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EDITORIAL: A Agonia da Europa

 

Num texto publicado no trágico ano de 1940, ano em que o exército de Hitler parecia invencível, e  durante o exílio da autora na América do Sul, onde se tinha refugiado na sequência da derrota das forças republicanas pelas forças franquistas, escreveu a grande filósofa espanhola MARIA ZAMBRANO:

“Há muitos anos que se repete: “A Europa está em decadência”. Agora já não parece necessário dizê-lo. Muitas pessoas que nisso creem referem-se ao acontecimento com uma frase velada ou um sorriso irónico, como que aludindo a um segredo tão divulgado que até se torna elegante ou misericordioso tentar encobri-lo, ainda que, ao proceder assim, se acaba por divulgá-lo de uma forma mais humilhante.”

Depois da Segunda Grande Guerra, a Europa foi acreditando que duas guerras auto destruidoras levadas a cabo pelas potências europeias tinham marcado a memória dos europeus de tal modo que a morte, o sofrimento, e o esgotamento económico seriam repudiadas pelos povos e pelos dirigentes europeus.  E, realmente, durante décadas, essa memória, juntamente com o guarda chuva nuclear americano, faziam crer que a paz na Europa poderia existir por mais de um século.

Não foi assim e, em Fevereiro de 2022, a Europa viu a guerra eclodir dentro das suas fronteiras com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Os dirigentes europeus colocavam-se agora num papel de vítimas inocentes do imperialismo russo. Mas a verdade era bem mais complexa e sinistra do que a propaganda orquestrada pelos governos europeus, sob a batuta do poder imperial americano.

Na verdade, já há anos que o complexo militar industrial que domina os Estados Unidos da América, tinha definido o Estado de Bem Estar Social e a economia europeia como inimigos. Disse Donald Trump, em Julho de 2018, numa entrevista à cadeia televisiva CBS:

“Temos muitos inimigos. Acho que a União Europeia é um inimigo, pelo que nos fazem no comércio.”

É óbvio que Donald Trump não dizia isto isoladamente. Ele expressava o pensamento do complexo militar industrial e, de um modo geral, das grandes corporações americanas.

A guerra da Ucrânia foi apenas o pretexto para os EUA submeterem ainda mais a Europa, acabando com o fornecimento de petróleo russo barato à Alemanha, e fazendo-o substituir por petróleo americano ao dobro do preço, assim tornando a indústria alemã muito menos competitiva com a americana. Por outro lado, exigiu dos países da OTAN que dedicassem pelo menos 2% do seu orçamento a despesas militares, o que significava que os europeus deveriam comprar o material de guerra que o complexo militar industrial americano  precisava de vender.

Por outro lado, o complexo militar industrial americano e as grandes corporações não gostam particularmente do que resta do Estado de Bem Estar Social europeu. A miséria de uma grande parte da população americana que morre à porta dos hospitais por não poder pagar seguros de saúde é-lhe indiferente, talvez mesmo odiosa, porque é símbolo do fracasso. Daí o apoio cada vez maior a partidos neofascistas que usarão, como lhes interessar, o controle das mentes através da comunicação social ou das metralhadoras.

De tudo isto os dirigentes europeus têm sido cúmplices. E essa cumplicidade tornou-se agora numa total falta de vergonha quando a Comissão Europeia, pela mão de Sr.ª Margarethe Vestager, escolheu a americana Fiona Scott Morton, ex-membro da administração Obama e ex-consultora da Amazon, Apple e Microsoft, para Economista Chefe da Concorrência. 

A Europa colocava, assim, a raposa americana no galinheiro.

Perante o coro de críticas, Fiona foi forçada a renunciar ao cargo, mas a subserviência dos truões europeus aos interesses americanos revelou em toda a sua extensão a agonia da Europa.

Na sua notável obra, MARIA ZAMBRANO termina acreditando que a Europa poderá renascer da sua longa agonia. Mas tal só será possível com outras políticas e outros dirigentes europeus pelos quais uma nova esquerda tem o dever de lutar.

HENRIQUE DÓRIA

Fotografia de Henrique Dória

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