
Enquanto países importantes da Europa adotam medidas para limitar o fluxo de turistas estrangeiros em cidades que historicamente lideram o ranking mundial de atração de visitantes, como Barcelona e Veneza, países em desenvolvimento da América Latina, da Ásia e da África se empenham em ampliar o fluxo anual de turistas, como importante instrumento de fortalecimento de toda cadeia econômica e da ampliação da oferta de novos empregos.
Fazendo parte desse esforço global, o Brasil já comemora o início do que as autoridades do setor consideram um boom de turistas estrangeiros no país, com o ingresso de 3.5 milhões de visitantes apenas nos seis primeiros meses de 2024, algo que não ocorria desde 2019 ou outro boom registado em 2014, em 2018 e em 2019, segundo dados da Embratur – Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo, do Ministério do Turismo e da Polícia Federal. Esse fluxo de visitantes representou um aumento de 9,7% quando comparado com o mesmo período do ano passado1.
O atual desempenho é o segundo melhor do país desde o início do levantamento da série histórica, em 1995, embora sem superar os 6,6 milhões registrados em 2018, e superior aos 6,3 milhões em 2019, antes da pandemia de Covid-19. Os dados têm como maior destaque o ingresso de turistas chilenos, que teve um salto de 46,3% em relação ao início de 2023.
Com isso, as receitas internacionais com o turismo superaram US$ 3,2 bilhões de dólares nos seis primeiros meses deste ano, representando um crescimento de 17,8% em relação ao mesmo período de 2023. Embora o setor de serviços tenha registrado uma pequena queda de 2,2 para 2,1% em relação a 2023, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo – CNC, revisou para cima a previsão do volume de receitas com o turismo, de 2,7 para 2,9% este ano.
Ao destacar esse resultado, Marcelo Freixo, presidente da Embratur, lembrou que o primeiro semestre deste ano tem se mostrado muito positivo para o Brasil, tanto em entrada de turistas quanto de divisas. Segundo ele, em decorrência do esforço do governo Luiz Inácio Lula da Silva em mostrar para o mundo que o Brasil voltou a ter visibilidade no cenário internacional. Tanto em relação a um tradicional destino turístico, como também na liderança global, no comércio internacional e na atenção ao meio ambiente/sustentabilidade.
Sabemos que o sucesso de um país, tanto em relação ao crescimento econômico, quanto ao desenvolvimento social e cultural, tem a ver com a credibilidade do governo e do Presidente da República na defesa da democracia, no fortalecimento das instituições e no seu compromisso ambiental. Nos últimos anos, em decorrência do agravamento da crise climática e da inclusão do debate sobre o meio ambiente na agenda global, essa credibilidade do governo e a melhora da imagem do país no exterior, também passaram a ser levados em conta por quem deseja visitar o Brasil. Em razão das longas distâncias entre os continentes e das dificuldades de acesso a cada país, todas as viagens exigem um planejamento criterioso.
Nesse sentido, desde o início do seu governo, em 2023, o Presidente Lula vem se posicionando na defesa de temas que são mais caros para a humanidade, como a proteção do meio ambiente, a defesa dos povos originários e o crescimento com sustentabilidade, além do respeito à diversidade e o fortalecimento da democracia e das instituições no processo de reconstrução do Brasil.
A situação de terra arrasada em todas as áreas, herdada pelo atual governo, explica o pesadelo vivido pelo país e pela sociedade durante os quatro anos do governo anterior.
É possível aferir que a retomada e ampliação do fluxo turístico no país tem a ver com a percepção dos agentes de turismo e dos próprios visitantes com a melhora dos indicadores que contribuem para o avanço do processo civilizatório no país e da inclusão na agenda governamental de temas que inquietam toda a humanidade. Claro que para o fortalecimento dessa percepção e o consequente aumento do interesse pelo Brasil, é importante trabalhar melhor o processo de comunicação e de divulgação do potencial turístico do país.
Historicamente, o Brasil esteve atrás de países como o Chile, a Colômbia, a Argentina, a Jamaica e o Uruguai no processo de comunicação para a promoção do turismo, segundo avaliação de Mariana Aldrigui, ex-diretora da Embratur e pesquisadora de turismo na Universidade de São Paulo – USP, em recente entrevista à BandNews.2
Aldrigui atribui esse desempenho à forma mais eficiente com que alguns países da América Latina trabalham a comunicação focada no turismo. Por isso historicamente alguns desses países têm se posicionado à frente do Brasil. O recorde no continente foi em 2019, antes da pandemia de Covid-19, quando o México atraiu 45 milhões de turistas, seguido da Argentina, 7,4 milhões; República Dominicana, 6,45 milhões; o Brasil, com 6,35 milhões e o Chile com 5,2 milhões.
Esses números demostram o imenso desafio do Brasil para assumir o protagonismo no setor de turismo na região, mesmo o país tendo crescido ultimamente em média 7,5% e apesar do seu imenso potencial turístico, com importantes parques nacionais, cidades históricas, como Rio de Janeiro, Salvador, na Bahia; Ouro Preto, Tiradentes e Congonhas, em Minas Gerais; o Pantanal em Mato Grosso do Sul; Ilha do Bananal e Jalapão, no Tocantins; além da Amazônia e mais de 7,3 mil quilômetros de praias que estão entre as mais belas do mundo.
Mas não só as belezas naturais estimulam ou funcionam como atrativo do turismo. Além dos temas citados anteriormente, o visitante é muito sensível a questões de segurança pública, mobilidade de transportes, saneamento básico, qualidade dos serviços oferecidos pela rede hoteleira, bem como de portos e aeroportos, além da conservação e acessibilidade aos centros históricos e parques nacionais.
