
Ontem
apanhava flores
e sem querer provoquei
uma guerra
Os exércitos organizavam fileiras
e eu tentava explicar:
eu só apanhava flores, meu deus
Ao local da guerra
chegou um especulador imobiliário
e perguntou:
quem é que andou a apanhar flores no meu terreno?
E eu
que apanhava flores,
ergui o braço com a serenidade
de quem a fome
Entretanto,
aproximou-se alguém de mim
afirmando ser um técnico da Protecção Civil,
alguém firme nas suas duas pernas
a guerra desmatara
uma larga porção de terreno florido.
Olhou o local com minúcia e avisou:
está proibido por lei tocar na paisagem
Eu ia responder algo
com base científica
mas pensei para mim mesmo:
tenho fome, meu deus
Os jornais, todavia, anunciavam:
CULPADO: O HOMEM QUE APANHAVA FLORES
A Opinião Pública reiterava:
CULPADO: O HOMEM QUE APANHAVA FLORES
Enquanto eu ia insistindo ao meu jeito:
só apanhava flores
Ao local da guerra
chegou um juiz desembargador,
deu duas voltas sobre si mesmo
e declarou:
este terreno está embargado
Apresentou os papéis legais do terreno
e a guerra parou por uns minutos.
Houve alguém que aproveitou para ir comprar flores.
Olharam-me com olhos de noite-lenta,
pensaram que talvez eu fosse mesmo inocente
mas a guerra prosseguiu.
Pensei em repetir que só apanhava flores
mas preferi dizer:
não deve ser à toa que a gente nasce a gritar
O comentador de televisão aproveitou para afirmar:
nunca se ganharam guerras com flores
O prospector imobiliário acrescentou:
tenho óptimos terrenos para se fazerem novas guerras
A Opinião Pública insistiu:
CULPADO
Subitamente, chegou o mau tempo,
e ambos os exércitos abrigaram-se debaixo de um toldo
mil rostos de horizontes infindáveis
sob a chuva intensa que caía melancolicamente,
pressagiando uma derrota colectiva
Então, os generais decidiram
que seria melhor enviar os seus soldados pelo mundo
para apanhar flores.
Assim, a guerra
sem que ninguém esperasse,
acabou.
Eu
nunca mais voltei a apanhar flores.
E outras guerras de menor interesse
iniciaram-se na cabeça dos humanos.
Nota: este poema faz parte do livro “Deus ainda usa o Windows 10” de Tiago Alves Costa, publicado em 2026 pela The Poets & Dragons Society.
Tiago Alves Costa (Vila Nova de Famalicão). É escritor, poeta e docente com obras publicadas na Galiza, Portugal, Brasil e Canadá. Deus ainda usa o Windows 10 é o seu terceiro livro de poemas. Tem a sua obra publicada em várias antologias, incluindo World Anthology Border: Blurred & Political [Universidade de Victoria, Canadá] e Antologia de Poesia Ibero-americana Atual [Exlibric, Espanha]. O seu conto A Porta do Reconhecimento foi premiado na 27.ª edição do Prémio Manuel Murguia de Narrativas Curtas. Além disso, escreve textos e adaptações para teatro, como CUBO (obra finalista dos XXVI Prémios de Teatro María Casares) e a obra Revolution – Título Provisório, uma coprodução de quatro companhias de teatro portuguesas (Asta, Teatrão, Baal17 e D`Orfeu) para celebrar os 50 anos do 25 de Abril. Em 2023, coordenou a antologia de poesia em língua portuguesa A Boca no Ouvido de Alguém – Corpo-Identidade-Língua (Através Editora). É fundador e editor da revista digital de artes, letras e ciência Quiasmo. Tornou-se o primeiro português a ser membro da Associação de Escritores e Escritoras em Língua Galega. É professor associado na BAU, Centro Universitário de Artes y Diseño de Barcelona.










