
Resumo: há comentadores que explicam que o alheamento das pessoas da política se deve ao bom funcionamento da democracia. Outros dizem que só se preocupam com os resultados eleitorais aqueles a quem vida pode mudar, dependendo de quem esteja no poder. O alheamento entre a democracia, as pessoas e os povos é real, como se percebe pela impotência de uns e a colaboração de outros com os neonazi-fascistas. Uma democracia que possa ser utilizada pelas pessoas e pelos povos, nomeadamente para não permitir genocídios e evitar guerras, libertar-nos-ia da indiferença institucionalmente induzida de que sofremos.
But capitalism is only the main driver of the crisis we face (…) That´s something that lies much deeper. (…) It required getting people to see nature, for the first time, as something fundamentally distinct from humans. (…) for the past 500 years (…) It is a struggle over very theory of being. (…) It is about something radically bigger. Bigger than we can imagine.
Jason Hickel. Less is More, Penguin, 2022:254-5
Uma excelente descrição da história recente foi escrita por Jason Hickel (Less is More). Está entre os raros autores que põe em pé de igualdade as transformações sociais da Revolução Industrial e a missão imperial organizada pelos Navegadores. Porém, insiste em reduzir o problema que enfrentamos ao capitalismo – sobretudo no seu aspecto crescentista. Limita-se a reconhecer que há qualquer coisa de maior que misteriosamente nos escapa à imaginação. Porque não lhe chama império cuja história recente descreveu?
A luta pela abolição do capitalismo é assunto requentado, cujos frutos secaram politicamente. Entusiasmado com as propostas dos movimentos decrescentistas que lhe recordam filosofias de vida ancestrais, Hickel inventou um outro problema essencial da modernização: o crescentismo – a mania do crescimento, a mania que o crescimento é sempre bom. À tradição do Small is Beautiful e de Os Limites do Crescimento, Hickel acrescenta a “distribuição dos ganhos de produtividade entre os trabalhadores sob a forma de maiores salários e menos horas de trabalho” (Idem: 232), o princípio contratual consensualizado no pós-guerra para minimizar as lutas de classe. Desse contracto e da sua interpretação neoliberal resultou, historicamente, a expansão global do capitalismo a cada vez mais sectores de actividade e o crescimento exponencial da poluição e dos lixos que elevaram o problema ambiental ao mesmo patamar político do capitalismo.
Os comentários que se seguem são objecções amigáveis. Este livro de Jason Hickel é quase perfeito. As suas avaliações do capitalismo, do comunismo, da democracia, dos genocídios e dos ecocídios em curso, não condenam a natureza humana pela situação. Ao invés, o autor entende o exercício de uma democracia mais liberta de constrangimentos como a fonte de esperança para se reverter a situação. Dá o exemplo de Sebastião Salgado, o fotógrafo, que recuperou ecologicamente o território de família em poucos anos. Ao tomar por fundamentalmente correctas as ideias deste livro, permito-me propor correcções e acrescentos como se estivéssemos numa sessão do clube de ciências centrífugas.
Em vez de alargar a sua perspectiva de análise sobre o capitalismo, Hickel decidiu especializá-la, acantoná-la, reduzi-la a um problema de mentalidade economicista dos dirigentes e do público. Na sua linguagem cifrada, para reverter os problemas ambientais e políticos com que nos confrontamos seria necessário e suficiente reduzir a produção de valor de troca ao limite das necessidades de valores de uso. Como isso se faria? Confiando na democracia, que infelizmente não está disponível nas nossas democracias. Confiando na discussão racional sobre o capitalismo, sob o capitalismo, que foi a esperança – frustrada – de Jürgen Habermas.
