Cultura

Excripta-Cubomedusa | Luís Serguilha

Foto de Maya Alexa G. Romero na Unsplash

Imagem: CAVANI ROSAS

Uma cegueira pelas ansas de anastomose de uma excripta se torna visão de
teias vertiginosas pela experiência de uma voluta a impulsionar uma crise
solitária junto ao inconcebível em torno do inatual libertário: vértices dos
vasculhos regeneram o fascínio dos dedos pelos himénios a voltarem-se
tensamente para trás, tocando nas malhas reverberantes dos mortos com
gambiarras únicas cheias de cores aposemáticas e de restos de estacarias de
propágulos. Uma mão pelos pólipos da acosmicidade. Torna-se aglomerado de cromatinas dismórficas. Uma mão deambula à volta de um polvo-de-anel-azul, resvés à salamandra-de-fogo e ao cimo de um espelhamento de sépias com vestígios de saprótrofos: cores crípticas relançam a exuberância de uma
cabeça contra mariposas-tigre e fósseis de compressão. Uma mão com
líquenes a tecer-se no ensejo do sensível do desigual, burilando nervos de uma
diferença ameboide, uma assimetria nas minúcias do olhar com máculas
convergentes, uma insubordinação trófica entre línguas estaladas por
patógenos e parasitas: há uma desmesura com côdeas ignescentes, há uma
malha de crueldades pela carniçaria do inescrito a metabolizar escomas, há
filaças vérmicas pela mão solfatárica: sentido ouriçado de quem mergulha no
colosso latejante onde a monstruosidade é já o possível sorvo pelas malhas de
um cerne-guturante a reverberar à volta do fio eternal da liquenização. Dizem:
cânticos refulgem na intumescência do trágico com o risco da leveza de uma
pulsação subterrânea a arrastar o levante pelo balanço atemporal e
incontrolável: uma vespa-do-mar com neurulações sazonais a debulhar peles já abrasivas de um mergulhador de colossais crisálidas em coagulação
invaginada. Dizem: erupção pliniana pela cabeça junto a uma caldeira de
abatimento. Liças de estenoses lapidam-se até escutar um glomérulo
apoptótico. Incisuras rubescentes oscilam gradativamente entre filtragens
pigmentares e epicentros de mordeduras fatais: há antecâmaras com restos de
lingoteiras, há insuladores de glóbulos e um vitral clástico é escorrido por
goivas em subducção: há uma singradura hemorrágica a bordar luminárias
líquidas sobre os últimos arrampadouros placentários: há cópulas torácicas rés aos sangramentos das lacraias por dentro de sismicidades e de azulejarias:
enastrar oxidações entre escoaduras de cutelos e blindagens rudimentares:
despontam nódulos e ânulos espiralados contra a evaporação dos sarcófagos
e das rarescências dos sudários marinhos: esfoliação transparente com
araduras de mostos sensoriais onde vários olhos granulares mondam a
tamisação nervosa. Dizem: um estatocisto em contorção e com terminações
centrífugas a cauterizar quimiorreceptores: alfurja de retinas extemporâneas a sugar fibras de crustas: tentáculos cinerícios decaem pelas bases laminares
com chispas musculares urentes: peçonhas a jorrar dos garavatos
microscópicos: fundo da escalavradura a enrodilhar-se nos tragos peganhentos das curvidades verbais e um colapso se demuda em decantação a pôr-se nos indícios desalinhados de uma cabeça viva e honrada pela sua lavra
caoticamente garimpeira: há um fundo surdo com espessuras irisadas a durar
na escuta dos acervos moventes da existência: outras cabeças soltas pelo
talvez rítmico e impetuoso do resguardo e do acolhimento de uma esgarçadura de vespas que vai e volta, oscilando entre cracas e sedimentos dermatófitos: musicalidade de um recomeço de uma queda a elevar-se pelo ócio abrupto e pelas cristas estomáticas do acaso: há uma composição de vozes a entranhar-se nas fendas do impossível e sombras lamelares inalteráveis mostram suas asperezas diante de outra voz em concha a destilar-se, esvaecendo-se para capturar um dizer no aro tremendo do indiscernível e desdobrar-se na saída mais brusca de uma vesícula que se hibridiza pelo salto forqueado do silêncio: expressar o sono de uma interrogação ininterrupta e poros da atenção convertem-se no jazz dos espaços porosos e sedimentares. Dizem: uma elisão espantosa