
(Este conto integra o livro Nós, cegos, em que o espírito da Árvore dos Cantos é quem narra.)
Fui educando meu silêncio para aprender a ouvir. Não os insetos e os pássaros, porque a esses eu já estava acostumada. Nem o folhiço das matas, os estalos da madeira, o vento em luta pelo espaço dos galhos. Aprendia a ouvir esse povo das mercadorias, os seres desumanos. Sempre acreditei que onde invadissem, os da minha espécie pereceriam, em um deflorar vertiginoso de troncos e raízes. Queria conhecer esse lugar de tão desandadas almas, onde os humanos mais se escondiam que habitavam. Avistei um tipo esquisito e a ele me afinei.
Quando Florêncio, o jovem das rimas, percebeu que estava perdendo as palavras outra vez, exasperou-se. Pigarreava, tossia, engasgava-se, mas nem verbetes nem voz saíam da garganta por mais que tentasse. Nada se cuspia da língua e a linguagem foi-lhe secando. Passou a escrever em folha de papel. Mesmo assim, algumas palavras falseavam nas linhas e, sem se prenderem, deixavam um espaço em branco. Florêncio, que já era um poeta em secretas amarguras, agoniou-se com o estranho episódio.
As ocorrências começaram miúdas, tão banais quanto os bilhetes destinados à esposa e pregados na porta da geladeira: Vá à -, não demore ou -, Já que vai à farmácia, aproveita para tomar no -, pois já está acostumada com o remédio, coisa que lhe pôs em maus lençóis no leito conjugal à noite, com direito a safanões e xingamentos da mulher. Os espaços em branco eram lugares capciosos, onde tudo cabia. Quando os episódicos espasmos se tornaram frequentes, chegaram a ameaçar seu casamento.
Até entender o que se passava e desfazer o mal-entendido, muitas e más palavras já haviam sido trocadas. E os dois, por mais que vivessem em concordância de fingidos afetos, por mais que baixassem o rosto, abespinhavam-se a olhos malvistos. Já não eram os mesmos de antes. Foi então que o estranho evento se agravou, alcançando nova dimensão. Em pouco tempo, a população foi contaminada, ninguém se dava ao luxo de completar o pensamento ou explicar-se. Os episódios se repetiam, multiplicando-se em outras partes da cidade.
Os oficiais da polícia também se contagiaram, falando uma coisa à população, quando na verdade diziam outra: Não foi assassinato nem – , tivemos de nos defender dos bandidos. E escalonou aos políticos, que se aproveitaram: Não foi – , mas dinheiro desviado; não recebemos – , mas vantagem indevida. Outros juraram não ter se comprometido com nada durante o período de campanha. Os médicos suspeitaram que uma epidemia estava em andamento, mas ninguém tinha certeza, nem assinava embaixo de relatório algum, com medo de que uma ou outra palavra desaparecesse de repente e os colocasse em situação indelicada. A confusão escalonava: brownies de maconha acabaram em asilos de idosos e os nomes dos pais sumiram dos registros de nascimento dos filhos.
Às escuras e às escusas, os eventos se tornaram frequentes, muito além do razoável, e os moradores temiam se comprometer com tamanha falta de palavra. Florêncio se dirigiu à igreja para rezar em silêncio, que mesmo uma oração em silêncio dizia mais que mil palavras. Mas, no meio da prece, seu pensamento desbotou e vagueou para longe. Foi quando ele percebeu que tudo se complicava.
Os cientistas passaram a estudar o estranho fenômeno, a total falta de diálogo. Incansáveis em suas pesquisas e trocando informações pelo mundo, não por documento, correio eletrônico ou telefonema, mas por telepatia muito empática, posto que havia, dentre eles, os mais evoluídos. Os renomados doutores foram convocados, pois o mundo já beirava o caos: os livros das bibliotecas foram se embranquecendo, como se uma nova história da humanidade precisasse ser escrita. Os documentos e os registros históricos se invalidaram, os documentos pessoais e governamentais perderam valor, as leis e os decretos se inutilizaram, os processos judiciais foram anulados, a imprensa e as notícias deixaram de ser confiáveis. Em pouco tempo, os símbolos de comunicação se extinguiram.