“We could deliver productivity gains back to workers in the form of higher wages and shorter hours.” – eis a formulação original da frase da página 232 que traduzi acima para português. Quem somos “we”, nós, o sujeito desta frase? A resposta pode ser encontrada páginas depois: “Democracy has a tendency to be anti-capitalist” (idem: 250). A democracia tem tendência a ser anticapitalista. Porém, reconhece imediatamente, “we are not permitted to question capitalism and the conquest of nature. To do so is considered a kind of heresy” (idem: 250) (não nos é permitido discutir o capitalismo e a conquista da natureza. Fazê-lo é considerado uma espécie de heresia).
Se, espontaneamente, as pessoas decidirão contra o capitalismo, porque não o fazem hoje? Os limites impostos aos debates democráticos e às ciências têm impedido a oposição espontânea ao capitalismo. Como e quem impede tal questionamento? Veremos que, informalmente, Hickel sabe que somos nós próprios, os que tendemos a ser anticapitalistas. As pessoas que espontaneamente serão anti-capitalistas aceitam colaborar – ainda que inconscientemente – com a censura a que Hickel se refere. Ocupadas profissionalmente a trabalhar para quem nos emprega, que tempo lhes resta para ser anti-capitalistas? Como se chegou a uma situação em que a oposição ao capitalismo se desvaneceu tanto?
No pós-guerra, com o fim da luta de classes e da missão prometeica do proletariado, há um problema de identificação dos sujeitos das acções de modernização. Opera-se uma transformação de tipo carnavalesco. Os proprietários e administradores passaram a apresentar-se disfarçados de trabalhadores. Os trabalhadores aceitaram passar a ser colaboradores. Mas são meros disfarces: anda meio mundo à procura de encontrar o seu verdadeiro eu, a sua verdadeira natureza. Natureza (anti-capitalista?) alienada pela cumplicidade generalizada com o capitalismo e com a exploração da natureza, incluindo a exploração da própria humanidade. As consequências são terríveis.
Como é possível, em nome de nunca mais ao Holocausto, em nome dos judeus sacrificados, o Ocidente ter mantido o genocídio dos palestinianos por ¾ de século? Ora, esse é apenas um dos diversos genocídios, alguns seculares, como nas Áfricas e nas Américas, perpetrados em continuidade por estados modernizadores. Independentemente das rivalidades entre estados, a modernização, a exploração da Terra que os mobiliza a todos torna-os cúmplices das suas terríveis consequências. Para o observar, basta recordar o entusiasmo da Rússia e da China no seu apoio à Cruzada anunciada em 2003 nas Lajes, Açores, por George W. Bush e os seus aliados ocidentais contra alvos a identificar depois de abatidos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos e o direito internacional humanitário apontam os seus dedos impotentes a tanto despautério. As violações ao direito internacional aumentaram, desde então. Um genocídio ou dois tornaram-se notícias toleráveis, até cansativas.
O que pode fazer o club das ciências centrífugas? Pode trazer os assuntos tabu para cima da mesa, procurando entender como e porquê esses tabus estão a bloquear a democracia. Pode oferecer espaço-tempo de discussão sobre tais assuntos a quem esteja interessado. Mobilizar quem esteja em condições de participar. Libertar a democracia para a acção efectiva, quando a ONU está inoperacional.
Imaginando estar a utilizar esse espaço-tempo, quero reforçar posições amigas, como as de Hickel, com três sugestões de debate: a) há uma confusão científica entre capitalismo e império que o autor reproduz; b) como corolário/antecedente dessa confusão, há a confusão conceptual entre instituição e organização; c) como são construídos – e como podem ser superados – os labirintos intelectuais que inibem as discussões capazes de libertar a versão anticapitalista da natureza humana?
Nos agradecimentos, mas só nos agradecimentos, Jason Hickel reconhece os efeitos nefastos que as ciências sociais têm. Conta a história do incómodo que acabou por servir de motivo para a escrita deste seu livro. À saída de uma conferência de um renomado economista Prémio Nobel, a sua companheira perguntou-lhe: “Do high-income economies really need to keep growing, forever? (…) I still remember [my answer] (…) realizing that I was just repeating things that had been told to me, without actually thinking for myself”. (Idem: 294). Economias que disponibilizam altos rendimentos precisam mesmo de continuar sempre a crescer? (…) Ainda me lembro [da minha resposta] (…) ficando logo com a impressão de estar apenas a repetir coisas que me foram ditas, sem nunca ter pensado nelas.