pela cabeça intuitiva e rizomorfa a arriscar escolher o espantoso difrativo através de restos da errância verbal cerzida com hifas ascógenas ainda febris no retornar à voz da excripta: há uma estranha metamorfose da transparência dentro da lucidez em exaustão fragmentária sobre batueiras fulgentes de uma excripta a existir-se nos cordões miceliais de uma prática alogênica e autóloga da voz, surgindo aturdida atrás do brotamento de uma palavra inesperada sobre um gigantesco ascoma: deformações pendidas pela excripta a alçar uma labareda verbal até ao seu entrecorte impérvio onde uma rosa instantânea se arroja para uma hiância pavorosa que se abre à reinvenção veloz sanguínea de um olhar com súmulas e lances suspensos na aranha da hesitação. Dizem: mão aterrorizada pela abertura incendiária de putrefações ainda com frinchas chispantes onde a secura escarafunchada pelo zumbido da fome é já ardência de uma gorja ancestral rés à desencarnação mais obscura de um pormenor micorrízico: nuances da mão a desabar pelas tecedeiras de bolores, afiando minúsculas estridulações com seivas convulsas dos nervos diante de uma linfa opaca e trémula dos sentidos: pura subducção entre vaivéns e apostas de palavras esguelhadas pelos prenúncios do falho cenocítico: ameaças, gemulações e esquecimentos instaurados na promessa exoesquelética de uma ruína com peristalses nos contrastes furtivos de um anacronismo anterógrado: nada se desemaranha, mas se assoalha na crise de uma extremidade olhante em sobrevivência entre o imensurável fora da visão, absorvendo a quebra mosaicista junto ao gesto intrincado pelas traçaduras microscópicas de promissões que tentam alcançar uma língua e uma fala a desfazerem-se por detrás do pensamento: um espírito do alhures a estremecer na obsessão timpânica de uma excripta. Dizem: uma voz assimila xilemas do vazio, virando, desdizendo para rearremessar o inusitado que a percorre em
torno de apreensões larvares: uma repetição plena a respirar as veias
peristálticas de uma excripta por meio de uma visagem inflamável e de uma
palavra sempre por ver, fugindo incoercivelmente: há uma frente de pressão,
há a pureza saturada de um fastígio do acaso a abismar furiosamente esporos,
batendo nos apertos dos turgores entre ostíolos das palavras: denso pacto
mitocondrial a deformar-se, jogando com o inexpugnável a atravessar uma
cabeça de contumácias irreduzíveis e apinhadas de múltiplas recusas diante de deuses instintivos com gritos da incompreensibilidade pelo excesso da
agudeza atravessadora do horror: uma vaporosa espreita da devastação a
rasgar qualquer expectativa e o suor do informe do micetoma mais acolhido
embate nas esponjas verbais com restos de luminárias das desdobras e de
lumes incapturáveis ao redor do caos sensível de uma cabeça que se afasta da
excripta para se arredar da palavra e excriptar alogicamente até atingir a
eclosão imagética das composições do infinito: opulência de uma língua a
deslizar sobre uma esfera de frutos podres e uma visão nos olha de uma
sombra a crescer desviada de interferências solares. Dizem: sopros das falhas
e das cizânias em movimento pela espessura do animal rumo às libações do
estranhamento onde medulas entrançadas faíscam entre o inexplicável e o
libertango de Piazzolla: brasas hieroglíficas com incisões de uma artéria
babelizada: uma excripta se transverte em ductos inconscientes enquanto se
excripta, disseminando-se pela transbordância de cada repetição labiríntica: sal arrastado na luxuriante língua com ritmos a vazar pelos desafios dos
presságios em forma de lâmina espélhica e bifurcada: copulação de
crepúsculos das turbulências e de isolamentos indetermináveis de um aprendiz de espíritos imediatos com carvões contraídos nos dedos azuis e carregados de enzimas e de leveduras de uma duração acronológica: oscilações de cristais fazem escutar ecos dos sentidos mais amorfos a fenderem-se para ganhar força antes das palavras que estão por acontecer através do impossível, lacunando-se por meio de profusões geométricas, de
silêncios em flabelo e de torceduras híbridas: olhos arregaçam-se de
