Sociedade

O dilema do trabalhador brasileiro qualificado na Europa: entre o subemprego e a pobreza laboral | Wesley Sá Teles Guerra

Foto de Thomas Konings na Unsplash

Na era da globalização, onde as fronteiras parecem ter se dissipado e as oportunidades de emprego estão ao alcance de um clique, muitos profissionais qualificados de outras nacionalidades decidem atravessar oceanos em busca de novas perspectivas na Europa. Movidos pelo imaginário de uma vida melhor, com grandes oportunidades, melhores serviços, maior poder de compra e mais qualidade de vida… Contudo, a realidade que encontram nem sempre corresponde às suas expectativas, especialmente quando se trata de encontrar emprego compatível com sua formação e experiência.

 

Um dos maiores desafios enfrentados pelos trabalhadores brasileiros com formação consolidada na Europa é a rotulação de “sobrequalificados”. Muitas vezes, esses profissionais chegam com sólida formação acadêmica e vasta experiência profissional, porém se deparam com o fato de que suas credenciais não são plenamente reconhecidas no mercado de trabalho europeu. Em vez de serem vistos como ativos valiosos para o desenvolvimento empresarial, são percebidos como uma possível ameaça pelos empregadores, que temem que esses trabalhadores abandonem seus cargos em busca de oportunidades mais alinhadas com seu nível de qualificação ou simplesmente aumentem as tensões nos locais de trabalho diante da rivalidade crescente entre trabalhadores nacionais e estrangeiros.

 

Essa percepção leva a uma situação paradoxal: os trabalhadores qualificados se veem obrigados a “esconder” parte de sua formação e experiência em seus currículos para evitar serem descartados pelos recrutadores e dessa forma ter acesso ao mercado laboral. Reduzir as informações acadêmicas e profissionais torna-se uma estratégia comum para se adequarem às expectativas do mercado de trabalho europeu e evitar o estigma da sobrequalificação. Embora impere o discurso de que os imigrantes devem contribuir socialmente com o desenvolvimento social e econômico na Europa e não “se aproveitar” das políticas sociais da mesma, o que sem dúvidas gera um contrassenso… Ao final, o quê a Europa espera dos imigrantes? 

 

A situação se agrava quando esses profissionais se deparam com a falta de reconhecimento de suas habilidades e experiência no ambiente de trabalho. Muitas vezes, enfrentam a frustração de ocupar cargos abaixo de sua competência, o que pode levar à desmotivação e perda de interesse no trabalho. Essa subutilização do talento não afeta apenas os trabalhadores estrangeiros qualificados individualmente, mas também representa uma perda para a economia europeia em termos de inovação e crescimento.

 

Outro obstáculo significativo é o viés cultural e linguístico. Embora muitos desses trabalhadores dominem o idioma do país anfitrião e estejam familiarizados com sua cultura laboral, ainda podem enfrentar discriminação ou preconceitos com base em sua origem étnica e em seu “sotaque” ou modo de falar. Esse viés pode se manifestar de maneiras sutis, como a falta de oportunidades de promoção ou a exclusão de determinados círculos profissionais ou até mesmo impossibilitar sua ação como acontece em determinados setores onde o idioma é a principal ferramenta de trabalho, havendo ofertas laborais que simplesmente discriminam o português do Brasil em comparação com o de Portugal.

 

Na Teoria das Migrações Humanas, Priore (1984) falava sobre o mercado dual, ou seja, o mercado laboral era dividido em dois níveis, nos quais a população se dividia, sendo o mercado de baixo valor agregado e pequenas salários destinados aos imigrantes, e os altos cargos destinados à população local… E mesmo após o surgimento de novas teorias, pelo visto a concepção européia não mudou muito… o que sem dúvidas gera uma série de desafios e tensões sociais…

 

Esta geração (em termos globais) é a melhor preparada e a que possui maior facilidade de mobilização devido à evolução dos meios de transporte, tecnologia e a própria globalização… porém ao mesmo tempo é uma das primeiras gerações empobrecidas em relação às anteriores…

 

No caso do Brasil e Portugal

 

A migração portuguesa no Brasil, devido a seu elo histórico é difícil de quantificar, se considera imigrante somente os portugueses que chegaram ao Brasil após a independência da colônia, ainda assim é um número difícil de precisar já que o registro das migrações começou muito depois do início dos fluxos migratórios. Se considera que aproximadamente 1 milhão de portugueses chegaram ao Brasil entre a independência do país ao fim do ciclo migratório europeu… Claro está que esse contingente de pessoas (hoje integradas à cultura e sociedade brasileiras) tiveram seus descendentes, tendo muitos deles direito à nacionalidade portuguesa por sucessão familiar…. Por outro lado, o fluxo de passageiros entre ambos países jamais parou, sendo uma cifra difícil de alcançar… Sem dúvida, o fluxo inverso, ou seja, de Brasileiros que migram a Portugal é muito mais fácil de quantificar, ao levar em consideração que grande parte da população Brasileira até finais dos anos 80, simplesmente não tinha poder aquisitivo de migrar para Portugal, nem rotas de escoamento…

 

A migração brasileira de fato só se faz presente de maneira perceptível em Portugal a partir dos anos 90, sendo a mesma uma migração feminizada (Gonzáles, 2013) e limitada… Somente a partir do novo milênio, com o incremento do poder de compra dos brasileiros e maior acesso à formação de fato houve um incremento nesse fluxo….

