Cultura

O luto da Ti Antónia | Sílvia Quinteiro

Foto de Katsiaryna Endruszkiewicz na Unsplash

Foi assim…

Casaram em abril de 1958, na igreja matriz, com as amendoeiras já despidas de flor e as searas ainda verdes. Ela tinha vinte anos; o Joaquim, vinte e um. Em junho, ele abalou para a Venezuela com uma mala de cartão atada com um cinto e a promessa de mandar a carta de chamada assim que arranjasse trabalho certo e um teto para os dois.

 

– Coisa de meses – disse-lhe à porta, no momento da despedida. Pôs o chapéu e virou costas.

 

A Antónia ficou a ver a carrinha descer a serra até a poeira assentar.

 

As primeiras cartas chegaram com regularidade, na última semana de cada mês. Vinham cheias de palavras que ela lia devagar e depois guardava numa caixa de lata. Falavam do calor, das obras, de um patrão português que o tratava bem, de uma terra de oportunidades e de dinheiro que em breve havia de sobrar.

 

Depois, as cartas foram rareando. De dois em dois meses. Depois de seis em seis. Uma pelo Natal, outra quando calhava. Mais curtas, mais secas. Até que, a certa altura, deixaram de chegar.

 

A Antónia esperou. Esperou um ano, depois outro e mais outro. E, aos poucos, foi deixando de perguntar ao carteiro se tinha alguma coisa para si. Um dia parou de o fazer.

 

Foi por essa altura que se vestiu de preto. Ninguém lhe disse que o Joaquim tinha morrido. Mas, para ela, um homem que não escrevia à mulher só podia estar debaixo do chão. Enviuvara. Estava de luto, e jurou, diante da mãe, dos irmãos e de quem a quisesse ouvir, que nunca mais havia de casar. Tinha vinte e poucos anos. Cumpriu a promessa até ao fim.

 

Viveu sempre ali, agarrada à família, a tratar da pequena horta onde não faltavam couves, favas, ervilhas e tomate. Criava galinhas, cabras, coelhos e, às vezes, um porco. Ajudou a cuidar dos sobrinhos, que lhe tinham mais medo do que amor, por causa do negro da roupa e do pouco riso.

 

– Coitadinha da Antónia – diziam as vizinhas, baixando a voz.

 

Quando a mãe morreu e a casa velha começou a pingar por todo o lado, o irmão mais novo fez-lhe um anexo encostado à casa dele. Uma cozinha, um quarto, uma janela virada para as alfarrobeiras. Não queria que ela vivesse só. Foi ali que a Antónia passou os últimos anos, de lenço preto na cabeça e a caixa de lata das cartas na gaveta da mesa de cabeceira. Todos conheciam a tristeza da ti Antónia. Todos a respeitavam. Todos evitavam tocar no assunto.

 

Morreu num inverno, sem um ai ou uma lamúria.

 

– Acordou morta – diziam os vizinhos.

 

Uns anos mais tarde, o irmão confessou à família ter guardado um segredo. Em finais dos anos sessenta, um amigo que tinha emigrado para a Venezuela dera com o Joaquim. Estava vivo. Tinha mudado de cidade, conhecido uma venezuelana e casado com ela. Tinha três filhos, uma casa com varanda, um negócio que lhe corria bem. Vivia feliz. E nunca soubera como dizer à mulher que deixara em Portugal que não voltava.

 

– E o avô nunca lhe contou?

 

– Nunca tive coragem. Ela já andava de luto. O que é que eu lhe havia de dizer? Que tinha chorado um homem vivo?

 

II

Ou talvez…

Casaram em abril de 1958, na igreja matriz, com as amendoeiras já despidas de flor e as searas ainda verdes. Ela tinha vinte anos; o Joaquim, vinte e um. Casou porque o pai assim decidiu, porque o Joaquim tinha umas terras e boa fama de trabalhador, porque uma rapariga da serra, naquele tempo, não dizia que não. Casou contrariada, de olhos postos no chão, e passou a noite de núpcias a contar as traves do teto.

 

Em junho, ele abalou para a Venezuela com uma mala de cartão atada com um cinto e a promessa de mandar a carta de chamada assim que arranjasse trabalho certo e um teto para os dois.

 

– Coisa de meses – disse-lhe à porta, no momento da despedida. Pôs o chapéu e virou costas.

 

A Antónia ficou a ver a carrinha descer a serra até a poeira assentar. Depois entrou em casa, tirou os sapatos e respirou fundo, como não respirava desde abril.

 

As primeiras cartas chegaram com regularidade, na última semana de cada mês. Lia-as devagar, sentada no poial, com o coração aos saltos. Não de saudade: de medo. Procurava, em cada linha, a palavra que a obrigaria a fazer as malas. Quando não a encontrava, dobrava o papel, guardava-o na caixa de lata e ia regar a horta a cantarolar.

