Sociedade

Policrise: a saída não está na política, mas na cultura: parte II | Antonio Sales Rios Neto

Foto de Mohamed Fsili na Unsplash

Política, uma derivação judaico-cristã e greco-romana

 

Aristóteles havia vaticinado a ideia do ser humano como um animal político e racional, que só alcançaria sua plena realização, virtude e felicidade vivendo de acordo com a política instituída na pólis, a cidade-estado. No entanto, contrariando o ideário ocidental de que há um suposto progresso civilizatório conduzido racionalmente, a história do Homo sapiens tem sido, desde a antiguidade, um continuum de guerras, massacres e destruições, o que confirma que o ato de fazer política, que tem pelo menos 2.500 anos de existência, nunca se constituiu como um meio efetivo de superação dos males humanos. Entre lampejos de sensatez política – a exemplo de Sólon e Péricles, em Atenas; ou dos “cinco bons imperadores” de Roma, segundo Maquiavel –, o que sempre predominou foi a irracionalidade e a insensatez política. Como bem expressou o escritor britânico John Gray, “a política é arte de inventar remédios temporários para males recorrentes – uma série de expedientes, não um projeto de salvação.”

 

A política, assim como a noção de poder, é apenas mais um dos muitos conceitos constitutivos do Ocidente, derivado dos ideais greco-judaicos que irromperam nos primórdios da formação da cultura ocidental. A política é um meio de lidar com relações assimétricas de poder, cuja origem provavelmente remonta a um contexto de época em que se buscava uma forma de racionalizar (por ordem) as conflituosas relações de poder (no caos) inerente à vida na pólis. Por outro lado, a própria noção de poder é um fenômeno decorrente do desejo de apropriação que caracteriza o que Maturana chamou de cultura patriarcal, esse novo modo de viver que (em oposição às culturas pré-patriarcais ou matrísticas precedentes) ganhou predominância provavelmente após as sucessivas invasões kurgan ocorridas na Europa Antiga – o fenômeno antropológico-cultural que teria provocado a ruptura no processo civilizatório, conforme mencionamos antes.

 

Sob essa perspectiva, quem talvez tenha conseguido identificar melhor as forças que forjaram o nascimento da política na pólis grega, e que continuam atuando até os dias atuais, foi o escritor e economista francês Jacques Attali, quando disse: “três poderes sempre coexistiram: o religioso, que fixa o tempo das preces, dá ritmo à vida agrícola e determina o acesso à vida futura. O militar, que organiza a caça, a defesa e a conquista. O comercial, que produz, financia e comercializa os frutos do trabalho.”

 

Assim, a política constitui um sistema de mediações gerido no âmbito de instituições forjadas no mundo ocidental: o exército, a igreja, o Estado e o mercado, todos regidos por um emocionar na apropriação, em disputa permanente pelo monopólio do poder e da violência. A política é, portanto, uma invenção histórica e contingente. Ela não deriva de um processo filogênico como ocorreu com a sociabilidade animal, que precisou de milhões de anos para se constituir. Sua história é a história de disputas territoriais e mecanismos de regulação social restrita a uma circunstância imposta pela cultura, no caso, a cultura ocidental. Faz parte da estrutura cognitiva que governa o mundo apenas a partir de uma confluência de ideais de vida surgidos na Grécia Antiga, Fenícia, Mesopotâmia e noutros povos que habitavam as cercanias do Mediterrâneo, berço da cultura ocidental. 

 

O que hoje chamamos de “fazer política” não é um desdobramento constitutivo da natureza do animal humano. A política não é um atributo biológico do humano, mas um produto histórico dessa matriz cultural muito específica, que forjou aquilo que podemos chamar de ocidente cognitivo. Esse fenômeno cultural decorre de duas principais construções psíquicas que se reforçam mutuamente:

1) a herança judaico-cristã: a partir dela foi se estabelecendo a crença numa ética monoteísta, forjando a noção de universalismo e criando a teleologia. Seu principal desdobramento é a racionalização e naturalização das hierarquias. A partir dessa herança, emergiu gradualmente uma concepção de tempo linear, com um início, propósito histórico e um destino final (o Telos) em contraste com as cosmovisões cíclicas das culturas pré-patriarcais. Diversas evidências arqueológicas sugerem que, na Europa Antiga, haviam culturas neolíticas organizadas sob um “modelo de parceria”, cooperativo e não hierárquico — sociedades mais igualitárias onde predominava, desde o Paleolítico Superior, uma transcendência associada às divindades femininas, ao culto a uma Deusa-Mãe provedora da vida e da fertilidade, uma vez que vigoram cosmovisões cujas culturas percebiam-se interdependentes e indissociáveis do mundo natural.