muitas maneiras e se interrompem pelo lapso do vislumbre a infinitizar-se
de prováveis anamorfoses. Perfurar o prodígio com a aberração encarnada
na excripta. A anomalia é já o sopro quiasmático; o orifício da sobrevivência a
rebentar pela delicadeza da desumanização. Uma vidência espalhada a
alucinar diante das esfinges, das dores, das texturas e dos avessos: um olho
deforma-se dentro do olho que se grava, que se traceja antes da visão,
transmutando-se em passagem silenciosa a suplantar uma excripta. Dizem: é a dança das pregas intuitivas e dos vincos expressivos, com intermináveis
arranjos pelo imprevisível permeável. Um bisturi da pura respiração esculpe o
caleidoscópio de uma essência que, no seu interior, se presentifica, reside,
vibra, habita e vige, mostrando o rastro do inalcançável através do exílio de
uma intimidade. Uma excripta que se excripta com o desvio indefinível e
inconclusivo das palavras em outramento alucinado.
Dizem: dançar na área nebulosa junto à palavra que cai, aproximando
enfermidades, ulcerações, desfalecidos, emigrantes, cadáveres e improvisatas.
Uma poeira pelo esquecimento entre reconstruções deslumbradas de um gesto a dilatar-se ubiquamente: espuma de feixes acesa pela consistência da fome e pelos entretempos vorazes das pedras, até à plasticidade erótica de um sentido que é já cólera e inquietação pelo acidente irrefreável de uma dissimetria, incorporando-a. Exageração instintual e intransitiva de uma excripta que tenta despontar com traduções, recriando-se cósmica e fabularmente: arrasto cintilante de tijucos e sorvedouros de deuses enlouquecidos. Curvatura talhada entre outra curvidade batida por relâmpagos, como um hiato da anomalia e de um sintoma impronunciável, onde uma voz tenta desvelar-se dentro de uma voz por vir já com múltiplos sentidos testemunhais dos sacrares que relanceiam um gesto sanguíneo para uma escuta impreterível. Um seixo retumba nas drupas profundas e constelares da excripta, e uma artéria torna-se longitude astrífera de um dizer aliado ao inominável que vem de uma cabeça originária  e, concomitantemente, extemporânea. Tenaz e obsessiva voz pela apreensão
animal, a fisgar interstícios do inexprimível emaranhados por silêncios;
explosão do único entre vibrações de ajustes de dons cruéis, carregados de
ruídos ténues de quem espera por escutadores de veias de alabastros e de
ardósias que esbulham géneses de uma língua, levando-as ao ritmo espectral
de um aparecimento inconfessável. Furiosa exaltação a esculpir uma mancha
do grito na lápide imaculada onde insetos arroxeados-cinabrinos batem, cheios de precipitações do horror. Puro floco a dançar o endereço de uma travessia sem rosto e com rosto soterrado no rosto a irradiar-se pelo vazio rasgador de ultimatos de uma respiração branquial. Uma reminiscência com golpes de invenção a cada instante, cortando fugazmente o encontro cutâneo,
dissecando-se a si mesma. Absorver o abrasamento do imprevisível e a
rubidez de um hausto, aberto à grandeza por acontecer na desmesura que se
repercute, escorando o acaso com a dor da ventilação forçada do espírito.
Tudo se transmuta em sustento de uma febre repetida pelo tempo do fogo;
uma falange a intrincar-se na mistura dos bichos sob uma pedra propensa e
embaciada. Palavras içam-se com tons, crises, tensões e nodosidades pelas
gorjas radiculares; vão e voltam, entrançam-se com afinco e robustez, incidem
luminosamente nas hesitações de uma cóclea alheia. Há oferendas
transparentes pelas bocas dos monstros a cantar a mudez na sugestão
respiratória. Volúvel areia da intuição pela cal de uma superfície de chamas a
devorar cicatrizes retraídas pelo intervalo do contacto de uma língua, ainda em torno dos seus despojos e tecidos absorventes. Espaço sombrio na morada
confusa de uma úlcera verbal a resvalar pelas cinzas de um nome, a esboçar o
sentido da sua desaparição, colocando-se em movimento através de uma
persistência secretora que o zurze. Afinco insueto, tenacidade rara através da
matéria do esquecimento do que poderá vir a ser e do que é provável.
