprendiz ilustrado, com ênfase, os ensinamentos relacionais do corpo, da consciência e do mundo, consumados na ontologia da carne. Louis Althusser, autor de Por Marx, Ler o Capital, Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado e, de maneira laboriosa e dramática, O Futuro é Muito Tempo, o qual foi um corifeu da ressignificação estruturalista do marxismo, a buscar a instituição da sintonia do seu irrequieto estudante com os atores coletivos da história, em meio aos quais o indivíduo existe, sob contingências, quer definidoras da sociabilidade quer plasmadoras da dimensão discursiva. Jean-Pierre Vernant, por sua vez, autor de As Origens do Pensamento Grego, Mito e Pensamento entre os Gregos e O Universo, os Deuses e os Homens, o qual foi filósofo e antropólogo e, como substantivo conhecedor do mundo helênico, desenvolveu a tessitura complexa do mito, da religião, da tragédia, da política e da cidadania. Sob o sinete da razão e de sua relação com a verdade, à luz do cidadão enquanto sujeito complexo, dotado de um corpo físico, agenda de rituais, deveres públicos, sentido heroico, peso do destino e, enfim, de uma alma, Jean-Pierre Vernant foi a ponte levadiça para o fio condutor das perplexidades foucaultianas, mesmo sem ser formalmente seu professor, relativas à subjetividade e suas contingências, das morais às políticas.
Nada mais distante do propósito deste ensaio de revisitação crítica balanceadora, do que pretender tornar Michel Foucault redutível a Jean Hyppolite, Georges Canguilhem, Maurice Merleau-Ponty, Louis Althusser e, no extremo, Jean-Pierre Vernant. Almeja apenas, neste sentido, reconhecer que, na dimensão próxima, quatro professores e um amigo pesaram muito fortemente, na condição de fontes intertextuais, para a formação do espectro conceitual, teórico e temático desenvolvido pela arquitetura do pensamento foucaultiano. Nada mais didático do que recordar o poeta, romancista, ensaísta e teatrólogo Ariano Suassuna, que revelou, certa feita, serem, respectivamente, os três atos constitutivos do Auto da Compadecida, inspirados em folhetos de cordel, a saber: o primeiro, O Dinheiro (O Testamento do Cachorro), de Leandro Gomes de Barros; o segundo, O Cavalo que Defecava Dinheiro, também de Leandro Gomes de Barros; e o terceiro, O Castigo da Soberba, de provável autoria de Silvino Pirauá de Lima. Neste contexto, por suposto, teria o crítico teatral Yan Michalski, perguntado ao teatrólogo o que haveria de seu, afinal, n’O Auto da Compadecida, recebendo a seguinte resposta: a peça. A alma e a alegria evocadas por Ariano Suassuna, de maneira solar e genial, encontram correspondência, por analogia, na existência criativa de Michel Foucault, que, na esfera metafórica, foi inspirado beneficiário da sabedoria dos filósofos — os seus cordelistas — Jean Hyppolite, Georges Canguilhem, Maurice Merleau-Ponty, Louis Althusser e Jean-Pierre Vernant, escrevendo, entretanto, a sua peça, em cujo enredo duas pilastras conceituais exceleram: a arqueologia e a genealogia.