 

2) a herança greco-romana: influenciada e imbricada com a herança judaico-cristã, ela concebeu e aperfeiçoou o desenvolvimento da pólis, reformulando o “modelo de dominação” patriarcal pré-existente. Por meio das ágoras (praças públicas), cristalizou-se a ideia de que os assuntos da cidade deveriam ser decididos pelo debate supostamente racional entre os “cidadãos” atenienses. No entanto, a política que aflorou na pólis grega já nasce amparada na exclusão de mulheres, escravos e estrangeiros (metecos). Ela consolidou o espaço público como um domínio estritamente masculino, aristocrático, branco e belicoso. A transição para a pólis grega marcou uma espécie de normalização do “modelo de dominação” desencadeado pelas ondas migratórias dos chamados povos kurgan (migrações indo-europeias), onde a política passou a ser a gestão das cidades-estado, das instituições, das fronteiras, dos recursos, das apropriações e, principalmente, da guerra.

 

A tradição judaico-cristã introduziu o elemento moral e transcendente justificador de um cosmos ordenado e supostamente harmonioso, na tentativa de opor-se a um caos social que reinava no tempo dos impérios. O mundo greco-romano forneceu, por meio do debate, do direito e da lei escrita, uma forma institucional a este cosmos, culminando na formação do Estado soberano, supostamente racional e redentor. Esta imbricação constitui a essência da política até hoje.

 

A implicação mais nefasta deste longo processo foi ter forjado a percepção de separação entre homem e natureza. Estabeleceu-se, assim, uma cosmogonia que colocou o homem, literalmente, como senhor da Criação, com a missão de dominar a Terra, despojando o mundo natural de sua complexidade, interdependência e autorregulação. A natureza deixou de ser um ente participativo nas decisões coletivas para se tornar mero “recurso” a ser administrado pela política em busca de um suposto bem comum, mas que só teve como beneficiário uma parcela mínima da humanidade, que, via de regra, restringiu-se ao europeu branco, masculino, afortunado, supostamente superior às maiorias marginalizadas: mulheres, negros, indígenas, ciganos e povos colonizados.

 

O ato de fazer política é, essencialmente, uma derivação greco-romana e judaico-cristã de perceber e moldar o mundo segundo esse entendimento. A percepção de que há uma Entidade transcendente no controle da realidade transmutou-se para a política primeiro nas cidades-estado e depois na forma do Estado soberano, com leis universais que, pouco a pouco, foram se sobrepondo às tradições locais. Foi assim que se pavimentou o caminho para uma sucessão de impérios hegemônicos: iniciando com o Império Romano (27-395 d.C.), seguido dos impérios Bizantino (395-1453), Romano-Germânico (800-1806), Britânico (1583–1783) e agora o decadente imperialismo Americano (1803-2001), que liderou a ordem internacional liberal baseada em regras, que vigorou nos últimos 80 anos. 

 

Política, meio de legitimação e conservação da cognição ocidental

 

A política certamente foi praticada pelos seres humanos em vários lugares e circunstâncias concomitantes à experiência nas ágoras gregas, sob outras denominações. Mas foi a partir da conservação e prevalência dos ideais do Ocidente que surgiu a política e a democracia como a conhecemos hoje. Os ideais do Ocidente afloraram no momento em que gregos, fenícios e judeus romperam com o entendimento cíclico sobre o mundo e passaram a direcionar os desejos humanos para a razão, a metafísica, a ação e a permanente busca do novo, todos convergindo para a necessidade de progresso, como meio de alcançar uma redenção humana na História, face à destrutividade vivenciada num mundo permanentemente conflagrado, regido pela ordem militar do tempo dos impérios, na antiguidade. 

 

A agressividade humana despertada pelo irromper da cultura patriarcal gerou a necessidade de redenção na História. A cultura judaico-cristã, entrelaçada aos ideais greco-romanos, constitui a manifestação dessa necessidade de aprimoramento humano e salvação a ser alcançada no desdobrar da História. Assim, a ideia de tempo linear e de progresso se sobrepôs às visões cíclicas da vida comuns a várias culturas ancestrais. Mesmo tendo sido gradualmente secularizada, ao longo dos séculos XVI a XIX, essa confluência entre o divino e a razão deu esteio ao mito do progresso inescapável a ser alcançado num suposto espírito do mundo. Essa redenção nos arrastou para o absurdo do crescimento econômico ad infinitum que move o sistema-mundo capitalista e constitui a promessa central de qualquer projeto político moderno.

