
“A Força cega do povo é uma Força que deve ser economizada e também controlada, como a Força cega do vapor, que levanta os poderosos braços de ferro e gira as grandes rodas, é feita para furar e tornear o canhão e para balançar o laço mais delicado. Precisa ser regulada pelo Intelecto. O Intelecto é para as pessoas e para a Força das pessoas o que a delicada agulha da bússola é para o navio – sua alma, sempre orientando a enorme massa de madeira e ferro, e sempre apontando para o norte. Para atacar as cidadelas construídas por todos os lados contra a raça humana por superstições, despotismos, preconceitos, a Força deve ter um cérebro e uma lei. Então, ela ousa conquistar resultados permanentes, e aí há progresso real. E acontecem conquistas sublimes. O Pensamento é uma força e a filosofia deve ser uma energia, encontrando seu alvo e seus efeitos no aprimoramento da humanidade. Os dois grandes motores são a Verdade e o Amor. Quando todas estas Forças se combinam, guiadas pelo Intelecto, reguladas pela RÉGUA do Direito e da Justiça, e com movimento e esforço combinados e sistemáticos, a grande revolução para a qual as eras se prepararam começará a marchar” (Albert Pike – Moral e Dogma…)
No ano 416 a.C., em plena guerra do “Peloponeso”, Atenas exigiu à ilha de Melos sua rendição incondicional. Os Melios tentaram dialogar, fizeram um chamado à justiça e à moral. Os atenienses ripostaram argumentado que: “Os poderosos fazem aquilo que sua força lhe permitir, enquanto os fracos sofrem as consequências das suas fraquezas”.
Nos inícios do ano 2026, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump afirma que não precisa do “Direito Internacional” e que sua própria moralidade é seu único limite.
VELHA REALIDADE
O axioma de Atenas toma corpo de novo. Os EUA, após a II Guerra Mundial, atirou duas bombas atómicas acima dum Japão em rendição, para ensinar à União Soviética quem ia dominar o quadro geopolítico. Mesmo durante um tempo, a Administração norte-americana, a instâncias do cientista espacial alemão Wernher von Braun (que trabalhara para os nazistas), esteve duvidando se utilizaria esse mesmo poder atómico em uma guerra preventiva contra a mesma URSS até que, finalmente, Stalin se fez também com a arma atómica. O axioma grego seguia a funcionar (talvez nunca se fora de todo): ante um rival geopolítico com similar capacidade de força a procura do equilíbrio era sem dúvida mais aconselhável (isto já era contemplado pelos atenienses). Esse equilíbrio do terror manteve a humanidade a salvo durante um relativo e prolongado tempo, ao que os livros de historia ainda denominam de “Guerra Fria”.
Com a queda do muro de Berlim, a aproximação do plano globalista tomava corpo. As elites ocidentais sentiram-se claramente vencedoras: o mundo somente tinha um caminho (sonhavam ser sem retorno ou bifurcações): o triunfo do modelo liberal, baseado no controlo duma elite privada através do controlo da moeda de reserva global, dos bancos privados internacionais, controlados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), com sede em Basileia e encadeado ao centro da City Londrina e Wall Street, através das “dívidas eternas”.
O Ocidente deslocava a sua indústria e produção para leste e o sul, a China encaixava como fábrica do mundo e novo mercado experimental para as corporações norte-americanas, que detentavam o controlo mental-intelectual do processo, junto ao poder militar e ao poder cultural… Os EUA dominavam aqui os três tabuleiros geopolíticos: a) militar b) económico e c) cientifico-tecnológico-civilizacional.
Na teoria, o processo era levando à frente com a naturalidade com que o rio percorre seu longo caminho das montanhas ao mar. Mas o axioma ateniense seguia presente: qualquer tentativa de afastar-se da moeda padrão (Saddam Hussein, no Iraque; Gaddafi, na Líbia…) ou de criar um território soberano fora do controle do Ocidente… era castigado com o uso da força. A balcanização (caso da Jugoslávia) como forma de quebrar e enfraquecer um estado soberano também se tornava um método magnífico, para a dominação via dívida pública e privada de estados pequenos e fracos por definição, que se tornavam altamente dependentes do poder central da elite anglo norte-americana privada.
