Política

Um cartão vermelho a separar nações | Sandra Godinho

Foto: Phil Noble / Reuters

Em cada jogo que se ergue como festa maior, é ao árbitro que entregamos a confiança das regras. Ele é o guardião das leis, aquele que, com um olhar que vê mais do que simples olhos, sustenta o equilíbrio entre justiça e jogo. Ao erguer um cartão vermelho, ele tem a certeza de que este não é apenas um gesto, é a decisão que aborta a dúvida, é a mão que devolve ao campo a paz roubada por uma violência.

 

Quando um presidente decide anular esse gesto, não é só a regra do jogo que se desfaz. É o próprio campo do futebol se abrindo em fenda porque a neutralidade se perdeu e a FIFA, o órgão que deveria ser o templo maior das regras e da justiça desportiva, vê suas colunas corroídas pelo sopro de quem confunde poder com capricho. Quando o vermelho de uma violação é anulado, a bola rola num verde corrompido, mas não é apenas o jogo que perde o sentido. É o mundo se dividindo outra vez entre os que mandam e os que obedecem, entre os que colonizam e os que se deixam colonizar. O campo, que deveria ser território de imparcialidade, volta a ser palco das velhas práticas de dominação carregadas pelos homens tirânicos com violência, prática que atravessa os séculos. O gesto do juiz deveria proteger a beleza do jogo, mas sua suspensão torna-se espelho da injustiça, fato que também tem permeado a relação entre as nações mais ricas e as menos desenvolvidas, com os governantes das primeiras impondo tarifas exorbitantes e pondo o aparato de guerra sempre a postos como meio de intimidação. O futebol, este desporto que nasceu para unir e divertir as pessoas, vê-se – com a anulação do tal cartão – invadido por fronteiras invisíveis, passando a carregar o peso das antigas guerras, disfarçadas com a camisa da modernidade.

 

Dominar para conquistar: eis o credo dos homens que se ajoelham diante do grande capital, que se apropria não apenas do seu governante maior, mas também dos políticos e das instituições, e, ao fazê-lo, despreza os pequenos, os pobres, as minorias, os que temem perder sua soberania e autonomia, receosos da longa estrada que o autoritarismo abre neste mundo incendiado pela cobiça.

 

São homens que defendem tanto o próprio território que se esquecem dos outros, importam-se tanto com a própria língua que esquecem das demais, importam-se tanto com a própria cultura que esquecem que foi formada por outras tantas que transitaram sobre seu solo. Não foram os gauleses e os romanos que formaram o povo francês? Não foi um espanhol a descobrir a América e um português a descobrir o Brasil? Não foram os puritanos irlandeses os primeiros imigrantes a aportarem na América do Norte para povoá-la, varrendo de lá os nativos que já a habitavam? São homens que não entendem que somos feitos de muitas vozes e de muitos chãos e que estas terras já enterraram mortos de variadas peles. São tiranos que, com seus passos sonâmbulos, não veem, ou não querem ver. E não carregam a culpa porque querem ser o centro do mundo. Aliás, do mundo, querem ser os donos.

 

Temos assistido grandes corporações beberem da seiva da terra dos países pobres, sugando seus recursos e sua gente como quem colhe sem plantar. A riqueza nasce ali, mas não floresce para quem a gerou, escapa em rios invisíveis da evasão fiscal, deixando para trás apenas o pó da exploração. Ao povo explorado sobram os restos, os salários que não alimentam, as jornadas que não terminam, os ecossistemas rasgados pela ganância, os rios feridos pela poluição. Os tiranos continuam caminhando como sonâmbulos, trazendo nos bolsos a arrogância derivada do poder e às costas um cemitério vivo de inocentes, desmontando as regras do mundo e destruindo a esperança de viver em coletivo, respeitando a terra, os rios e a diversidade humana que nos é própria.

 

No entanto, persistimos, aguardamos o tempo de o futebol voltar a ser um sonho partilhado e um território de justiça, em que um cartão vermelho, quando acionado pelo árbitro, seja apenas punição por uma conduta antidesportiva e não o gesto que convoca, de novo, os velhos fantasmas de uma antiga tirania.

fotografia de Sandra Godinho.

Sandra Godinho nascida a 27/07/1960 em São Paulo, mora há 23 anos em Manaus; é graduada e Mestre em Letras e tem 16 livros publicados. Orelha Lavada, Infância Roubada (contos – 2018) recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas em 2019; O Verso do Reverso (contos) ganhou o Prêmio Cidade de Manaus  em 2019; Tocaia do Norte (romance) recebeu Prêmio Cidade de Manaus em 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021; A Morte é a promessa de algum fim (romance) recebeu o Prêmio Cidade de Manaus em 2021; Memórias de uma mulher Morta (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2021; A Secura dos Ossos (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2022. Nós, cegos (contos) foi vencedor do 1º Prêmio Carolina de Jesus em 2023 e foi contemplado com o PNAB 2024. O Negro secou (contos) recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Manaus em 2024. Paralelo 11(romance) foi finalista no Prêmio Leya 2024. Inventário de um silêncio venceu o I prêmio Escreviventes em 2025 e A bússola dos Gigantes venceu o II Prêmio Frauta de Barro em 2026. Tocaia do Norte ganhou ainda o Prêmio da BN em 2023 e está sendo traduzido para o Inglês e A Secura dos Ossos ganhou o Prêmio da BN em 2024 e está sendo traduzido para o Português moçambicano.

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