 

A política nascida em Atenas é, ao mesmo tempo, filha e parteira das guerras. Com a intenção de superá-las, a política terminou amplificando-as a patamares que hoje ameaçam a sobrevivência da humanidade. Antes da política inaugurada na pólis grega, os humanos já se digladiavam localmente fazendo uso de espadas, adagas, punhais, lanças, bigas, catapultas e aríetes. Após o advento da racionalidade política, as armas foram institucionalizadas e se sofisticaram ao longo do tempo. Um dos primeiros armamentos com grande poder de destruição foi o chamado “fogo grego”, usado nos séculos VII ao XIV, que era disparado por lança-chamas primitivos em navios conhecidos como dromons; depois veio a pólvora chinesa, que permitiu o uso de pistolas, mosquetes e canhões; seguido, já no século XX, pelo desenvolvimento de tanques, mísseis, armas químicas, biológicas e cibernéticas; até alcançarmos a adoção de armas nucleares, que, na atualidade, potencializam assustadoramente as recorrentes tensões geopolíticas e flertam com a vertigem da iminência de uma guerra nuclear terminal.

 

Portanto, no seu âmago, a política, embora tenha sido criada como instrumento para gerir e conter a agressividade entre os humanos, constitui-se na verdade num meio de manutenção da cultura patriarcal. Esta se caracteriza, segundo Maturana, “pelas coordenações de ações e emoções que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexistência que valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da verdade”. Logo, a assertiva de Luiz Marques de que “a política é a mais importante invenção de nossa espécie”, uma vez que é ela quem “permite conter e controlar essa agressividade, sublimá-la e canalizá-la para o jogo de enfrentamentos extremos, mas civis e pacíficos”, mais do que uma saída viável para a policrise, constitui o reflexo de uma armadilha cognitiva que precisa ser urgentemente neutralizada. 

 

A política é um desdobramento dos ideais greco-judaicos e seus sucedâneos romano-cristão. Como tal, não podemos esperar que ela sirva a algo que negue os pressupostos sobre os quais ela foi criada. Isso equivale ao mesmo fenômeno – que também opera no âmbito da linguagem – que Maturana chamou de “conversações recorrentes que negam a democracia”. A política é, portanto, uma resultante da cognição ocidental que, ao longo da história, serviu tão somente aos seus senhores: primeiro aos generais, depois aos sacerdotes e, agora neste conflagrado século XXI, aos mercadores. Ou seja, a política constitui-se e sempre esteve a serviço das armas, da fé monoteísta e, neste agônico século XXI, do mercado.

 

Não à toa, o realismo político tem sido a abordagem teórica mais tradicionalmente aceita em ciência política, sobretudo no entendimento das relações interestatais. A realpolitik foi a abordagem que melhor captou a relação entre os homens e suas instituições como ela é, e não como ela deveria ser. A política articula-se em torno de outros dois conceitos-chave que são o poder e o conflito, também constitutivos da cultura patriarcal, partindo do pressuposto hobbesiano de que a natureza humana é inarredavelmente egoísta, predatória e propensa à conquista e à agressividade. Por isso, os melhores guias para a compreensão da política sempre foram referências como Sun Tzu, Hobbes, Maquiavel. Clausewitz e, mais recentemente, autores como Hans Morgenthau e Kenneth Waltz. Como havia prenunciado Hobbes, “os pactos, não passando de palavras e vento, não têm qualquer força para obrigar, dominar, constranger ou proteger ninguém, a não ser a que deriva da espada pública.” (Hobbes, no capítulo XVII do Leviatã.)

 

No lado oposto do realismo político, expoentes como Aristóteles, Locke, Tocqueville e Kant integram a corrente do idealismo político (para não dizer utópicos). Seguindo as concepções de Maturana, eles na verdade são nostálgicos. Concebem a noção de política e democracia racionalmente, mas as ações humanas, antes de serem racionais, operam no entrelaçamento do emocionar com o linguagear. Portanto, pensadores que seguem esta vertente são provavelmente movidos por um emocionar não patriarcal. Estão, inconscientemente, buscando resgatar um passado ancestral cuja cognição não era regida pela força da espada, mas por um fluir natural na cooperação.