Ao explicar as dificuldades do Brasil para enfrentar esses desafios, a professora Mariana Aldrigui lembra que, além da situação geográfica do país, que reflete nos custos das passagens aéreas e na oferta de voos, a burocracia jurídica, o imbróglio estrutural do país para reforçar a competitividade no cenário internacional com os demais países, todos esses fatores acabam desestimulando também as companhias aéreas a programar mais voos para o Brasil.
Para superar esses desafios e preparar o país para enfrentar a competitividade no setor, o governo brasileiro tem que ser mais ousado na comunicação para a promoção do turismo, ampliando a visibilidade do país no exterior com vistas a colocar o país no radar de europeus, norte-americanos, africanos, asiáticos e dos próprios países latino-americanos.
Além de sua dimensão continental e sua imensa diversidade cultural e geográfica, o Brasil deve aproveitar melhor o momento atual em que o país desponta coma uma força emergente na geopolítica mundial, o que também é motivo de interesse de novos visitantes.
Até como forma de recuperação dos anos perdidos com a pandemia, entre 2020 e 2021, e durante o governo anterior, quando o turismo foi muito desvalorizado a partir da extinção do próprio Ministério do Turismo, com o discurso demagógico de “enxugamento” do setor público ou ignorando a inserção global do Brasil e a importância do turismo como instrumento de geração de emprego e renda.
Em outro sentido, anexar a leitura social e econômica ao turismo é mais importante do que a própria lógica do potencial turístico do país, conforme reconhece a pesquisadora Mariana Aldrigui. Ou seja, observar a capacidade de geração de emprego com o investimento turístico e o tempo de retorno do investimento, que é o que conta mais para quem se dispõe a atuar no setor. Sem ignorar a sustentabilidade do empreendimento, além de estudos de viabilidade, por exemplo, na construção de aeroportos, ferrovias ou hotéis.
Embora a questão da segurança pública seja considerada o principal gargalo para a expansão da atividade turística no país, outros desafios se colocam para o governo e para os investidores, como a precariedade da infraestrutura, a limitada oferta de voos domésticos e os altos custos das passagens aéreas. Só no ano passado as passagens acumularam uma alta de 47%, além de 20% este ano, o que desestimulou ainda mais o turismo doméstico.
O turismo representa cerca de 7% do Produto Interno Bruto – PIB do Brasil, mas é importante lembrar que nos países desenvolvidos o turismo não representa mais de 5 ou 6% do PIB nacional. Isso mostra que o turismo é importante como valor econômico, mas deve ser usado como instrumento de alavancagem do desenvolvimento do país de forma a estimular outros setores estratégicos e a geração de empregos com qualidade.
A elevada dependência da atividade turística gera certa instabilidade no nível de emprego e como atividade econômica por tratar-se de serviço sujeito a sazonalidade do setor e da imprevisibilidade da economia global. Qualquer turbulência na atividade econômica mundial causa de imediato reflexo desfavorável na atividade turística. No caso do Brasil, temos exemplo de reações negativas, como foi o caso da Covid-19, e de reflexos positivos, como é caso da recente valorização do dólar frente ao real. A desvalorização da moeda brasileira acabou contribuindo para o melhor desemprenho da atividade turística no primeiro semestre.
Mal o país conseguiu superar as perdas com a pandemia, a elevação dos custos das passagens aéreas em 2023, fechando o ano com uma alta de 47%, contribuiu para uma certa desaceleração do setor. E apesar de um reajuste menor este ano, o acumulado da alta no primeiro semestre já soma 20%, tornando-se um obstáculo a mais no caminho da plena recuperação do setor.
Mesmo assim, com o novo governo, aliado à credibilidade do Presidente Lula e o histórico de comprometimento com a sustentabilidade, o desempenho do turismo já apresentou números semelhantes ao registrado nos anos anteriores à pandemia e até a 2022, com um crescimento de 40,8%. Nesse período, o número de visitantes saltou de 3,6 para 5,9 milhões de visitantes, alcançando uma receita de U$ 6,9 bilhões de dólares, U$ 2 bilhões a mais em relação ao ano anterior.
Também em 2023, o governo, por intermédio da Embratur, retomou a Marca Brasil, uma iniciativa que representa a largada de uma nova estratégia de reposicionamento da imagem do país, priorizando a diversidade e a sustentabilidade. Conforme relatório de 2023 da Agência3, essa mudança representa o início de uma nova abordagem para melhorar a imagem do país em todos os continentes.
Essa iniciativa incluiu o lançamento de campanhas publicitárias nos Estados Unidos da América – EUA, América Latina e Europa, visando mostrar para o mundo um Brasil que valoriza a sustentabilidade, a democracia e a diversidade. O relatório mostra, ainda, os diversos objetivos estratégicos da Embratur, dentre os quais a ampliação do número de turistas estrangeiros, a geração de emprego e renda, além da ampliação de novas parcerias nacionais e internacionais para a promoção do turismo brasileiro.
Entendo que o país está no caminho certo para avançar no processo de expansão do turismo brasileiro com sustentabilidade num cenário de grande competividade entre as nações emergentes.
Notas
1 Dados obtidos na página:
https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202407/brasil-fecha-o-primeiro-semestre-com-3-6-milhoes-de-turistas-internacionais-e-se-aproxima-de-recorde-historico#:~:text=O%20turismo%20brasileiro%20encerra%20o,acima%20do%20registrado%20em%202019. <acessado em 20/07/2024>
2 Link da entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=UQZPV4UWs-g
3 Relatório Embratur 2023 – https://embratur.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Resolucao-CDE-no-09-2024-Aprova-Relatorio-de-Gestao-2023-da-Embratur-Processo-SEI-272100-000301-2024-91-1.pdf
Jales Marinho, Jornalista e Advogado.










