
QUATRO POEMAS
The Thirteenth Amendment
(Abraham Lincoln)
da intenção ao crer
manda o dever –
a votação
contra a usura
a ignomínia
– não por decreto –
o fim da escravatura
cumprido o sonho
o fim da guerra
por um fio
é tempo de viver
entardecer
morrer –
comanda o sonho
longe um dueto
surdo agudo
um entreolhar
soturno grave
de norte a sul
fraccionado
grave nada diz
dizendo tudo
sono imenso
por uma causa
pela razão
sem arriscar
algo tão denso –
eleição liberdade
mas a bala cobarde
trai-lhe o coração
fitando o silêncio
olharam o chão o céu
partiram –
ficou um vazio
pleno de palavras que calam
o eco persiste
na dobra do silêncio –
tudo recomeça
intermitência do que é humano
a mesma bala
na sombra do regresso paira
vendaval tirano –
adamastor dos nossos dias
nada é eterno
*
Intemporalidade
no leito do pequeno regato
onde nos havemos
onde tudo se cava descrava lava
na garganta das pedras
contra a corrente aquém a origem
a nascente fica num pico agreste
duma serra onde nunca estive
jardim do éden diz-se
onde a inocência é tentação
e os amores não chegam a ser
num espaço onde os caninos se cheiram
franzem o nariz se olham de viés
merda sou homem respeito-os
como se fossem
há quem nasça no espaço
sem rua sem número sem códigos
fontes que foram belas
secretamente belas
somos adultos juro
juro que sonhamos
tudo passámos
a jusante
num além sem memória diluídos
somos mar despidos de tempo
somos raio trovão por fim poema
as dores de saudade recusam secar
navegar sem saber
onde me hei de encontrar
sem ciência nem cartografia
sigo além de morrer
exumado de mim ou de quê
sem saber onde me fui ou se sou
sofro esta paisagem de papoilas rubras
esparsas no restolho do meu corpo
na janela dos meus olhos
sofro a queima das eiras trigais
o fumo da ira nos beirais da guerra
à sombra da morte tenho a minha ciência
livrar-me de mim
desta dor metafísica vigente
no leito do regato entre as margens
choupos-negros
silvados freixos limos
há pequenos nadas sem rosto sem boca
as melopeias afogadas bracejam
na encefalia sonora grisa
vagam no meu cérebro
capilares artérias veias sombras
há outros nados vagando a montante
na ânsia de princípio raiz
sem nunca chegarem
ignotos como se não nascessem
como se não morressem
há outra inocência que espera libertar-se
sem saber que mundo a espera
nas pedras do riacho onde navegamos
sofro a nostalgia do muro das eras musgo
sofro tudo o que fora o que era foi
as flores amarelas dos tojais
esquecia a dor dos espinheiros
talvez fossem felizes como as eras
tenho os cotovelos calejados
poisados neste muro observo o mundo
tenho esta paisagem na memória
definham entre espinhos
ferem-se de morte
ser-se posto à prova a cada dia
desta sorte ser resiliente forte
lutar resistir seguir
aqui fico escrevendo nas pedras do tempo
versos que não curam
mas sangram comigo no musgo do muro
nomes que esquecemos
no eco dos passos que não voltam
aqui onde a alma repousa
enquanto vivo deixo palavras
a esperança me sacuda a alma
me devolva ao coração dos dias
lutar resistir seguir
sabes meu amor eu sofro a outra gente
mas as crianças ah as crianças
foram tombadas pela barbárie cega
a culpa é das crianças
que foram jogar à cabra-cega
enquanto os pais ficaram sitiados
nos labirintos do regato sem desaguar
aqui sentado neste muro de musgo
de eras mais verdes que verdes
escrevo nas pedras do tempo
todos os regatos do mundo
neste vetusto muro de pedras e de almas
eternas desvivas
se não me morro deixo palavras
palavra tempo
palavra amor
palavra esperança
num disco duro
nasce-se vive-se morre-se
uma só vez
para quem vive e sabe
pode dizê-lo enquanto é
depois será para quem está
que antes de ser nado
nada sabe do ventre gerado…
que poderia saber antes de ser
sequer dos seios das mães
ou de outro leite
tal como as crianças a quem deram
orfandade e as levaram
como se de um disco duro se tratasse
até as memórias formataram
se não me morro
nas palavras que vos deixo
morro-me de mim
*
morrer-me
fui de outras terras e mares
adiante
de onda em onda
aonde fui
cansei de não chegar
se chegasse
onde chegaria
mas aqui chegado
resta-me o instante
a luz adiante
o que de mim se foi
o que resta
em riste de finar
se ao fechar os olhos
recusar morrer-me
será que me vou
ou fico sem ser-me
se me for que seja etéreo
eterno antes de ir-me
nascer viver matar morrer
renascer sem pecado original
sopro fugaz
beijo de vento
sem deve nem haver
mas porque nados
tudo nos devemos
que importa
angústias carpidas
sorrisos
danças
dantes vindos
depois idos
dos nossos passos
terra silêncio sombra
mães pais avós
do amor à dor
resilientes
nos tempos que correm
meu amor deus e o diabo
de mãos dadas
na rua deste mundo
na esperança
desesperança
reentrâncias de sonho
crianças que nascem logo morrem
nem chegam de nascer
crianças em armas
a quem disseram ódio
insanos teatros de vida e de morte
antes de entender o tempo
disseram-lhes matar
um de nós leilão
matar-se como se nasces
espelho da alma esconsa
atrás da imagem
matar sempre matar
morrer por ter matado
cravar a espada no coração do sol
sentir a tua dor na minha dor
a minha sombra tatuada
ó terra ensanguentada
em cada estrofe cicatriz
cântico sagrado raiz
quando o tempo lavra o húmus
do pó das cinzas
flores azuis
pássaros verdes
ecos do que fomos
do que somos
*
Cris
Où sont les fauteuils d’or
qui illuminent les cimetières
et veillent les cercueils
de cette mer de guerre
flamboyante ?
Où sont les prières du deuil
des ventres dénudés
qui se perdent
dans les palais de marbre
et d’or ?
Que je puisse voler les cris
des ventres dénudés
les rendre
au vent
des ombres
Que je puisse crier
aux vents de cendre
emporter les démons
qui étouffent
la misère
Si je pouvais…
fernando fernando (pseudónimo literário de Fernando Rodrigues Almeida), natural de Roriz, Penalva do Castelo (Viseu), escreve uma poesia de carácter meditativo e introspectivo, marcada pela fragmentação elegíaca, pela densidade da memória e pela reflexão contínua sobre o tempo e a condição humana.
A sua escrita procura o diálogo constante entre a experiência individual e as grandes interrogações da existência, explorando linhas de força como a finitude, a liberdade, a consciência e a permanência da palavra escrita face à passagem do tempo.
Iniciou o seu percurso literário no final da década de 60, publicando os seus primeiros textos na Secção Juvenil do extinto Diário de Lisboa, sob a coordenação de Alice Vassalo Pereira, assinando na altura como Fernando Rodrigues. Actualmente, tem divulgado a sua poesia em espaços de divulgação literária, nomeadamente no Recanto das Letras, tendo em preparação o seu livro Ecos Intemporais.
Contacto: nossoparquedasartes@gmail.com | Tel.: 913 748 384










