Cultura

Lançamento brasileiro: O romance Jean e João, de Jorge Bastos | Myrian Naves e Jorge Bastos

Foto de Boston Public Library na Unsplash

Jean e João, de Jorge Bastos

Editora do Silvestre, 2024

 

Texto da orelha

 

Durante os anos mais sombrios da ditadura militar no Brasil, circulou um bordão muito popular, estampado num adesivo verde e amarelo colado em automóveis da nova classe média que então se formava: “Brasil, ame-o ou deixe-o!” Isso porque vários brasileiros, jovens principalmente, deixavam o país, batendo a poeira dos pés. Muitos eram forçados a isso, banidos ou exilados, mas outros apenas emigravam, levados por um estranho mal-estar. 

 

O personagem central de Jean e João se encaixa nesse perfil do autoexilado, um autoexilado que sequer se dá conta do exílio, culpando apenas o próprio desajuste juvenil, em busca de ares mais respiráveis, longe da sua margem de origem e imaginando poder se adequar, se naturalizar na nova margem abordada. 

 

Muito jovem, exposto a ideias novas numa época particularmente fértil em ideias novas, aos tropeços ele acaba construindo para si um exílio dentro do exílio, um lugar improvável, onde metodicamente possa entender o que tanto o joga de um lado para outro, como um camundongo que cai entre as patas de um gato não faminto, apenas perverso. 

 

Nesses anos iniciáticos e revolucionários, a literatura acaba se impondo como única certeza para o nômade Jean. Onde quer que esteja (Paris, Roma, Marrocos etc.), ele lê muito e também escreve, anotações esparsas em tiras de papel, que um dia poderão ser lidas como pequenos contos ou um romance em fragmentos. 

 

Seguindo uma cronologia nem sempre linear, com espaços não contínuos de tempo, Jorge Bastos cobre algumas décadas da trajetória do seu personagem, começando com algo que se imagina ser uma história de amor e, aliás, terminando em outra, num trajeto “que exige todo o desenrolar dos anos, toda a multidão de gentes, toda geografia e história, um pouco de aritmética e ciências naturais; exige algum estudo e alguma cola, exige ficção”. Um trajeto em que João se inventa Jean, que se inventa João, que se inventa um outro João.

 

Escrito num estilo conciso e consistente, Jean e João impacta, ensina e diverte. Exímio contador de histórias, o autor consegue aliar leveza e erudição numa prosa refinada e muito bem-humorada. Ao narrar seu aventureiro protagonista, Jorge Bastos faz da própria linguagem, da sua literatura, uma extraordinária aventura estética.

 

Um excerto do romance

 

Jean tinha muito orgulho daquela casa. Espelhava gravidade e leveza. Com o fracasso da fantasia “casal”, ele se atirou inteiro a certa ideia de “casa”. De início Martel era uma fazenda velha e escura, abandonada há vários anos, com as paredes tisnadas de fuligem. Foi preciso raspá-las para que aceitassem tinta branca. Pouco a pouco ele ocupou todos os seus 16 cômodos. Passou o primeiro inverno na sala, junto à lareira principal, encolhido de frio. Em seguida, assumiu um quarto de dormir no primeiro andar. Organizou também um quarto de hóspedes e um escritório de verão.

 

Havia em frente à janela, do lado de fora, uma grande tília, que de início parecia indiferente à novidade de alguém morar ali. No outono as folhas caíram, e o inverno, em seguida, foi rigoroso. Jean a observava sem notar grandes coisas, preocupado apenas com seu próprio frio e desconforto. 

 

Foi na primavera que começou a ouvi-la. Ou talvez tenha ele começado a falar, pois os últimos meses haviam sido difíceis. De qualquer forma, de tanto olhar, acabou vendo cada folha que rebentava, fina e amarrotada, com reflexos avermelhados que depois se perdiam. Percebeu então que era uma árvore muito vaidosa. Em sua parva ignorância arbórea, Jean, que sempre vivera em cidades grandes, descobria como são feitas as folhas e por quê. A tília imediatamente notou seu interesse. Em todo caso, ele deu ouvidos às suas fanfarrices. Ela dizia serem, suas folhas, como os cabelos da medusa que o vento frequentemente agita, podendo seduzir um homem como as sereias seduzem com o canto.

 

Esse vento a que ela se referia, sabe-se na região, sopra por três dias. Se não cessar, soprará por seis – para daí continuar por nove, doze e até quinze. Sempre múltiplos de três… Sopra ininterruptamente, apenas alternando lufadas mais violentas e outras mais brandas. Foi o vento que enlouqueceu Van Gogh a alguns quilômetros dali, por sua mania de andar sem chapéu ou boina a proteger a orelha que se tornaria tão famosa. Nas pequenas cidades, o mistral (que é também o nome do mais famoso poeta provençal, ganhador de um Nobel de literatura) percorre aos uivos as ruelas, traçadas tortuosas para justamente quebrar-lhe o ímpeto. Ele venta de norte a sul, um sopro frio, indo até as alturas e mantendo o céu limpo de toda e qualquer nuvem.