 

Quando afirmamos que a política é uma invenção greco-judaica, depois reforçada pela tradição romano-cristã, estamos constatando o sucesso dessa matriz cognitiva em universalizar seus ideais e sua visão de mundo, impondo-se ao resto do globo como se fosse o único caminho civilizatório viável. A decorrência mais nefasta dessas duas heranças é que, por meio da linguagem entrelaçada à agressividade, forjaram-se as forças constitutivas da cognição ocidental: Estado, soberania, separação homem-natureza, transcendência monoteísta e racionalidade econômica. Tais forças nos conduziram à atual policrise e ao processo de colapso socioambiental, sintomas terminais do que hoje se reconhece por antropoceno, a época em que se submeteu a natureza a serviço da cultura de apropriação ocidental-patriarcal.

 

Os pressupostos que criaram a policrise são os mesmos que a política adota, inutilmente, para resolvê-la. A política tornou-se, desse modo, um meio de legitimação e conservação da cognição ocidental que, mais do que gerenciar interesses dissonantes na busca de um modus vivendi na pólis, tem sido a maior força impulsionadora do conflituoso mundo humano. Esse longo condicionamento cognitivo culmina agora com uma supremacia difusa que nem as religiões monoteístas e nem o Estado controlam, a hegemonia do mercado, essa nova entidade abstrata que capturou a subjetividade humana ao longo de cinquenta anos de hipnose neoliberal. O mercado constitui hoje a principal expressão da política. Firmou-se como novo eixo civilizatório e  indutor comportamental, arrastando as civilizações para o precipício neste século XXI.

 

Portanto, se ainda há uma saída da policrise planetária na qual estamos psiquicamente imbricados, ela está em reconhecer esse fenômeno antropológico cognitivo e resgatar as formas de organização e viver humanos que foram apagadas e silenciadas por essa cultura hegemônica regida pela agressividade. Do ponto de vista da atuação dos nossos desacreditados agentes políticos, essa hegemonia se traduz hoje nas duas principais correntes políticas, ambas desdobramentos da cognição ocidental: 

 

1) a esquerda ainda acredita numa emancipação humana via resgate de uma democracia liberal que só atendeu às elites econômicas dos países do Norte Global, ainda assim, temporariamente. Ela está presa à ilusão de que o Estado pode ser regenerado de sua condição constitutiva de Leviatã, e que o Mercado ainda pode ser domesticado para universalizar o ideal de igualdade e solidariedade entre os povos.

 

2) a ultradireita, em ascensão no mundo todo, negadora da crise climática em andamento, deslegitimadora do ideal de democracia, maior patrocinadora da desconstituição do Estado tripartite idealizado por Montesquieu (que deveria realizar justiça e democracia, mas não o fez), acredita e investe na radicalização do mercado hiperturbinado pelo inebriante mundo das comodidades tecnológicas.

 

As duas são heranças da Revolução Francesa que estabeleceu uma nova divisão para a humanidade. Antes separada entre cristandade e povos não-cristãos, depois entre lobos hobbesianos e cordeiros rousseaunianos. Juntas reverberam os ecos desse ocidente agonizante, mas é a ultradireita que está em franca vantagem porque sabe mobilizar e canalizar a cultura melhor do que a esquerda. Como bem disse o articulista Ricardo Queiroz Pinheiro: “A cultura não é um elemento acessório na luta política; ela é o campo onde se constroem as bases da hegemonia. Quem controla a cultura não apenas domina narrativas, mas define os limites do possível, orienta valores e molda a percepção da realidade. (…) O erro da esquerda foi tratar a cultura como algo secundário, permitindo que a direita ocupasse esse espaço estratégico.”

 

A inelutável catástrofe planetária, última oportunidade de saída da policrise

 

Luiz Marques entende que “nada pode ser considerado impossível diante de uma ameaça existencial” e confia à política essa superação. Embora não vislumbre uma alternativa fora da política, Marques soube formular uma proposta inicial de saída da policrise capaz de desencadear a necessária ruptura civilizacional à altura dos desafios atuais. Sua proposta está consignada na sua reveladora obra O Decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência (Editora Elefante, 2023), em que ele delineia uma “política de sobrevivência das sociedades”, a qual precisaria ter sido articulada e implementada ao longo deste decênio (2021-2030), amparada nos seguintes princípios:

“1- redução emergencial das diversas desigualdades entre os membros da espécie humana;

 

2- diminuição do consumo humano de materiais e de energia;

 

3- extensão da ideia de sujeito de direito às demais espécies, à biosfera e às paisagens naturais;

 

4- restauração e ampliação das reservas naturais e das reservas indígenas, a serem consideradas como santuários inacessíveis aos mercados globais;

 

5- desmantelamento da economia global e transição para uma civilização descarbonizada;

 

6- desglobalização do sistema alimentar e sua transição para uma alimentação baseada em nutrientes vegetais;

 

7- o arcabouço jurídico internacional vigente deve superar o axioma da soberania nacional absoluta em benefício de uma soberania nacional relativa;

 

8- a aceleração da transição demográfica aumenta as chances de sucesso das rupturas acima enunciadas.”

