Cultura

Correspondência | Letícia Ferro

Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2026.

 

Querido R.C.,

 

Toda tentativa de adivinhação assertiva da sua leitura sobre os meus textos confessa, com exclamação, a curiosidade pelos rastros deixados. O tempo e a ausência, ambos longevos, convocam, por seu turno, a interrogação. De, ou pertencimento, ao coração, de desejo imoderado, a coisas do passado, qual seja, afetivo ou acadêmico, por mais que possam te pertinar, não me parecem justificar a “visita” dos derradeiros dias, dado o adiantado do tempo: de seu casamento e nascimento da primogênita à publicação de tais críticas linhas de crítica (a redundância do termo com emprego de classe diferente me parece autoexplicativo, rs). (É como se delas a extração de algum fruto maduro pudesse, ainda, fazer-se possível. ) O estímulo ao silente, por outro lado, e de repetido gesto, a que retribuí com igual movimento, não foi suficiente para evitar o ensejo de te escrever. Mesmo que por aqui. Ou seja: escrever-para-sobre-vc, rs. Torno verbo novo, presença, de novo. Quiçá, na condição de “mulher de nuvens” ‒ qual no poema de Ferreira Gullar ‒, ou na de mero cloud storage. Os dois, um exercício de memória afetiva.

 

Mais que isso: é presente partilhado com o leitor português, de quem tanto recebo lugar e lisonja, de contíguos que nos tornamos, qual interlocutor ao pé do ouvido, para quem se pode contar os segredos e em troca receber não a valoração judicativa, que soçobra, mas a apreciação daquele que sabe nos (a)guardar no conforto do carinho que não cessa e, ainda, faz tornar cada vez mais numeroso o convite à palavra íntima.

 

Como, então, distar do campo das ideias, dos olhos que, apaixonados, (nos) lemos, em juventude, e retornam, com acúmulo de tempo e, ainda, de espaço. Do (a)cúmulo experienciado, de lá para cá. Do Rio, afinal, que agora me corre à janela todos os dias, alternando-se, apenas em datas de cuidado, a assiduidade do sol a pino: porque excede em número por habitante, rs, da terra onde vc se encontra, cuja origem é indígena e com sentido de “gente semelhante”, “indivíduo igual”, “mesma raça”. (Será?, rs)

 

Sinto que não sei ao certo o que pensar, tampouco, te dizer. Sei quão ainda mais caro tornou-se, para a gente, o tempo. Porém, também em resposta a ele, o modo de ser-resistir o compreende como aliado. De outra parte, a forma de dizê-lo, não importa onde, ou para aonde, é sempre preci(o)sa, pois dá o sentimento rematado da mão que agora escreve a forma perfeita das intenções. As linhas não provêm de espera, mas de sentido ‒ seu desvelo que acompanha não o calendário, e sim o elogio do outro. E pensar que tantos anos depois poderiam sugerir igualmente tantas perguntas. E antes que o escrutínio se faça ainda maior, encerro (?) com uma possível resposta, inclinando-me para os biografemas ‒ operação f(r)iccional, isenta de quaisquer riscos, mas nem por isso, como diria Roland Barthes, desprovida de afeto e muita significância.

 

Com o beijo da ALEGRIA, em latim.

 

Fotografia de Letícia Ferro

Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística (UFG). E-mail: let_ras@hotmail.com.

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