
Os ingleses começam a falar e a discutir a possibilidade de um Brexin ou seja, um movimento contrário ao Brexit, com a volta do seu país para a União Europeia, da qual se afastou em 2020. A retirada do Reino Unido da UE foi liderada por Nigel Farage e suas hordas de extrema direita arregimentadas pelo seu Brexit Party, depois renomeado Reform UK. Hoje, muitos ingleses começam a pensar que Farage, para impulsionar a própria carreira política, aplicou-lhes um conto do vigário (confidence trick).
Pesquisas revelam que a maioria dos entrevistados afirma que o Brexit foi um erro. Uma sondagem da YouGov de junho de 2026 mostrou que 57% consideram que foi errado sair da União Europeia, contra 30% que continuam a achar que foi a decisão correta.
Segundo a YouGov, a percentagem dos que consideram o Brexit um erro mantém-se acima dos 50% desde 2022. Em 2025, outra sondagem indicou que 61% dos britânicos viam o Brexit mais como um fracasso do que como um sucesso.
Logo após o Brexit, a falta de comida nos supermercados de prateleiras vazias, restaurantes que fecharam suas portas e fábricas interrompendo a produção fizeram os mais velhos se recordarem dos anos da Segunda Guerra, quando os aviões alemães faziam blitzes aéreas e bombardeavam as cidades inglesas. Só faltavam as sirenes de alarme para a montagem de um cenário mais realista a reproduzir os dias de 1940 quando foi travada no céu de Londres a Batalha da Inglaterra.
Foram os efeitos imediatos do Brexit, ou a ressaca do dia seguinte que calaram tardiamente as passeatas de comemoração à saída do Reino Unido da União Europeia, depois de uma avassaladora campanha de opinião pública promovida pela direita política radicalizada. Os problemas na cadeia de abastecimento depois do fechamento das fronteiras fizeram os empresários pedirem uma ação urgente do governo. A deliciosa “smoothie”, uma bebida feita com morangos e banana ficou em falta no McDonald’s, bem como todas as bebidas engarrafadas nas 1.250 lojas da cadeia no Reino Unido. A rede Nando’s fechou 50 dos seus restaurantes por falta de frango e os restaurantes de luxo Novikov avisou que ficara sem carne.
A associação empresarial CBI-Confederation of British Industry comunicou que os estoques no varejo atingiram o menor nível em 40 anos. E advertiu que os problemas foram agravados com os novos controles sobre produtos de origem animal importados da União Europeia. Foi de poucas vendas o primeiro Natal depois do Brexit.
Ficaram marcadas estas e outras atribulações depois da bem-sucedida campanha da direita. Sem contar os conflitos de interesse com a Irlanda e a Escócia, que junto com a Inglaterra formam o Reino Unido. Foram problemas que afetaram negativamente a recuperação da economia depois da pandemia da Covid-19.
Os trabalhadores estrangeiros tiveram dificuldade para obterem visto de entrada. São eles a principal força de trabalho da organização logística do país pois os britânicos recusam os trabalhos de longa jornada e baixos salários. A falta dessa mão de obra retida nas fronteiras provocou grande desorganização em toda a cadeia de abastecimento.
Os ingleses também perceberam e reclamaram que ficaram mais caras as compras feitas pela internet em países da União Europeia.
E os empresários não param de protestar contra o aumento da burocracia e da papelada que passaram a ser exigidas para os negócios com a Europa, além da queda de 41 por cento nas vendas de exportação.
Trapalhadas
Na origem de tudo está a descrença dos próprios ingleses na vitória do Brexit. Os defensores da saída da União Europeia não confiavam na própria campanha e David Cameron, primeiro-ministro na época e que convocou o plebiscito sobre a retirada, não preparou o país para esta possibilidade.
Os ingleses sempre se sentiram superiores. Não se consideram parte da Europa, que eles chamam até hoje, com uma certa displicência, de “o continente”. Há uma anedota que ilustra esse sentimento. Num dia de pesado nevoeiro que cobria o Canal da Mancha, os jornais ingleses deram manchete em grande tipologia: Nevoeiro no Canal: o continente isolado.
Ancorada numa poderosa Marinha, a Inglaterra construiu um império que já no Século 18 lhe dava grande prestígio e força internacionais, mesmo depois de ter perdido sua rica colônia americana. Era tão vasto o seu império que nele o sol nunca se punha, dizia-se. Sua estratégia geopolítica teve sempre como objetivo evitar que no continente europeu surgisse uma potência rival. A Inglaterra foi palco da revolução industrial que ampliou o seu poder e só com a chegada do século XX a Alemanha e os Estados Unidos vieram a fazer sombra ao seu poder. O esforço que lhe custou sair como uma das nações vencedoras da Segunda Guerra Mundial afetou a sua força e os movimentos de independência na Índia e na África enfraqueceram a espinha dorsal do grande e poderoso império.
Na década dos anos 1950 os países da Europa ganharam consciência de que a união entre eles poderia gerar uma escala capaz de competir com as duas superpotências que disputavam então a hegemonia mundial, os Estados Unidos e a União Soviética. A ideia não sensibilizou os ingleses e Churchill resumiu sua posição: “nós britânicos temos a nossa própria comunidade de nações”, disse referindo-se à Commonwealth.
Escócia e Irlanda
Os escoceses não ficaram satisfeitos com a saída da União Europeia. Sentiram-se forçados a algo que não era do seu interesse, pois o plebiscito que resolveu o Brexit não foi majoritário em seu território. A primeira-ministra Nicola Sturgeon declarou que a Escócia iria procurar a independência e aderir depois à UE.
“Simplesmente não há justificativa democrática para quem quer que seja tentar bloquear o direito do povo escocês de escolher seu próprio futuro”, afirmou a primeira-ministra em um discurso.
A maioria dos eleitores da Irlanda do Norte votou pela permanência na União Europeia: 56% “Remain” contra 44% “Leave”. Apesar disso, como o resultado global do Reino Unido foi favorável à saída, o país teve de deixar a UE contra a vontade da maioria dos seus eleitores.
Celso Japiassu: Poeta, articulista, jornalista e publicitário brasileiro. Trabalhou no Diário de Minas como repórter, na Última Hora como chefe de reportagem e no Correio de Minas como Chefe de Redação antes de se transferir para a publicidade, área em que se dedicou ao planejamento e criação de campanhas publicitárias. Colaborou com artigos em Carta Maior e atualmente em Fórum 21. Mora hoje no Porto, Portugal.
É autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).