Tratado por camadas, o conceito de arqueologia recebeu a seguinte consideração: “1) Com respeito a autorizar a novidade. A arqueologia não está em busca das invenções ou do momento em que algo foi dito pela primeira vez, mas da regularidade dos enunciados.” Portanto, antes a frequência frasal, oratória ou da dimensão verbal, do que a manifestação deste ou daquele pioneirismo de comunicação. “2. Da análise das contradições. As formações discursivas, objeto da descrição arqueológica, não são um texto ideal, contínuo. A descrição arqueológica quer manter as suas múltiplas asperezas.” Nada, em consequência, de tipo ideal de Max Weber aplicado ao discurso, com pinças, pincéis e espátulas a espanar a rugosidade dos tecidos discursivos e descritivos. “3. Das descrições comparativas. Suspendendo a primazia do sujeito e, por isso, não reduzindo o discurso à expressão de algo que sucede no interior de um cogito, a arqueologia não pretende tampouco ser uma análise causal dos enunciados que permitiria relacionar ponto por ponto um descobrimento e um fato, um conceito e uma estrutura social. Ela se inscreveu na história geral; quer mostrar como a história (as instituições, os processos econômicos, as relações sociais) pode dar lugar a tipos definidos de discurso.” Compreende-se, pelo exposto, a existência do afastamento metodológico do chamado sujeito fundante do discurso, em suas possibilidades causais, descritivas, analíticas e comparativas, bem como factuais, conceituais e estruturais. Com efeito, a região nevrálgica do eixo arqueológico foi definida pelas multidimensões gerais da história econômica, social, jurídica, política e das mentalidades e das práticas discursivas tipológicas delas decorrentes. “4) Do estabelecimento das transformações. A contemporaneidade de várias transformações não significa uma exata coincidência cronológica. Entre elas, numerosas relações são possíveis. A ruptura é o nome que recebem as transformações que afetam o regime geral de uma ou de várias formações discursivas. Por isso, a época não é a unidade de base. Se a arqueologia fala de épocas, faz a propósito de práticas discursivas determinadas.” O desaguadouro simultâneo de mudanças não significa uma convergência epocal e a geração de um espírito do tempo com relações uniformes. Interessam muito mais as cunhas, as quebras, os cortes, as clivagens, enfim, as interrupções, ou descontinuidades, com repercussão nas dinâmicas dos complexos discursivos, com as práticas específicas correspondentes.
Quanto ao conceito de genealogia, em complemento, corrobora a motivação do entendimento da arqueologia, para, em cooperativa, prescindirem da categoria do sujeito fundador como paradigma analítico da experiência da história. É de todo conveniente, entretanto, ressaltar que, na genealogia, em campo amplificado, estudam-se as “práticas não discursivas e, sobretudo, a relação não discursividade/discursividade” e examinam-se “o saber em termos de estratégias e táticas de poder” e suas lutas, concebidas, todavia, “como um agonismo, uma relação, ao mesmo tempo, de incitação recíproca e reversível”. A síntese filosófica foucaultiana foi enunciada na seguinte trilha genealógica: “uma ontologia de nós mesmos em nossas relações com a verdade (que nos permite constituir-nos como sujeito de conhecimento); uma ontologia histórica de nós mesmos em nossas relações com um campo de poder (o modo como nos constituímos como sujeito que atua sobre outros); e uma ontologia histórica de nós mesmos em nossas relações com a moral (o modo como nos constituímos como sujeito ético, que atua sobre si mesmo).” A verdade, o poder e a moral foram os destinatários da nossa própria ontologia constitutiva, enquanto sujeitos capacitados a conhecer, a agir sobre os demais, do ponto de vista interativo e a conformar a si mesmos, sob o prisma ético. De onde, em globo, o discurso do método foucaultiano congregar a tríplice genealogia principiológica da descontinuidade, da especificidade e da exterioridade, repartindo competências, ao reservar à arqueologia a dimensão problematizadora de “como é pensado o ser do homem” e à genealogia a investigação “de sua formação a partir das práticas e de sua transformação.” Desta maneira, possuidor do substrato arqueológico e genealógico em questão, Michel Foucault compaginou o evolver histórico ocidental, em quatro períodos, dotados de regras específicas do saber: Renascimento (até o final do século XVI, com o primado da semelhança e da analogia); Idade Clássica (séculos XVII e XVIII, com o predomínio da representação e da ordem); Modernidade (século XIX até meados do século XX, com a supremacia da história e da evolução); Contemporaneidade (segunda metade do século XX para a frente, com o suposto fim do antropocentrismo, para a prevalência da linguagem e da estrutura).
