Sociedade

A actualidade da inteligência auto-limitada | António Pedro Dores

Imagem: istockphoto

Resumo: na zona do pensamento mágico há quem pense que o cérebro humano é utilizado numa percentagem pequena. Pode aprender-se a explorá-lo melhor. Outra ideia é a de que a tecnologia é um vampiro, um risco para os trabalhadores, como pensavam os luddistas, e, com a Inteligência Artificial (IA), um risco para os profissionais, como pensam os transhumanistas. Ambas as ideias podem ser levadas a sério na condição de serem explicadas como riscos socialmente construídos.

 

O cérebro humano, como a IA, não existem separados da consciência social de que são parte. A ideia de que a inteligência vem do cérebro e a IA vem do algoritmo é redutora. Mais do que redutora, é, de facto, inibidora de melhores usos das nossas potencialidades: os usos socialmente partilhados da inteligência. Exemplifiquemos.

 

A actualidade das últimas semanas não se ocupa das guerras estratégicas, nem de genocídios, nem do alinhamento da União Europeia às exigências belicistas e de livre saque das informações pessoais para enriquecer os tecno-empresários globais. Não se ocupa dos riscos produzidos globalmente pela nossa civilização. Tais estão banalizados para que não haja a tentação de questionar os poderes supremos entre os humanos. A actualidade concentra atenções na espuma dos dias, como a falta de água em Almada e as falhas técnicas na correcção de exames, meras consequências locais de problemas maiores colocados fora de vista.

 

Há um padrão no pensamento moderno, a que podemos chamar cartesiano. Perde-se de vista o todo a pretexto de se aprofundar o estudo das partes, quando ambos – as partes e o todo, como num corpo vivo – só funcionam em mútua articulação. Esse padrão não é inocente: é politicamente configurado para que os debaixo não interfiram com quem decide os seus destinos a prazo, lá em cima e fora das vistas dos comuns dos mortais. Mas é possível exercitar um pouco a memória para ter uma perspectiva do que está a acontecer e nos fez chegar aqui.

 

Na crise da troika, houve dinheiro de helicóptero para encher os cofres dos bancos que não precisavam de dinheiro, enquanto se espremiam as condições de vida de quem viu os seus rendimentos inconstitucionalmente reduzidos por décadas numa época de encarecimento da vida, inibindo ao mesmo tempo os estados de fazer investimentos para que, em vez disso, pagassem as dívidas aumentadas pelas (ir)responsabilidades politicamente assumidas para resgate dos bancos e para alimento dos misteriosos e vampirescos credores.

imagem captada da internet de autor desconhecido durante a época da troika, representando o então primeiro-ministro, Passos Coelho, e o Zé Povinho.

O estado é poderoso com os fracos e solícito para com os ricos. A coisa banalizou-se. Os bancos voltaram a ser privatizados e os salários reduzidos foram constitucionalizados sem indeminizações. Daquela época emergiu de dentro do PSD o partido Chega e as esquerdas unidas pela geringonça foram reduzidas a espectadoras da política.

 

A política de redução da importância dos exames na educação desenvolvida à esquerda foi substituída pela reimposição da sua importância na vida pública e dos estudantes. A automatização dos processos de exame favorece a estratégia das direitas, na medida em que instala uma máquina tecnológica a que o vulgo atribui rigor e independência, enquanto o organismo independente de promoção e organização de exames foi desmantelado. Idealmente, num futuro próximo, a pretexto de aumentar a produtividade da função pública no sector da educação, todo o sistema de exames será automatizado, desde a formulação à avaliação dos testes ao anúncio individualizado de notas.

 

Alguns comentadores têm notado a falta de empatia dos responsáveis políticos, seja com os estudantes, seja com os professores metidos no imbróglio em que se tornaram os exames nacionais. Aos professores, idealmente, estão a ser pagas as últimas horas extraordinárias para avaliarem exames, se as coisas por parte da tecnologia correrem melhor. Aos estudantes resta pagar para terem alguma confiança nas classificações que a todos causam suspeitas fundadas. No futuro isso será impossível, pois os algoritmos, como as burocracias, errado ou certo, respondem sempre da mesma maneira. Quanto aos responsáveis políticos estão focados – como sempre – em distanciar-se quanto podem do escrutínio político e das vítimas das suas políticas.

