Ciência

A psicanálise, o sonho e o bem-estar: uma abordagem ao inconsciente: parte I | Adriano Espíndola Santos

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O sonho envolve o ato de dormir, e comporta imagens e emoções, que podem ter conexão com a realidade. O sonho será analisado pela psicanálise, a via régia, para o caminho ao inconsciente, o qual projeta os desejos. O objetivo do trabalho é a análise da interpretação, essencial à psicanálise; o sonho, via para o inconsciente; o relato de um sonho por um conto; a psicanálise e o sonho, vinculados para a compreensão do sonho; e o bem-estar e o sonho, objetivos para a performance humana. 

 

Palavras-chave: psicanálise; sonho; interpretação; bem-estar.

 

Dreams involve the act of sleeping and contain images and emotions that may be connected to reality. Dreams will be analyzed through psychoanalysis, the royal road, for the path to the unconscious, which projects desires. The objective of this work is the analysis of interpretation, essential to psychoanalysis; the dream, the path to the unconscious; the recounting of a dream through a story; psychoanalysis and dreams, linked for understanding the dream; and well-being and dreams, objectives for human performance.

 

Keywords: psychoanalysis; dream; interpretation; well-being.

 

INTRODUÇÃO

 

A psicanálise é uma teoria que enfatiza o relevo dos processos inconscientes – não só, obviamente, como do aparelho psíquico. Freud dispôs que os sonhos são uma amostra desse inconsciente, para a realização de desejos reprimidos. Este artigo tem o propósito de analisar a importância dos sonhos para a melhor compreensão da performance humana, com base na análise e na linguagem1.

 

Cumpre acentuar, primeiro, que os sonhos eram interpretados nas fases mais remotas da humanidade, sendo, por exemplo, guias para possíveis batalhas, para a elucidação de casos, e para a resolução de objetivos intrincados, só percebíveis pela consciência, até para a percepção do futuro2 (essa era a observação à época). Vale dizer, por certo, que o consciente é a repressão, a moral, e os sonhos, oráculo do inconsciente, são a libertação 3. 

 

Freud, ainda na interpretação dos sonhos, descreveu-os como sendo a via para o inconsciente. Ele diferencia o conteúdo manifesto e o latente, que têm logicamente as suas peculiaridades, já que abarcam consciente, pré-consciente e o inconsciente. Segundo Freud, portanto, os sonhos são a amostra de aspirações não realizadas, abrigadas em símbolos.

 

Os tópicos deste artigo estão divididos em: O método da interpretação, pois que a metodologia é essencial à psicanálise; o sonho, como a via central do caminho para o inconsciente; o relato de um sonho por meio de um conto autoficcional; a psicanálise e o sonho, como aliados para a compreensão propriamente do sonho; e o bem-estar e o sonho, sendo o bem-estar o objetivo bem-sucedido após a interpretação dos sonhos. 

 

Assim, este trabalho tem como objetivo geral analisar a interpretação do sonho como caminho essencial para a descoberta do inconsciente, abrangendo os seus símbolos, para, por ele, alcançar as dores e os desejos abafados, levando, através da psicanálise do sonho, à ascensão do bem-estar do sujeito analisado.

 

REFERENCIAL TEÓRICO

 

O método da interpretação

 

A interpretação é o método basilar da psicanálise, e por ele são postas questões de inconscientes que estimulam pensamentos, sentimentos e condutas. A interpretação tem a ver com dar significado a elementos como sonhos, lapsos, atos falhos, sintomas e associações livres, por meio do acesso ao conteúdo latente e inconsciente 4.

 

Na psicanálise, tem-se a firme percepção de que o inconsciente agrupa desejos e conflitos abafados que, não sendo realizados, podem causar agonia psíquica. Portanto, o referido método tem o condão de expor esses elementos, provocando o autoconhecimento, para, por fim, assegurar a perspectiva da melhora.

 

Vale dizer que o inconsciente opera com o impossível, com as contradições, que possivelmente o nosso consciente, gerido pelo superego, não compactue. Portanto, do desejo reprimido pode advir sintomas, que dão azo às neuroses. 

