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Como é que se explica a ligação emocional entre pessoas e animais? | Sílvia Vasconcelos

Foto de Cohen Berg na Unsplash

No último artigo, foi abordada a definição e a especificação de diferentes formas de Intervenções Assistidas por Animais (IAA), concluindo-se que o que fundamentava a influência dos animais na saúde de diferentes pessoas era o vínculo ser humano-animal não humano. E o que é que fundamenta este vínculo? Como é que o ser humano e os animais estabelecem ligações emocionais? 

 

Vinculação ser humano – animal não humano. Fonte: 
https://blogdolabemus.com/2020/07/13/as-leituras-elementares-da-vida-academica-estudos-sobre-a-relacao-entre-humanos-e-animais/ )

 

A ligação entre pessoas e animais “é complexa, mas única”, sobretudo quando ocorre entre pessoas e cães.

 

A AMAV (Associação Médica Veterinária Americana) define o vínculo ser humano-animal como uma relação simbiótica; uma dinâmica entre pessoas e animais “que é mutuamente benéfica para a saúde e bem-estar de ambas as espécies”.

 

Ao longo de séculos, foram muitos os “reformadores sociais” que reconheceram que o vínculo humano-animal pode ser transformador e “mudar as pessoas para melhor” ou, mais simplesmente, que os seres humanos e animais “experienciam uma ligação inata”. O Dr. Levinson, reconhecido por muitos como o “pai” da inclusão de cães em psicoterapia, descreveu: os animais podem ser “uma estação intermédia no caminho de retorno ao bem-estar emocional”. O vínculo seguro de um ser humano com um cão constitui uma expressão importante de apoio social, sobretudo em pessoas com um historial de relações sociais frágeis e conturbadas, ou de deceções.

 

Tem sido crescente, e vasta, a investigação em torno do vínculo ser humano-animal, assumindo-o como um vínculo forte assente em processos fisiológicos, mas também no reconhecimento da capacidade de os animais reconhecerem emoções uns nos outros e nos seres humanos e, mediante essas perceções, emocionais e sensitivas, conseguirem avaliar e diferenciar as intenções e motivações sociais dos outros parceiros. 

 

A teoria da vinculação de Bowlby, complementada mais tarde por Ainsworth, é uma estrutura empiricamente apoiada para explicar como as relações próximas contribuem para a regulação emocional, para a saúde mental e para o crescimento psicológico humano. O apego explica o vínculo afetivo entre um indivíduo e o seu cuidador, impactando a sua vida, e estendendo-se a uma variedade de relações emocionais seguras, de cuidado e de proximidade como a de mãe/filho ou de paciente/terapeuta, “capazes de aliviar o sofrimento” e de experienciar o “sofrimento por separação”.

 

Também Lasher propôs um modelo relacional do vínculo ser humano-animal, sugerindo que esta forma relacional “ocorre a um nível sistémico e percetivo”, “num fluxo contínuo de influência mútua e recíproca” que, apesar da barreira da linguagem verbal, comunica através de estados corporais, e por outras formas não verbais como os sentidos e reações fisiológicas – por exemplo, os cães utilizam um olhar mútuo para a comunicação intra e interespécie.

 

Ainda de acordo com a teoria da vinculação, as interações sociais com outros seres (as denominadas “figuras de vinculação”) são interiorizadas como representações mentais de si mesmos e dos parceiros com quem se relacionam, que influenciam e afetam o funcionamento psicológico e a saúde mental, promovendo um modelo positivo de segurança e de vinculação, e de apoio e apego entre os pares. Se originalmente a teoria da vinculação surgiu para avaliar sobretudo as relações humanas entre pais e filhos, Bowlby afirmou que esta teoria também se extrapola para outras relações humanas, proporcionando igualmente às partes perceções de proximidade e uma base segura e de conforto, experimentando, inclusive, sentimentos de ansiedade por separação. Os mesmos critérios podem aplicar-se a relações entre espécies diferentes, como seres humanos e animais de companhia, nomeadamente entre pessoas e cães, conceptualizando a relação humano-animal de companhia como um vínculo de apego. E se a relação ser humano-animal de companhia for um vínculo de apego, então “a proximidade com um animal deve ser benéfica”, sobretudo em situações que geram angústia ou sofrimento. A exemplo, há pessoas que melhoraram as suas relações vinculativas, com uma representação mental mais positiva e segura, através da relação de vínculo que estabelecem com animais.

 

Esta perspetiva inter-relacional da vinculação entre seres humanos e animais é importante para se compreender o envolvimento de pessoas num determinado contexto, quando interagem com animais. Mas sendo o vínculo entre humanos e animais complexo, para mais numa multiplicidade de relações interespecíficas, têm sido propostas várias teorias como suporte explicativo, e como fundamento deste vínculo.

