Cultura

Maricarmen e um erro | Sérgio Firmino Mendes

Caminhando sob um outono sem margens, chutando ouriços, perseguindo a sombra apressada de minha mãe, procurávamos homens e mulheres acamados, reformados sem serventia, almas com dívidas no minimercado. Minha mãe queria encher uma camioneta para visitar a Virgem.

 

Batemos a portas que não se abriam desde o último funeral. Conversámos com mulheres atadas aos ferros da cama, erguemos homens tombados no sofá e no soalho, afugentámos galinhas que bicavam sementes e migalhas, sacudimos as moscas do lanche da tarde. Eu escutava, com o caderno das dívidas debaixo do braço. A cada nome que se inscrevia na viagem, riscava uma linha a lápis, devagar, para que ninguém visse. Lá em cima, perto da floresta do anjo, o sino chamava para o velório de mais um. Minha mãe benzia-se sem abrandar o passo.

 

— Este já não vem — dizia. E seguíamos para casa.

 

Três meses depois, no início de maio, sessenta velhos ocuparam sessenta lugares marcados. A camioneta cheirava a naftalina, a água-de-colónia, a laranjas descascadas no colo. Houve quem dançasse e quem dormisse de boca aberta. Houve quem visse o mar pela primeira vez e o confundisse com uma planície que não acabava.

 

Ajoelhados diante de santos de barro, uns pediram mais um ano de viagem, outros saúde para ver os filhos e os netos que emigraram. Minha mãe pediu qualquer coisa que lhe enrugou o sorriso. Perguntei-lhe o quê. Respondeu que os pedidos contados não chegam ao céu, perdem-se no caminho como as cartas mal endereçadas.

 

No regresso, contou as cabeças com o dedo. Sessenta. No ano seguinte percebi que contara também as que não voltariam a sentar-se ali. O caderno ficou cheio de linhas riscadas. O minimercado fechou alguns invernos depois.

 

Décadas mais tarde, visitei minha mãe num quarto de renda cara, num lar para velhos bem tratados, atada aos ferros da cama. Para não cair, disseram-me. Ela, que passara a vida a desatar os outros. Deixaram-nos a sós. Balbuciou sopros indecifráveis.

 

— Obrigado, mãe.

 

Apertou-me o pulso. Talvez tivesse pedido: leva-me a casa.

 

Não a levei.

 

Minha mãe não se chamava Maricarmen. Chamava-se Custódia. Enganava-se nas contas e nas palavras, porque nunca foi à escola. Enganou-se nas dívidas que perdoou. Enganou-se nos santos: rezou aos de barro e carregou às costas os de carne, que não chegaram ao ano seguinte. Eu enganei-me uma vez, num quarto onde ninguém nos via.

 

Maricarmen foi uma velha do outro lado da fronteira. Despejaram-na da casa onde vivia e foi morrer numa cama de hospital. A ela, tiraram-lhe a casa à força. À minha mãe, tirei-a eu, com uma mensalidade e boas intenções.

 

Nenhuma das duas morreu em casa.

 

Ficaram as casas. São hoje ruínas de um tempo em que ainda se podia habitar, e morrer, de graça.

 

Sérgio Firmino Mendes

10 de outubro de 2026

fotografia de Sérgio Firmino Mendes

Sérgio Firmino Mendes, nascido em 1974, escreve para adultos e crianças há mais de vinte anos. Para além de poesia, teatro e contos infantis, também escreveu dois romances: «O Quarto da Mãe» e «Obediência», editados em 2018 e 2023, respetivamente. Físico de formação, é professor na Escola Pública e moderador na Rádio Transforma. Atualmente, reside na Maia, na companhia da sua família.

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