 

Na associação livre cabe, primordialmente, o método interpretativo5. O analisado é animado a falar de modo livre, sem censura, sobre o que tem em mente, como sendo um processo de transmutação dos sentidos e pensamentos. O analista deve ter o ouvido apurado, e propriamente a sensibilidade, para captar pistas sobre substâncias inconscientes. A partir disso, o analista interpreta e pondera significados pertinentes aos pensamentos do analisado. 

 

Na interpretação dos sonhos, outra técnica interpretativa, Freud avaliava os sonhos como “a via régia para o inconsciente” (FREUD, 2019, p. 515). O conteúdo manifesto (o que é lembrado pelo analisado) é compreendido para se ter uma noção do que seja o conteúdo latente (são anseios e agitações inconscientes)6. Pode ocorrer, com isso, a desarticulação do sonho e a investigação por símbolos que despontam feitios reprimidos7.

 

Os atos falhos, como podemos captar nos lapsos de fala ou de memória, são, também, características do inconsciente8. Para Freud, essas falhas apontam anseios e conflitos internos. Portanto, atravessam o campo do inconsciente e vêm a lume para demonstrar os desejos proibidos, por exemplo. 

 

Já no que diz respeito à transferência, esta ocorre pelo fato de o analisado projetar sentimentos direcionados a figuras importantes de sua vida, como pais ou parceiros9. Vê-se, assim, que a interpretação da transferência é relevante porque ajuda a manifestar amostras de emoções inconscientes. A contratransferência, por seu turno, refere-se aos sentimentos que o analista lida, como num processo de resposta ao paciente, que, inclusive, auxiliam na compreensão de todo o processo.

 

O analista é o ente que deve interpretar com cautela, atento à cadência do analisado e ao contexto. A interpretação, de tal modo, é capaz de ocorrer quando o analista entende que o paciente está apto a lidar com o processo, e com o que irá ganhar. Ou seja, a análise não pode se dar se houver profundo embaraço ou desinteligência do analisado em face do analista. Fato é que a interpretação tem o poder de levar ao paciente percepções acerca de seus comportamentos, promovendo, assim, a eliminação de traumas.

 

O método de interpretação tem o condão de dar ao analisado o domínio sobre os seus processos internos, assegurando o autoconhecimento e a percepção de conflitos irrefletidos. Frise-se, por oportuno, que o processo da interpretação deve ser levado a cabo de modo cuidadoso, como dito, para que não se encerre prematuramente e de maneira prejudicial, o que pode complicar o quadro do analisado, e gerar, com isso, descredito e resistência.

 

O sonho

 

De modo científico, o sonho é um fenômeno que acontece durante a fase REM (Rapid Eye Movement), quando a presteza cerebral é intensa10. Os sonhos dizem respeito à mistura de conhecimentos acontecidos, sentimentos e situações hipotéticas, e resultando, no mais das vezes, em narrativas ilógicas, de componentes até desconhecidos, que depois vêm à memória11, e é bem por isso que os sonhos se consubstanciem em experiências vividas12. 

 

É sabido que há muito a ser descoberto sobre os sonhos, mas são, por ora, considerados uma parte importante da experiência humana13. E é um ato intrigante porque é único e subjetivo, compete a cada pessoa em particular, e leva ao contato direto com aspectos alegóricos do inconsciente – que, quando recalcado, o indivíduo tende a ter uma ideia de si14. A sensação do sonho pode ser uma experiência que transcende o âmbito suprassensorial, além dos limites do plano consciente, para extrapolar a libertação no inconsciente15.

 

Levada a cabo por Sigmund Freud, no século XIX, a psicanálise é uma teoria para investigar a mente e seus métodos inconscientes. O que se tem de mais intrigante na psicanálise é a sua interpretação dos sonhos, que Freud avaliou ser uma via categórica para entender os desejos e conflitos proibidos16. 

 

Freud consagrou todos os seus esforços ao estudo dos sonhos e elaborou uma teoria dominante, exposta em seu livro “A Interpretação dos Sonhos” (1900)17 Assim sendo, os sonhos são a manifestação do inconsciente, em que desejos reprimidos e impulsos inconscientes põem-se em modo de se expressar. Note-se que ainda havia um forte misticismo ao redor do sonho, e o livro mencionado tentou abolir isso, com os seus processos e procedimentos. 

