Política

A confusão científica entre capitalismo e império | António Pedro Dores

Imagem: reprodução/Depositphotos

Resumo: sob os impérios, os movimentos de libertação são endémicos e espontâneos. Nas últimas décadas, as sucessivas recuperações desses movimentos para a causa da missão imperial intensificaram a exploração da Terra, incluindo da humanidade, e intensificaram a reacção ambiental à actividade imperial. Socialmente, vivemos uma fase depressiva quanto à esperança de a civilização deixar de fazer o que tanto mal nos está a fazer. Para imaginar as tarefas da fase libertadora há que compreender que a ciência, como outros movimentos de libertação, erram em questões básicas. Para servir o império, aceitam enganar as sociedades e as próprias elites.

 

Nas universidades luta-se para formar pessoas ou profissionais. Há correntes utilitárias que discutem como as universidades servem a economia e a empregabilidade dos estudantes. Há correntes democráticas que preferiam que as universidades formassem cidadãos. As revoltas universitárias dos anos 60/70 formaram cidadãos fora das aulas, nas ruas. A democratização das universidades que se seguiu forma profissionais em salas de aula. Aí se aprendem teorias e métodos fora de contextos práticos de aplicação. Estas circunstâncias conformam as ciências divididas entre a prioridade à certificação profissional e a prioridade às experiências de produção de conhecimentos.

  

A ciência é um dos movimentos de libertação que está tolhido pela recuperação que dele é feita para servir a missão imperial. Num próximo artigo se discutirão as potencialidades da ciência. Para as compreender, porém, é preciso compreender previamente como as ciências e os cientistas, no seio das sociedades modernas, são desarmados como instrumentos de libertação. Esse é o tema deste artigo.

  

Por que raio se imagina que o capitalismo inventou, inspira e alimenta o imperialismo, quando é claro que impérios existem há milhares de anos e o capitalismo tem poucos séculos? Não é o único erro crasso de fundo plantado na ciência. Sugiro ao leitor aceitar fazer um exercício radical: recusar esta inversão da história. Recusar a história que satisfaz fins ideológicos, que naturaliza as máquinas, incluindo as máquinas económicas, e que concebe a engenharia que as fabrica e usa como indiscutível, inelutável, divina. Reconhecer que são os impérios, no nosso caso o império ocidental globalizado, que conduzem as suas missões históricas de afirmação de soberania revela o capitalismo como um instrumento, um sistema, uma máquina e não um actor inteligente, racional como é geralmente descrito.

 

A afirmação da hegemonia do império britânico no século XIX mobilizou o capitalismo. Mas a missão imperial ecuménica de explorar a Terra foi fabricada paulatinamente desde o século XIV e está registada no Tratado de Tordesilhas, de 1494. O desejo e a vontade de exploração existiam muito antes de se ter fabricado o capitalismo. Tal máquina sociotécnica apenas foi construída séculos depois por efeito da conjugação histórica de vontades sociais coordenadas entre si para levar a cabo essa missão imperial.

  

A propaganda imperial é intensa e eficaz. Como alguém disse, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Pior do que isso é os movimentos de libertação não se colocarem a necessidade de abolir a missão imperial, a vontade de explorar a natureza até à destruição das condições ambientais favoráveis à vida humana. Aceitam reconhecimento superior, institucionalizar-se, em troca de colaborarem na missão imperial.

 

Significativa foi a reacção pública à troca de argumentos entre dirigentes russos e norte-americanos (e europeus), a respeito da guerra da Ucrânia. Acusaram-se mutuamente de serem imperialistas. Em vez de se rirem da hipocrisia dos seus dirigentes, as opiniões públicas assumiram estados de espírito belicistas em defesa da hegemonia do seu império, de um lado e do outro. Preferem a guerra a questionar a moral e a racionalidade da exploração destrutiva da Terra promovida por ambas as potências em guerra. Da época em que Greta Thunberg foi recebida na ONU para vincar a prioridade às políticas ambientais mitigadoras dos efeitos nefastos da actividade imperial, num ápice, passámos para a prioridade da guerra em que vivemos. A consciência de termos de enfrentar as respostas ambientais à intensa exploração da Terra foi soterrada por ideologias nacionalistas que se imaginou estarem ultrapassadas.

  

Os povos modernizados são vítimas cúmplices da missão imperial. Como isso é possível?