 

Porém, ambos os países mudaram drasticamente… Portugal ao se integrar na União Européia e ter o mesmo idioma do Brasil se transformou no principal ponto de desembarque da comunidade Brasileira, e o perfil do migrante brasileiro pouco a pouco foi se transformado… 

 

Assim mesmo, a assimetria entre a economia portuguesa e o resto da Europa, provocou um aumento da imigração portuguesa ao resto do bloco… países como Luxemburgo, Andorra, Alemanha e França, possuem uma grande colônia portuguesa… Esse vão demográfico provou a geração de novas políticas de atração de imigrantes a Portugal (principalmente Brasileiros e Africanos dos países lusófonos). Porém, a centralização da economia portuguesa nas grandes capitais concentram esse fluxo migratório, gerando problemas na ocupação demográfica do território, com o aumento do metro quadrado entre outros fatores que, somados à turistificação das cidades portuguesas, levaram a um empobrecimento laboral e a um profundo desequilíbrio salarial… 

 

Os portugueses altamente qualificados vão embora do país buscar melhores oportunidades e nas cidades portuguesas, estrangeiros e migrantes de outras regiões menos desenvolvidas de Portugal vivem competindo por trabalho e espaço… 

 

Cidades como Lisboa, Porto e Braga se transformaram em um campo de guerra, entre trabalhadores vindos do exterior e portugueses que buscam sobreviver ao declínio das áreas rurais e do interior do país, no mesmo espaço…

 

E onde deveria haver uma melhor projeção laboral, se transformou em um mercado onde os salários são desvalorizados conforme o excedente de pessoas e a concentração de oportunidades…

 

Incrementando dessa forma a dificuldade de distribuir a mão de obra e as ofertas laborais, gerando processos tais como a pobreza laboral (trabalhadores que não chegam ao fim de mês devido aos custos locais), gentrificação (aumento exagerado do preço do metro quadrado) e restrições ao mercado laboral para os trabalhadores qualificados de outras nações…

 

Mesmo Portugal sendo ainda um sonho para o brasileiro, para muitos se transforma em um desafio ou uma desilusão, e a falta de políticas de distribuição de oportunidades e de mão de obra intensifica esse processo… não tá bom nem para o português nem para o imigrantes…

 

Diante desse cenário, surge a inevitável pergunta: o que os trabalhadores sobrequalificados brasileiros podem fazer para superar esses desafios? Devem se submeter a cargos mais baixos no intuito de ao menos sobreviver? Porém, é isso o que deseja Portugal? Incrementar o gasto em serviços públicos diante de um contingente subutilizado e das demandas da própria população autóctone?

 

Uma possível solução reside na educação e sensibilização. Tanto os empregadores quanto os trabalhadores precisam reconhecer o valor da diversidade no ambiente de trabalho e aprender a valorizar as habilidades e experiências únicas que cada indivíduo traz consigo. O trabalhador deve ser reconhecido pelo que pode aportar ao conjunto do sistema e não ser dividido por sua origem ou etnia… Isso geraria um enriquecimento que seria benéfico para todos…

 

Além disso, é fundamental promover políticas e programas que incentivem a integração profissional dos trabalhadores qualificados e facilitem seu acesso a oportunidades de desenvolvimento profissional. Isso pode incluir programas de mentoria, cursos de capacitação e medidas para combater a discriminação no ambiente de trabalho.

 

Em última análise, o caminho rumo à igualdade de oportunidades para os trabalhadores sobrequalificados na Europa é um desafio que requer a colaboração e o comprometimento de todos os envolvidos. Somente por meio de um esforço conjunto podemos criar um ambiente de trabalho inclusivo, onde o talento e a diversidade sejam verdadeiramente valorizados e celebrados.

 

De nada serve apontar o estrangeiro como uma pessoa que coloca em perigo ou que “rouba” as oportunidades dos trabalhadores locais, se ao mesmo tempo sua adesão ao mercado de trabalho é limitada por sua origem… 

 

Referências bibliográficas

 

Elaine Acosta González, Mujeres migrantes cuidadoras en flujos migratorios sur-sur y sur-norte: expectativas, experiencias y valoraciones. Revista LatinoAmericana. 2013

 

Priore, M. J., Sabel, C. F. (1984), The Second Industrial Divide, New York, Basic Books

 

fotografia de Wesley Sá Teles Guerra.

Wesley Sá Teles Guerra: Fundador CERES e Paradiplomata. Poliglota. Formado Negociações Internacionais pelo CPE (Barcelona), Bacharel Administração pela UCB, Pós graduado Relações Internacionais e Ciências Políticas FESPSP, Mestrado Políticas Sociais e Migrações UDC (Espanha), MBA Marketing Internacional MIB (Massachussetts-EUA), Global MBA ILADEC, Mestrado Smarticities UC (Andorra), Doutorando Sociologia UNED (Espanha). Especialista Paradiplomacia, Desenvolvimento Econômico e Cidades Inteligentes. Autor livro Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Comentarista convidado da CBN Recife e finalista do prêmio ABANCA para investigação acadêmica.

Atuou como Paradiplomata do Governo da Catalunha durante o “procés” processo de autodeterminação da região da Catalunha (Espanha), também foi membro do IGADI, Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e coordenador do OGALUS, Observatório Galego da Lusofonia, sendo o responsável pelo estudo Relações entre Galicia e Brasil. Assim mesmo foi o primeiro brasileiro a se candidatar em uma eleição na cidade de Ourense (Espanha).

Foi editor executivo da revista ELA do IAPSS e é membro de diversas instituições tais como CEDEPEM, ECP, Smartcities Council e REPIT.

 

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