 

Uma proposta dessa magnitude, neutralizadora da cognição ocidental, só pode ser viabilizada no âmbito de uma mudança de cunho antropológico, ou seja, no âmbito de uma transformação da cultura, dos pressupostos que justificam o modo de viver do Homo sapiens moderno ocidentalizado. Esperar que a política opere tal transformação, seria imaginar uma autonegação da própria política. Tanto é assim que, a despeito das inúmeras evidências científicas reunidas nas obras de Marques, os dirigentes políticos e sobretudo o mercado, em prol do qual trabalham, continuam subestimando o processo de colapso climático em acelerado curso. A vacuidade da política tem sido a norma. O fato do establishment político mundial ter ficado paralisado desde o final dos anos 1960, quando surgiram os primeiros alertas científicos (The Population Bomb, 1968; Conferência de Estocolmo, 1972; Os Limites do Crescimento, 1972) sobre a inviabilidade climática para sustentar nossa civilização do progresso e da abundância material para uma ínfima minoria, comprova que nosso problema está na cultura e não fundamentalmente na política.

 

No fundo, a atual catástrofe planetária já estava contratada desde quando se iniciou o nosso aprisionamento cognitivo à cultura patriarcal milenar, possivelmente desencadeado pelas sucessivas ondas migratórias dos povos guerreiros kurgan. O que é mais emblemático é que ela continua sendo amplificada neste exato momento de policrise terminal, e não há nenhum consenso sobre esse drama existencial. Para mencionar apenas uma evidência mais atual dessa catástrofe em curso, segundo a Rede Mundial de Atribuição (WWA), mais de 150 milhões de hectares de vegetação foram queimados no mundo todo entre janeiro e abril de 2026, uma área equivalente ao estado do Amazonas. O número é cerca de 50% maior do que a média recente (2012-2025) e o dobro do mesmo período em 2024, ano mais quente da história até o momento. Portanto, dada a inconteste aceleração da predação ambiental, a catástrofe, bem como o flagelo humanitário dela decorrente, é inevitável no curso desse século XXI.

 

Mas bem antes dessa policrise eclodir, sua gênese e evolução já estavam inscritas no próprio desdobrar da História. Hegel, após observar Napoleão Bonaparte montado em seu cavalo, em outubro de 1806, nas ruas de Jena (Alemanha), celebrando sua vitória na famosa batalha de Jena–Auerstedt, afirmou: “o ‘espírito do mundo’ a cavalo”. Napoleão encarnava a própria Razão em movimento, a força de mudança que estava, naquele momento, destruindo o antigo regime feudal absolutista e unificando o mundo sob os ideais da Revolução Francesa, mostrando que tragédia e progresso andam de mãos dadas. Para Hegel, um espírito bélico, mas com potencial de transformação social profunda, é o que permite ao Weltgeist avançar pelo conflito, dando seguimento ao inelutável destino da tortuosa história ocidental.

 

De fato, 150 anos depois desse evento definidor do modus operandi do “avanço” do progresso ocidental, em abril de 1945, os hegelianos diriam que Harry Truman era “o ‘espírito do mundo’ cruzando os céus da terra do sol nascente com o artefato nuclear”. Com o objetivo de forçar a rendição japonesa, Truman, ao despejar suas ogivas nucleares sobre as cabeças de cerca de 600 mil habitantes de Hiroshima e Nagasaki, conseguiu conter o ímpeto do socialismo soviético e assegurar a continuidade do consagrado processo civilizador. Depois desse contundente evento de destruição criativa patrocinado pela cognição ocidental, um progresso tecnológico e material vertiginoso foi desencadeado. 