Nada era relegado para conseguir a finalização do plano. Comandar os centros de emissão e redes de distribuição da energia a nível global se tornou uma necessidade para dar um passo de gigante no fim prioritário: domínio global.
A estratégia de Donald Rumsfeld e Cendrowski para essa realização passava por 7 guerras contra 7 estados soberanos, a fim de torná-los estados vassalos: Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Líbano, Iémen e, finalmente, o Irão. E o plano segue à frente pois o plano também incluía o controlo total de Israel sobre toda a região. Mas a virada do impacto da realidade resultou certamente pior do que os EUA podiam imaginar.
O mais destacado desgaste económico, que aumentou decisivamente as próprias contradições internas em 2007/2008, o sonho globalista chegou ao seu fim. A retirada do Afeganistão enfraqueceu mais o “hegemon mundial” através de cujo poder a elite corporativa privada ocidental se expandia pelo mundo. Ante a desolação do Meio Oriente, o iraniano Qasem Soleimani cria o eixo da resistência: Hezbollah no Líbano, Ansar Allah no Iémen e as milícias do Iraque que, junto aos comandos iranianos, lutam contra o poder sionista e anglo-americano… Soleimani paga sua ousadia com a vida.
NOVA REALIDADE
Mas, apesar da destruição do Iraque, da Líbia, do Iémen, do Líbano e da Palestina, o poder ocidental declina, não somente na região, senão no mundo. No segundo tabuleiro, o económico, a China está claramente a ganhar a competência pelo controlo global: o Cinturão e Rota se torna um sucesso de investimento em infraestrutura de conexão com os mercados globais, de penetração de Beijing nos mercados do mundo e mesmo de controlo das cadeias de subministro global.
Por sua parte, a Rússia começava a assaltar o primeiro tabuleiro, o militar: ante a necessidade de defender-se contra o projeto de escudo espacial antimísseis dos EUA, os russos, deitando mão a um processo tecnológico iniciado na época da URSS, começaram a desenvolver mísseis hipersónicos, impossíveis de deter devido à sua velocidade. Em seu dia, Andrei Martyanov já advertiu do que isso significava.
A velha tática britânica da “anaconda”, rodear Rússia de bases militares hostis, desequilibrar seu “estrangeiro próximo” e ir demolindo a periferia da Federação até implodir o centro de controlo russo seguia a acrescentar-se. A OTAN seguia avançando e gerando essa pressão, grupos jihadistas destabilizavam o Oriente Meio e o Cáucaso afetando o poder de Moscovo.
Com a entrada da guerra na Ucrânia, a Rússia, mesmo com todos os seus erros, conseguiu debilitar seriamente o poder atlântico. A Rússia recuperou o seu poder de fabricação militar em massa, a OTAN perdeu ingentes quantidades de armamento, seus armazéns começaram a ter falta de reaposição e suas cadeias de suprimento se tornaram mais lentas, dada a menor capacidade de produção que a Rússia, devido a já estarem em modo de sobrevivência militar.
Pela natureza da mesma lógica das alianças, velhos inimigos começaram a achegar-se: a tecnologia hipersónica de repente apareceu no Irão, na China e até no Iémen… A lógica militar de poder naval talassocrático começava por meio da nova guerra eletrónica, de drones e missilística a deixar passo, devagar, a um novo poder telurocrático, que estava a ganhar terreno. A humilhação da armada norte-americana frente a Ansar Allah, no Iémen (grupo que não pôde vencer e teve de pactuar com ele) deixava entrever certa fragilidade no, em outra hora, incontestável poder Ocidental.
