Sociedade

Os mitos da Migração: imigrantes brasileiros em Portugal e Espanha | Wesley Sá Teles Guerra

Foto de Vita Marija Murenaite na Unsplash

A migração sempre foi um tema repleto de mitos e expectativas, especialmente para os brasileiros que buscam uma nova vida em países europeus como Portugal e Espanha. 

 

Somos criados com uma imagem midiática da qualidade de vida, riqueza e prosperidade da Europa, além das diferenças entre Brasil e os chamados “países de primeiro mundo”, sempre reforçando o lado negativo do Brasil e minimizando os desafios de começar uma nova vida lá fora ou até mesmo das problemáticas sociais desses países… 

 

Frequentemente, sofremos com a pressão de uma contínua exposição de uma realidade muitas vezes deturpada, que não leva em consideração a legalidade do processo, a situação social e racial dos indivíduos, etc… O “Efeito Influencer”, imigrantes brasileiros que reforçam os estereótipos e que no geral… minimizam os desafios e problemas da Europa e exacerbam as dificuldades do Brasil… promovendo uma cultura da mediocridade e uma homogeneização inexistente, onde o migrante parece que estava passando as mais terríveis dificuldades e atribulações no Brasil e que aqui, com poucos euros, pode encher um carrinho e ter uma vida de rei… A Cultura do Espetáculo (Guy Debord, 1967) elevada ao máximo exponencial graças ao efeito das redes sociais e da pós-verdade, onde aparentar é melhor que viver uma realidade…

 

No entanto, a realidade que esses imigrantes encontram muitas vezes está longe da utopia imaginada…

 

Neste artigo, abordaremos as dificuldades de integração social, barreiras linguísticas, diferenças climáticas, ausência de redes de apoio e familiares, questões de documentação, homologação de estudos, mercado de trabalho ou ofertas limitadas, falsa sensação de prosperidade, submoradia, concentração urbana e altos valores de aluguéis, e pobreza laboral que afetam esses imigrantes e o grande erro que muitos cometem…

 

Dificuldades de Integração Social

 

Uma das primeiras barreiras enfrentadas pelos imigrantes brasileiros em Portugal e Espanha é a integração social. Embora no caso de Portugal o idioma português possa facilitar a comunicação, as diferenças culturais e sociais ainda representam um obstáculo significativo, havendo muitas profissões onde o uso da normativa brasileira não é aceito (áreas tais como Comunicação, Direito, Educação, Jornalismo…) havendo uma romantização por parte dos migrantes que acreditam que saber a língua é o suficiente… Na  Espanha, por outro lado,  a barreira linguística é ainda mais acentuada, com o espanhol sendo um desafio adicional para muitos brasileiros que não dominam o idioma assim como a existência das línguas cooficiais que muitos brasileiros só conhecem uma vez chegados a Espanha devido à visão generalizada de que se trata de dialetos e não de idiomas oficiais usados amplamente e com caráter obrigatório e oficial, de modo que é fundamental a sua aprendizagem, já seja do Galego (Região da Galiza), Euskera (País Basco e partes de Navarra), Catalão, Valenciano e Balear (na Catalunha, na Comunidade Valenciana e nas Ilhas Baleares) sem contar línguas regionais com importância como o Astur Leonês nas Astúrias, sendo difícil quebrar o paradigma de que não se tratam de línguas suboficiais, mas cooficiais, ou seja, estão no mesmo nível que o espanhol (ou melhor castelhano)… Além disso, o preconceito e a xenofobia podem dificultar ainda mais a aceitação e a integração dos imigrantes na sociedade local.

 

Diferenças Climáticas

 

As diferenças climáticas também podem ser um choque para os brasileiros acostumados com temperaturas mais amenas. Os invernos rigorosos de Portugal e Espanha exigem uma adaptação significativa, não apenas em termos de vestuário, mas também na maneira de viver e se relacionar com o ambiente. Assim como as regiões onde o Verão é extremamente quente e que muitos ignoram.