 

Ao contrário do que dizem os comentadores, os políticos que não agradecem aos professores nem pedem desculpa aos estudantes mostram alguma empatia por eles. Sabendo o que as políticas em curso lhes estão a preparar, qualquer manifestação de empatia para com as vítimas dessas políticas é hipócrita. Tão hipócrita que os seus responsáveis precisam das recomendações dos comentadores para se elevarem à hipocrisia ainda mais alto do que à sua falta de empatia. O ministro da educação, tanto elogia os professores como os obriga a trabalhar horas extraordinárias não pagas para minimizar os estragos políticos de não estar a cumprir com o calendário das provas.

  

A modernização pode ser correctamente descrita como uma arquitectura de sistemas piramidais de caixas pretas, superiormente desenhados para produzir riquezas e acumulá-las às ordens de elites. Essas caixas pretas começam por ser desenhadas com pessoas dentro. Mas quando são suficientemente racionalizadas – é a expressão usada – a organização científica do trabalho dispensa as pessoas previamente reduzidas a indivíduos, como se quer fazer (sem sucesso) no caso dos professores face aos exames. Estudantes e professores não precisam de empatia condescendente: precisam de libertação de papéis sociais menores e menorizantes que os exames lhes impõem. Uns policias dos outros e os estudantes redutores de si mesmos àquilo que forem capazes de fazer naquela hora de exame. Qual é o espaço para a empatia quando se reduz o valor dos jovens ao desempenho em situação de exame, cujos resultados são, por sua vez, desmembrados em itens a serem avaliados por outros tantos professores que desconhecem os autores das respostas?

 

Keynes imaginou que o desenvolvimento do pós-guerra permitiria a redução do tempo de trabalho. Imaginou poder oferecer os ganhos da racionalização do trabalho aos trabalhadores. Mas o que aconteceu foi o inverso. Os trabalhadores do século XIX queriam livrar-se do trabalho. Mas os do século XX queriam mais trabalho, ou melhor, queriam mais rendimentos. Assim, a intensificação do trabalho foi e é acompanhada por aumento do número de trabalhadores e de horas trabalhadas por cada um. O que tem efeitos nefastos para o meio ambiente e para a sobrevivência dos mais desprotegidos em relação às alterações climáticas.

  

Actualmente, há quem se volte a preocupar com as ameaças de passar a haver falta de trabalho por via da robotização e da Inteligência Artificial (IA). Há os transhumanistas que alegam que a civilização vai dispensar a humanidade, pois sem trabalho (todo feito pelas máquinas inteligentes) para o que serviriam os humanos? E há quem note que a segunda lei da termodinâmica, a existência da entropia, impede a substituição completa dos humanos por máquinas. Abandonadas a si mesmas, as máquinas e a IA deixam de funcionar. António Damásio, no mesmo sentido, alega, por seu lado, que sem emoções, sem pessoas vivas, não há consciência nem inteligência. A discussão está para durar.

 

Segundo alguns comentadores, é a falta de empatia dos políticos que faz deles aptos para a sua profissão. Profissão caracterizada por ser favorável à automatização em que vivemos. De facto, mais em geral, aquilo que caracteriza a nossa época é a falta de inteligência, a incapacidade de reconhecer as realidades e de evitar insistir numa estratégia imperial suicidária. A falta de inteligência da geração mais escolarizada de sempre decorre dos esforços emocionais que aprendemos a fazer para suspender a empatia, para tentarmos ser racionais, profissionais, limitando-nos aos pensamentos cartesianos, especializados, os que não incomodam os nossos superiores, os que não discutem o todo nem a nossa civilização imoral e suicidária. Entregamo-nos à sociopatia de elites cujos representantes se imaginam deuses capazes de (com que empatia?) promover genocídios e guerras para moldar o mundo ao seu jeito.

    

Desde a troika, os estudantes perderam a esperança em salários que lhes permitam fazer uma vida independente, a não ser que decidam emigrar. O governo, em vez de atender a este problema nacional, prefere instigar respeito e prestígio punitivistas pelos exames, na esperança de reanimar sacrificialmente o prestígio do ensino superior que passou a abrir vagas sem candidaturas. Sem dúvida, a frequência dos exames reforça nos jovens a sua convicção de (de)mérito, conforme as notas atribuídas. Mas se isso não lhes oferece habitação condigna e empregos estimulantes, quanto tempo durará tal convicção meritocrática já tão abalada? 