 

Há autores que suportam a teoria assente na fisiologia, de que os cães podem de alguma forma substituir, e de modo positivo, as interações humanas através de vários estímulos gerados pela interação interespecífica, sejam estes auditivos, visuais ou sensoriais corroborando que o contacto entre seres humanos e animais pode ser reciprocamente benéfico. Estes autores analisaram amostras de sangue humano e de cães para medição dos níveis de feniletamina, composto químico associado a sentimentos de felicidade e euforia, após o contacto entre as espécies, e ambas revelaram aumentos dos níveis deste composto. Isto permitiu-lhes concluir que esta reação fisiológica é mútua interespecificamente.

 

Claro que cada vínculo se estabelece conforme as características de cada díade ser humano-cão, o que pode definir diferentes emparelhamentos de apego com intensidade diferenciada entre pares ou entre espécies mistas. Ou seja, a forma e intensidade de vinculação pode variar, tendo em conta variáveis como a genética, mas também experiências anteriores e o nível de segurança que o animal sente em relação ao seu tutor, ou outros seres humanos, podendo mesmo ser comparada ao apego entre mãe e filho humanos.

 

O vínculo humano-animal, na verdade, é antigo e está bem documentado, tendo ocorrido já desde a domesticação dos animais, quando estes passaram a ser criados para alimento, trabalho, mas também para companhia. Este vínculo desenvolveu-se e aprofundou-se de tal forma que os animais passaram a ter outros papéis para além da companhia, como o de serem considerados membros da família, trazendo benefícios físicos e emocionais diretos para as pessoas mas, para tal, é necessário que se reúnam condições como a empatia, “a motivação e a compatibilidade”, envolvendo segurança, proteção, proximidade, afetos e laços sociais e emocionais. E esta vinculação enquadra-se, teoricamente na necessidade humana de afeto e companhia, com os animais a poderem funcionar como “substitutos dos amigos”, havendo mesmo evidências que sugerem que o mero contacto tátil e o estímulo pela carícia do pelo de um animal pode ter efeitos fisiológicos e psicológicos positivos nos seres humanos.

 

Mas foi só mais recentemente, através de vários estudos de natureza científica, que se estabeleceram e definiram modelos explicativos de teorização do fenómeno da díade vinculativa entre o ser humano e os animais:

 

1) O Modelo neurofisiológico, já acima abordado, que menciona que o contacto com os animais pode desencadear mecanismos biológicos no sistema cardiovascular, neuroendócrino (por exemplo, diminui a hormona cortisol no ser humano) e imunológico (diminuindo a possibilidade de o ser humano desenvolver alergias). Mas a oxitocina é o principal mecanismo biológico do vínculo humano-animal, sendo a principal responsável pelos sentimentos positivos associados às interações entre seres humanos e animais, contribuindo para explicar os benefícios para a saúde destas interações.

 

2) A Hipótese do suporte social, que defende que o ser humano tem a necessidade de atenção e de integração social. Esta teoria assenta na capacidade mútua das espécies, naturalmente sociais, em “dar e receber afeto”, e da necessidade de interagir com os outros, o que é alcançável entre seres-humanos e animais (nomeadamente os cães) por interações positivas e recíprocas.

 

3) A Hipótese da biofilia, suportada pela tendência natural, ou impulso nato dos seres humanos se concentrarem de forma positiva na vida, que assenta nos efeitos do bem-estar psicológico e fisiológico decorrentes do estabelecimento de relações (“laços” e “apegos”) entre o ser humano e a restante natureza e outras formas de vida. Ou seja, os valores biofílicos ajudam a compreender a motivação do ser humano na procura de conexão com animais, justificando, mais uma vez, a sua incorporação em intervenções terapêuticas. 

 

4) E por fim, a Teoria cognitiva que assenta no facto de as pessoas reagirem consoante os significados e representações que atribuem aos eventos, pelo que situações de apego positivo com um animal provocam cognições e sentimentos positivos, sobretudo em pessoas com vinculação insegura com os seus semelhantes. 

 

Estas teorias, que podem fundamentar isoladamente as IAA, e serem independentes umas das outras, na verdade, são, cada uma delas, base umas das outras, e isoladamente ou em conjunto, explicam o apego e vínculo entre pessoas e animais. 

otografia de Sílvia Vasconcelos.

Sílvia Vasconcelos, médica veterinária, doutorada, e a finalizar um pós-doutoramento em ciências veterinárias, ramo biomédico. Tem incidido a sua investigação no ramo da microbiologia alimentar, mas sobretudo, nos últimos dez anos, na díade ser humano-animal aprofundando a investigação sobre os  benefícios dos animais de companhia para a saúde física e mental do ser humano, tendo investigado os mesmos, até agora, quer na população prisional quer na população idosa, de onde resultou o livro de sua autoria “Benefícios dos animais de companhia para a saúde mental dos idosos” .

  

Paralelamente, fez teatro no TEF; foi  autora e co-autora de publicações técnicas e científicas  e publicou um livro de poesia “Arestas”, além de escrever regularmente no Jornal da Madeira e no Jornal Económico.

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