 

A simples ideia de atravessar o mar aterrorizava-a. Mas pior do que isso era imaginar o que a esperava do outro lado: uma casa, um homem, uma barriga atrás da outra. A mãe parira sete filhos naquela casa, tinha ouvido os gritos pelas paredes, tinha lavado os lençóis. Tinha visto dois irmãos pequenos irem a enterrar. Tinha visto a mãe envelhecer vinte anos em dez. Pedia ajuda a Deus e a Nossa Senhora. Rezava fervorosamente. Sabia que só um milagre a poderia salvar daquele destino.

 

Depois, as cartas foram rareando. De dois em dois meses. Depois de seis em seis. A Antónia percebeu antes de toda a gente. Não era preciso ser muito esperta: um homem que escreve cada vez menos é um homem que tem cada vez menos para dizer. Ou alguém novo a quem dizê-lo. Quando as cartas deixaram de vir, não perguntou nada a ninguém. Ia à venda, é certo, mas era para comprar sal e petróleo. E se o carteiro por lá estava e abanava a cabeça, ela abanava a dela também, muito séria, pesarosa, e saía de lá com o coração leve como uma pena.

 

Passados quatro anos, vestiu-se de preto dos pés à cabeça. Não lhe fizeram perguntas. Pobre viúva. O luto dava-lhe a tranquilidade de quem sabe que uma mulher vestida de negro não é cortejada, nem ninguém lhe pergunta pelos filhos que não teve.

 

Jurou, diante da mãe, dos irmãos e de quem a quisesse ouvir, que nunca mais havia de casar. Nunca uma promessa custou tão pouco a cumprir.

 

Viveu sempre ali, agarrada à família, a tratar da pequena horta. Criava galinhas, cabras, coelhos e, às vezes, um porco.

 

Dócil e dedicada, ajudou a cuidar dos sobrinhos. Era exatamente o que desejara: crianças que não tinham saído de dentro de si, que chegavam de manhã e se iam embora à noite.

 

– Coitadinha da Antónia – diziam as vizinhas, baixando a voz.

 

Ela ouvia e deixava dizer. Não procurava notícias, não fossem trazer o Joaquim de volta.

 

À noite, de joelhos junto à cama, rezava por ele. Não para que voltasse. Não lhe queria mal nenhum, coitado do homem. Pedia que ele tivesse encontrado a felicidade noutro sítio. Que tivesse uma mulher que gostasse dele, filhos, uma casa bonita. E que ficasse por lá para sempre. Amém.

 

Quando a mãe morreu e a casa velha começou a pingar por todo o lado, o irmão mais novo fez-lhe um anexo encostado à casa dele. Uma cozinha, um quarto, uma janela virada para as alfarrobeiras. Perfeito: um canto só seu.

 

Numa tarde de setembro, o irmão sentou-se ao lado dela no poial. Andava com uma coisa atravessada na garganta.

 

– Antónia, há uma coisa que eu te devia ter dito há muitos anos.

 

Ela continuou a descascar as batatas.

 

– Do Joaquim?

 

Ele ficou calado. Ela pousou a faca no colo.

 

– Casou lá, não foi?

 

– Como é que tu sabes?

 

– Não sei. – Pegou outra vez na faca. – E tu também não me vais contar, Manel. Deixa-o estar onde está. Deixa-me a mim estar onde estou.

 

III

Quem sabe se…

Casaram em abril de 1958, na igreja matriz, com as amendoeiras já despidas de flor e as searas ainda verdes. Ela tinha vinte anos; o Joaquim, vinte e um. Ninguém na serra se admirou. Havia mais de dois anos que os viam dançar juntos em todos os bailes, de São João a São Martinho.

 

Não faltava quem dissesse que tinham sido feitos um para o outro. E, de certa maneira, tinham.

 

Foi num baile de verão que o perceberam. Ela, encostada à parede, a fugir dos rapazes que a vinham buscar com as mãos suadas e o hálito a aguardente. Ele, à porta, a fugir das raparigas que as mães lhe empurravam para os braços. Os olhares cruzaram-se por acaso e, naquela noite, viram-se um no outro. Ele atravessou a pista e estendeu-lhe a mão. Ela aceitou.

 

– Tu também não queres estar aqui, pois não? – perguntou-lhe ele ao ouvido, a meio de uma valsa.

 

Ela não respondeu. Apertou-lhe a mão com força, e foi o suficiente.

 

A partir dessa noite, dançaram sempre juntos. Ele ia buscá-la a casa ao domingo, conversava com o pai dela sobre a chuva, o preço das amêndoas, a apanha da laranja. Depois saíam para passear. Iam pela estrada até à fonte e voltavam antes do escurecer, como mandava a decência. As mães, que já tinham perdido a esperança de os ver desencalhar, suspiravam de alívio. Os pais apertavam as mãos. A vizinhança admirava a harmonia do casal, que só podia ter sido talhado no céu.