 

No sono, o que ocorre é a insensibilidade do consciente para descansar a mente e, assim, possibilitar o acesso ao inconsciente. No caso da resistência, às vezes este ato inviabiliza que o sonho venha à tona, e é por isso que o indivíduo não lembra do que sonhou.

 

Sobre os conteúdos manifestos, cumpre acentuar que são a narrativa do sonho lembrado pelo sonhador. É a versão do sonho com imagens e podem parecer, a princípio, desconexas. Quanto ao conteúdo latente, é aquele escondido do sonho, que se apresenta, no mais das vezes, como os desejos inconscientes do sonhador. É este, portanto, o conteúdo que Freud crê na possibilidade da interpretação para despontar os legítimos impulsos internos1819.

 

Acerca do que seja a censura onírica, tratada por Freud, nele o autor acredita que o inconsciente sabota certos conteúdos, transformando-se em signos que dissimulam os desejos reais, para que não ensejem a ansiedade, por exemplo. O deslocamento, por seu turno, ocorre quando a essência de um conteúdo latente é delongada para outro conteúdo menos temível. 

 

No que cabe à condensação, Freud toma em conta que, nos sonhos, elementos podem se aderir em um único símbolo. Diz-se, portanto, que um elemento do sonho pode conceber ideias ou aspirações inconscientes.

 

No simbolismo20, o pai da psicanálise encontra certos símbolos comuns que aparecem em sonhos e que, por isso, têm significados universais, exemplo disso são objetos alongados, representando o pênis, e sítios vazios, o útero. No entanto, cumpre dizer que ele, o autor maior, assegura que os sonhos são pessoais, íntimos, e isso varia conforme a experiência de cada um. Veja-se, ademais, que os sonhos são símbolos, ou por ele são representados, para evitar o sofrimento psíquico. 

 

No que concerne ao pesadelo, Freud confiava que eles surgem a partir de desejos proibidos intensos ou quando conexos à angústia ou à culpa. Eles brotam em imagens assustadoras, que geram desconforto. Isso ocorre porque há uma falha em esconder os teores perturbadores21.

 

Chega-se, então, à grande concepção de que a função dos sonhos é a realização de desejos. Assim sendo, os sonhos têm o condão de realizar, por exemplo, os desejos proibidos, aqueles que não podem ser satisfeitos na consciência.

 

A apreciação dos sonhos é uma das maneiras de acessar o inconsciente. Com isso, interpretar sonho tem a ver com decifrar os símbolos e associações livres do analisado, fazendo, contudo, a conexão com os desejos abafados e os conflitos psíquicos. A análise dos sonhos tem sido adotada como a técnica central na prática da psicanálise, oferecendo informações preciosas sobre os artifícios inconscientes.

 

O relato de um sonho por meio de um conto autoficcional

 