Conhecemos a resposta que hoje daria Hickel à sua companheira. Mas durante o percurso que o levou a essa resposta não explicou, na verdade não se perguntou, como é possível circularem respostas irracionais veiculadas por profissionais altamente qualificados, sem que estes tenham pensado nisso? Como é possível, contra as suas intuições, que os profissionais das ciências sociais façam tabu de questões básicas? Como podem trabalhar com os falsos fundamentos das suas ciências? Perguntado de outra maneira: qual é o poder das instituições para nos convencer, ainda que subconscientemente contrariados, a usar fundamentos errados que produzem má ciência favorável ao capitalismo?
Regressemos à questão de partida: quem são os “nós” que decidem em nome da democracia? Somos os que estamos de acordo em ser anticapitalistas ou somos os que respondemos sem pensar, em nome de terceiros por identificar, a perguntas simples sobre os fundamentos do nosso trabalho-pensamento especializado?
Em termos práticos, em vez de fazer recomendações de política para elites indisponíveis para as pôr em prática, proponho como prioridades de acção democrática: a) assegurar financiamento geral da vida das pessoas, através de um direito a rendimentos mensais universais, incondicionais e não susceptíveis de serem hipotecados (RBI-TT); b) reconhecer, apresentar e permitir que trabalhem em rede quem tenha consciência dos limites dos conhecimentos profissionais-científicos hegemónicos (clube das ciências centrífugas). Trata-se de proporcionar espaços-tempo em escala suficiente para que, quem sinta necessidade disso, assuma as suas intuições inconscientes, eventualmente anticapitalistas, em vez de repetir respostas pré-fabricadas e falsas, necessariamente capitalistas.
As contribuições de Jason Hickel serão úteis para a discussão democrática, caso sejam criadas as condições da sua persistência. Como proteger essa discussão da hegemonia científica-ideológica que expulsa a democracia das escolas, das universidades, dos partidos políticos, dos movimentos sociais e das discussões quotidianas?
As dificuldades das experiências de democracia não decorrem apenas do carácter oligárquico dos poderes de estado. A natureza humana, na sua plasticidade, está a ser moldada, reduzida racionalmente para servir as finalidades modernas hegemónicas. As elites acumuladoras dirigem instituições que conduzem organizações através da desmultiplicação secular de intromissões e vigilância da vida das pessoas. Fazem-nos acreditar de que a vida só é aceitável se cada qual estiver disposto a sacrificar-se para ganhar a vida, i.e., servir quem nos proporcione rendimentos. Fazem-nos acreditar que isso é o máximo de liberdade de que se pode aspirar. Ora, não é.
Instituído o RBI-TT, quem sentir vontade de respirar fora do ambiente anestesiado de indiferença generalizada pode dedicar-se a colaborar em clubes de ciências centrífugas e a aprender a viver com parcos recursos gentilmente disponibilizados por uma sociedade que compreendeu ser preferível usar a parte solidária da natureza humana a encurralar sociedades nas suas inseguranças politicamente alimentadas por elites sociopatas.
O decrescimento em abundância de que Hickel fala, muito bem, terá melhores condições de ser abraçado quando o direito a viver deixar de depender da obrigação de ganhar a vida, de se submeter a sacrifícios para trabalhar em processos de que se desconhecem os fundamentos. Em tais circunstâncias, além dos clubes de ciências centrífugas, muitas outras actividades organizadas teriam condições de competir com as actividades capitalistas a que hoje estamos aferrados.
António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e https://libertacao.hypotheses.org/










