
Por Sara Neves, Curadora das Exposições
A Iniciativa Editorial
Desde 28 de Setembro de 2023, o Diário de Notícias (DN) publica todas as quintas-feiras, em parceria com o Macao Daily News, uma página intitulada Um Vislumbre da Cultura Chinesa. Esta colaboração editorial, desenvolvida entre um dos jornais de referência de Portugal e o principal diário da Região Administrativa Especial de Macau, tem como propósito promover o diálogo intercultural entre Portugal e a China.
A página apresenta conteúdos em língua portuguesa que revelam aspectos variados da cultura chinesa — tradições, histórias, figuras, lugares, práticas, gastronomia, património — oferecendo ao público português uma aproximação contínua a universos culturais frequentemente pouco conhecidos. Ao longo destes três anos, mais de 150 artigos foram publicados, constituindo um arquivo singular que tem contribuído para reduzir a distância cultural entre os dois territórios.
Do Jornal para a Exposição
Com a aproximação dos três anos de publicações semanais, o Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau e a Associação Sino-Lusófona de Amizade e Intercâmbio Cultural de Macau uniram esforços para celebrar e materializar este percurso editorial. A exposição nasce, assim, como uma extensão natural da iniciativa: uma forma de transformar as páginas de jornal num espaço onde o público pode ver, ler e experienciar o conteúdo.
O desafio curatorial consistiu em compreender como apresentar conteúdos originalmente pensados para o papel num ambiente expositivo. A solução foi inspirada nos Cabinets of Curiosity — armários onde, no Renascimento, era comum guardar objectos raros trazidos de longas viagens para mostrar a amigos e visitas. Também nos artigos do jornal e na exposição se apresentam curiosidades sobre terras longínquas.
Assim, o processo passou por destacar excertos, imagens e frases marcantes dos artigos e organizá-los por temas. A partir dos conteúdos recorrentes, foram identificadas seis linhas temáticas fundamentais: Macau — 25 anos como Região Administrativa Especial da China; Festivais, Figuras Históricas e Tradições; Lugares, Paisagens e Arquitectura; Arte, Artesanato e Património Imaterial; Gastronomia, Sabores e Culinária; e o Centro Histórico de Macau — 20 anos de Património Mundial.
Na disposição dos cabinets, tanto na exposição em Lisboa como no Porto, Macau surge como ponto de partida e de chegada, reafirmando o seu papel enquanto plataforma de ligação entre o mundo lusófono e a China.
Para além destes núcleos, era importante apresentar as páginas de jornal no seu formato original; a presença da estética do jornal relembra-nos o meio que deu origem a esta iniciativa. Para isso, foram concebidas instalações em tecido que evocam o processo tradicional de impressão de jornais, onde largas e longas faixas de papel passam pelas rotativas. O tecido, suave mas resiliente, funciona como um arquivo táctil e simbólico: remete para as sedas que cruzaram a Rota da Seda e para as velas dos navios portugueses que, no século XVI, aportaram em Macau. Reagindo ao espaço e ao vento, torna-se um elemento vivo e dinâmico.
A exposição foi pensada como uma experiência espacial, desenhada especificamente para os dois espaços que a receberam — o CCCM, em Lisboa, e a Estação de São Bento do Metro do Porto. Não pretende ser apenas um momento informativo, mas uma vivência física, onde o visitante pode dedicar algum tempo a ler todos os detalhes ou simplesmente deixar‑se guiar e prender pelo que lhe desperta curiosidade.
A Estreia em Lisboa
A primeira apresentação ocorreu em Abril, no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa. Localizado na Rua da Junqueira, o Centro tem como missão produzir, promover e disseminar conhecimento sobre Macau enquanto plataforma histórica e contemporânea entre Portugal e a República Popular da China, bem como entre a Europa e a Ásia.
A inauguração contou com a presença de ilustres convidados, entre eles a Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura do Governo da RAEM, O Lam; a presidente do Instituto Cultural, Leong Wai Man; e o Embaixador da República Popular da China na República Portuguesa, Yang Yirui.
A exposição foi instalada no piso superior do CCCM, onde se encontram em exposição permanente maquetas de arquitectura de Macau. O espaço oferece uma vista privilegiada sobre o rio Tejo e a Ponte 25 de Abril, enriquecendo a experiência dos visitantes. Neste ambiente, quem nos visitou encontrou um diálogo carregado de significado histórico: Lisboa pela janela, Macau nas maquetas, e a China viva nos conteúdos da exposição. Juntos, estes três elementos reflectiram os profundos laços que unem estas geografias.
Adaptação ao Espaço Público
De Lisboa, a mostra rumou a Norte. Foi inaugurada no dia 22 de Agosto e ficou patente até 12 de Setembro, na Estação de São Bento do Metro do Porto — um espaço público de grande circulação no coração da cidade.
A estação de metro permite trazer o conteúdo ao dia-a-dia dos moradores e visitantes. Não implica uma deslocação propositada; pelo contrário, introduz a experiência cultural num momento que seria apenas utilitário, democratizando o acesso à informação e ao conteúdo.
Mantendo o conteúdo, foi necessário adaptar a instalação a um espaço público de grandes dimensões e de passagem contínua. A intenção foi que a exposição se tornasse parte do percurso no interior da estação, com zonas de atravessamento pensadas para captar a atenção e suscitar a curiosidade de quem está em trânsito.
Despertar a curiosidade para uma cultura tão rica e diversa, num espaço onde a vida urbana acontece a um ritmo acelerado, tornou‑se o culminar perfeito desta etapa. Porque, no fundo, conhecer o Outro começa sempre por um simples vislumbre.
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Créditos:
Organização da exposição
Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau
Conceção e produção da exposição
Associação Sino-Lusófona de Amizade e Intercâmbio Cultural de Macau
Macao Daily News
Diário de Notícias
Curadoria e Projeto Expositivo
Sara Neves
Design Gráfico
Why Ignite
Produção e Montagem
4EXPO
Fotografia da exposição
Lisboa – Sara Neves
Porto – Larissa Ribeiro e Sara Neves
Agradecimentos Especiais:
Filipa Paes de Faria
Joana Correia
Arquitecta de profissão, Sara Neves é de Gondomar, estudou na Soares do Reis no Porto, e mais tarde, na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa. Durante o curso, fez intercâmbio de um ano no Rio de Janeiro. Desde 2017, vive em Macau onde trabalha num escritório de Arquitectura, principalmente em projectos de obra pública.
O gosto pelas viagens começou cedo e hoje já visitou mais de 30 países, em 4 continentes e em diferentes tipos de viagens.


