 

Redes de Apoio e Familiar

 

A ausência de uma rede de apoio é outra dificuldade enfrentada pelos imigrantes. Muitos brasileiros chegam a Portugal e Espanha sem amigos ou familiares próximos, o que pode aumentar a sensação de isolamento e dificultar a adaptação… A falta de uma rede de apoio também pode tornar mais desafiador o acesso a informações verídicas e recursos que facilitem a integração, gerando muitas vezes um reforço de atitudes e atividades ilegais, tais como trabalhar de modo informal ou morar em uma submoradia ilegalmente, sem dizer que existe um movimento depredatório entre aqueles que já estão constituídos no país e os recém chegados, como uma espécie de competição interna, o que movimenta uma série de serviços que são totalmente ilegais e que têm suas repercussões, tais como coachings e assessorias sem validação académica ou profissional, fomentando aquela visão de que “o brasileiro não é confiável”, o que a longo prazo afeta a totalidade da comunidade brasileira, já que isso é transmitido aos cidadãos nativos que pensam “se eles mesmo dizem isso dos seus compatriotas, por qual motivo eu vou confiar?”

 

Documentação e Homologação de Estudos

 

Questões de documentação e a homologação de estudos são barreiras burocráticas que podem levar meses, ou até anos, para serem resolvidas. A validação de diplomas brasileiros nem sempre é reconhecida automaticamente, exigindo dos imigrantes um processo longo e, muitas vezes, caro, que na grande maioria das vezes deve se iniciar antes mesmo de viajar. Esse problema impede que muitos profissionais qualificados exerçam suas profissões, contribuindo para o subemprego e a subutilização de habilidades e reforçando a imagem de que o migrante somente serve para trabalho braçal…

 

Assim mesmo, muitos não conseguem entender que mesmo dentro do quadro jurídico Europeu, cada país da União Europeia tem sua própria autonomia em matéria de imigração e fiscalidade, e que ter a documentação de um país (residência) não lhe dá acesso a morar e trabalhar em outro, somente circular por este. Pois são muitos os brasileiros que, após obter a documentação em Portugal, acham que podem morar e trabalhar na Espanha, França ou Itália, quando esse direito somente assiste aos nacionalizados ou residentes de longo prazo (permanentes), sendo necessário dar entrada na documentação do novo país.

 

Por último, existe uma falsa sensação de que a União Europeia é um ambiente homogêneo, sendo talvez este somente acessível para aqueles cidadãos com passaporte europeu, ou seja, a nacionalidade já para aqueles imigrantes (ainda que documentados com a autorização de residência e trabalho de um país membro), cada fronteira representa começar de zero…

 

Mercado de Trabalho Limitado

 

O mercado de trabalho em Portugal e Espanha é limitado e competitivo. Ambos os países perdem população nativa que decidem migrar para buscar outras oportunidades na própria União Europeia devido à incompatibilidade dos salários e ao custo de vida ou pelo processo de perda da população rural. 

 

Muitos imigrantes acabam aceitando empregos que não correspondem às suas qualificações ou experiência, resultando em uma falsa sensação de prosperidade pois usam critérios longe de sua realidade… Pois claro que um garçom ou uma faxineira na Europa vai ter maior poder aquisitivo que no Brasil! Porém, a pergunta que resta é: Você está disposto a ser apenas um garçom e uma faxineira? Quais são as suas possibilidades de mobilidade social, será que de fato elas existem?

 

A realidade é que muitos acabam subempregados, recebendo salários baixos e enfrentando condições de trabalho precárias fazendo um paralelismo limitado como se seu acesso ao mercado de trabalho no Brasil, como se fossem os mesmos, já que em sua grande maioria não é! 