 

De início Jean teria preferido que aquela tília fosse um carvalho, mais tradicional, ou um velhíssimo cipreste como aqueles a ladear o caminho que trazia até à casa. As tílias eram árvores das quais ele nada sabia, nunca lera até então uma linha de livro sobre elas e sequer havia reparado, no Werther, ser precisamente uma tília que domina a pracinha da cidade. Ficou inclusive tentado a reler o romance que levou tantos jovens ao suicídio para buscar nas entrelinhas alguma possível culpa da tília, uma espécie que lhe parecia leviana e irrefletida, dada a bazófias, contrariando o que se espera de uma árvore.

 

Mesmo assim, se apegou muito a ela e decorou em alemão um lied – Am Brunnen vor dem Tore, da steht ein Lindenbaum… – que ele cantava a girar-lhe em torno, numa ciranda criada expressamente em sua homenagem. Na verdade, repetia a letra como um papagaio, sem entender nada, apenas sabendo ser “tília” o tal Lindenbaum: a performance era puro galanteio. Depois descobriu haver na frase também a fonte, Brunnen, e a porta/portão, Tore. Ou seja, tudo parecia composto sob medida. Mas a infeliz árvore se mantinha impassível, como se fosse normal tanta corte, apenas observando num tom blasé: ça va de soi.

 

o romance Jean e João, de Jorge Bastos, sinopse

 

João busca o exílio durante a ditadura militar no Brasil. Tem 18 anos quando aterrissa na Paris de 1968, e os ventos libertários que sopram por lá o levam longe, sem rumo, em busca de uma existência mais livre e criativa. Imaginando-se um Ulisses numa odisseia própria, ele navega por lugares desconhecidos, povoados por estudantes, hippies e outras tribos da época. 

 

Entre idas e vindas num mundo de paz, amor e ácido lisérgico, João lê furiosamente. Vivendo entre realidade e ficção, com um livro levando a outro, ele se imagina Jean Jeanovich, um falso personagem de Dostoiévski. Em suas errâncias pelo mundo, espia Hemingway pelas janelas de um hotel parisiense, confronta o fantasma de Céline na Itália, desce o rio Amazonas lendo Robinson Crusoé.

 

Num romance pontuado por saborosas referências literárias e fina ironia, Jorge Bastos conta a saga de João e de seu alter ego heroico: Jean. Exímio contador de histórias, o autor consegue aliar leveza e erudição numa prosa refinada e muito bem-humorada. Ao narrar seu aventureiro protagonista, faz da própria linguagem, da sua literatura, uma extraordinária aventura estética. Nesse percurso, duas histórias de amor ajudam a compor o personagem, imprimindo a Jean e João um traço poético de beleza e equilíbrio raros.

 

Sobre o autor

 

Jorge Bastos viveu dos 18 aos 30 anos de idade na Europa. Na volta ao Brasil, criou a Taurus, livraria-editora cult no Rio de Janeiro, foi sócio da livraria Dazibao e lançou dois livros: Atrás dos cantos (contos) e O deserto – As tentações de Santo Antão (ensaio biográfico). Atualmente trabalha como tradutor literário, tendo ganhado três vezes a mais prestigiosa bolsa de tradução-residência na França, concedida pelo Centre National du Livre. Foi também duas vezes convidado pelo Collège International des Traducteurs Littéraires a participar de La Fabrique des Traducteurs, em Arles, como tutor de turmas de jovens tradutores. Em 2009, a sua tradução do romance Uma vontade louca de dançar, de Elie Wiesel, foi uma das indicadas ao Prêmio Jabuti de Melhor Tradução de Obra Literária Francês-Português.

 

Jean e João (romance)

BRASIL

2024

Editora do Silvestre (editoradosilvestre@gmail.com)

Número de páginas: 168

ISBN: 978-65-99820724

 

Foto do autor: Jorge Bastos

Jorge Bastos é tradutor literário, brasileiro, viveu dos 18 aos 30 anos de idade na Europa. Na volta ao Brasil, criou a Taurus, livraria-editora cult no Rio de Janeiro, foi sócio da livraria Dazibao e lançou dois livros: Atrás dos cantos (contos) e O deserto – As tentações de Santo Antão (ensaio biográfico). Atualmente trabalha como tradutor literário, tendo ganhado três vezes a mais prestigiosa bolsa de tradução-residência na França, concedida pelo Centre National du Livre. Foi também duas vezes convidado pelo Collège International des Traducteurs Littéraires a participar de La Fabrique des Traducteurs, em Arles, como tutor de turmas de jovens tradutores. Em 2009, a sua tradução do romance Uma vontade louca de dançar, de Elie Wiesel, foi uma das indicadas ao Prêmio Jabuti de Melhor Tradução de Obra Literária Francês-Português.

Fotografia de Myrian Naves

Myrian Naves, poeta brasileira, lança em 2024, MONAMI, poema em edição bilíngue Português-Francês. É coorganizadora, junto a Leida Reis, da antologia de contos de escritores de língua portuguesa que homenageia escritores dos países de Língua Portuguesa. A antologia inaugural fez parte das comemorações do centenário do escritor português José Saramago no Brasil, nomeada, TODOS OS SARAMAGOS. A próxima publicação, em homenagem ao escritor brasileiro Machado de Assis, em 2024, como parte das homenagens em formato de contos criados por escritores de língua portuguesa; editora LITERÍSSIMA.

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