“Tive um sonho e não foi um sonho qualquer. Era excepcionalmente poderoso, como um super-herói. Estava com um carro, que parecia ser meu, e voava com ele por toda a cidade, soltando labaredas pelos canos laterais e muita fumaça, para acrescentar ao show. Atravessava pontes e viadutos, ziguezagueando. Algumas vezes, lascava as paredes de casas e lojas, e o carro continuava incólume. Depois da ensandecida aventura, que se deu em horas, quem sabe, desci do carro, abarrotado de gente, de amigos, e fomos curtir a noite chinesa – ou era bem tailandesa. E o mais interessante disso tudo é que eu era um sujeito conhecido, como um pop star a la Michael Jackson. As pessoas paravam para falar comigo, mesmo naquele lugar exótico e estranho. Enquanto o tempo passava na belíssima cidade, toda iluminada e dançante, bebia uma bebida doce, parecida com vinho do Porto, e não me embriagava. Cabe dizer que a bebida doce é a minha predileta, há tempos consumo-a, com moderação, porque é bastante cara. Lembro-me perfeitamente: era poderoso e bem relacionado, por isso, talvez, tinha a bebida de que gostava e as pessoas queridas ao meu lado. Salvei um amigo de uma encrenca, na base da solução amigável, oferecendo um pouco da minha bebida a um tal desordeiro. Se não tivesse sido assim, haveria uma confusão generalizada, num país desconhecido, podendo prejudicar as nossas vidas; tudo iria por água abaixo. Tinha facilidade inclusive para paquerar, e era alcançado pelos olhares de gueixas. Apaixonei-me por uma bela mulher asiática, de estatura mediana, com pernas roliças e olhar encantador. Perdemo-nos na noite da cidade-espetáculo. Fizemos sexo a noite inteira, de forma devagar e descomprometida, no cume de um arranha-céu. Eu era completamente dono de mim, não sofria com amarras sociais de quaisquer tipos. Depois de nos deliciarmos, olhava aquilo tudo lá embaixo e achava que era meu. Quis descer para voltar à festança, mas aí houve um lapso no sonho, que se reconectou à seguinte sequência: no amanhecer estava dentro do meu carro, voando de volta para a cidade natal, livre e feliz. As pessoas de dentro do carro me aplaudiam pelas minhas piruetas, corajosas, vorazes. Só no final vi o rosto de minha tia, que estava sentada no banco do passageiro. Tive uma tremenda vergonha, mas ela não me recriminava, pelo contrário, me aplaudia como os outros – e sorria, com a sua risada gostosa de sempre. Acordei com uma sensação de poder e querer, mais do que antes. E sentia que, dessa vez, as pessoas estariam comigo. O que é preciso para navegar nas instâncias da significação? Que processos devo descobrir desses enlaces, pouco usuais na minha vida comum? Tudo isso é muito novo para mim. Tenho medo de multidão, por força da fobia social que enfrento há anos. No sonho, a sensação de liberdade me dominava e me embriagava de esperança. Eu poderei renascer poderoso?”

 

Para Sigmund Freud, os sonhos se realizariam por desejos inconscientes, relativos a cometimentos reprimidos. No conto acima, o carro voador, do qual brota labaredas e atravessa a cidade incólume, representaria potência sobre os entraves da vida. Estar como um “super-herói” pode vir a indicar o anseio por reconhecimento e suplantação à fobia social, atravessando, no campo onírico, a fragilidade da realidade desperta.

 

No que concerne à bebida doce, haveria um contentamento simbólico de prazeres que, no dia a dia, são restringidos pelo equilíbrio. Já quanto ao encontro com a asiática, em êxtase de sexualidade livre, indicaria o desejo inconsciente de rebentar as convenções sociais e alcançar fantasias reprimidas e prazer. O sonho, nesses casos, teria a finalidade de possibilitar ao sujeito o que é recusado na vida acordada.

 

Quanto à participação da tia, que não censura, ao contrário, corrobora as ações, lembra um arrojo do superego: a instância crítica é permissiva, buscando a compatibilização entre desejo e lei. 

 

Por fim, a liberdade e o poder demostram que o inconsciente enseja uma vida nova psíquica, em que a fobia social, por exemplo, pode ser superada pela vitória. O sonho leva à significação de um desejo denso de libertação e de coexistência social.

 

A psicanálise e o sonho

 

A psicanálise, uma teoria de tratamento psicológico criada por Sigmund Freud, explora a dinâmica do inconsciente e suas aparições no comportamento humano. Um dos conceitos centrais dessa abordagem é o estudo dos sonhos, que Freud considerava uma via elevada para acessar os desejos reprimidos e os conflitos internos. O sono, por sua vez, é tão somente o estado fisiológico que facilita a ocorrência do sonho. 

 

Freud revela que “são sempre as experiências sexuais precoces a fonte de qualquer doença da mente” (FREUD apud ROLLAND, 2015, on-line), e apresentou a ideia de que os sonhos são uma forma de realização de desejos irrefletidos. Em sua obra fundamental, “A Interpretação dos Sonhos” (1900), ele traça a diferença entre os conteúdos manifesto e latente dos sonhos. O conteúdo manifesto é o que vem na narração do sonho, enquanto o conteúdo latente diz sobre os anseios ocultos.

