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No reino de Fundanga II: Gênese | Xico Simonini

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Não existe,

evidentemente, causa

primeira e única para a Infelicidade

Política, Econômica e Social de

um Povo. Existem, porém,

os ícones de uma

Realidade complexa como a de uma Sociedade.

 

No princípio era o abismo da ditadura.

Porões, torturas, assassinatos,

exílios, sumiços. Saque, pilhagem,

roubo.

Então, o Doutor Roberto criou os

céus e a terra. A terra, porém,

estava informe e vazia.

As trevas cobriam o abismo e o Doutor Roberto pairava sobre

as águas. Era preciso dar-lhe forma e habitá-la.

Doutor Roberto

disse, então:

“Faça-se o Plim!

Plim!” E o Plim!

Plim! se fez.

E o Doutor Roberto

disse mais: “Façam-

se imagens

fantásticas!”

E as imagens fantásticas

foram feitas. E o Doutor

Roberto disse mais ainda:

“Façam-se personagens imbecilizantes e imbecilizados!”

E os personagens imbecilizantes e imbecilizados

foram feitos. E o Plim! Plim! chegou às nossas telas

e habitou entre nós.

E as imagens fantásticas penetraram nas mentes de

cada qual e delas se apossaram.

E os personagens imbecilizantes invadiram os lares

e tomaram conta dos espaços, gerando outros

personagens imbecilizados. Cresceram e

multiplicaram-se.

E se espalharam pelos cantos, sítios, postos e

centros na funga-deira, fungando a fungada, para Honra e Glória do Jardim do Éden…Um Reino…

O Reino de Fundanga…

Plim! Plim!

Infantis, esportivos, filmes, novelas, humorísticos,

reportagens e tudo o mais que “A gente se vê por

aqui”, no hipócrita clima de que “A Paz a gente é que faz.”

Plim! Plim!

E tudo, por tudo… Medido, milimetricamente,

visando padroni-zar a Consciência da Maioria à

imagem esemelhança da Minoria.

Espectros de mortos errantes, almas penadas vagando

Reino aden-tro e Reino afora.

E o Doutor Roberto fundiu o Plim! Plim!

Nas imagens fantásticas, nos personagens

imbecilizantes e nos personagens imbecilizados, parindo um Ser Uno, Indivisível e Infinito. Por estas e por tantas outras…

O princípio supremo da explicação da Existência, da

Ordem e da Razão Universais, avalizadas por valores

I-Morais. Vênus Platinada.

Não a Vênus, filha amada, fruto do eterno amor de

Zeus e Dion. Não a Vênus, deusa sem platina, mas

plena de amor, de fertilidade e de beleza, patinando

sobre as espumas das ondas.

Mas, porém, contudo,

quiçá, todavia… A filha

dileta do Doutor Roberto.

Filha da Alienação, da

Impostura, do Terror. A Vênus

Platinada.

E o Doutor Roberto sentiu imenso orgulho de sua

obrada. Não aquele sentimento de Dignidade Pessoal,

de Brio, de Altivez. Contrariamente, aquele

sentimento de presunção, de arrogância, de

atrevimento.

Pois que, em verdade, em verdade… A verdade seja dita…

E o Verbo se fez Reino e habitou entre nós,

fazendo-se nossa habitação.

Estava, pois, consumada a obrada do Doutor

Roberto.

O Reino existia e, como do oxigênio, necessitava do

embuste global. E a gênese da Vênus Platinada

consumou-se.

Plim! Plim!

E o Doutor Roberto, tendo amarrado o gato, por

todas as terras, por todos os céus e por todas as

águas, foi descansar no sétimo dia, pois, afinal de

contas, ninguém é de ferro.

Nem ele.

E a Alienação, a Massificação e a Coisificação se

espalharam pelo Reino.

Invadiram encostas, grotões, quebradas, brechões, vertentes e                   

cantões de todos os Condados e Burgos, reinando por este Reino

destas Fundangas Varonis.

Fotografia de Xico Simonini

Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini)  nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.

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