 

Na fonte, longe de todos, falavam do que não podiam falar em mais sítio nenhum: ele, de um rapaz de Loulé que conhecera na feira e nunca mais vira; ela, da Maria da Luz, a costureira, que lhe tirava as medidas com todo o vagar. Riam-se baixinho, e depois calavam-se. Sabiam bem que na serra não havia lugar para o seu mundo.

 

E foi na fonte, à vista e às escondidas de todos, que fizeram o acordo. Casariam, para que os deixassem em paz. Ele emigraria logo a seguir para a Venezuela, onde ninguém o conhecia. Escreveria umas cartas no princípio, para que ninguém desconfiasse, cada vez menos, até deixar de escrever. Não voltaria. Ela esperaria o tempo que parecesse razoável e depois vestir-se-ia de preto. O luto faria o resto.

 

– E se te quiserem casar outra vez? – perguntou ele.

 

– Viúva de marido desaparecido não casa, Joaquim. Fica à espera. A vida toda, se for preciso.

 

Casaram. Na noite de núpcias, riram-se até às lágrimas da cama que a mãe dela tinha feito com os lençóis bordados do enxoval. Seguiram-se os dois meses mais tranquilos das suas vidas: dois amigos debaixo do mesmo teto.

 

Em junho, ele abalou para a Venezuela com uma mala de cartão atada com um cinto.

 

– São só uns meses, Antónia – disse-lhe à porta, no momento da despedida, garantindo que todos ouviam. E depois, ao ouvido:

– Sê feliz, Antónia.

 

– Tu também, querido Joaquim – respondeu.

 

Ele pôs o chapéu e virou costas.

 

A Antónia ficou a ver a carrinha descer a serra até a poeira assentar. Chorou. Perdia o melhor amigo, o único homem que alguma vez a tinha entendido.

 

As cartas chegaram como combinado, na última semana de cada mês. Falavam do calor, das obras, de um patrão português que o tratava bem. Ela lia-as em voz alta à mãe, à sogra e às vizinhas. Ao fim de um ano, chegou a última: «Encontrei um sócio e temos agora um negócio só nosso», dizia. À volta dela, foi uma festa. A sogra benzeu-se, a mãe chorou, as vizinhas juraram que a carta de chamada era coisa de semanas e que o Joaquim havia de voltar rico. A Antónia sorria e deixava-as falar. O coração batia-lhe depressa, tomado pela alegria que sentia por ele.

 

Depois dessa, não veio mais nenhuma. A Antónia deixou passar um ano, e mais outro. Então, tal como tinham combinado junto à fonte, vestiu-se de preto.

 

Foi a Maria da Luz, que entretanto enviuvara, quem lhe fez os vestidos de luto. Todos. Durante quarenta anos, vinha à serra aos sábados tirar medidas, provar bainhas, trazer tecido novo, e ficava até domingo, porque a camioneta de volta era cedo e a Antónia estava tão só. Toda a gente achou bonita aquela amizade. Duas viúvas a fazerem companhia uma à outra.

 

Quando a mãe morreu e a casa velha começou a pingar por todo o lado, o irmão mais novo fez-lhe um anexo encostado à casa dele. Não queria que ela vivesse sozinha. Uma cozinha, um quarto, uma janela virada para as alfarrobeiras. A Maria da Luz, entretanto, também envelhecera, e já não tinha pernas para a camioneta todas as semanas. Um dia, trouxe a máquina de costura. Depois, a roupa. Amparavam-se. Ninguém estranhou.

 

Anos depois, já velhos os dois, o irmão sentou-se ao lado dela no poial. Contou-lhe que, nos anos sessenta, um amigo que vivia na Venezuela dera com o Joaquim. Estava vivo. Tinha mudado de cidade. A empresa que montara com o sócio era já um pequeno império. Vivia para o trabalho. Confessou que guardara o segredo durante décadas:

– Como não voltou a casar, achei que podia voltar para ti, compreendes?

 

– Compreendo – respondeu a ti Antónia.

 

– Perdoas-me?

 

– Claro. Não te preocupes. – Baixou a cabeça. 

 

O irmão, julgando-a a chorar, afastou-se.

 

A ti Antónia morreu naquele inverno, sem um ai ou uma lamúria, com a mão da Maria da Luz na sua. Quando lhe esvaziaram a gaveta da mesa de cabeceira, encontraram a caixa de lata com as cartas. Por baixo de todas, uma fotografia pequena, de bordos recortados, tirada num baile de verão por um fotógrafo ambulante: um rapaz e uma rapariga a dançar, muito direitos, muito sérios, de mãos dadas.

 

Os sobrinhos acharam que era a prova do grande amor da tia pelo seu Joaquim.

 

E era.

fotografia de Silvia Quinteiro.

Sílvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).

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