 

Durante o sono, frase afirmada por Freud, não existe censura da mente – por isso diz-se que o sonho é o campo da libertação –, de maneira que os desejos reprimidos se exibem de forma alegórica. Há um exemplo importante, o sonho pode propiciar um cenário habitual, que, sim, pode conter significação.

 

Não só na psicanálise os sonhos têm um papel terapêutico. Pode puramente relaxar o corpo, mas predispõem a despontar conteúdos inconscientes, e fomentam a relação íntima entre o analisado e o terapeuta. Ou seja, a análise dos sonhos leva a achados expressivos sobre a vida emocional do analisado, promovendo autoconhecimento. 

 

A análise dos sonhos é uma ferramenta imprescindível para os psicanalistas. Os pacientes são levados a relatar seus sonhos, e a avaliação desses relatos pode facilitar a expressão de sentimentos proibidos. Mas isso tem de se dar de modo a “desfazer as defesas que refreiam as feridas psíquicas” (ROLLAND, 2015, on-line). Com a interpretação dos sonhos, o terapeuta e o analisado podem trabalhar para a melhor compreensão dos fatos, por meio da transferência e da interpretação, que é o mote ou o modelo da psicanálise22.

 

Há, portanto, a peregrinação do sonho nas profundezas do inconsciente, para chegar aos anseios reprimidos. Quer dizer que o sonho ultrapassa a divisão da consciência para mostrar ao analista e ao analisado quais os danos e as implicações clínicas que devem ser utilizadas para aliviar os sintomas. 

 

Atentar-se aos sonhos ajuda a estabelecer uma conexão mais profunda entre o terapeuta e o analisado, possibilitando um espaço seguro de análise de temas por vezes complicados. 

 

A verdade é que os sonhos revelam questões difíceis de abordar na terapia, cooperando, assim, para a discussão sobre a vida emocional do analisado.

 

Bem-estar e o sonho

 

Bem-estar, sonho e psicanálise é um tema que fascina porque aborda aspectos do funcionamento da mente humana. Para a psicanálise, o bem-estar tem a ver com o estado de equilíbrio psíquico, pelo qual o indivíduo pode viver de maneira harmoniosa consigo e com os outros. Mas o equilíbrio requer uma forma de autoconhecimento e compreensão inconsciente, que se manifestam, por exemplo, por meio dos sonhos.

 

Freud confiava que os nossos danos emocionais e enigmas estavam vinculados aos desejos, aos medos e às memórias abafadas no inconsciente. Então, o que faz a psicanálise é trazer esses conteúdos à consciência, para que sejam entendidos e elaborados. 

 

Veja-se que o bem-estar não é compreendido como a falta de sofrimento, mas com a capacidade de saber usufruir as emoções e os desafios da vida. O bem-estar é precisamente a conjunção de processos oníricos, sociais e culturais que apaziguam o entusiasmo do analisado, portanto, como se vê, ultrapassa o campo da psicanálise, mas é dependente dela para a sua perfeição. Cabe notar que a energia libidinal, congregada aos sonhos, fomenta a vontade fundamental de viver; é o que se busca numa vida saudável.

 

Explorar, com cautela, o significado dos sonhos leva ao bem-estar. O processo de interpretação dos sonhos ajuda a entender desejos e ansiedades ocultas, além de apresentar habilidades e aspectos possíveis da individualidade. 

 

O bem-estar no aspecto psicanalítico não é o alcance único da felicidade, mas, sim, a conquista de uma relação saudável e fidedigna com as próprias emoções e desejos. É dizer que desejos e emoções devem estar em confluência para que se possa, portanto, concretizar o que se pensa sobre felicidade.

 

NOTAS

 

1 “Inicialmente, podemos destacar que a questão da linguagem está presente desde os primórdios da obra freudiana. A rigor, muito antes da publicação do livro dos sonhos, Freud iniciou seu trabalho clínico com suas pacientes histéricas pelo viés da linguagem. Seguindo a trilha aberta por Charcot e pela Escola de Nancy, o autor, em seus primeiros estudos, propôs uma novidade teórica a qual pode ser formulada da seguinte maneira: há, nos fenómenos histérico, uma total desvinculação em relação à anatomia, porém – e isso é de importância fundamental – não há uma desvinculação entre histeria e corpo”. (PINHEIRO, 2012, on-line).