 

Os fins ideológicos servidos por esta extraordinária inversão da história entre império e capitalismo em que os historiadores e as pessoas cultas ocidentais insistem, sem reacção de quem possa ter bom senso, são enfaticamente negados. Alega-se isenção moral abstracta e universalista. Muitos humanistas declaram-se neutros em relação ao consenso de previsão de catástrofes entre os ambientalistas e tratam as violências e as misérias quotidianas como danos colaterais de uma missão, no geral, bem-sucedida. Por exemplo, embora a guerra seja uma indústria que pratica genocídios, há quem alegue que proporcionalmente havia mais mortos nas sociedades de recolectores. Outros alegam que embora as desigualdades sociais aumentem, isso é compensado por milhões de chineses que passaram a viver como classe média. A empatia com quem sofre é minimizada com sucesso.

 

A duplicidade moral sustenta a justaposição da indiferença perante os outros e a reclamação de direitos humanos para as pessoas conhecidas. As vidas dos inimigos, dos ciganos, das pessoas escravizadas ou colonizadas, dos estrangeiros mais frágeis, das mulheres, das crianças, dos alvos de genocídio, dos refugiados, são muitas e são-nos indiferenças.  Indiferença que necessitamos para podermos sobreviver. Indiferença que pode transformar-se em indignação retórica quando o império abusador é muçulmano, russo, chinês. Indiferença que se agiganta quando o império abusador é o nosso, como na Palestina.

 

Para os ocidentais, império e exploração são palavras que representam o melhor e o pior dos nossos valores. É o contexto em que as palavras são usadas que determina ora a reverência ora a repugnância que sentimos. O mesmo se aplica ao capitalismo: é o melhor e o pior, há a boa exploração (dos outros) e a má exploração (dos nossos).

   

Há um fundo ideológico comum das ideologias modernas concorrentes que naturaliza a missão imperial ocidental. A missão civilizacional (para evitar dizer imperial) de explorar a Terra e a humanidade é a finalidade, à esquerda e à direita do espectro político. A divisão de trabalho separa as pessoas que têm iniciativas criativas das que servem para trabalhar. Uns lucram e outros vivem dos rendimentos do trabalho. Solidariamente, em sociedade, exploram a natureza e uns aos outros, para que alguns acumulem riquezas na ânsia de provar que o crescimento económico pode ser infinito – um dia, dia que nunca chega, todos beneficiaremos disso.

 

As ideologias têm opiniões diferentes sobre quanto pagar pelos diversos desempenhos, os criativos e os laborais. Discutem entre si que incentivos são mais eficazes para atingir os mesmos fins espelhados no crescimento da economia, no sagrado PIB.

  

O Antigo Regime dominava localmente a partir de uma organização em que as ordens superiores tinham a obrigação moral, religiosa, de velar pela preservação da natureza e pela qualidade de vida das pessoas das ordens inferiores. Não havia a noção de santidade da vida que a modernidade adoptou: a santidade era merecida em vida, mas gozada após a morte. O que significava que uma boa morte poderia vingar uma má vida. As ideologias modernas, ao contrário, promovem a exploração de tudo, mas seduzem as pessoas em vida para as tarefas da modernização, incluindo as pessoas exploradas. Convencem-nos de estarmos a viver a melhor vida possível.

 

A missão imperial mobiliza pela força. Mas mobiliza também pela sedução de proporcionar o melhor da vida material a quem a servir ou aos seus filhos.

 

Primeiro os burgueses passaram a gozar de liberdades semelhantes às dos aristocratas e, mais tarde, os trabalhadores passaram a gozar de liberdades políticas dos burgueses. A morte passou a ser escondida. Em nome do progresso, a resiliência à violência imperial, o orgulho no trabalho, tornou-se uma religião. Mesmo os burgueses passaram a orgulhar-se de trabalhar dezenas de horas por dia.

 

As ideologias modernas dividem-se entre as liberais e as comunistas. Ambas prometem alguma forma de democracia e de libertação. As primeiras querem libertar-se do despotismo aristocrático e as segundas dos abusos que infernizam a vida dos trabalhadores. As ideologias nazifascistas misturaram as duas anteriores de modo a orgulharem-se da exploração da Terra em nome de um povo viril escolhido por Deus para ser sacrificado nos valores da supremacia. A supremacia nazifascista é tanto nacionalista quanto auto-flageladora, suicidária, submissa a um poder supremo geralmente representado por um palhaço.