 

Após 1945, veio a Grande Aceleração que explodiu todos os indicadores demoeconômicos, provocando a desestabilização do sistema Terra. Mesmo já tendo sido cientificamente reconhecido o início do desequilíbrio ecológico em escala global (Os Limites do Crescimento, 1972), o filósofo Francis Fukuyama, inspirado pela queda do muro de Berlim em novembro de 1989, anunciou que a redenção humana na História (O fim da história e o último homem) havia chegado a um bom termo com a expansão global da democracia liberal a todos os povos, sob a tutela da quimera de Estados-nação harmoniosos, orbitando na esfera de influência do “capitalismo democrático” estadunidense. A continuidade do Weltgeist estaria, assim, assegurada pela via da política que tão bem regula os ideais do Ocidente.

 

Contrariando todas as previsões hegelianas, o que eclodiu após 1989 não foi a desejada pax occidentalis, mas sim a policrise que já vinha sendo lentamente maturada ao longo dos últimos seis milênios de insensatez da cultura patriarcal, que constitui o evento antropológico definidor da nossa atual época do antropoceno. Nos conflagrados dias atuais, a cognição ocidental sempre hegemônica certamente descreveria Trump assim: “o ‘espírito do mundo’, agora com um taco de golfe”. Um magnata, legítimo representante da ordem política comercial, conseguiu, com o apoio de um punhado de mercenas que comandam os algorítimos, o extraordinário feito de sacramentar o Mercado como principal eixo regulador e redentor da subjetividade humana. Ao infringir todas as balizas da decadente ordem internacional hegeliana baseada em regras liberais, Trump pode ter deixado o projeto iluminista do secularismo ancorado no Estado-nação irreversivelmente no passado, como fez Napoleão com o absolutismo feudal.

 

Frustrando o que os hegelianos sempre esperavam da História, Trump parece figurar um autêntico Napoleão do século XXI, porém em sua versão invertida. Embora seus pares autocráticos na China e na Rússia não estejam tão distantes, Trump é o maior artífice da potencialização da policrise, pois está na verdade mais próximo de constituir a antítese desse longo movimento apoiado pela simbiose cultural entre Fé (monoteísta) e Razão (aristocrática). Trump está na verdade promovendo o início do embate final entre a razão de Estado e o seu contraste, a desrazão de Mercado. Este talvez seja o choque derradeiro do longo pesadelo ocidental. Logo, esse reverenciado espírito do mundo, nascido dos ideais greco-judaicos, representa uma promessa de redenção dos males humanos que hoje se revela ilusória e catastrófica.

 

Considerando que o tempo de conter o processo de colapso socioambiental é uma variável decisiva para a sobrevivência da humanidade, que atua cada dia mais a nosso desfavor, esse embate final trumpiano (e não mais hegeliano) pode, contraditoriamente, representar o começo de uma verdadeira ruptura civilizatória, ao criar as condições de antecipação do agravamento da policrise. Resta-nos, portanto acreditar que os seres humanos, mesmo aqueles irredutivelmente ocidentais-patriarcais, não suportam uma realidade muito distópica. Ao estarem elevando a catástrofe a um patamar de destruição planetária capaz de perturbar suas próprias consciências, poderão ser induzidos à inadiável premência existencial de necessidade de reconhecimento e retorno às suas ancestralidades suprimidas pelo desvio antropológico forjado pela cognição ocidental. 

 

Parece residir nessa inelutável catástrofe planetária a possibilidade de saída da policrise. Como havia intuído o audacioso e resistente Edgar Morin, profundo conhecedor da condição humana, falecido recentemente, “a pior ameaça e a maior promessa chegam, simultaneamente, ao século. Com a condição de não naufragar nela, a catástrofe se converte na última oportunidade.” O impasse está dado: o colapso infligido pela cognição ocidental, sustentada pela agressividade da política, ou o retorno à cultura da cooperação constitutiva da nossa ancestralidade. O resultado desse impasse: a humanidade só poderá atestá-lo a posteriori, obviamente, se uma extinção humana não se consumar neste incognoscível século XXI.

 

“A barbárie é o mais provável. 

O político é uma rolha flutuando à deriva, 

na tempestade das paixões.”

Jacques Attali

 

NOTA: este texto contou com uma proveitosa leitura crítica do articulista Ruben Bauer Naveira, colaborador do Outras Palavras, a quem agradeço.

 

Fotografia de Antonio Sales Rios Neto

Antonio Sales Rios Neto: servidor público federal. Estudioso da cultura patriarcal (entendida como principal elemento constitutivo do processo civilizatório e propulsor do antropoceno) e das novas abordagens da Complexidade (um dos meios de superação do patriarcado). Coordenador, representando o Brasil, do projeto “La Emergencia de los Enfoques de la Complejidad en América Latina”, iniciativa da Comunidad de Pensamento Complejo (CPC), sediada na Argentina.

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