Flagelada mão com uma arpoeira a ascender contra a recusa de uma palavra
inacabada e, simultaneamente, secreta, acolchoando-se até à arquitectura
silenciosa a expelir sobressaltos e rebates sobre a pureza do exórdio de uma
propagação animalizante, inscrita no ferimento de quem tenta falar. Há uma
úlcera a cuidar-se com a própria peçonha rizoidal. Sopro de uma falha e de
uma divergência na espessura movente do animal na agulha das purgações,
onde tutanos enlaçados chispam iras hieroglíficas com talhos de uma halita
duradoura, rés à catástrofe que ecoa na cabeça a reinventar-se com perígenos
da acronia. Aqui e agora: uma palavra sobeja e evapora, some, dissipa-se e
transmuta-se em penumbra de um tragadeiro arrebatador defronte à
hanseníase da excripta. Há um colecionador de escombros bênticos e de
embates furiosos a digladiar espíritos reminiscentes, com rastos de deuses que nunca voltaram. Intraduzível flutuação de tricomas sobre uma pupila inaudível a lacerar-se pelas tendências do vazio, transvertendo-se em ritmo transeunte a acolher bombeamentos bucais e cegueiras vasculares que abordam uma cabeça cruel, antes dela as sentir diante da oblação de um imolado, desafiando a morte com seu ardor e sua aspergilose. Intacta duração exercitada pela excripta como um cântico vivo por dentro do incorpóreo; uma visão lateja loucamente pelo cerne andarilho, oferecendo sua mobilidade ao impulso incessante de um sobrepujamento, de uma garra inseparável de um todo precioso e libertário. Olho a sacudir microfibrilas no desvio refratário da
plasmogamia e pelo silêncio de uma adulteração fabular, hospedando
mesófilos e insistências filamentosas. Dizem: plenitude indecifrável de quem
excripta com o excesso de um dizer que é já silêncio do terrífico zelo, a refazer-se na fascinação oblonga de uma ruína alingual. Magnetismo atmosférico pela língua a retraçar-se com o vazio antes do vazio da excripta, diferindo-se . Retornar com o pulmão do outro a imaginar-se intuitivamente como um segredo cruel e imprevisível, a arfar entre a experiência de um rastro da tradução que entranha placas de um interregno ininterrupto até às abcissas de uma adjacência insana. Uma sorvedura tão próxima e tão intransitável levanta a suntuosa perfeição de uma palavra junto
ao grão contíguo de uma trinca cárdica. Um batimento alucinatório faz-nos
retornar ao apoplasto da amaurose para discrepar, improvisar e criar espaços
irrefletidamente, revendo o risco do corpo alheio no corpo ádveno, dissecando-se com o inominável, com a sonoridade do sumiço e com o lampejo do irreconhecível até impetrar o inesperado esgotamento. Apotécio ondulante pelo espaço do vareio a ferver coexistentemente na mão voluptuosa e entre excriptas rememoradas que se anatomizam até ao resto impulsionador de uma memória imemorial e inacessível. Resta-lhe extrapolar e atritar sedutoramente o infinito de um lance ínfimo e íntimo, onde uma forma desaparece noutra forma estorcegada pela interminável voz a silenciar-se diante do desconhecido da sua linguagem que se espairece rizosfericamente com o próprio empenho junto a uma dádiva. Uma excripta-corpo transporta inexaurivelmente palavras, vazios, sintomas, ritmos, equívocos e paramnésias, criando espaços com transmutações, rasgos indestrutíveis, anomalias e rompimentos que se esquivam através de uma voz entretecida carnazmente.