Foram os poetas que mais sentiram a falta das palavras, posto que delas viviam. Florêncio, entre eles. Entrou em depressão, algo bem-vindo, uma vez que só assim se permitia sentir em verdade e plenitude. Os cientistas mentalizavam teses e teorias, mas não encontravam solução. O silêncio parecia o lugar adequado para curar o mundo da única certeza: as palavras tinham se rebelado.
Elas foram perdendo a força e já ninguém lhes dava o devido valor; talvez, como consequência de tantas e falsas notícias. E os sentimentos também afracaram, demasiadamente fingidos. Depois de muito pensar, os cientistas entenderam o ocorrido: as sentenças, que serviam de pontes, deixaram de ligar as margens. As frases, que serviam de estradas, deixaram de encurtar as distâncias. Sem a plenitude dos sentidos e dos sentimentos, os tiros passaram a agir. Foram as balas que passaram a escrever as histórias nos muros e nos corpos, inaugurando a animalesca desumanidade.
Até que alguém atinou: as palavras moravam nos rostos e sempre foram anterior à fala. Tínhamos de aprender a ver antes de falar. Florêncio, o poeta, se voluntariou para o teste, visto ser o mais depauperado dos poetas. Trouxeram-lhe uma orquídea de beleza descomunal, a Cattleya walkeriana, também chamada Feiticeira, supostamente bela o bastante para encantar.
O poeta entrou no laboratório magro e abatido, pois já não tinha palavras com que sobreviver à vida. Ele observou a flor em minúcias, amoldou sua alma ao sentimento e o sentimento à realidade. Nessa lentidão de minutos, teve tempo de entender que a ausência era o início de tudo, a vida precisava ser repassada a limpo. Florêncio voltou a observar com olhos sensíveis o acetinado das pétalas, a força da raiz, a flor cheia de reentrantes caprichos. Somente agarradas a outras plantas, as orquídeas sobreviviam. Em simbiose, encontravam a força para existir. Como o entendimento não fosse o bastante, o poeta resolveu se aprofundar no exame, foi se deixando encantar pelas pétalas, saias rodadas de bailarina-donzela, tutus de colorido acetinado, lembrou-se da poesia e foi se deixando embalar pela dança das folhas. A pétala central lembrava uma boca aberta, convidando à volúpia dos sentimentos que frequentemente vinham saudar a natureza em seu esplendor. Florêncio, como uma abelha a beber o néctar, abriu a boca, gaguejou uns sons, engasgou uns guturais e cuspiu:
− As pétalas são a verdadeira poesia.
Os cientistas aplaudiram, tentando articular algumas palavras, sem conseguir. Florêncio pigarreou, corrigindo-se:
− A natureza é a própria poesia. É só se deixar encantar.
Foi quando os cientistas entenderam que a cura não estava ao alcance de todos, era para poucos.
Meu espírito se alegrou, pairando sobre os telhados cinzentos e tentando processar aquele momento de epifania dada a alguns, como dádiva.
Sandra Godinho nascida a 27/07/1960 em São Paulo, mora há 23 anos em Manaus; é graduada e Mestre em Letras e tem 16 livros publicados. Orelha Lavada, Infância Roubada (contos – 2018) recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas em 2019; O Verso do Reverso (contos) ganhou o Prêmio Cidade de Manaus em 2019; Tocaia do Norte (romance) recebeu Prêmio Cidade de Manaus em 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021; A Morte é a promessa de algum fim (romance) recebeu o Prêmio Cidade de Manaus em 2021; Memórias de uma mulher Morta (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2021; A Secura dos Ossos (romance) foi finalista do Prêmio Leya 2022. Nós, cegos (contos) foi vencedor do 1º Prêmio Carolina de Jesus em 2023 e foi contemplado com o PNAB 2024. O Negro secou (contos) recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Manaus em 2024. Paralelo 11(romance) foi finalista no Prêmio Leya 2024. Inventário de um silêncio venceu o I prêmio Escreviventes em 2025 e A bússola dos Gigantes venceu o II Prêmio Frauta de Barro em 2026. Tocaia do Norte ganhou ainda o Prêmio da BN em 2023 e está sendo traduzido para o Inglês e A Secura dos Ossos ganhou o Prêmio da BN em 2024 e está sendo traduzido para o Português moçambicano.