 

2  “Ao longo da história, os sonhos serviram de guia para os homens nas mais variadas situações. Não são poucos os relatos de guerras e conflitos cujos rumos foram ditados pelas revelações que líderes e chefes militares recebiam durante o sono. Assim como os outros mamíferos, em determinado momento de sua evolução os seres humanos passaram a sonhar, um modo que o cérebro utiliza para organizar as memórias, sedimentando as mais importantes, eliminando o desnecessário e, com isso, liberando espaço para o novo. A função dos sonhos pode extrapolar isso, ganhando outras dimensões, como ser um combustível para a criatividade ou apontar caminhos, direções a seguir, como um oráculo que visitamos todas as noites, ao fechar os olhos e dormir. O sonho permite extrapolar os limites do real, do possível e da moral vigente”. (BEZERRA, 2020, on-line).

 

3 “O sábio Macróbio postulou no século V que a pesquisa onírica depende primordialmente do registro fidedigno do sonho relatado. No século XX, os psiquiatras Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Jung (1875-1961) fizeram da interpretação desses registros uma nova ciência sobre a mente humana: a psicologia profunda”. (RIBEIRO, 2019, p. 17).

 

4 “Ao esquema interpretativo fixo e centrado na figura do intérprete, a psicanálise opõe um trabalho orientado pela tese de que a verdade, sempre não-toda, surge da equivocação. Decorre disso que o trabalho do analista possa ser definido como um esforço para desestabilizar aqueles sentidos que, cristalizados, orientam as narrativas pessoais sob a forma dos significantes-mestre. Sua meta é o corte, cujas consequências são: a) a destituição do significante que opera enquanto fundamento de uma dada cadeia discursiva; e b) a emergência do sujeito enquanto puro acaso, efeito fortuito de linguagem. Nesse ponto, surge a última diferença entre Artemidoro e Freud: para o primeiro, interpretar significa descortinar um sentido que se encontra à espera, enquanto, para o segundo, interpretar significa realizar discursivamente aquilo que, até aquele momento, permanecia irrealizado”. (NUNES, 2018, on-line).

 

5 “Durante a década de 1880, Freud tinha o conhecimento de que havia alternativas metodológicas para sua prática clínica e não hesitou em aderir a elas. Por somar experiências com suas pacientes, surgiu a possibilidade da publicação com Breuer dos Estudios sobre la histeria (1893-95). Livro que evidencia certos avanços tanto para a concatenação de sua concepção acerca do psiquismo quanto para a chegada do método de associação livre”. (CARVALHO e HONDA, 2017, on-line).

 

6 “[…] Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono, em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência”. (CHENIAUX, 2006, on-line).

 

7 “A princípio, devemos responder que o sonho não dispõe dos meios de representação para essas relações lógicas entre os pensamentos oníricos. Na maioria das vezes, ele ignora todas essas conjunções e toma apenas o conteúdo substantivo dos pensamentos oníricos para elaborar. Cabe à interpretação do sonho restaurar os laços destruídos pelo trabalho do sonho”. (FREUD, 2019, p. 354).

 

8 “Quem aí fala? É esse ponto de enigma que interessa a Freud em sua argumentação e que permite diferenciar sua proposição teórica das produções de outros autores sobre o tema nos campos da linguística e da psiquiatria: não se trata do ato falho, em si, como objeto direto de estudo, mas da intencionalidade do falante diante do fenômeno; intencionalidade desconhecida à atenção consciente, mas suposta em um recurso à noção de inconsciente”. (AIRES, 2017, on-line).

 

9 “Quando o paciente passa a se interessar por tudo o que se relaciona com a figura do médico, atribuindo a isso por vezes maior importância do que a que demonstra por suas próprias questões, parece se desviar de sua própria doença. Estamos, então, diante de uma relação transferencial”. (SANTOS, 1994, on-line).

