Sociedade

O século XXI e a segunda morte do Pai, seguido de dois poemas | Cecília Barreira

Foto de Diogo Nunes na Unsplash

O século XX permitiu ainda a muitos laços de fidelidade às empresas nas quais os trabalhadores se integravam. Havia uma cumplicidade empresarial com quem se sentisse integrado. Com o século XXI emergiu a imensa precariedade, a quebra da autoridade, uma espécie de fim de ciclo. De alguma forma, o filósofo Zygmunt Bauman (1925-2017), polaco que depois acabou por se refugiar no Reino Unido, com a invenção do conceito de “sociedade líquida” aludiu a esta espiral de fragmentos e de transitoriedade dos dias de hoje. É talvez o momento da verdadeira morte do Pai enquanto portador da autoridade e das verdades construídas. Após Freud (1856-1939), a Culpa e o fim da Inocência. Tudo isto com a emergência da voz das mulheres as quais ao longo da história foram sempre caladas e remetidas ao papel circunscrito da família. Já não são os jovens de Woodstock de 1969 que falavam de revoltas, geração essa que integra os mais velhos nos dias de hoje. A Família tradicional ruiu. O ego deslumbrado por si próprio é o sinal de um mundo em decadência. Se foi importante no século XX ou no início do século XXI, que importa? Os jovens procuram outros trilhos. As raparigas na sua maior parte não se reveem nos ciúmes obsoletos do universo masculino. Um mundo fragmentado e em mudança profunda. Nesta morte do Pai também se afigura a relativização de questões consideradas inabaláveis como o futebol, a política, a ordem tradicional. Também as chefias. Revisitar o conceito de tolerância. A esmagadora maioria das pessoas segue ideologias hirtas. Não é capaz de pensar por si própria. Até isso pode mudar um pouco ao longo deste século XXI. Vivemos num mundo global, mas domesticado. Até porque estamos demasiado preocupados com o nosso local de trabalho, a nossa casa, os nossos filhos, o nosso clube, seja ele partidário ou de futebol. Urge pensar para além do nosso quintal. Urge descobrir a vida. Urge sair do pedestal de um ego ridículo. Urge ser solidário com o Outro. Urge repensar o que é diferente.

 

OU DE LONGE, SOU DAS ÁSIAS E DOS BRASIS

 

Sou de longe sou das Ásias
Sou das Áfricas sou dos Brasis
Sou vento tempestade sou para além de gritos e coisas vis
Sou de todas as cores sou esmalte sou dor sou o que quis
Sou de aparência   sou intenção sou codorniz
Sou toda eu paixão devolvida
Sou canto sou terra que colho e fiz
(E quero voltar à minha pátria um dia)
Sou antecipação e raiz
Sou de longe sou das Ásias
Sou das Áfricas sou dos Brasis

  

ACALMA MAFALDA ENQUANTO SENTES ALMA

 

Acalma-te na lâmpada e na sombra, acalma Mafalda
Acalma-te preenche a página enquanto sentes alma
Acalma-te que a luz te resplandece apesar de árdua
Acalma Mafalda
Acalma que os abismos não são fim não são gota cálida
Acalma-te Mafalda
Acalma e dança que já tarda
Mafalda enquanto sentes alma

 

fotografia de Cecília Barreira

Cecília Barreira leciona Cultura Portuguesa na FCSH/UNL. É autora de muitos livros de poesia e ensaio. Colabora em várias revistas, entre elas a Incomunidade.

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