Sob o arcabouço em epígrafe enunciado, escreveu o efervescente pensador ora examinado uma página eloquente na história da filosofia, tecelão de uma obra cujo epicentro, estando em toda parte, a exemplo de Arqueologia do Saber, encontra-se em História da Loucura: na idade clássica; As Palavras e as Coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Vigiar e Punir: nascimento da prisão; e História da Sexualidade: a vontade de saber, o uso dos prazeres, o cuidado de si e as confissões da carne. Ora, reitere-se, o autor de Doença Mental e Psicologia, O Nascimento da Clínica, Gênese e Estrutura da Antropologia de Kant, Dizer a Verdade sobre si, Eu, Pierre Rivière, que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão, Microfísica do Poder e A Ordem do Discurso, interpretado arqueológica e genealogicamente, não é um sujeito fundante solitário, colocando-se em meio a um painel substantivo e multifacetado da filosofia francesa no século XX, em que exceleram personalidades exuberantes como Pierre Teilhard de Chardin, Henri Bergson, Georges Sorel, Gabriel Marcel, Jacques Maritain, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Maurice Merleau-Ponty, Jean Hyppolite, Georges Canguilhem, Lucien Golddmann, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Étienne Gilson, Roger Garaudy, Emmanuel Lévinas, Henri Lefebvre, Georges Bataille, Alain Badiou, Léon Brunschvicg, Jean Cavaillès, Émile Boutroux, Étienne Balibar, Henri Berg, Julien Benda, Émile Bréhier, Daniel Bensaïd, Bruno Latour, Antoine Berman, Jacques Chevalier, Renaud Barbaras, Bernadette Bensaude-Vincent, Gaston Berger, Claire Salomon-Bayet, Michel Onfray, Simone Goyard-Fabre e, para não ter cansativo, Jean Guerre-Faye. E, para ser econômico, Edgar Morin. Compreende-se, na primeira mirada, que não resiste à análise a divisão das correntes da filosofia francesa no século XX em existencialismo, estruturalismo e pós-modernismo, em se considerando as vigorosas presenças das vertentes espiritualistas, neotomistas, fenomenológicas, marxistas, ontológicas, hermenêuticas e de pensamento moral e político, sem o olvido dos lineamentos anarquistas, tornando de imprestável ânimo polêmico e diminutivo, a designação depreciativa esculpida por José Guilherme Merquior, qual seja, “de que seria uma ‘lítero-filosofia’”. Sob a hipnose da filosofia analítica, o ensaísta brasileiro, como se fosse um cruzado, dedicou-se à promessa da ‘libertação de Jerusalém’, ao combater, à distância da paixão fria de Blaise Pascal, “o sofisticado Partido Epistêmico Foucaultiano (PEF) ou o inculto Movimento Foucaultiano Pró-Anarquia (MOFAP)”, levando-o a uma certa simultânea calúnia contra a literatura e a filosofia e a consignar nos autos o negacionismo de Michel Foucault: “Nunca fui freudiano, nunca fui marxista e nunca fui estruturalista.” Por hipótese, os dois não tinham razão.
Nunca foi freudiano? Se nunca foi, não deixou de reconhecer que a psicanálise promoveu uma fissura a contrapelo na cidadela das ciências humanas: “Quer isto dizer que diversamente das ciências humanas que, voltando-se embora para o consciente, permanecem sempre no espaço do representável, a psicanálise avança para tomar o passo à representação, galgá-la do lado da finitude e fazer assim surgir, lá onde se esperavam as funções portadoras das suas normas, os conflitos carregados de regras e as significações que formam sistema, o facto simples de que pode haver sistema (logo, significação), regra (logo, oposição), norma (logo, função), finitude enquanto dimensão irrigada por conflitos, regras, significações, sistema e funções vitais, chamada à colação: “E nessa região onde a representação fica em suspenso, à beira de si mesma, aberta de algum modo sobre o ‘fechamento’ da finitude, desenham-se as três figuras pelas quais a vida, com as suas funções e as suas normas, vem fundar-se na muda repetição da Morte, os conflitos e as regras na abertura desnudada do Desejo, as significações e os sistemas numa linguagem que é ao mesmo tempo Lei.” Do inconsciente à sexualidade, o espectro do pensamento freudiano, à luz da psicanálise, em certo momento, foi objeto de ressonante proclamação foucaultiana, associada à etnologia, sobrevivendo ambas a todas as ressalvas, nas páginas finais de As Palavras e as Coisas, tecidas entre Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Claude Lévi-Strauss, anunciadoras do fim do homem, “uma invenção recente”. Quase como se a morte do homem, vaticinada por Michel Foucault, fosse o complemento necessário às páginas finais de O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre, em que o homem submergiu como “uma paixão inútil”.
