Cultura

O Silêncio e as Musas na pintura de Fernando Esteves Pinto | Henrique Dória

Subida - de Fernando Esteves Pinto

Dizia Newton, na esteira de Bernardo de Chartres, que se ele mesmo via mais longe do que os outros era por estar sobre os ombros de gigantes. Num tempo em que a pintura parece, há muito, ter esgotado a sua capacidade de nos dizer algo de radicalmente novo, só olhando sobre os ombros de gigantes é que logramos não só olhar mais além mas, e sobretudo, sermos nós mesmos. As sete obras de Fernando Esteves Pinto que a Incomunidade aqui apresenta aos seus leitores, são o exemplo de quem consegue ver-se a si mesmo olhando sobre os ombros de gigantes.

Na obra  pictórica de Fernando Esteves Pinto, o seu olhar remete-nos para um passado grandioso: as alusões a Matisse na exuberância da cor, a Chirico em algumas formas, e a Mário Botas noutras formas e na dinâmica do traço. Influências tão diversas mas todas elas unidas pela visão poética de pintura, porque o pintor é, também, o poeta Fernando Esteves Pinto que transporta para a pintura um lirismo que muito deve à poesia.

As três primeiras obras aqui apresentadas são, na realidade, uma só que se desenvolve em tríptico, sob o título, AS SILENCIADORAS. São três mulheres, misteriosas como as mulheres de cabeça oval de Chirico, mas cheias de tonalidades contratantes, onde as cores frias se sobrepõem às cores quentes, e o silêncio das cadeiras  vazias e do violoncelo solitário nos remete para as silenciadoras, três mulheres, três musas, na primeira das quais germina o trigo ocupando o maior espaço da sua cabeça.

Bailarinas de de Fernando Esteves Pinto

A quarta obra é um louvor e simplificação da arte da dança que tanto apaixonou Matisse: traços simples e dinâmicos com predominância da linha, marcando a diferença da técnica de Fernando Esteves Pinto em relação ao grande mestre francês que privilegiava a cor.

Figuras Complexas de Fernando Esteves Pinto

A quinta obra remete-nos para a arte do teatro, a arte de Tália com  a cadeira   que envolve a mulher sentada num verde Veronese: o seu rosto é uma máscara e, ao fundo, à esquerda, surge-nos um bode que nos remete, também ele, para o teatro trágico, o canto do bode. Mas se a tragédia nos surge no canto esquerdo da obra, ela é envolvida pelas corres quentes do plano de fundo da tela que, juntamente com o verde da cadeira, nos dão um sinal da esperança.

Leituras de Fernando Esteves Pinto

Na sexta obra predominam as cores sobre as linhas, e o tema é a leitura. Porém, a musa não é já representada por uma tabuleta e um estilete, mas por um livro, algo que está em risco de se tornar história. As cores quentes da obra tornam-se predominantes em relação ao grosso traço negro que envolve a figura feminina dos pés à cabeça.

Subida de Fernando Esteves Pinto

A cor é também o material usado por Fernando Esteves Pinto na última tela: o homem subindo uma escada é o homem em ascensão, o homem rumo ao sol vermelho. O seu negro diz-nos que é o homem antes do Homem, mas um homem onde ainda mora a esperança. Impossível também não lembrar aqui, também, a genial tela de Goya, O Cão. Mas ao contrário de Goya em que o cão nos surge envolvido e aniquilado pela tempestade, o homem ascendente de Fernando Esteves Pinto é um homem envolvido pelas cores quentes da esperança.

Com isso, não estará o pintor a dizer-nos que é na arte e na poesia, isto é, na beleza, que se encontra a esperança?

HENRIQUE DÓRIA

Foto: Henrique Dória

Henrique Dória é advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da Rádio Transforma.

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