 

O Brasil, por ser uma economia emergente, tem demanda de mão de obra qualificada e paga melhor que a Europa essa mão de obra, porém você no Brasil sempre que cumprir com os requisitos terá acesso a essa melhoria de ingressos, já na Europa…. não!, pois esse contingente de pessoas formadas já está completo e vai dar prioridade aos nacionais que migram para o norte europeu buscando oportunidades…

 

Submoradia e Concentração Urbana

 

A busca por moradia adequada é outra grande dificuldade. Com a alta concentração urbana e de oportunidades típicas desses países, e os altos valores de aluguéis em cidades como Lisboa, Porto, Madrid e Barcelona, muitos imigrantes acabam vivendo em condições de submoradia.

 

O preço elevado dos aluguéis, impulsionado pela turistificação, exacerba ainda mais a situação, forçando muitos a dividir pequenos apartamentos com várias outras pessoas ou a morar em barracas de acampamento como acontece em Portugal.

 

Pobreza Laboral

 

A pobreza laboral é uma realidade para muitos imigrantes brasileiros em Portugal e Espanha. Mesmo estando empregados, muitos não conseguem cobrir todas as suas despesas devido aos baixos salários (a nível europeu) e altos custos de vida. Esse cenário gera uma situação de vulnerabilidade constante, onde a incerteza e a insegurança financeira são partes do cotidiano que ocupam setores de grande volatilidade e sensíveis a qualquer mudança política e econômica no país anfitrião.

 

Falsa Prosperidade

 

Existe uma falsa sensação de prosperidade no contingente Europeu, algo que Maslow já explicava em sua pirâmide de necessidades. Aqui na Europa, as necessidades fisiológicas podem ser mais facilmente conquistadas devido ao estado de bem-estar europeu proporcionado por uma visão sociodemocrata da formação da União Europeia (Sim, amigo de direita, o modelo de vida Europeu se baseia no Keynesianismo da socialdemocracia) , porém ao subir na pirâmide de Maslow começam os problemas… Problemas tais como reconhecimento social, integração social, igualdade social, mobilidade social… À diferença de outras economias, tais como a Americana ou a Australiana, “onde se pode fazer dinheiro”, os recursos obtidos na Europa, à exceção talvez dos países do norte, serão todos destinados a cobrir com a demanda das bases da pirâmide, tanto que em alguns países da Europa, a tributação incidente sobre o salário chega perto dos 50%…  e a pergunta é: Até quando você pode aguentar ou está disposto a ceder?… já que o preço de cumprir com esses desejos sempre será uma mobilidade social limitada, xenofobia, restrições no mercado laboral, discriminação, etc…

 

Tenho o passaporte Europeu, sou um Europeu…

 

Juridicamente, a nacionalidade lhe atribui de fato os mesmos direitos e condições que um cidadão nativo, exceto talvez em alguns setores (tais como representação diplomática), porém tanto Portugal como a Espanha são regidos pelo princípio jurídico de Ius Sanguinis, de modo que a filiação Estado-Cidadão se dá através da consanguinidade, diferentemente do Brasil onde rege o princípio de Ius Solis, ou seja, todo aquele que nasce no Brasil é brasileiro independentemente da sua origem! Ainda assim, em ambos os países (Portugal e Espanha), existem infinidades de casos de portugueses ou espanhóis nascidos em ditos territórios e com pai ou mãe brasileira que, mesmo tendo a sua cidadania e o seu certificado de nascimento, aos olhos da sociedade local não são vistos como cidadãos autóctones ou verdadeiros!, mas como imigrantes e filhos da migração… O caso da atleta espanhola Ana Peleteiro, que nasceu na Espanha e cuja mãe é espanhola é algo flagrante, já que ao ser uma mulher negra, mais de 40% dos Espanhóis não a consideram de fato uma “espanhola” ou “espanhola legitima”!

 

Ana Peleteiro, atleta medalhista de atletismo, nascida na Espanha, mas não considerada por muitos uma espanhola legítima.