 

O trajecto dos professores, como de quem está no mercado de trabalho, vai em sentido contrário das esperanças dos jovens escolarizados. Falta-lhes o respeito que já inspiraram. Com a massificação das escolas e a diversidade de classes e etnias dos estudantes que requerem tratamento individualizado, o trabalho dos professores passou a ser muito e contestado. Ficam doentes. Pretexto ideal para fazer deles cobaias de todas as experiências de abolição das funções de ensino, que começaram a ser experimentadas há cerca de 50 anos. Tomemos como sinal dessa reforma do ensino a invenção dos testes americanos já preparados para serem avaliados por leitura óptica, muito antes dessa tecnologia estar disponível. A automatização do ensino não é fácil, mas está em curso há décadas. Não é novidade. Vivemos apenas mais uma etapa do processo caracterizado por rotundos falhanços. Falhanços das tecnologias e das melhores intenções do ensino. O falhanço dos exames é apenas o último deles.

 

Como acontece com cada vez mais profissões, a industrialização dos processos de trabalho expropria os profissionais das respectivas competências específicas, dividindo-as em partes automatizáveis com a colaboração dos próprios trabalhadores expropriados. Mais uma vez, foi isso que aconteceu: os professores cobrem os defeitos dos automatismos enquanto os engenheiros ao serviço de quem os contratou tratam de substituir as partes automatizáveis do trabalho. As vítimas são cúmplices do processo que desvaloriza e desumaniza o seu trabalho.

 

A substituição de montes de profissões pela Inteligência Artificial (negócio deficitário de que não se prevê quando possa dar lucros) só será viável nas partes do trabalho profissional automatizáveis, em particular as partes em que a empatia já deixou de jogar qualquer papel.

 

A auto-limitada inteligência humana, reduzida à vontade individual do ministro da Educação, é também evidente a propósito da gestão da água em Almada.

 

O fornecimento da água às populações foi automatizado faz anos. Sem água nas torneiras, as pessoas ficam sem alternativas de recurso à multiplicidade de fontes a que recorriam, antes de haver água canalizada. Com o hábito de haver água canalizada, para as pessoas modernas é impensável que falte água, embora os avisos sobre a superveniência de guerras pela água estejam dados pelos cientistas. Portugal será um desses campos de batalha vivido por quem sobreviver à desertificação do território.

 

Ora, o impensável aconteceu em Almada, 2026. Faltou água num pico de calor que durou vários dias, sem que a empresa de águas soubesse ou quisesse informar o que se estava a passar. As populações já habituadas a falhas de água aleatórias, geralmente antecedidas de avisos de corte de água em certos horários alegadamente para obras na infra-estrutura, ficaram sem saber o que deveriam esperar. Faltar água por horas seguidas, sem aviso, dia após dia, passaria a ser o novo normal? Passaram semanas.

  

A discussão pública permitiu perceber que Almada é um concelho que recolhe águas subterrâneas, furando e bombeando nos concelhos vizinhos, ao invés do que fazem as principais grandes cidades portuguesas que recolhem água superficial a longas distâncias. Os desperdícios estruturais de água são mais de o dobro dos que se verificam em Lisboa e Porto, aumentando o custo da água ao consumidor.

 

O crescimento exponencial da população residente e de passagem no concelho de Almada obrigou a fazer mais furos, sem que em algum momento tivesse havido a oportunidade de repensar a estratégia de captação de água e de fazer uma manutenção afinada das infra-estruturas de distribuição. Como explicam os comentadores, a captação e distribuição de água é financiamento que não dá votos, pois as pessoas presumem que o acesso à água está garantido e não é um privilégio. (Faltam estímulos para o ego dos políticos). Por outro lado, os tiques de soberania local não suscitaram o entendimento desejável de, na área metropolitana de Lisboa, desenhar infra-estruturas que permitam o transvase entre si, evitando crises como a que veio a acontecer: durante várias semanas faltou água num pico de calor de Verão antecedido de um Inverno extremamente chuvoso.

