
NÃO NA PALESTINA
Acordo
com o cheiro do café,
me arrasto até a cozinha,
mas, no centro da mesa,
é uma esfera dourada
refletindo a luz da manhã
que desperta o meu desejo.
Bom dia, meu amor,
e pego a faca
entre o pão caseiro
e uma caneca fumegante.
Parece que vai ser
um dia bom.
Corto a laranja ao meio,
no exato momento
em que uma criança
tem um braço decepado
e o olho direito
de uma senhora, viúva,
é estourado
por um estilhaço de metal.
Mas eu não sei disso.
O sangue doce da fruta
na minha boca
e a visão do marido
bebendo o café
quase sem pressa
confirmam:
o dia vai ser bom.
*
PRATOS NA PIA
Os pratos intactos na pia
os talheres, os copos de vidro
nenhum se quebrou, nenhum a menos.
Na escola de Minab
as meninas assassinadas
pelos Estados Unidos e Israel
as meninas
não ressuscitaram.
Dias atrás perdi um amigo
(desistir é um direito?)
e logo depois
o meu cachorro se foi.
“Imagino que a guerra ficou menor,
né, amigo?” — alguém teve
a coragem de me dizer.
Não tive o ânimo de responder.
Os pratos intactos na pia
e as notícias na Internet
me dizem justamente o contrário.
Nem a morte de um
nem o extermínio de milhares
faz diferença na Grande Vergonha
que construímos sem pressa.
Séculos e livros e armas
pacientemente sobrepostos.
Olho de novo a pia.
Talvez não seja que chegamos
“num ponto em que” — talvez
somente as coisas
tenham sido solidárias desde sempre.
Somente as coisas
tenham mantido sua própria ética.
Eleazar Carrias é poeta e pedagogo. Cursou o mestrado na Universidade de Brasília e o doutorado na Universidade Federal do Pará, ambos em educação. Publicou os livros Máquina (Urutau, 2021), Regras de fuga (e-galáxia, 2017; Urutau, 2023), e Quatro gavetas (Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, 2009). Com Máquina, foi semifinalista do Prêmio Oceanos de 2022, e finalista do 4º Prêmio Mix Literário.










