Cultura

A singularidade de Felipe Simas em Me conta dois contos das Anavitória? | Letícia Ferro

Foto de Gabriel Tenan

É preciso ter o caos dentro de si
para gerar uma estrela dançante.

Nietzsche

Quando um produtor artístico decide flertar com domínios múltiplos, como o da escrita literária, o que se espera é que ele o faça de coração lato, com batimentos que sejam revelados na própria forma, nela movendo o sentimento expresso de sua escuta sensível. Ao deslocá-los assim será possível ecoar, sob o signo da imaginação, a música da circunstância, a escavação dos afetos, a evidência do segredo mais íntimo. Desse modo, é tão possível como “é tão singular” que uma caracol que sonhe em voar ou que um simples cílio adquira vida própria possam emergir com a pronúncia de Felipe Simas, quando inquirido: Me conta dois contos das anavitória?. (Simas é conhecido no meio das artes por gerenciar a carreira de Anavitória ‒ duo tocantinense formado, em 2014, por Ana Clara Caetano Costa e Vitória Fernandes Falcão, que, desde então, vem conquistando os brasileiros com canções de folk-pop, cujas letras, afeitas ao sentimento que prescidem de simplicidade, valem a doçura e delicadeza, simultâneas, das meninas.)

É inspirando-se nas “anavitória” que o produtor, agora escritor, nos responde com as histórias de “O cílio do olho da Clara” e “A caracol do cabelo da Vi”, sendo a primeira trazida a lume em edição avulsa, em 2020, pela Editora Zit, e a segunda, em publicação conjunta, pela Editora Matrix, no presente ano. (Nas duas, cumpre destacar a presença das ilustrações de Luciana Grether, que, com traçado desperto, soube dar a medida exata ao vivo das cores que ambos os contos pedem). Sucede que se mesmo os nomes próprios das cantoras ‒ como é sabido ‒ foram, por Simas, sugeridos, desde o princípio, que fossem grafados juntos e não separados pela letra “e” (conquanto a vogal contenha a ideia de adição) ‒ a contrapelo, pois, da ideia de dupla, como são formadas tradicionalmente no estilo musical sertanejo ‒, nada mais natural que o conto mais recente viesse apresentado como face da mesma moeda. Com efeito, o projeto gráfico que alterna as capas de ponta cabeça e cabeça para cima, a depender de qual se desejar ler na ocasião, não poderia ser tão mais feliz quanto apropriado, na medida em que atende a proposta de Anavitória: duas em uma, porém duas, mas que se dão numa só. O que é apresentado como fórmula impossível (e o é aos olhos dos incautos ou mais apressados) deixa de sê-lo, ao timbrar consonância de forma e sentido à criação de Felipe Simas.

Se se Anavitória atende(m), portanto, ao hesitante chamado entre ser uma ou duas, contudo, a um só tempo, o mesmo pode ser dito acerca dos contos, não em relação à especificidade de enredo, mas à diegese de sua apresentação, extraída da agenda (quiçá, diário íntimo) do convívio de longa data de Simas com as cantoras. Bem como pelo olhar de cuidado por ele conferido igualmente às duas. Quer dizer: como o próprio (se) faz confessar, ao final de ambas as histórias, o pontapé para que fossem escritas reside na experiência de fait divers pelo produtor testemunhada, em sua perspectiva mais particular. É na (con)vivência Felipe – Ana-Vitória ‒ não necessariamente nessa ordem ‒ onde se localiza o primeiro passo dado rumo à imaginação criadora dos contos. No rastreio da relação de proximidade das partes do trio, a matéria de invocação literária se divisa, fazendo-se ouvir nas miudezas ordinárias, que, ao serem transportadas para o campo da criação, incensam-no com perfume poético, contrariando o prosaísmo da realidade. (Sorte dos leitores e seguidores ‒ e não apenas os pequeninos ‒ de Anavitória que, assim, poderão redescobri-la(s) em sua reafirmada simplicidade, porém, acedida literariamente).

De Ana Caetano, Simas recorta o biografema de “uma manhã do verão de 2019”, envolvendo o olho da cantora, ao ser acometido por um quadro de triquíase ‒ o crescimento destoado do cílio que, em vez de crescer para fora do globo ocular, juntamente com os demais, cresce para dentro, causando irritação, desconforto ao enxergar, lacrimejamento etc. O produtor, então, ao flagrar a cantora passando por tamanho incômodo decide “animá-la”, enviando-lhe “mensagens instantâneas” pelo celular. Cada letra dedilhada por ele (de)teria su’atenção naquele instante, e a escrita, logo mais. Não saber sobre que palavra desfixar aquela situação toda o faria vislumbrar a poesia mais tarde. Dito e feito. A disposição, digamos, autossuficiente de um único cílio, quem diria?, jogaria luz numa inflexão para lá de necessária como intricada, sobretudo, quando levada para o universo infantil: a de se fazer pensar a despeito do comportamento em série, reproduzido no automatismo, na bitola social que tanto desencoraja, repulsa, desmerece, prejulgando (“É pura BIRRA”; “[…] só quer atenção”) e, em termos radicais, discrimina o diferente. Resistir ao mais do mesmo “[p]rovoca. Desafia. Incomoda”, mas é, conforme frisa Felipe, também, o modo como se “[e]xiste”, o ensejo subjetivo que se coloca, muitas vezes, à frente de/ contra tudo e todos.

De Vitória Falcão, Simas confia aos cabelos cacheados a representatividade circunscrita imageticamente na diferença. A escolha deles, espelhando os exuberantes fios da cantora, é metonímica e surpreendente, uma vez que, na agenda do incentivo às singularidades, o encaracolado se (con)fabula comumente à espera de sonhar outra coisa que não a sua forma contrária, imposta pelo denominado padrão, mas que nem por isso deixa de se concretizar, pois “[d]izem que, se a gente levar os sonhos a sério, corre o risco de eles se realizarem”. Na busca por isso, deve-se pensá-los segundo o ideal de pertencimento íntimo-subjetivo e nunca o ditado por terceiros. E isso quando transposto para o campo da imaginação, torna tudo ainda mais possível, incluso o fato de uma caracol, “bicho da terra” e de “corpo mole e concha pesada”, sentir-se “cansada da vida de caracol” e se afinar perfeitamente com quem tenha asa, por exemplo. Se o que, à primeira vista, “[p]arecia um sonho delirante”, adquire forma (saída) ainda tão inusitada quanto maior que aquela que se esperava: o encontro com os cachos da menina Vi proporcionariam à caracol uma profusão de formas de se existir no mundo que nem ela mesma poderia imaginar, alargando, portanto, seu arco identitário. Em meio àqueles cabelos, ela se sentiria livre para tornar-se, com arroubo um tanto nietzschiano, o que ela sempre foi, mas que por várias razões não pôde sê-lo. Mas que agora, com a palavra de Simas, finalmente, poderia.

REFERÊNCIA

SIMAS, Felipe. Me conta dois contos das anavitória? Ilustração Luciana Grether. São Paulo: Matrix, 2024.

Fotografia de Letícia Ferro

Letícia Ferro é editora e crítica literária, com doutorado em Estudos Literários pela UFG. E-mail para contato: let_ras@hotmail.com

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