Cultura

O homem que apanhava flores | Tiago Alves Costa

Foto de YiChuan Li na Unsplash

Ontem 

apanhava flores 

e sem querer provoquei 

uma guerra 

 

Os exércitos organizavam fileiras 

e eu tentava explicar: 

 

eu só apanhava flores, meu deus 

 

Ao local da guerra 

chegou um especulador imobiliário 

e perguntou: 

 

quem é que andou a apanhar flores no meu terreno? 

 

E eu 

que apanhava flores, 

ergui o braço com a serenidade 

de quem a fome 

 

Entretanto, 

aproximou-se alguém de mim 

afirmando ser um técnico da Protecção Civil,

alguém firme nas suas duas pernas 

a guerra desmatara 

uma larga porção de terreno florido. 

Olhou o local com minúcia e avisou: 

 

está proibido por lei tocar na paisagem 

 

Eu ia responder algo 

com base científica 

mas pensei para mim mesmo: 

 

tenho fome, meu deus 

 

Os jornais, todavia, anunciavam: 

 

CULPADO: O HOMEM QUE APANHAVA FLORES 

 

A Opinião Pública reiterava: 

 

CULPADO: O HOMEM QUE APANHAVA FLORES 

 

Enquanto eu ia insistindo ao meu jeito: 

 

só apanhava flores 

 

Ao local da guerra 

chegou um juiz desembargador, 

deu duas voltas sobre si mesmo 

e declarou: 

 

este terreno está embargado 

 

Apresentou os papéis legais do terreno 

e a guerra parou por uns minutos. 

 

Houve alguém que aproveitou para ir comprar flores.

Olharam-me com olhos de noite-lenta,

pensaram que talvez eu fosse mesmo inocente 

mas a guerra prosseguiu. 

 

Pensei em repetir que só apanhava flores 

mas preferi dizer: 

 

não deve ser à toa que a gente nasce a gritar 

 

O comentador de televisão aproveitou para afirmar: 

 

nunca se ganharam guerras com flores 

 

O prospector imobiliário acrescentou: 

 

tenho óptimos terrenos para se fazerem novas guerras 

 

A Opinião Pública insistiu: 

 

CULPADO 

 

Subitamente, chegou o mau tempo, 
e ambos os exércitos abrigaram-se debaixo de um toldo  
mil rostos de horizontes infindáveis 
sob a chuva intensa que caía melancolicamente, 
pressagiando uma derrota colectiva  

 

Então, os generais decidiram 

que seria melhor enviar os seus soldados pelo mundo 
para apanhar flores. 

 

Assim, a guerra  

sem que ninguém esperasse, 

acabou. 

 

Eu 

nunca mais voltei a apanhar flores. 

 

E outras guerras de menor interesse 

iniciaram-se na cabeça dos humanos. 

 

Nota: este poema faz parte do livro “Deus ainda usa o Windows 10” de Tiago Alves Costa, publicado em 2026 pela The Poets & Dragons Society.

 

fotografia de Tiago Alves Costa.

Tiago Alves Costa (Vila Nova de Famalicão). É escritor, poeta e docente com obras publicadas na Galiza, Portugal, Brasil e Canadá. Deus ainda usa o Windows 10 é o seu terceiro livro de poemas. Tem a sua obra publicada em várias antologias, incluindo World Anthology Border: Blurred & Political [Universidade de Victoria, Canadá] e Antologia de Poesia Ibero-americana Atual [Exlibric, Espanha]. O seu conto A Porta do Reconhecimento foi premiado na 27.ª edição do Prémio Manuel Murguia de Narrativas Curtas. Além disso, escreve textos e adaptações para teatro, como CUBO (obra finalista dos XXVI Prémios de Teatro María Casares) e a obra Revolution – Título Provisório, uma coprodução de quatro companhias de teatro portuguesas (Asta, Teatrão, Baal17 e D`Orfeu) para celebrar os 50 anos do 25 de Abril. Em 2023, coordenou a antologia de poesia em língua portuguesa A Boca no Ouvido de Alguém – Corpo-Identidade-Língua (Através Editora). É fundador e editor da revista digital de artes, letras e ciência Quiasmo. Tornou-se o primeiro português a ser membro da Associação de Escritores e Escritoras em Língua Galega. É professor associado na BAU, Centro Universitário de Artes y Diseño de Barcelona.

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