
Xico Simonini
Rolha é aquela peça, geralmente cilíndrica, de cortiça,
borracha ou plástico, usada para tapar gargalos de
garrafas e outros frascos. Significa, também, homem vil,
biltre, astuto ou, ainda, sujeito empata-samba.
Imperador:
Este simples Súdito do Reino, filho dileto do Condado das Roças Gerais, natural do Burgo das Sapitucas Viçosas, que a esta subscreve, ousou colocar no papel, em duas outras oportunidades, para Vossa Majestade, Senhor Imperador, sua opinião sobre querenças e desavenças para com este Reino destas Fundangas Varonis. Reino dos oitent’anos de retrocesso, em oit’anos de Des-Governo.
A primeira foi há três anos, no Natal. Não obteve resposta, claro! A segunda foi, exatamente, um ano depois, também no Natal. Óbvio, não obteve resposta, lógico. Como este Vassalo é teimoso, feito burro xucro, volta a redigir esta terceira missiva. Não obterá resposta, evidentemente. Mas, porém, contudo, quiçá, todavia… Em assim sendo… Seguem estas bem traçadas linhas:
Vossa Majestade, Senhor Imperador, imagina quem é este Suserano? Certamente, o Senhor, Senhor Imperador, caminhando nas obscuras nuvens do Poder, emérito nefelibata, que sempre foi, negará resposta para tão insignificante indagação, indagada por este insignificante Suserano. Seria exigir demais do portador de preocupações gigantescas, I-Responsável pelo Bem/Mal Comum de 170 milhões de almas, pela Soberania sobre nove milhões de quilômetros quadrados de terra e sobre um montão de milhas aquáticas. Bom que fosse apenas e tão-somente isto. Mas este isto, Senhor Imperador, o tem tornado cúmplice de ligações perigosas, indecentes e lesivas aos interesses maiores do Reino.
Por estas e por tantas outras… Senhor Imperador… Pouco importa, se importa… quem seja o ousado Escriba. Importa, ao contrário, que Vossa Majestade se encontre imerso na liturgia do trono-mor e por que, então, Vossa Majestade se daria ao trabalho de conhecer a angústia de um reles Fundanguense?
Este Camponês, Majestade, deu e continua dando um duro desgraçado na Vida. Inda que cometendo erros, coerente na incoerência, procurou preservar valores essenciais dos quais jamais abriu ou abrirá mão.
Tudo aquilo que este Pária fez, disse e escreveu continua valendo até os dias de Hoje e ninguém, jamais, em tempo algum, receberá pedido deste Pária para que se esqueça de uma simples vírgula daqueles feitos, ditos e escritos.
Súdito que nunca se curvou aos Poderosos de Plantão fossem eles Bruxos, Cartolas, Bate-Paus e Assemelhados. Do Reino, dos Condados, dos Burgos e até da Academia.
Vassalo que nunca foi Homem de Confiança do Poder. Suserano que, ao contrário, traz consigo o honorífico título de Homem de Desconfiança do Poder.
Este impertinente Escriba avançou muito pouco na Vida, mas veio de muito longe. Abrindo picadas, trilhando caminhos, avançando veredas, a duras penas, sem benesses e regalos que ferissem seus princípios. Ousou sonhar entre um cochilo e outro, na espreita da jornada seguinte, sabendo que as asperezas da Vida são mais ásperas para uns que para outros. Soube de muita sujice no Imundo-Mundo e teve a certeza de que há como promover uma assepsia exemplar, no lato e no estrito, pois o senso comum ainda sabe reconhecer o bem e o mal. Na lata e na luta, jogando na cara de muitos a constatação de que a limpeza das atitudes não é mera figuração, para quem começou a Vida a oferecer detergentes para Os Cocada Preta e a apregoar o melhor sabão que o dinheiro d’Os Donos da Cocada Preta poderia comprar. Também conheceu e perambulou pelo mundo da música, dedilhando as teclas do bas-fond e deliciando a gente tão bas e tão fond quanto, nos Salões Elite da Capita das Roças Gerais. Daí sua petulância e seu sagrado direito de fazer nascer estas bem traçadas linhas que o Senhor, Senhor Imperador, jamais lerá. Uma pena! Pena, muita pena, mesmo! Outra frustração deste Camponês destas Sapitucas Viçosas.
Interessante, Majestade, a idade nos faz perder a Coragem, mas, Dialeticamente, também nos faz perder o Medo. Não se irrite, pois, com a ousadia do conselho de um reles Súdito, mas dê um presente a este sofrido e roubado Reino. Peça carona nas asas do Fundo da Miséria Internacional (FMI) e desapareça desta Vida concreta e vá para de onde nunca deveria ter saído. Vá, Senhor Imperador, como autêntico nefelibata, caminhar e viver para sempre nas nuvens de outros céus e de outros infernos.
O Reino foi atirado numa crise sem precedentes, à beira da falência, vergonhosamente, vendido e saqueado, com um terço da população na miséria, desemprego assustador e salários aviltados. E tudo por tudo… Embalado pela ausência de Fé, Esperança e Certeza no Futuro.
O Senhor, Senhor Imperador, fez da Política sinônimo de ardil, astúcia e artifício – imoral transigência na defesa dos interesses das Minorias destas terras e d’outras d’além-mar e d’além-terra.
Mude, Senhor Imperador, para a Metrópole, a bordo das ordens do Imperador-Xerife, Bush Hic!, The Robber, e d’Os Donos da Cocada Preta da Banca Internacional. Certamente, eles terão um salário mensal de Trinta Dinheiros para o refestelar na vagabundagem de Vossa Majestade em outra aposentadoria somada. Pegue carona na Globalização espúria, passando, antes, numa loja de um-e-noventa-e- -nove. Compre um travesseiro, importado do Neoliberalismo e que ele, o travesseiro, tenha o dom sobrenatural de abrigar sua consciência na Paz do sono seu de cada noite. Para Honra e Glória daqueles que são os donos do nada, frutos das Imperadorices de Vossa Majestade. Imperadorices capazes de assassinar, na razão e no coração da Maioria, a doce palavra Esperança e a vital crença no Futuro.
A esta subscreve,
Xico
Um Fundanguense do Burgo destas Sapitucas Viçosas
Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini) nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.










