Política

Incêndios, silêncio e deslocados: o espelho da insegurança no Norte de Moçambique | Morgado Mbalate

Imagem gerada por AI

A geografia do terror em África atravessa uma metamorfose perigosa. O que durante anos foi tratado por observadores internacionais como uma sucessão de insurgências periféricas ou focos isolados de instabilidade transformou-se numa mancha contínua de conflito que desafia a soberania dos Estados e reconfigura o quotidiano de milhões de africanos.

 

A confirmação recente de um novo ataque armado com características terroristas na zona de tampão da Reserva Especial do Niassa, no distrito de Marrupa, sinaliza um desdobramento alarmante. O ataque, perpetrado contra acampamentos da Mozambique Wild Adventures (MWA) — cuja concessão na Coutada de Marangira fora atribuída pelo Governo em 2014 e está associada ao treinador português Carlos Queiroz —, resultou em danos materiais avultados, com o incêndio deliberado de acampamentos, viaturas, um centro de saúde local e um posto policial. De acordo com informações avançadas pelo Secretário de Estado da província do Niassa, a incursão provocou uma vítima mortal e forçou cerca de 2.700 pessoas a abandonar as suas zonas de residência, além de ter motivado a evacuação de emergência de três cidadãos norte-americanos e o corte de comunicações com a área.

 

Segundo as autoridades governamentais, o grupo armado terá entrado a partir da província de Cabo Delgado com o objectivo de procurar reforço logístico e mantimentos na província do Niassa. Este não é um episódio isolado: a Reserva Especial do Niassa já fora fustigada em 2022 e voltou a registar incursões entre Abril e Maio de 2025, para além de invasões a áreas de caça no limite provincial. A violência que eclodiu em Outubro de 2017 no distrito de Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado, caminha para uma década de conflito e transborda os limites do litoral norte moçambicano, infiltrando-se nos corredores florestais e afectando directamente a infra-estrutura pública, a acção comunitária e o ecoturismo regional.

 

Este transbordamento no norte de Moçambique não ocorre num vácuo geopolítico. Insere-se num quadro continental onde a violência extremista atingiu patamares críticos. Segundo dados do Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) e do Global Terrorism Index, o continente africano concentrou a esmagadora maioria das mortes mundiais decorrentes de actos terroristas nos últimos anos.

 

A Fractura do Sahel: Burkina Faso e Mali

 

No Sahel Ocidental, a degradação da segurança assumiu contornos sistémicos. O Burkina Faso e o Mali converteram-se no epicentro global da violência terrorista, impulsionada pela actuação de grupos afiliados à Al-Qaeda — nomeadamente o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) — e pelas facções do Estado Islâmico no Grande Sahara (ISSP).

 

A sucessão de golpes de Estado militares na região entre 2021 e 2023, justificada pela promessa de combater a insurreição, resultou na ruptura de acordos de cooperação de segurança regionais e internacionais. O vazio institucional e a fragilidade das estruturas de governação permitiram aos grupos extremistas expandir o controlo territorial sobre rotas de abastecimento e impor cercos económicos a centros urbanos. Cidades inteiras e áreas rurais do Burkina Faso e do norte e centro do Mali enfrentam crises humanitárias sem precedentes, com a perda de vidas humanas e a deslocação interna massiva de populações a tornarem-se a norma trágica da região.

 

O Corno de África: A Persistência do Al-Shabaab na Somália

 

Na África Oriental, a Somália continua a travar uma das mais longas batalhas contra o extremismo violento. O grupo Al-Shabaab, mantendo a sua lealdade à Al-Qaeda, demonstra uma capacidade de resiliência e adaptação táctica devastadora. Apesar das ofensivas militares promovidas pelas forças governamentais somalis com apoio das missões de transição da União Africana, a violência escalou exponencialmente, com milhares de fatalidades registadas no centro e sul do país. Paralelamente, a presença crescente do Estado Islâmico na região de Puntland reforça a complexidade do cenário, transformando o Corno de África num nó de coordenação logística e financeira para redes extremistas transnacionais.

