
Numa coletânea de textos ainda não editada em Portugal mas publicada no Brasil sob o título UMA ESQUERDA QUE OUSA DIZER SEU NOME, escreveu SLAVOJ ZIZEK, sem dúvida um dos grandes pensadores contemporâneos que ousa dizer-se de esquerda:
“ Longe de nos levar longe demais, a esquerda vem gradualmente perdendo seu terreno há décadas.”
Isto que é uma evidência, vem sendo negado pelos partidos de esquerda a nível mundial e, em particular, em Portugal. O Partido Comunista nunca assume as sua derrotas e o Bloco de Esquerda cai sempre na tentação de as mitigar. E ambos são exemplo das razões por que falham o discurso da esquerda e a sua capacidade de mobilizar o pensamento e o voto das massas populares, incluindo dos operários e dos mais pobres.
O PC continua prisioneiro da nostalgia do socialismo real da era soviética e, tendo este colapsado, volta-se para países como a China, a Coreia do Norte, a Venezuela ou a Rússia como sendo os atuais representantes do socialismo real. Serão esses países realmente socialistas e de esquerda?
Comecemos pela Rússia, o mais próximo de nós. Muito para além de Putin considerar que a maior tragédia do século XX foi o desmantelamento da União Soviética, convém saber que sentido dar a essa frase.
O grande inspirador do pensamento de Putin, é IVAN ILYIN, um fascista russo criado na corte imperial, que admirava Hitler, Mussolini, Salazar e Franco, e defendia um fascismo cristão. Foi Putin quem mandou trasladar o corpo de ILYIN de Zurique para a Rússia e aconselha a leitura das suas obras, tendo em Alexandr Dugin, outro fascista e imperialista russo, o seu atual conselheiro ideológico.
Quanto à China, o PC põe de lado a evidência do capitalismo real dessa grande potência, as profundas desigualdades nela existentes, em nada diferentes das desigualdades que encontramos em Portugal ou em muitos outros países capitalistas. Silencia atos como a eliminação dos chamados Estudantes Marxistas, que criticavam as enormes desigualdades existentes na China e pretendiam o regresso aos ensinamentos de Marx, e ainda a violenta repressão de muitas greves levadas a cabo por trabalhadores chineses.
Relativamente à Coreia do Norte é difícil conceber como pode o PC apoiar a sua monarquia absoluta e, quanto à Venezuela, a atribuição exclusiva do caos da sua economia ao imperialismo americano e não, essencialmente, à incompetência e à corrupção, demostra uma total cegueira do PC.
Quanto ao BE, este partido optou pela via do chamado marxismo cultural, adaptando-se a simples reivindicações da social democracia dos anos 50/60 do século passado, como saúde e educação gratuitas que, sendo justas, não são suficientes, pois o essencial continua a ser, como entendeu Marx, a propriedade dos meios de produção.
E, no entanto, a esquerda representa a única forma de lutar contra a dominação de um cada vez número de detentores do poder que as novas tecnologias, sobretudo a Inteligência Artificial, podem permitir a indivíduos de mentalidade protofascista como Elon Musk ou Mark Zukerberg transformar a humanidade numa massa de novos escravos agradecidos porquanto essa concentração de poder é a evolução normal do capitalismo liberal cuja narrativa domina, hoje, grande parte do mundo, sobretudo
os EUA, a União Europeia e as suas neocolónias na América Latina e em África.
Mas, para isso, a esquerda tem de construir uma nova narrativa capaz de mobilizar consciências e vontades e, à velha questão leninista de QUE FAZER, acrescentar outra questão, COMO FAZER.
Sendo a igualdade o objetivo a prosseguir, como compaginar a igualdade com as evidentes e imprescindíveis diferenças entre os homens, não só nas capacidades como nas vontades?
Em que medida a liberdade de criar, nomeadamente, uma empresa é compatível com a igualdade?
Sendo a questão essencial a propriedade dos meios de produção, que meios interessa que sejam de propriedade pública? Empresas criadoras de Inteligência Artificial, bancos, empresas de energia, grande distribuição e todas aquelas que tenham peso real na economia, ou também uma empresa de confeções, uma propriedade agrícola, uma mercearia ou um cabeleireiro? Serão as nacionalizações o único ou, sequer, o melhor modo de conseguir a propriedade pública dos meios de produção que interessem estar na propriedade pública?
Como conciliar a realidade indesmentível de estarmos numa aldeia global, de vivermos num internacionalismo de facto mas sem a necessária regulação do direito internacional, com a necessidade e a justeza de serem preservadas as diferenças regionais e locais?
Como defender a sociedade socialista e democrática dos que querem destruir o socialismo e a democracia? Não haverá alternativa entre a ditadura do Estado e dos seus aparelhos e a ditadura do dinheiro e os seus aparelhos que se disfarça de democracia?
Como diria o pobre do BERTOLD BRECHT:
“Tantas histórias,
Tantas questões.”
Face à real possibilidade de a Inteligência Artificial Alargada dispensar o trabalho humano num horizonte não muito distante ( 50, 100 anos?) e de exercer um poder sobre os homens que os poderá tornar escravos agradecidos, temos de concluir como ZIZEK: “…penso que estamos nos aproximando de uma estado de emergência global e que só uma mudança radical pode nos dar uma chance.”
HENRIQUE DÓRIA
BIOGRAFIA: É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da Rádio Transforma.