Com esse poder hipersónico, recentemente o Irão pôde resistir e mudar o curso da guerra (chamada dos 12 dias) com Israel. Pela primeira vez, desde a sua fundação, o estado sionista recebeu uma avalanche de mísseis que atingiram o seu território, criando grande destruição, sem que o noutra hora magnífico escudo antiaéreo (chamado Domo de Ferro) pudesse parar os ataques…
AS NOVAS NECESSIDADES
Com a chegada ao poder do presidente Donald Trump, impulsionado pelo movimento MAGA, tudo assemelhava aproximar a nova administração dos EUA da Federação Russa. No entanto, alianças divergentes de ambos: os norte-americanos com o poder sionista (grandes investidores que apoiaram economicamente Trump são judeus declarados defensores do Estado de Israel) e os russos com a China e o Irão, assim como o eixo da resistência na Síria complicaram este inicial acordo. A reunião de 15 de agosto de 2025, em Anchorage (Alasca) deu aparência dessas divergências poderem ser encaminhadas… Mas, finalmente, o poder norte-americano defensor do controlo privado encontrou uma grande cisão para acomodar-se com os interesses de uma Rússia defensora dum poder estatal forte.
Trump manteve e segue a manter a pressão económica sobre a Rússia e, no nível militar, segue prestando assistência técnica militar à Ucrânia, ainda que o peso da guerra fique nas mãos da Europa… O conflito aparentemente vai ter de ser resolvido pela via militar, bem por esgotamento do contrário, colapso das linhas da frente ou bem por uma paz à força, imposta por tanques à porta de casa…
Por sua vez, a Rússia segue a apoiar rivais geopolíticos como a Venezuela ou o Brasil, dentro do denominado pelos Estados Unidos “quintal das traseiras”, na América Latina; assim como afiança a sua aliança com a China neste continente (o grande rival comercial a bater pelos EUA). Do mesmo jeito, na África dá impulso à mudança do regime neo colonial da França, afetando também os interesses norte-americanos na região… No Oriente Meio, apoia, subtilmente, o Eixo da Resistência.
Fica claro que no embate entre o poder Corporativo Privado e o Poder Estatal, a Rússia apoia o lado da balança que se posiciona em favor duma maior soberania dos Estados, enquanto os EUA o poder corporativo privado. Impossibilitando, ambas as dinâmicas, na prática, acordos que possam ter maior profundidade.
O poder Oligárquico Corporativo Norte-americano tem, pela forma de atuar, chegado ao convencimento de que para confrontar o poder estatal chinês e russo, que ele visiona como “totalitário” precisa, por sua vez, de dar mais espaço a um poder mais autoritário dentro das suas próprias fronteiras… Tendo em conta que a aproximação da Rússia à China e a sua relativa unidade contra o mundo Ocidental (acrescentada pela guerra na Ucrânia), também está a trazer uma aproximação de ambos os modelos político-económicos. O mundo “multipolar” começa a rumar até um espécie de neo-socialismo.
Aqui, a realidade interior da Rússia vai dando mais espaço às teorias de Sergei Glaziev do que a aliança de patriotas “perna-vermelha” de Alexander Dugin (que teria triunfado se o MAGA houvesse encaminhado a Administração Trump até um poder estatal que combatesse o poder privado: mas o MAGA, após a morte de Charlie Kirk e a marginalização dos elementos mais próximos à Rússia como Tucker Carlson, está na base quebrado)…
Por sua vez, a reorientação de Sergey Karaganov ao Oriente e para a Ásia (a pesar de Karaganov achar possível ainda algum tipo de entendimento com os norte-americanos) e a tentativa dos Estados Unidos de quebrar as rotas da seda chinesa, na prática, marcam uma divergência de interesses, que não assemelha ter possibilidade de ser consertada.
O apoio europeu à Turquia e o norte-americano a Israel, que tem quebrado a segurança da czarina Catarina a Grande, quando falava de Damasco como guarda costas de Moscovo; junto à tentativa de derrubar o regime iraniano (a queda da porta de Teerão seria já uma situação limite para a Rússia) separa todavia mais ambos os rios, que procuram, pela sua natureza e as suas diversas necessidades, mares de chegada distintos…
A GUERRA COMO SOLUÇÃO
Estas situações trazem consigo movimentos ousados de força, para demonstrar ao contrário não ter fraqueza e sim firmeza. Estes posicionamentos poderiam, por pressão, abrir conflitos locais, regionais ou globais.