Nunca foi marxista? Se nunca foi, não deixou de ser membro do Partido Comunista Francês-PCF, entre 1950 e 1953, período em que a agremiação esteve sob o comando do Secretário-Geral Maurice Thorez, secundado por Jacques Duclos, ambos siderados e submissos ao culto à personalidade, como se do divino se tratasse, de Josef Stalin, em seu discurso materialista. Existe uma tendência biográfica a minimizar o impacto da passagem do ainda jovem Michel Foucault, entre os vinte quatro e os vinte e sete anos de idade, em uma organização panóptica, segundo a descrição de Jeremy Bentham, como eram todos os mundiais Partidos Comunistas comandados pelo Politburo ou Gabinete Político, do Partido Comunista da União Soviética – PCUS, em seu inflexível centralismo burocrático sob o stalinismo. A saída do filiado, senão militante, do Partido Comunista Francês, coincidiu com o ano da morte de Josef Stalin, em 5 de março de 1953. O ingresso do jovem Michel Foucault, entretanto, tem o sinete da presença antecedente no Partido Comunista Francês, advinda de 1948, do seu mestre Louis Althusser, protagonista do marxismo estruturalista, que na agremiação permaneceu até a sua morte, em 1990. Ninguém passou incólume pelo stalinismo, do mestre ao discípulo, na tese, na antítese e na síntese.
Nunca foi estruturalista? Se nunca foi, não deixou de ser instaurado, e de maneira central, no cânone acadêmico de Ferdinand de Saussure, linguista e de Claude Lévi-Strauss, antropólogo, segundo Katy Grissault: “Ele é considerado um dos maiores representantes do estruturalismo e um dos mais importantes filósofos franceses do século XX”. É de Michel Foucault a epígrafe estampada no livro de François Dosse, intitulado História do Estruturalismo. Ei-la: “O estruturalismo não é um método novo: é a consciência desperta e inquieta do saber moderno.” O autor de O Nascimento da Clínica, aliás, foi colocado nos dois ciclos do estruturalismo, a saber: I. o campo do signo, 1945/1966 e II. o canto do cisne, de 1967 a nossos dias. No período do campo do signo, em 1966 o livro As Palavras e as Coisas, lançado pela Editora Gallimard, explodiu em sucesso, passando o rebento filosófico foucaultiano a ser visto em analogia até mesmo gastronômica, com o reconhecimento de que “vende como pãezinhos” em França, validado enquanto expressão do estruturalismo. O autor repugnaria o “rótulo estruturalista, que considera infamante,” à sombra do qual desenvolveu a episteme da ausência do sujeito, altiplanando “na linguística saussuriana, na antropologia estrutural e na psicanálise lacaniana. Desconstruindo a filosofia do sentido e promovendo a episteme do sistema, bem como disputando a vigência intelectual contra Jean-Paul Sartre, a crônica intelectual registrou o manejo foucaultiano da elite estruturalista em seu favor: “Em todas as suas intervenções, múltiplas nesse ano de 1966, Foucault não se cansa de remeter Sartre para o século XIX, e de situar-se firmemente ao lado de Lévi-Strauss, Dumézil, Lacan e Althusser, ou seja, da modernidade do século XX.”
Dessa maneira, protegido na casamata em questão, pode Michel Foucault levantar as bandeiras do antihumanismo, do antihistoricismo, do relativismo e da moderna revolução epistemológica. Afinal, a primeira ideia foucaultiana fora a de denominar como “arqueologia do estruturalismo” àquilo que viria a designar “arqueologia das ciências humanas.” Já no cenário do canto do cisne, o inquieto pensador se encontrava na Tunísia, em 1968, onde escrevia A Arqueologia do Saber, em resposta às críticas dos epistemólogos a seu já clássico As Palavras e as Coisas,” quando o vulcão de maio, em erupção, trouxe para a vitrine rebelada da história — em uma França estremecida e governada pelo Presidente Charles de Gaulle, com o Primeiro-Ministro Georges Pompidou —, uma agenda radical para a política de mudança de costumes morais, sexuais e pedagógicos. Todas as formas de conservadorismo, à direita e à esquerda, inclusive políticos, dos partidos aos sindicatos, foram postas em questão, naquela Paris de maio de 