Poesia & Conto

Panegia: I | Daniela Braga Azevedo

Foto de mauro mora na Unsplash

antes da medida,
eu já era,
disseram-me que estive em toda a parte.
estive.
estou.
talvez ainda esteja,
mas não como antes.
deixaram
de
    me
          caber.


o que antes atravessava o mundo e movia os corpos, deixou de chegar,
como se algo se tivesse fechado,
sem ruído
e tudo o que partia, regressasse, sem tocar em ninguém,
deixou de haver resposta.
deixei de falar.

sei o que isso parece.
uma divindade, talvez…
não sou.

quando comecei,
não havia nomes.
as coisas eram isso,
apenas isso — coisas.

O que era, existia e ocupava o que havia.

depois nomeámos.

foi um gesto pequeno.
quase um sopro.

e, no entanto, tudo começou aí.

nome após nome,
fomos cercando.
cada palavra um limite.
cada limite uma forma.

criámos as realidades.
e elas,
criaram-nos a nós.

 

durante muito tempo, foi belo.
havia invenção, ordenação, um certo brilho inaugural.

 

o tempo erguia-se. alto. acima dos corpos. 

movia-se leve,
uma cadência impercetível,
orgânica o suficiente para dar forma ao que andava disperso.

depois, infiltrou-se.
percorreu a epiderme
até o princípio e o fim se desfazerem um no outro.

magma que queima,
transmuta
e, sem ser deus,
ocupa o seu lugar na criação da forma.

quando dei por isso,
já não o reconhecia.

passou a habitar o mundo como senhor.

as pessoas,
aprenderam a segui-lo.
não por força, mas por hábito.

dividiram-no, prenderam-no
em mecanismos,
deram-lhe corpo em objetos que marcavam o seu avanço.

e aceitaram.

aceitaram a sua fragmentação,
sujeitaram-se a existir em bocados de tempo
até o inteiro lhes escapar das mãos.

 

vi corpos cederem.
vi vidas esgotarem-se em movimentos que não lhes pertenciam.
e ninguém interrompeu o gesto.

o tempo continuou.

 

mais tarde, ele passou a retirar.
não o que dava, mas o que prometia.
ergueram-se futuros como poços,
fundos o suficiente para cair sem regresso.
e muitos caíram.
Quase todos.

 

ainda os ouço.

não no mundo — em mim.

vi tudo.
sem conseguir tocar o desvio,

houve noites em que uma lágrima escapou.

não a detive.

talvez esperassem de mim vontade.
mas eu era apenas condição,
não sou humana.
nunca fui

 

fui eu o corpo que me abriu e a mão que me trouxe,
carrego o princípio e os gestos que dele vieram,
fui mãe,
antes de haver filhos.

tive ambições.
deixei-as cair. Todas.

o que ficou foi um recuo,
vindo do que deixou de responder,
como uma voz que, ao não ser ouvida, se recolhe
até se apagar.

veio depois o sono.
um sono espesso,
apagava o cansaço
mas levava consigo qualquer caminho além dele.

não resisti.
deixei o mundo entregue ao que nele se movia.
foi então,
que, do fundo desse sono, algo abriu.

não sei se memória ou presságio.

via ruas.

vazias.

carros imóveis no meio das vias,
como se o movimento do mundo tivesse sido interrompido no seu próprio corpo.

portas fechadas por dentro.
janelas entreabertas — olhos retidos na fresta.

o silêncio ocupava o espaço onde antes havia vozes.

as roupas presas nas cordas,
endurecidas pelo tempo,
rasgadas pelo ar,
como se estivessem ali há demasiado tempo para ainda pertencerem a alguém.

as noites começavam todas com o mesmo som,
fino e contínuo,
espalhando-se pelas ruas vazias
como uma coisa húmida a ganhar espaço.

depois vinham os corpos.
milhares.
atravessando o asfalto,
subindo paredes,
ocupando frestas, portas, recantos.

uma matéria viva devolvida à cidade.

corria o ano de 2091.

In Panegia, Daniela Braga Azevedo

(2775 caracteres, sem espaços)

https://danielabragaazevedo.substack.com/

Fotografia: Daniela Braga Azevedo

Daniela Braga Azevedo escreve prosa poética, numa linguagem literária simbólica, reflexiva e mitopoética, explorando a condição humana através da transformação simbólica do mundo. A sua escrita caracteriza-se por um ritmo fragmentado e cadenciado, próximo do verso livre, pela associação simbólica de imagens e por uma estrutura conceptual em detrimento da linearidade narrativa.

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