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EDITORIAL: ANTES DE ABRIL E HOJE | Henrique Dória

Foto de Edward Howell na Unsplash

Estamos, este ano, a comemorar os cinquenta anos da gloriosa revolução do 25 de Abril, iniciada com o Movimento dos Capitães. Nunca, nestes cinquenta anos, estivemos tão perto do regresso ao passado como hoje. O partido que é o legítimo herdeiro do salazarismo, cujo líder ostentava, no seu escritório, um retrato de Salazar, teve uma votação que deve preocupar e por alerta todos os democratas. O seu objetivo é alcançar o poder e, para isso, faz uso do que em tempos usaram os nazis e os fascistas: a mentira, a demagogia, o cinismo, a agressão (por enquanto apenas verbal). E a mentira permite-lhe arvorar-se já em primeiro combatente contra a corrupção, um mal existente mas altamente exagerado por aqueles que combatem a democracia. Na realidade, é precisamente a grande corrupção que o apoia a corrupção material dos que colocam dinheiro em offshores, e a corrupção moral e material das seitas, pretensamente religiosas mas, na realidade, extratoras da riqueza à custa do sofrimento, da ignorância e da ingenuidade de alguns portugueses e de muitos brasileiros que se encontram a viver em Portugal. 

A comunicação social muito tem ajudado a isso. A RTP – 1, serviço público de televisão, tem apresentado um registo de efemérides dos primeiros meses de 1974 que não passam de simples propaganda do dia a dia do regime fascista.

Poderia ter apresentado a comparação dos tempos escuros do fascismo com a realidade atual, em todos os campos, a começar pela saúde e pela educação, e a terminar na economia e na habitação.

E isso seria tão importante para a formação de uma juventude para quem o 25 de Abril é apenas uma data comemorada pela terceira idade!

Mas deixamos nós, aqui, alguns números:

– a taxa de mortalidade infantil, um dos maiores índices de desenvolvimento das nações, era, em 1973, de cerca de 45 por mil de nascidos vivos no primeiro ano de vida destes, era, em 2023, de cerca de 2,5 por mil.

– a esperança média de vida que, em 1973, era de cerca de 67, anos é, em 2023, de cerca de 81,7 anos

Estes dados estatísticos, revelam o enorme êxito que foi o Serviço Nacional de Saúde implantado com a democracia, são, hoje, superiores aos da poderosa Alemanha quando, em 1973 eram os mais baixos da Europa, incluindo nesta os países do Leste europeu.

Quanto à educação:

– passámos de  cerca de 25% da população analfabeta em 1973 para apenas, cerca de 3% da população analfabeta em 2023, um dos maiores êxitos mundiais.

– passámos de um número de inscritos no ensino superior de cerca de 55 mil alunos em 1973, para cerca de 445 mil em 2023.

No respeitante à habitação, passámos de um espetáculo degradante de bairros de lata à entrada de todas as grandes cidades do país, com particular relevância para Lisboa, bairros de lata esses onde as pessoas caminhavam sobre lama e conviviam com os ratos, para uma situação em que só não há habitação condigna para todos porque a especulação desenfreada retirou aos mais pobres, e até a alguma classe média, o direito à habitação, mas em que não temos já esses miseráveis bairros de lata à entrada das cidades.

Por outro lado, as condições de habitabilidade são incomparavelmente superiores ao que havia em 1973, e as condições de higiene, quer das habitações quer dos locais de comércio público são muito superiores às da generalidade dos países europeus, incluindo a Alemanha.

Finalmente, quanto à economia, em 1973 exportávamos o que havia de mais baixo valor acrescentado, nomeadamente produtos agrícolas e derivados da agricultura, que representavam 18,8 % das nossas exportações, e têxteis e calçado que representavam 29,8% das exportações. Não exportávamos quaisquer produtos de alta tecnologia. 

Hoje as máquinas e material de transporte representam cerca de 30% das nossas exportações, e os produtos de alta tecnologia representam já cerca de 5% das nossas exportações.

Mas olhemos hoje para a beleza e limpeza das nossas cidades, vilas e aldeias, e comparemo-las com a degradação, a miséria, e a sujidade de antes do 25 de Abril. 

Os mais velhos conhecem bem a diferença e, por isso, votam nos partidos democráticos.

Os mais novos podem ver imagens e descrições do que havia antes da revolução dos cravos. Têm o dever de conhecer a diferença para não serem enganados pelas mentiras, pela demagogia e pelo cinismo dos herdeiros do regime dos tempos anteriores ao 25 de Abril.

fotografia de Henrique Prior.

BIOGRAFIA: É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revistas Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da radiotransforma.

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