1968, em que a juventude estudantil colocou entre parênteses, desde a compulsão da sociedade de consumo e até a repressão do aparelho policial. O espírito de desconstrução ali era uma prática política, mais do que uma prática teórica, em resgate plástico das categorias de Louis Althusser, recordando os episódios muito mais anarquistas do que comunistas, da Comuna de Paris, por coincidência, registrados entre 18 de março a 28 de maio de 1871. Tornaram-se inolvidáveis as palavras de ordem, logo mundialmente ressonantes, advindas da França e entregues ao rastilho de pólvora da rebeldia e da contestação crescentes: ‘Trabalhadores de todo o mundo, divirtam-se’; ‘É proibido proibir’; ‘Abaixo a sociedade de consumo’; ‘Quanto mais eu consumo, menos eu vivo’; ‘Escreva nos muros’; ‘Não quero perder a minha vida ganhando-a’; ‘As paredes têm ouvidos. Os vossos ouvidos têm paredes’; ‘A ação não deve ser uma reação, mas uma criação’; ‘Corramos o velho mundo está atrás de nós’; ‘A imaginação no poder’; ‘Abaixo o Estado policial’; ‘Suba nas barricadas, o mar é logo ali’; ‘As fronteiras são inventadas; os muros pertencem aos cretinos’; ‘Abaixo a sociedade de consumo’; ‘Nunca trabalhe”; ‘A fábrica não deve ser uma prisão, mas um local de criação’; ‘A economia está ferida? Que ela morra!’; ‘O poder está na rua’; ‘Abaixo o trabalho assalariado’; ‘Comitê de ação em toda parte’; ‘Metrô, trabalho, cama’; ‘Professores, vocês nos fazem envelhecer’; ‘Não mude de empregador, mude o emprego da vida’; ‘Trabalhador: você tem 25 anos, mas o seu sindicato é do século passado’; ‘O trabalho aliena’; ‘Exames = Servidão, promoção social, sociedade hierarquizada’; ‘Sejamos realistas, façamos o impossível’ etc. François Dosse reconheceu que o caos antecedente e subsequente a maio de 1968, “favoreceu a explosão do estruturalismo.” E, se foi um dínamo para a eclosão estruturalista, não poderia deixar de, qual onda revolta, chegar à praia foucaultiana, permitindo-lhe dois giros exponenciais: um militante; outro, histórico.
Giro militante, na medida em que o terremoto manifesto de maio de 1968 em Paris, reconfigurou o tabuleiro de xadrez político à esquerda, em se considerando que o Partido Comunista Francês – PCF, com um cartel de conquistas realizadas dentro da ordem burguesa constituída, por meio, em especial, da sua aliança com a Confederação Geral do Trabalho – CGT, preferiu a sua preservação, a subscrever aquilo que lhe parecia uma aventura estudantil pequeno-burguesa, de inspiração anarquista, cuja dimensão libertária, como efeito sucessório, nunca recepcionou. Era o fantasma de Karl Marx, resistindo à Comuna de Paris de 1871, ao terçar armas com o entusiasmo irrestrito de Mikhail Bakunin, seu principal antagonista na disputa pelo controle da Associação Internacional dos Trabalhadores – AIT, por si e por Friedrich Engels, afinal, perdida, quando ambos resolveram transferir a sua sede de Londres para Nova York, retendo a documentação institucional para que, abortada nunca mais funcionasse. Como parecesse, ao reverso, que a esquerda estabelecida não fosse confiável, quanto à residual expectativa revolucionária, que o Partido Comunista Francês – PCF, para a juventude estudantil, não mais representava, os jovens filósofos, associados ou dissociados à chamada segunda geração sob a influência de Louis Althusser, optaram pelo engajamento social e pelo agir político, à semelhança da jornada de Jean-Paul Sartre, aquele que Michel Foucault empurrara para o século XIX, por repudiar, tanto o penso, logo existo, do muito antecedente René Descartes, quanto o seu existo, logo penso, de extração mais recente. Conquistaram nomeada, entre os novos filósofos, André Glucksmann, Bernard-Henri Lévy, Jean-Paul Dollé, Christian Jambet, Guy Hocquenghem, Dominique Lecourt, Tony Lévy, Alain Finkielkraut e, não por acaso, Robert Linhart, o mais vinculado ao Brasil de todos, casado que foi com a exilada e socióloga brasileira Ana Maria Galano, depois Ana Maria Mochovitch Linhart, de cujo consórcio nasceu a cineasta Clara Linhart.