 

As ideologias modernas distinguem-se das tradicionais por corresponderem a práticas imperiais proporcionadas pelas navegações oceânicas em nome do patrocínio da universalização dos poderes europeus através do proselitismo cristão, religião em que não acreditam para poderem continuar a fazer o que fazem. A Reconquista ibérica, a Inquisição, as Descobertas, o Renascimento, abriram um mundo a explorar para além da Europa. Dessa experiência emergiu a ciência. O Céu habitado por divindades foi substituído pela máquina de relojoaria de Newton. À semelhança de Deus, o homem moderno poderia e deveria construir máquinas de sua invenção para construir o mundo moderno na Terra. Terra imaginada inerte. Magna obra de cujo sucesso somos beneficiários e vítimas.

  

Para evitar reconhecer a vitimação das pessoas e das sociedades, as ideologias em disputa escondem a sua subordinação comum à missão imperial modernizadora. Insistem na sacralidade dos direitos individuais e contratuais, dos direitos de propriedade, omitindo as consequências disso para as pessoas vulgares. Quando chega a ora de cumprir contratos e respeitar propriedades que obstaculizam a missão imperial, esses direitos sagrados são regularmente violados, alegando casos de excepção.

 

O império não é racional, não obedece a regras. É uma imposição social de identidades e de expectativas mutuamente associadas que tolda a mente dos imperadores, das elites ocidentais, dos cientistas e do vulgo. Quando deixa de funcionar, recorre à extrema violência que permite trocar de ideologia dominante e manter em curso a missão imperial. Alguma coisa tem de mudar para que o essencial fique na mesma.

 

A força da sedução, a que por vezes se chama razão, é tanta que quem imagina que está no comando também se confunde. Os promotores ocidentais da globalização, por exemplo, estavam convencidos de que se poderiam manter ao volante da condução do império para sempre, eventualmente abençoados por Deus. Convencidos de que dominavam o capitalismo, não se deram conta de a China ser um império milenar competente. Imaginaram que o capitalismo destruiria o império chinês porque acreditaram na propaganda ideológica ocidental que faz do império um subproduto do capitalismo.

 

As elites ocidentais iludiram-se sobre a prioridade a dar ao império – que presumiram ter sido abolido na II Grande Guerra – e ao capitalismo – que imaginaram poder conduzir pessoalmente através dos mercados financeiros. Convencidos de que o capitalismo haveria de seduzir os chineses e fazê-los reconhecer a supremacia ocidental, os dirigentes da globalização não se aperceberam de que eram eles que estavam seduzidos pela história que inventaram para legitimar a sua acção. Não se deram conta de que não tinham razão nenhuma.

 

Hoje, encontram-se a braços com a tarefa urgente de desmantelar o que construíram. Desorientados com eles próprios, dão prioridade à extrema violência, à guerra, ao genocídio, à guerra civil, à destruição de infra-estruturas, ao neonazi-fascismo, à reconstrução da sede da missão imperial para evitar que ela mude de mãos.

  

Os ideólogos liberais e comunistas essencializam a economia, apresentam-na como libertadora e pacífica. Com esta estratégia têm conseguido mobilizar os burgueses e os trabalhadores para ganharem dinheiro, sem olharem à moralidade daquilo que fazem. Porém, como perceberam recentemente (outra vez) os dirigentes políticos e as sociedades ocidentais, sem entrar em guerra, a economia não se aguenta. Muitos eleitores deixaram de acreditar nas ideologias económicas e sociais e passaram a votar em quem promete usar a extrema violência, mesmo sabendo do risco de esta se virar contra os próprios eleitores. Muitos eleitores já vivem sob extrema violência e sabem hoje, por experiência própria, que as ideologias modernizadoras são falsas promessas. O neonazi-fascismo não falha na promessa de extremar as violências e de piorar tudo.

 

As encenações de Putin e Trump significam a dispensa das ideologias, primeiro na Rússia, com a queda da União Soviética, e mais recentemente nos EUA e na Europa. Restam os nacionalismos e as mágicas de purificação. As encenações hoje, claro, são muito menos sofisticadas do que as das ideologias globalistas, liberais ou comunistas. São um retorno ao passado imperial, cristão e totalitário. Mas são também muito mais baratas – o que é relevante para quem está em bancarrota.

 

A fragilização da capacidade de sedução das ideologias modernas abre novas oportunidades de libertação para as pessoas modernizadas. Assiste-se a uma transferência de intelectuais ocidentais para a China, civilização com tradição imperial mais antiga e sólida do que o ocidente. Mas há, porventura, outras possibilidades de libertação da missão imperial ocidental que não impliquem continuar a missão imperial, agora conduzida pela China. Para tal, há que começar por reconhecer estarmos viciados em pensar errado. A confusão entre capitalismo e império está a sair-nos cara.

Fotografia de António Pedro Dores

António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e  https://libertacao.hypotheses.org/

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