Poesia & Conto

A culpa é sempre da burra | Diogo Leite Castro

Foto de TS Sergey na Unsplash

Quem entra no pátio do café e se senta junto à porta, com a janela de alumínio a transpor o espaço e a fronteira, tem dificuldade em desvendar a origem fétida dos odores rançosos, amargos e secos, assim como os ruídos esganiçados que chegam lá dos fundos, que tanto podem vir da senhora idosa que reclama da canela doente, como da mulher que trabalha nos campos de feijão e pragueja, perante uma assistência fúnebre de homens cansados, que a culpa é toda da burra.

 

Aquilo não era nada comigo. Ainda assim, sentei-me numa mesa junto à parede e fiquei ensimesmado a olhar para o televisor, sintonizado num canal estrangeiro qualquer, como se aquela realidade não estivesse ao meu alcance. O dono apareceu cinco minutos depois, com os nervos inquietos. Como não o conhecia de parte nenhuma, ignorei a sua irritação contida, cheia de tiques, e pedi uma água natural com gás. Registou o pedido e desapareceu atrás do balcão, relinchando como um cavalo, um cavalo que se continha entre dentes, praguejando: «não há falcatrua nenhuma, não há falcatrua nenhuma, a minha família é gente boa e séria».

 

Aquela lengalenga intrigou-me, pois era ritmada como um resfolegar, e virei-me de imediato para trás, à procura da palavra e do significado, do cheiro e do murmúrio. Ao fazer esse gesto com o pescoço, fui atraído pelos gritos furiosos daquela besta atávica que reclamava da burra, da vedação e dos vizinhos, e perdi-me no meio da confusão.

 

Segundo as explicações da mulher, adjetivadas sempre por um estalar de língua, quando o seu mais velho seguia montado na motorizada em direção ao café, a safada da burra soltou a estupidez dela cá para fora e, com o focinho a tresandar a hortaliças, empurrou a porta do quintal para a frente e largou-se no meio da estrada, atropelando o desgraçado do moço, que era tão bom a equilibrar-se na Casal do tio. «E agora morto!» – Suspirava. «É muito sofrimento!»

 

A verdade é que a burra, por dolo ou negligência, assassinou precocemente o filho da pobre mulher, que comia tão bem, que ficou difícil para aquela espécie atarracada sobre as galochas aceitar a malignidade da bicha. «Se ao menos fosse o mais novo», dizia, «que não se alimenta e nunca agradece, talvez até conseguisse perdoar a sacana da burra. Mas fazer o que fez àquele, tão jeitoso, jamais serei capaz! A burra que se vá foder!»

 

Após proferir semelhante impropério, a mulher interrompeu-se e pediu mais uma cerveja. O dono foi buscar a levedura, impaciente. Nisso, a sujeita passou o pano que trazia ao ombro pela testa. Fechou ligeiramente os olhos e voltou a abri-los. Quando parecia que vinha calma e com sossego, carregou o sobrolho e as suas feições enrijeceram com ele, assanhado as recordações daquele dia.

 

Tudo aconteceu num sábado de manhã. A mulher estava a trabalhar nos campos e ouviu o estrondo. Foi a correr até ao local. Ao chegar, viu a estaferma da burra a padecer e o filho mais velho enfaixado nos arbustos. Primeiro, não percebeu o que estava a acontecer. Só depois caiu nela e começou a insultar a burra e a acudir o desgraçado. Enquanto o tentava retirar dos arbustos, com as mãos feitas de terra e ferrugem, sentiu o burburinho dos vizinhos nas suas costas a aproximarem-se, comentando, entre eles, que os carvalhos da berma deviam ter sido cortados pela junta, pelo menos há três meses, pois daquele jeito tiravam a visibilidade. Ao virar-se para trás, a mulher perguntou, sem freio, pelo dono da burra, mas ninguém se acusou. Só estavam preocupados com o excesso de vegetação. O problema que isso causava à rodovia. Tudo o resto era distração.

 

«De quem é, afinal, o raio da burra?!» – Reclamava, furiosa. «De quem é?!»

 

A pergunta vinha ferida, cheia de espuma e dor, e começou a correr de boca em boca, desde o local do acidente até ao centro da vila. Depois de tanta insistência, alguém de Ferreira encheu-se de coragem e disse que a burra não tinha dono. A morte daquele rapaz também não.

 

A morte é como a culpa, morre sempre sozinha.

fotografia de Diogo Leite Castro

Diogo Leite Castro nasceu em 1978, no Porto. 

Publicou dois livros de contos, Histórias da vida moderna e Histórias complementares da vida moderna, em 2015 e 2016. O seu conto: Infância, estado sólido do tempo, foi selecionado pela antologia coordenada pelo Centro de Estudos Mário Cláudio, A Criança Eterna. O conto: Guilherme e Alice, foi integrado na antologia “In/Sanidade — Uma Antologia Portuguesa”. Alguns dos seus textos e contos encontram-se publicados em revistas. 

Em 2020, publicou o seu primeiro romance, intitulado Descrição abreviada da eternidade.  Biografia do Esquecimento, o seu último romance, publicado em 2024, recupera a relação conturbada entre o indivíduo com os outros, num contexto completamente diferente.»

Lecionou um curso de escrita criativa. E participou ainda, com textos e fotografias suas, na 3.ª Bienal Internacional de Arte Gaia, numa exposição intitulada de Livre Mente.

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