
Xico Simonini
A Conscientização não penetra através
dos cinco sentidos. O Processo é
sádico, no qual, e ao mesmo tempo, o Alienado,
em decúbito dorsal, é Conscientizado através
de esfoladas, raladas e sangradas.
Taí o incontestável! No momento certo, aquele que se achava insubstituível e todo poderoso, como Corifeu do Doutor Roberto e do Sistema, tomou aquele pé na bunda e foi defenestrado do Time, com uma mão na frente e a outra atrás. Boris Borrão tava no olho da rua! Calça de veludo e bunda de fora, comendo mingau de couve e arrotando lombo assado.
Este Suserano confessa que sentiu arroubos de sadomasoquismo. Experimentou o prazer, a satisfação e o gozo ao ouvir, da boca de antigo e leal adversário, choramingos diante de sua combalida situação e de seu murcho, chocho e derradeiro contracheque. O demonstrativo do recebimento de seus direitos trabalhistas.
O Servo, agora um simples Servo, nada mais do que um reles Servo, com os fundos vermelhos e ardendo, vociferava, urrava, rugia e bramia contra o absurdo e a insignificância a que fora submetido, graças às ações de seus ídolos e gurus de outrora.
Pobre dele, olhar pousado no miserável papel de seus ganhados ou de seus perdidos. Sabe-se lá! Exemplar inconteste do legítimo e verdadeiro emputecido da vida.
Servo outrora defensor incondicional da chamada Ordem e Progresso vigentes. Cidadão encastelado nas verdades dos outros, como se dele elas fossem. Trombeteiro assíduo e crédulo das podridões de noticiários comprometidos com o Poder. Leitor contumaz das Veja, das Folha e dos Globo. Telespectador contumaz dos Nacional, dos Band e dos Record. Farinhas do mesmo moinho, célebres cafetinas, rufiões e gigolôs do Sistemão.
É, Cara! Infelizmente, não foi por falta de aviso. Você bem o sabe e chega, imbecilmente, a perguntar:
– Uai, bobo, como é que vocês sabiam que o Imperador, os Condes, Alcaides, Bruxos, Cartolas, Bate-Paus e Assemelhados podiam meter o ferro na gente? Uai, bobo, como é que vocês falavam, há vários anos, que Os Cocada Preta anoiteciam e dormiam no fio da navalha?
Nós sabíamos, ô bobo, porque nós, das Ciências Humanas, temos uma dificuldade muito grande de aceitar as coisas, simplesmente, porque elas existem.
Nós sabíamos, ô bobo, porque nossas Ciências não são como as Exatas, mas provam a exatidão tanto quanto aquelas.
Nós sabíamos, ô bobo, porque o Caminhar Histórico é inexorável e contém obstáculos que os de Consciência Fraca são incapazes de ver, ouvir, pegar, cheirar ou comer.
Nós sabíamos, ô bobo, porque existe, na Essência do Homem e do Mundo, a Realidade – Micro ou Macro, Individual ou Coletiva.
Nós sabíamos, ô bobo, porque há necessidade de lermos, na Historicidade de cada um e cada qual, quem é cada um e cada qual.
Nós sabíamos, ô bobo, porque tudo é construído de Passado, Presente e Futuro, nascidos do choque de opostos, na sagrada Verdade Dialética.
E, ô Cara, se tudo isto ainda permanece opaco em sua Consciência Mítica e Intransitiva, nós sabíamos, como diria a sabedoria infantil… Porque sim!!!
Ou, ainda, resvalando no popular, nós sabíamos, ô bobo, que laranjeira não dá banana e bananeira não dá laranja, leal adversário de outrora! E, de mais a mais, nós sabíamos, Boris Borrão, que o Sistema é implacável. Os Súditos são festejados, apenas e tão somente enquanto Força-de-Trabalho possível e passível de ser Explorada. Somos, ô bobo, na Engrenagem, simples peças descartáveis. E tome o indefectível pé na bunda!
Daí a viagem deste Súdito à memória do Súdito Marquês de Sade e dos abomináveis rituais praticados contra seus inimigos. Daí um volver ao Passado das sádicas orgias e vigílias.
A História, nascida do embate Dialético dos opostos: Verdade = Contra-Verdade = Verdade, com suas contradições, no desfiar inevitável do tempo, faz brotar a razão exuberante e bela de quem a tem. Não, ô bobo, nunca fomos baderneiros, subversivos, anarquistas, socialistas ou comunistas. Nunca fomos comedores de crianças!
Ao contrário, fomos e seremos eternos inconformados com a InJustiça dos Poderosos de Plantão – Imperadores, Condes, Alcaides, Bruxos, Cartolas, Bate-Paus e Assemelhados e com o trabalho infame de carrascos como você, Boris Borrão, ô bobo, até Ontem a serviço do Poder, reles figurante na degola de Gente da Gente como nós, ô bobo! Continuaremos a acreditar e a defender Valores Fundamentais que deveriam orientar o percurso secular da Humanidade.
E, assim, por assim dizer… A História. História, sempre ela. A Mestra da Vida, a nos dar lição após lição para que não nos tornemos, ô bobo, o Bobo da Corte, destas Fundangas Varonis, reclamando de infortúnios pessoais e individuais, ô bobo!
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Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini) nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”. |










