
248 DECIBÉIS
248 decibéis é o som do cavaleiro da morte
No alto do Promontório
Os seus cascos batem numa nuvem-cogumelo
De baixas frequências
E o tridente que se ergue do mar
É um clarão estridente
Varre tudo como onda
Sonora que esventra
Flash de luz divina cegando
Os olhos da ignorância
Deus tirando uma fotografia
Que guarda no bolso
Da memória.
*
ZUMBIDO
Vai-se calando aos poucos a poesia
Vai-se calando a melodia
E esta surdez que nasce nos ouvidos
Zumbido estridente que soa
I-nin-ter-rup-ta-men-te
Quem me dera acordar e perder a memória
Ficar amnésica
Não me lembrar de mim
Quem me dera ter a vossa alegria
Todas as vossas certezas
Quem me dera saber falar como vocês falam
Dizer palavras claras
E acreditar nelas
Quem me dera sentir como vocês sentem
Ser apenas desejo e esquecimento
E não esta sensação de animal ferido
Em extinção
Quem me dera ser real como vocês são
Dizer frases completas
Sem adjetivos. Sem verbos
E não esta sensação de ser ficção
De não saber o que sou
De não ser predicável
De ter passado a minha vida inteira como um fantasma no labirinto
A mudar de lençol.
*
TAKE2
Há coisas que nunca serão um par
Estão sempre desfasadas no tempo e fora do lugar
Como o negativo de uma fotografia
Que ficou esquecido no fundo de um tanque
Retangular
Ou uma imagem digital
Ficcionada
Nunca aparecem lado a lado e as figuras não se ajustam
Nem as bocas
São como personagens de um filme que não coincidem
No mesmo take
Entram e saem sem nunca se ver
Ou tocar
Como cenas cortadas
Amputadas
Censuradas por falta de espaço
Encontraram-se por acaso num microssegundo em movimento
Pendurado no olhar
Em décadas diferentes
Não planeado e por engano
Que fugiu dum relógio velho pregado na parede
E avariou por falta de corda
Há coisas que nunca serão um par
Nem vale a pena experimentar
Números ímpares que não conseguem ser inteiros
Nem divisíveis
Por dois
Tabuada mal conjugada sem multiplicações
Equação da natureza cujas premissas estão erradas
E são lançadas à terra
Mas mesmo assim dão flores.
*
Ana Paula Jardim nasceu em Coimbra. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. No âmbito das Comemorações dos vinte anos do Parque dos Poetas, foi a responsável pela organização e seleção de poemas da Antologia 20 anos 20 autores, com coordenação editorial de Jorge Reis Sá e integrada na coleção Livros de Oeiras.
Venceu o Prémio Glória de Sant’Anna em 2021 com o seu primeiro livro de poesia, Roupão Azul, com a chancela da Guerra e Paz Editores. Publicou, em maio de 2022, na mesma editora, o seu segundo livro de poesia intitulado Enfermaria, que veio a integrar a lista dos oito finalistas da 11ª edição do Prémio Glória de Sant’Anna 2024. Rua do Arsenal, publicado pela Guerra e Paz Editores, em Maio de 2024, é o seu mais recente livro de poesia.
Participa, regularmente, em Revistas Literárias e tem poemas publicados em Antologias. Faz parte do projeto “Fotografar Palavras”, com curadoria de Paulo Kellerman.