 

Um ano antes, em tempo de seca em que faltou água no Algarve, as desculpas dos (ir)responsáveis políticos municipais teriam tido mais hipóteses de serem aceites. Em 2026, na tentativa de evitar males políticos maiores para os dirigentes, restou à Câmara dividir as opiniões, acusando uns e outros de desvio das águas, na linha dos preconceitos de classe.

 

Também aqui, os comentadores notaram a falta de empatia da Câmara de Almada para com os munícipes e o público. Na defesa da sua máquina, a Presidente atirou culpas em todas as direcções. Para os pobres, circulou a narrativa de que neste Verão (não nos anteriores) quem tem piscina resolveu enchê-la para se banhar em tempo de canícula. Para os ricos, circulou a narrativa de haver muitos roubos de água nos bairros problemáticos. Para os políticos, atirou as culpas para o concelho vizinho que impediu novos furos e quer negociar a cedência de água entre concelhos. Para a comunicação social foi elaborado um comunicado anódino que permite negar tudo: ter-se-ia tratado, calcule-se, de um problema de aumento inesperado da procura a que a oferta não teve elasticidade para responder.

  

Para muitos dos que vivem dos rendimentos sazonais na Costa da Caparica, que ainda por cima não votam na senhora Presidente, foi demais. Não há memória de uma manifestação na vila (agora cidade) desde que nas vésperas do 25 de Abril um grupo de jovens que jogava ao alho junto das esplanadas do centro foi intimado a dispersar pela polícia. Nessa altura, o que é hoje a praça principal da Costa era atravessada por uma estrada onde passavam os automóveis. O chafariz, que ainda lá está, ficava no passeio em frente do das esplanadas. A polícia entendeu que jogar ao alho era proibido. Os jovens veraneantes acharam graça e juntaram-se ao jogo. A polícia insistiu na proibição. Os jovens eram muitos e, para respeitar a proibição, decidiram atravessar a passadeira em fila indiana e voltar depois de darem a volta ao chafariz em círculo fechado, interrompendo o trânsito eternamente e desesperando a polícia.

 

Todos estes anos depois, a manifestação da água de muitas centenas de pessoas voltou a interromper o trânsito por muito tempo, mas agora na principal rotunda da cidade, à saída da via rápida. Foi notícia nacional. O certo é que na semana seguinte a empresa municipal de águas apresentou um horário de interrupções de fornecimento da água por freguesias, e a freguesia da Costa da Caparica não teria cortes. Quem não chora não mama, diz o povo. Seguramente, o valor do IMI e dos impostos sobre alojamentos locais e outras empresas turísticas sediadas na Costa também jogou algum papel na decisão da empresa de fornecimento de água.

 

Na China, dizem quem a visitou, a IA suscita esperança de que a vida se torne melhor. Não suscita temor de que a vida piore, como no Ocidente. Lá, os políticos estão contentes com os progressos.

 

Como o contracto social keynesiano suscitou esperança no pós-guerra no Ocidente, no Oriente pode ser que haja esperança de melhores salários e menos horas de trabalho. No Oriente, copiando o Ocidente também neste aspecto, vive-se a esperança de os políticos empatizarem com os cidadãos e os trabalhadores. Mas mais provavelmente, o transhumanismo, para a China e para o Ocidente, não é uma ameaça no futuro: é uma realidade presente. Uma sociedade dita inteligente, feita de robots mecânicos sem gente dentro, está há décadas a ser preparada por intensos trabalhos de produção prévia de robots humanos: de indivíduos racionalizados, sem emoções, de que os políticos são ideal-tipo, aos comandos de pessoas por eles vampirizadas. Assim, como numa relação sadomasoquista, as pessoas trabalham para se tornarem vítimas-cúmplices da desvalorização do seu trabalho e da sua condição humana.

 

Actualmente, já vivemos em sociedades feitas de robots de carne e osso ao comando de robots mecânicos e electrónicos feitos a partir da situação nada inteligente criada por pessoas desinteressadas dos assuntos estratégicos que determinam a qualidade das suas vidas, sejam eles haver ou não haver exames ou haver ou não haver sistemas de fornecimento de água fiáveis e sustentáveis. Quando e como aprenderemos a usar a parte da nossa inteligência politicamente bloqueada, em vez de nos deixarmos vampirizar?  

 

Fotografia de António Pedro Dores

António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e  https://libertacao.hypotheses.org/

Qual é a sua reação?

Gostei
1
Adorei
1
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Sociedade