 

O que eleva a discriminação e xenofobia a algo que vai além da legalidade, seja por questões raciais ou por questões econômicas… já viram a seleção de futebol francesa?

 

O grande Erro! 

 

O maior erro que comete o imigrante brasileiro é deixar tudo no Brasil, sem se preparar e se orientar por profissionais, mas se deixar levar por comentários, amigos ou vídeos de redes sociais… Sem ter um planejamento financeiro ou até mesmo sem, de fato, cumprir com as exigências legais do Brasil… A grande maioria não faz a declaração de saída definitiva para a Receita Federal e depois são tributados ao remanejar seus ingressos e seus recursos financeiros, a grande maioria não vota ou justifica e depois tem problemas para renovar seu passaporte, a grande maioria não notifica ao INSS e depois sofrem com a dupla tributação ao se aposentar…

 

Abandonam o Brasil como o pior que lhes aconteceu em suas vidas, esquecendo que mesmo quando nacionalizados na Europa, o Brasil sempre será parte de suas vidas… Falam que um dos motivos de sua saída do Brasil foi a corrupção quando eles mesmos buscam se evadir da tributação e das exigências legais da Pátria potestade…

 

O maior erro é se sentir Europeu, quando um pedaço de papel, situação ou trabalho, não apaga seu vínculo com o Brasil… E quando você se esquecer… a Europa vai lhe lembrar…

 

Conclusão

 

Os mitos da migração, muitas vezes alimentados por histórias de sucesso e prosperidade, escondem uma realidade complexa e desafiadora. Imigrantes brasileiros em Portugal e Espanha enfrentam uma série de dificuldades que vão desde a integração social e barreiras linguísticas até problemas de documentação, mercado de trabalho limitado e condições de moradia inadequadas. Para muitos, a promessa de uma vida melhor se transforma em um constante desafio de sobrevivência e adaptação o que motiva um incremento no número de brasileiros que buscam ajuda para voltar ao Brasil (somente em Portugal aumentou 200% em 2023).

 

É fundamental que políticas públicas e iniciativas de apoio sejam fortalecidas para facilitar a integração e melhorar as condições de vida desses imigrantes. Somente assim será possível transformar a migração em uma experiência verdadeiramente positiva e enriquecedora tanto para os indivíduos quanto para as sociedades de acolhimento.

 

Referências:

 

Sociedade do Espetáculo – Guy Debord 1967

Direito à cidade – Henri Lefebvre 1968

Pós verdade – Noam Chomsky 2020

 

fotografia de Wesley Sá Teles Guerra.

Wesley Sá Teles Guerra: Galeguista, de origem brasileira, fundador CERES e Paradiplomata. Poliglota. Formado Negociações Internacionais pelo CPE (Barcelona), Bacharel Administração pela UCB, Pós graduado Relações Internacionais e Ciências Políticas FESPSP, Mestrado Políticas Sociais e Migrações UDC (Espanha), MBA Marketing Internacional MIB (Massachussetts-EUA), Global MBA ILADEC, Mestrado Smarticities UC (Andorra), Doutorando Sociologia UNED (Espanha). Especialista Paradiplomacia, Desenvolvimento Econômico e Cidades Inteligentes. Autor livro Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Comentarista convidado da CBN Recife e finalista do prêmio ABANCA para investigação acadêmica e do prêmio de literatura Diversidade.

Atuou como Paradiplomata do Governo da Catalunha durante o “procés” processo de autodeterminação da região da Catalunha (Espanha), também foi membro do IGADI, Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e coordenador do OGALUS, Observatório Galego da Lusofonia, sendo o responsável pelo estudo Relações entre Galicia e Brasil. Assim mesmo, foi o primeiro brasileiro a se candidatar em uma eleição na cidade de Ourense (Espanha).

Foi editor executivo da revista ELA do IAPSS e é membro de diversas instituições tais como CEDEPEM, ECP, Smartcities Council e REPIT.

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