Filósofo e sociólogo, romancista e ensaísta, suicida frustrado, como Michel Foucault, Robert Linhart perseguiu o caminho dos padres operários franceses, advindos da juventude operária católica — JOC, fundada em 1927, na França e ampliada na primeira metade da década de 40 do século XX, pelo Cardeal Emmanuel Celestin Suhard, Arcebispo de Paris, que estimulou o encontro convivente dos sacerdotes com a classe operária em seu meio existencial, emergindo padres motoristas, pedreiros, vigilantes, cozinheiros, artífices, enfermeiros, maquinistas, marceneiros e outros mais, postos sob suspeita pela burocracia do Vaticano, desconfiada de sua proximidade com o Partido Comunista Francês – PCF. O novo filósofo Robert Linhart tornou-se operário de fábrica, transmutou a identidade, liderou a greve da fabricante de automóveis fundada por André Citroën, em 1919, paralisou a França no exercício da militância maoísta e, retornado a si mesmo, escreveu o romance Greve na Fábrica, traduzido para o vernáculo por Miguel Arraes, publicado no Brasil, em cujo ensejo de lançamento o pensador percorreu a Zona da Mata de Pernambuco, escrevendo o ensaio O Açúcar e a Fome, ciceroneado, engenho a engenhos, usina a usina, por Roberto Viana. Não por acaso as edições princesas de Vigiar e Punir e de Microfísica do Poder são, respectivamente, de 1975 e de 1979, aproximando o maior Michel Foucault das temáticas jurídicas e políticas e da concepção da sociedade disciplinar, levando-o a declinar da ideia de revolução e a prestigiar a atitude de revolta, com o seu levantar das bandeiras do Grupo de Informações sobre as Prisões – GIP, da defesa dos intelectuais soviéticos dissidentes, do respaldo à causa dos repudiados imigrantes, de ressignificação da homossexualidade contraposta às estratégias reinantes do biopoder, afinal, da advocacia militante em favor dos direitos humanos, contando, lado a lado, com a presença solidária de Jean-Paul Sartre, aquele a quem imputara a metafísica do sujeito, o qual, mestre do ativismo, não lhe faltaria, mesmo debilitado e a caminho da sua passagem física. O chamamento do Presidente François-Mitterrand — eleito pelo Partido Socialista – PS, em 1981, na terceira tentativa, derrotado pelo general Charles de Gaulle, em 1965 e por Giscard d’Estaing, em 1974, a quem, no pleito seguinte, venceria no segundo turno — foi para que o já militante Michel Foucault o assessorasse na reforma do sistema penitenciário francês, recebendo a seguinte resposta: “nada.” Neste sentido, Alexis de Tocqueville, nos primórdios do século XIX, aceitou o encargo, viajou para os Estados Unidos, produziu relatórios sobre o sistema prisional e, como se não bastasse a desafiante imersão no concreto, recebeu ali a inspiração para escrever A Democracia na América.
Giro histórico, por sua vez, compreendido em duplo sentido: o primeiro, como o tecido espaço-temporal do agir humano, no fluido e difícil cristal da construção da cultura, sob os recorrentes impasses da barbárie e da civilização; o segundo, enquanto disciplina, que mereceu no século XIX, de Karl Marx e de Friedrich Engels, a eloquente consideração, em A Ideologia Alemã, de que é a única ciência que existe. Retórica à parte, se a atitude militante, por sua natureza condicionada e interventiva, buscou responder, na jornada foucaultiana, à primeira hipótese, à segunda e epistêmica possibilidade, Michel Foucault concorreu em dialogia com os historiadores, em contato em que aparece disposto a “situar-se num por fora da história, o que explica as relações no mínimo ambíguas, e, com frequência, conflitantes com a corporação historiadora.” Em uma viragem de cento e oitenta graus, o pensamento foucaultiano, desde “a noção de episteme”, de As Palavras e as Coisas, vai ao encontro “da noção de prática discursiva”, de A Arqueologia do Saber, que tangencia “o paradigma estrutural da esfera exclusiva do discurso, aproximando-o, assim, do marxismo.” Recorde-se que, quando dos embates entre o existencialismo, de Jean-Paul Sartre (é o sujeito quem pensa) e o estruturalismo, de Michel Foucault (quem pensa é o sistema), o autor de O Ser e o Nada, em 1960, publicara a Crítica da Razão Dialética, em que o filósofo ressignificou o mundo e o homem como históricos e articulou, à sua maneira, existencialismo e marxismo, redefinindo o primeiro, como um humanismo e o segundo, como a filosofia insuperável do nosso tempo.
(continua na próxima edição)
Legenda “Michel Foucault em seu primeiro centenário de nascimento: o que ficou no tempo? O que já é eternidade?: parte I_1”: fotografia de Rossini Corrêa.
Rossini Corrêa: Escritor, Advogado e Professor, membro da Academia Brasiliense de Letras, da Academia Maranhense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Academia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política, da Associação Nacional de Escritores e da Sereníssma Academia Agostiniana.