 

Cabo Delgado e Niassa: A Lógica Económica e Territorial do Extremismo

 

Voltar os olhos para Moçambique é compreender como as dinâmicas locais se articulam com dinâmicas globais. Em Cabo Delgado, a acção do Ahl al-Sunnah wal-Jama’a (ASWJ), associado ao Estado Islâmico, reorganizou-se após o encerramento da Missão Militar da SADC em Moçambique (SAMIM) em meados de 2024, mantendo-se a resposta militar assente nas Forças de Defesa e Segurança moçambicanas e no contingente ruandês.

 

A constante pressão e a movimentação táctica para a Reserva Especial do Niassa — nomeadamente no distrito de Marrupa — revelam a intenção deliberada de procurar reabastecimento logístico, mantimentos e oportunidades de mobilidade clandestina ao longo dos corredores florestais. Ao alvejar postos policiais e infra-estruturas de saúde pública a par de empreendimentos turísticos privados, os insurgentes desmantelam a presença do Estado, paralisam a prestação de cuidados essenciais e cortam linhas de comunicação vitais. Estrangula-se a economia formal da região, dissemina-se o pânico entre investidores e comunidades, e agrava-se o drama humanitário de milhares de famílias forçadas ao deslocamento.

 

O Desafio da Resposta Africana

Analisar este cenário a partir de África exige superar a leitura simplista de que o terrorismo é apenas um problema militar. A resposta puramente securitária tem-se mostrado insuficiente quando desacompanhada da reconstrução do tecido social, da presença efectiva do Estado através de serviços básicos, do combate à pobreza extrema e da criação de perspectivas para a juventude.

 

Quando as fronteiras entre o terrorismo, o crime organizado e a exclusão socioeconómica se diluem — seja no Sahel, no Corno de África ou no norte de Moçambique —, a soberania dos Estados africanos é colocada à prova. A violência insurgente exige uma concertação regional genuína, fundada no conhecimento profundo do terreno, na protecção intransigente das populações civis e numa visão estratégica que devolva aos cidadãos a dignidade e o direito à paz nas suas próprias terras.

fotografia de Morgado Mbalate.

 

Morgado Henrique Mbalate, amplamente reconhecido no meio literário como Morgado Mbalate ou através dos seus diversos pseudónimos — O Anjo das Palavras, O Poeta dos Pássaros, O Poeta Morto e O Anunciador de Prodígios —, é um destacado escritor e poeta moçambicano.

Nascido em Maputo a 6 de Setembro de 1993, é Licenciado em Filosofia pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). A sua trajectória é marcada por um profundo compromisso com a promoção da literatura e da língua, sendo actualmente membro do American Center da Embaixada dos Estados Unidos em Moçambique.

Mbalate desempenha um papel fundamental na preservação cultural como co-idealizador e curador da Biblioteca Azagaia. É também o fundador do centro de línguas Speak Global MZ, demonstrando a sua faceta empreendedora na educação. No seu historial de associativismo, destaca-se como:

  • Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).
  • Cofundador do Círculo Académico de Letras e Artes de Moçambique (CALAM).
  • Ex-membro fundador da DELICA (Associação para o Desenvolvimento Literário de Crianças e Adolescentes).

Autor de uma obra que transcende fronteiras, publicou os livros Odisseia da Alma (2016) e A Arte Suave da Palavra (2020), sendo ainda coautor do CD de Literatura Negra O que nos a Bala (2018). O seu poema “Africanizando” é uma referência académica, integrando diversos livros didáticos do ensino básico no Brasil.

Os seus textos encontram-se traduzidos para inglês, francês, espanhol e italiano, sendo Objeto de estudo em escolas e universidades em Moçambique e no Brasil.

A excelência da sua escrita foi reconhecida com diversas distinções internacionais, entre as quais:

  • Prémio Bicentenário de Dostoiévski (2021).
  • Menção Honrosa no Prémio Mundial de Poesia Nósside, Itália (2014).
  • Menção Honrosa no Prémio Fernanda de Castro (IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa, 2017).
  • Participação na 4.ª edição do Festival Internacional Earthquake Terramoto (2021).

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