Poesia & Conto

Quatro poemas | fernando fernando

Foto de Johannes Plenio na Unsplash

QUATRO POEMAS

 

The Thirteenth Amendment

(Abraham Lincoln)

 

da intenção ao crer

manda o dever –

a votação

 

contra a usura

a ignomínia

– não por decreto –

o fim da escravatura

 

cumprido o sonho

o fim da guerra

por um fio

 

é tempo de viver

entardecer

morrer –

comanda o sonho

 

longe   um dueto

surdo   agudo

um entreolhar

soturno   grave

 

de norte a sul

fraccionado

 

grave   nada diz

dizendo tudo

 

sono imenso

por uma causa

pela razão

sem arriscar

algo tão denso –

eleição   liberdade

 

mas a bala cobarde

trai-lhe o coração

fitando o silêncio

olharam o chão   o céu

 

partiram –

ficou um vazio

pleno de palavras que calam

 

o eco persiste

na dobra do silêncio –

tudo recomeça

 

intermitência do que é humano

a mesma bala

na sombra do regresso   paira

vendaval tirano –

adamastor dos nossos dias

 

nada é eterno

 

*

 Intemporalidade

 

no leito do pequeno regato

onde nos havemos

onde tudo se cava   descrava   lava

na garganta das pedras

contra a corrente   aquém a origem

 

a nascente fica num pico agreste

duma serra onde nunca estive

jardim do éden   diz-se

onde a inocência é tentação

e os amores não chegam a ser

 

num espaço onde os caninos se cheiram

franzem o nariz   se olham de viés

 

merda   sou homem   respeito-os

como se fossem

 

há quem nasça no espaço

sem rua   sem número   sem códigos

fontes que foram belas

secretamente belas

 

somos adultos   juro

juro que sonhamos

tudo passámos

 

a jusante

num além sem memória   diluídos

somos mar   despidos de tempo

somos raio   trovão   por fim   poema

as dores de saudade   recusam secar

 

navegar sem saber

onde me hei de encontrar

 

sem ciência   nem cartografia

sigo além de morrer

exumado de mim   ou de quê

sem saber onde me fui   ou se sou

 

sofro esta paisagem de papoilas rubras

esparsas no restolho do meu corpo

na janela dos meus olhos

 

sofro a queima das eiras trigais

o fumo da ira nos beirais da guerra

à sombra da morte   tenho a minha ciência

livrar-me de mim

desta dor metafísica vigente

 

no leito do regato   entre as margens

choupos-negros

silvados   freixos   limos

 

há pequenos nadas   sem rosto   sem boca

as melopeias afogadas   bracejam

na encefalia sonora   grisa

vagam no meu cérebro

capilares   artérias   veias   sombras

 

há outros nados   vagando a montante

na ânsia de princípio   raiz

sem nunca chegarem

ignotos   como se não nascessem

como se não morressem

 

há outra inocência   que espera libertar-se

sem saber que mundo a espera

nas pedras do riacho   onde navegamos

 

sofro a nostalgia do muro das eras   musgo

sofro tudo o que fora   o que era foi

 

as flores amarelas dos tojais

esquecia a dor dos espinheiros

talvez fossem felizes   como as eras

 

tenho os cotovelos calejados

poisados neste muro   observo o mundo

tenho esta paisagem   na memória

definham entre espinhos

ferem-se de morte

 

ser-se posto à prova a cada dia

desta sorte   ser resiliente   forte

lutar   resistir   seguir

 

aqui fico   escrevendo nas pedras do tempo

versos que não curam

mas sangram comigo no musgo do muro

nomes que esquecemos

no eco dos passos que não voltam

 

aqui   onde a alma repousa

enquanto vivo deixo palavras

 

a esperança me sacuda a alma

me devolva ao coração dos dias

lutar   resistir   seguir

 

sabes meu amor   eu sofro a outra gente

mas as crianças   ah   as crianças

foram tombadas pela barbárie cega

 

a culpa é das crianças

que foram jogar à cabra-cega

enquanto os pais ficaram sitiados

nos labirintos do regato   sem desaguar

 