Dizem: infinitude de uma excripta a recriar-se e a arrancar-se de intimidade em intimidade, de tentativa em tentativa, assimilando o contíguo dançante do
desvairo e da compulsão diafragmática, onde o sacrifício espontâneo é já
improvisata veemente e, por vezes, tremenda dor a lacerar pulsações
eclipsadas na consciência. Uma excripta anatomiza-se. Repete-se pelo
acaso, absorvendo dores com o ligame da invenção; aprende o anverso do
sopro entre laçadas delirantes. Há uma escuta do esquecimento perante a
crise topológica: o espírito ritmiza-se com o aperiódico. Explora o tempo de
uma mão-vitiligada que se aborda pela própria longitude, resvalando fora de
endereços, contígua ao golpe do informe e à vazadura de um fundo verbal
inatingível. Movências de uma ocultação adentrada pelo sentido. Recria-se,
intuitiva, entre abaladuras que verbalizam o que as esculpe por dentro de uma
eternidade intersticial. Uma excripta advém por calhar; consiste na vida de uma cabeça eriçada, ofuscando-se no cristalino até à mudez do grito. Captura
hiatos. Infinitiza-se no arrojo e no efémero da rebentação de um baque
silenciosamente inconcluso. Uma excripta a vir à excripta: o corpo vesano
antes do dizer. Desenrola-se na experiência que a dura, constituindo-se pela
solidão que tacteia o impensável. Uma voz anterioriza uma voz que nunca
acontece; é silêncio de um lampejo que penetra, ritmicamente,
fotossintetizando-se. Excriptar: exercício de vivência arrebatadora. Processo
animalizante, vegetal, cárstico. Palavras vibram, atravessam escorços,
esquivam-se antes da escrita para intrincar a mão que foge. Uma mão que
procede da deriva do instante; volutas com tecido subcutâneo exposto por um
espeleotema que pulsa enquanto esboça, restaurando o gotejamento que a
desenha. Mão antes da mão. Impacto ecótono e ressonância das tricotagens
de esfoladuras cronizadas. Espreita do imprevisível na sonoridade de anartrias entre palavras hipodérmicas a fender palavras omnívoras. Respiros rés ao sentido a baterem na mão-vitiligada, abrolhando na vergôntea de um fundo denso e escavado. Sumular estonteamentos: cabeça pulsátil soprada pela música do avesso fúngico. Uma voz devora outra voz com o sussurro vindo de trás das bolhas pulmonares. Compactam-se. Existem porosamente, sem voz, ateando o âmnio-lahar na improvisação cruel. O fôlego vivo garatuja-se pelas  Mostra durações dos alantoides. Absorve o
pó silente de uma válvula com ecos glóticos: um espectro a ver-se pelo próprio
despojamento relampagueante. Dizem: palavras a acontecer pelo crime que as
esculpe. Escavam a própria clivagem logorreica, experimentando cegamente
uma excripta até à medula hialina. Aqui-agora: uma voz tenta o inexpressível
pela génese do excesso: vê veias, artérias e úlceras. Se torna citóstoma
nástico e com tecido de sustentação serrilha-se. Cabeça que mergulha e
emerge vorazmente, evadindo-se pelo volátil da mestria de uma mão que
pensa o silêncio à volta de sensilas. O vácuo assombradiço do prestígio.
Tensão nos bisturis diante de uma ablepsia folhosa. Desponta um vólvulo na
zona vadosa. Um gigantesco prossoma a rebrilhar. Uma mão pelo brotamento
epicórmico de uma excripta tenta placentar-se. Relâmpago de relevo múltiplo a ricochetear. Irrupção de um traço incógnito pelo corpo vítreo. Achar-se no
abalar perante um idiolecto halófilo que interrompe a tradição da voz. Dar-se no hífen-puzzle com ecos inomináveis. Tenebrosas diplofonias. Um acervo do
esquecimento espelha o jogo abíssico; escuta o arrasto ofídico das palavras
que vociferam pela pele inalatória. Um fundo desvairado pousa no instante
escamígero. O pensamento desfigura a mão que o enverga; desfaz-se,
sacudindo uma oblata incomunicável. Dançar o anfibológico. Respira-se o
ápice lingual, musicalmente terrífico e órfico. Encontro de uma mão pelo risco
de um arrabalde existencial. Anonimato no ressoar das palavras em delíquio.