A intervenção recente na Venezuela e a ameaça ao Irão dão informação do poder norte-americano de de novo ver na guerra uma solução para as novas dinâmicas do mundo. Precisando de novo do poder Corporativo Privado de manter o dólar como moeda de reserva global e controlar os centros e fluxos e energia, assim como ter acesso às terras raras, para a carreira da IA e das novas tecnologias… A administração Trump começou em 2026 a mostrar a força da sua decisão.
Afogada por uma dívida económica em aumento, o governo Trump – precisa fazer-se pronto com riquezas tangíveis, que possam ser tomadas como colateral de divida, a vez de situar o mercado de energia de novo na sua moeda (o dólar) enquanto tenta reindustrializar seu pais à custa da Europa, privada (após o atentado contra o Nord Stream) de energia regular e barata.
A Gronelândia, como em seu dia demonstrou a consultora PRAXIS, é um local ideal para centralizar a corrida do Poder Estado Unidense pela hegemonia da IA e das novas tecnologias. A incorporação dela junto ao Canadá marca parte do controlo, por sua vez, das rotas do Ártico agora que a rota à Antártida está bem protegida pelo controlo militar dos EUA sobre a Patagónia, e a base militar britânica nas Malvinas.
Este tabuleiro geopolítico, novo de instabilidade e guerra, não chama muito a abrir os caminhos da esperança… Então onde a esperança, que permite a humanidade continuar evoluindo, reside?
A ESPERANÇA
A esperança reside em compreender os ciclos vitais da História, a longa marcha civilizacional. A queda dum centro civilizatório traz consigo o levantamento de outro. O ciclo do poder mercantil privado comercial parece que chegou ao seu fim. O novo ciclo dos cidadãos começa.
A expansão e a consolidação do poder Ocidental, desde que Portugal e Espanha (com a inovadora tecnologia portuguesa da caravela e do galeão) abriram as rotas do mundo para este centro civilizador chega a seu fim. Os países antes satélites do poder ocidental que, nos séculos XIX e XX iniciaram suas independências politicas, agora no século XXI estão a consolidar suas independências económicas, com gigantes como o Brasil, a China, a Índia e a Sul-África marcando caminhos… Sua ascensão dependerá do grau de declínio do último poder ocidental, mas as dinâmicas históricas não podem ser detidas. Velhos centros caem, novos se levantam.
Edgar Cayce acreditava, junto a Rudolf Steiner ser a Rússia um novo centro civilizacional espiritual destinado a impedir o caos tomar conta do mundo. Cayce também visionou a nova China como centro realizador da mensagem nova do Cristo, não que a China se fora tornar cristã, senão que iria trazer uma nova sociedade mais fraterna, onde o próximo fora considerado um outro eu: um como nós mesmos…
Cayce afirmava também que os EUA acabariam unindo-se à Rússia. Talvez, como afirmava Steiner, quando o Ocidente abandonar o individualismo materialista.
Estas visões podem ao melhor abrir luz sobre a enigmática afirmação de De Gaulle, segundo a qual o povo russo nunca descansaria, enquanto houver uma injustiça sobre a terra…
Parraviccini falava duma América florescendo e uma Europa em queda… Duma Argentina em mudança. Do começo da luz a partir da Venezuela, do México e de Cuba…
Segundo Parraviccini, a Latino-América se arrancará o capuz de não ver e verá…
José de Vasconcelos da nova raça cósmica a ser criada na bacia da Prata… E o Brasil como centro do novo ser humano.
Cada ser humano deverá tirar as suas próprias conclusões, mas todos devemos olhar para o bom, o belo e o justo.
Para caminhar juntos na Reintegração das Partes na Unidade.
“O segredo da existência humana reside não só em viver, mas também em saber para que se vive” (Fiódor Dostoiévski – “Os Irmãos Karamázov”)
Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores.Mocambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.