aqui   sentado neste muro de musgo

de eras   mais verdes que verdes

escrevo nas pedras do tempo

todos os regatos do mundo

 

neste vetusto muro   de pedras e de almas

eternas   desvivas

se não me morro   deixo palavras

palavra tempo

palavra amor

palavra esperança

 

num disco duro

nasce-se   vive-se   morre-se

uma só vez

 

para quem vive e sabe

pode dizê-lo enquanto é

depois será para quem está

que antes de ser nado

nada sabe   do ventre gerado…

 

que poderia saber antes de ser

sequer dos seios das mães

ou de outro leite

 

tal como as crianças a quem deram

orfandade   e as levaram

como se de um disco duro se tratasse

até as memórias   formataram

 

se não me morro

nas palavras que vos deixo

morro-me de mim

 

*

morrer-me

 

fui de outras terras e mares

adiante

de onda em onda

aonde fui

cansei de não chegar

se chegasse

onde chegaria

 

mas aqui chegado

resta-me o instante

a luz adiante

o que de mim se foi

o que resta

em riste de finar

 

se ao fechar os olhos

recusar morrer-me

 

será que me vou

ou fico sem ser-me

se me for   que seja etéreo

eterno   antes de ir-me

nascer   viver   matar   morrer

renascer sem pecado original

sopro fugaz

beijo de vento

sem deve nem haver

 

mas porque nados

tudo nos devemos

 

que importa

angústias carpidas

sorrisos

danças

dantes vindos

depois idos

dos nossos passos

terra silêncio sombra

mães   pais   avós

do amor à dor

resilientes

 

nos tempos que correm

meu amor deus e o diabo

de mãos dadas

na rua deste mundo

na esperança

desesperança

reentrâncias de sonho

 

crianças que nascem   logo morrem

nem chegam de nascer

crianças em armas

a quem disseram ódio

insanos teatros de vida e de morte

 

antes de entender o tempo

disseram-lhes matar

um de nós   leilão

matar-se   como se nasces

espelho da alma   esconsa

atrás da imagem

 

matar   sempre matar

morrer por ter matado

cravar a espada no coração do sol

sentir a tua dor na minha dor

a minha sombra tatuada

ó   terra ensanguentada

em cada estrofe   cicatriz

cântico sagrado   raiz

 

quando o tempo lavra o húmus

do pó   das cinzas

flores azuis

pássaros verdes

ecos do que fomos

do que somos

 

*

 

Cris

 

Où sont les fauteuils d’or

qui illuminent les cimetières

et veillent les cercueils

de cette mer de guerre

flamboyante ?

 

Où sont les prières du deuil

des ventres dénudés

qui se perdent

dans les palais de marbre

et d’or ?

 

Que je puisse voler les cris

des ventres dénudés

les rendre

au vent

des ombres

 

Que je puisse crier

aux vents de cendre

emporter les démons

qui étouffent

la misère

 

Si je pouvais…

 

fotografia de fernando fernando.

 

fernando fernando (pseudónimo literário de Fernando Rodrigues Almeida), natural de Roriz, Penalva do Castelo (Viseu), escreve uma poesia de carácter meditativo e introspectivo, marcada pela fragmentação elegíaca, pela densidade da memória e pela reflexão contínua sobre o tempo e a condição humana.

A sua escrita procura o diálogo constante entre a experiência individual e as grandes interrogações da existência, explorando linhas de força como a finitude, a liberdade, a consciência e a permanência da palavra escrita face à passagem do tempo.

Iniciou o seu percurso literário no final da década de 60, publicando os seus primeiros textos na Secção Juvenil do extinto Diário de Lisboa, sob a coordenação de Alice Vassalo Pereira, assinando na altura como Fernando Rodrigues. Actualmente, tem divulgado a sua poesia em espaços de divulgação literária, nomeadamente no Recanto das Letras, tendo em preparação o seu livro Ecos Intemporais.

Contacto: nossoparquedasartes@gmail.com | Tel.: 913 748 384

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