Uma mão-vitiligada excripta à frente de si-mesma. Antecipa-se em acto
fossilizado. Aqui-agora. Uma mão deixa desabar o seu expurgo, já fora da
excripta, como uma oscilação da eternidade na greta do impossível. Ver as
agulharias da existência nos estomas de uma sobrevivência. Dor rigorosa,
anamórfica. Dor estígia. Queratina exílica. Calandramento esburacado. Mão
sempre afastada de si, batendo, urdindo, atravessando-se até se descaroçar.
Misturações remanescentes, olhares imaterialmente tangíveis, migrantes de
uma dilaceração autofágica. Um lugar em rascunho a fugir para uma cabeça
que nunca nasceu, regerminando pela prensagem do ar. Alinhavos estéreis. Pó do rasgo anfíbio contra um arco de areia. A bílis do cupinzeiro candente forja núcleos incestuosos, drenados por seixos de bestiários. Geometria da mão-vitiligada enlodada entre crânios secos e gatilhos. Harpa de dores. Um escopro mineral move-se carregado de mezinhas do vazio até perfurar a náusea com a acurácia de uma clepsidra. Peças longas das mãos escorridas por um relâmpago. Verga apodrentada cravada nas guelras crespas. Palavras urdem escamas estuantes de uma encarnação excriptora. Seda trêfega na mão- vitiligada. Beiras talhantes destroçam a cabeça do animal, raspando
solavancos de um respiro que se contorce nos entulhos de muco. Flâmula-
pêndulo de uma bolha a ferver de sangue martelado. Por dentro. Uma excripta consiste na lavra do acidente em propagação ziguezagueante: um(e). Havia também talos de sol-gel pelo vaso oco. Extraem-se da excripta angulações ocultas que a retraem com membranas ondulatórias, já entumescidas pela respiração ígnea da viragem do excesso: ir-vindo-interrompendo, vibrantemente, com as voltagens das váulas do horror… Uma desova de microganchos de cnidários fagocita-se por dentro de gigantescos
macrófagos purpúreos; uma mão vitiligada tenta agarrar arpões
impercetíveis de uma excripta e desmancha-se, colapsa entre anéis
nervinos e ocelos escavadamente fendidos. Uma mão torna-se o laivo de
uma cubomedusa e enreda-se numa tenebrosa córnea epidérmica. Uma mão é
já excripta viscosa e creatófaga pelo vácuo onomatúrgico, flutua com impactos
letíferos, fagocita-se ao forragear-se com ropálios e grumos de sangue,
cegando pela hemostasia. Vespas enredadas em malhas nervosas arquejam,
aterrorizam-se, suicidam-se contra uma mão, injetando-lhe veneno. Há
brotoejas, pruridos, febres, engulhos e repugnâncias que atingem uma necrose germinativa. Uma sombra tentacular, de ponta afiada e solta, salienta
inflexões culminantes, invade uma excripta e transmuta-a em cnidócito
entre presas e ameaças, desaparecendo cristalinamente.
In Obra Poética de Luís Serguilha

Fotografia de Luís Serguilha. Autor da foto: Márcia Charnizon.

Luís Serguilha nasceu em Portugal e nos últimos anos percorreu algumas geografias da América do Sul. É poeta, ensaísta e curador de arte ibero afro americana. Publicou 17 livros de poesia e ensaio: Kalahari, Plantar rosas na barbárie, Falar é morder uma epidemia, os esgrimistas de Á-peiron, Hamartía e ACTRIZ ACTRIZ – o Palco do Esquecimento e do Vazio são os títulos de alguns dos seus livros. Em 2022 publicou o 1 volume da sua obra poética no Brasil. Em 2024 e 2025, publicou os volumes 1 e 2 da obra poética em Portugal pelas Edições Húmus.  Radicado no Recife, criou a estética batizada como Laharsismo, estudada em Universidades. Recebeu os prêmios Hermilo Borba Filho e Júlio Brandão ambos da área de Literatura. Tem sido convidado por institudos e várias universidades ibero-americanas para conversar e ministrar conferências sobre os seus ensaios-criativos,  envolvidos por atractores estranhos, que atravessam corpo-arte-pensamento-poesia.

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