 

10 “Durante o sono REM, o fluxo sangüíneo cortical é maior do que no sono de ondas lentas e, às vezes, maior até do que na vigília. Estudos de tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) mostram que, durante o sono REM, estão ativados o córtex visual extra-estriatal (associativo) e as regiões límbica e paralímbica; estando, ao mesmo tempo, desativados o córtex visual estriado (primário) e o córtex pré-frontal. Vários aspectos característicos do sonho podem ser relacionados a estes achados: a riqueza de imagens visuais, à ativação do córtex visual associativo e desativação do primário; a intensa expressão emocional, à ativação das regiões límbica e paralímbica; e a bizarrice, incoerência, perda da crítica e esquecimento, à desativação do córtex pré-frontal”. (CHENIAUX, 2006, on-line).

 

11 “Ocorre primeiramente que o conteúdo do sonho apresenta um material que, no estado de vigília, não reconhecemos como pertencente à nossa experiência e conhecimento. Lembramo-nos de ter sonhado aquilo, não, porém, do fato nem do momento em que vivenciamos aquilo. Permanecemos em dúvida em relação à fonte da qual o sonho se serviu e somos tentados a acreditar numa atividade produtiva autônoma do sonho, até que, às vezes, após muito tempo, um novo evento recupera a lembrança do evento anterior, revelando assim a fonte do sonho”. (FREUD, 2019, p. 34).

 

12 “Todo o material que compõe o conteúdo do sonho provém, de alguma forma, de experiências, ou seja, ele é reproduzido e lembrado no sonho – pelo menos isso pode ser considerado um conhecimento incontestado”. (FREUD, 2019, p. 33).

 

13 “A relação entre os processos do sonho e do tratamento analítico foi uma das primeiras conclusões que se impuseram a Freud na sua pesquisa psicanalítica. As teorias do sonho e do tratamento analítico sofrerão uma mesma revolução quando do advento da segunda tópica. A satisfação de um desejo censurado é o caso mais simples do funcionamento do princípio do prazer. Freud precisou de muito mais tempo de escuta de seus pacientes e de investigação teórica para penetrar toda a sua complexidade”. (ROLLAND, 2015, on-line).

 

14 Acerca do recalque: “O recalque é a principal estratégia de defesa do ego. Se opta por reprimir algum tipo de conteúdo é porque ele foi considerado insuportável à consciência e gerará, por sua vez, muito desprazer e ansiedade. (FEIL, 2021, p.22).

 

15 “Sonhos são narrativas subjetivas, muitas vezes fragmentadas e composta de elementos – seres, coisas e lugares – a interagindo com uma autorrepresentação do sonhador, que em geral apenas observa o desdobramento de um enrede. Os sonhos variam em intensidade, indo desde expressões confusas e débeis até intrincadas epopeias de imagens vívidas e reviravoltas surpreendentes. […] Podem ainda antecipar acontecimentos do futuro imediato, em especial quando o sonhador ou sonhadora experimenta extrema ansiedade e expectativa, como nos sonhos de estudantes nas vésperas de exame difíceis, muitas vezes repletos de detalhes de contexto e conteúdo”. (IRBEIRO, 2019, p. 16).

 

16 “Tomemos então a palavra de Freud a fim de esclarecer a proposta lacaniana quanto à interpretação. Freud (1900/1976) vê a interpretação dos sonhos como a via régia para conhecer as leis do inconsciente. O sonho não é equivalente ao inconsciente, contudo sua interpretação possibilita o advir de uma lógica que lhe é própria e que pode ser atribuída a todo falante. Essa lógica não se institui como um avesso da consciência. As leis que a regem possuem um estatuto diferenciado e agregam efeito de sentido, o qual não é apreendido de forma direta. Lacan (1958/1988) pensa esse efeito de sentido principalmente como efeito de metáfora, na medida em que no sonho as coisas não se apresentam diretamente, mas em relação de substituição”. (RAVIZZINI e BALDIN, 2021, on-line).

 

17 “Parece-nos ser essa equação a que dá à Interpretação dos Sonhos o seu caráter fundante da Psicanálise. Não é uma obra fundamental porque trata dos sonhos. Mas porque funda o psíquico no simbólico – e não o contrário. Se o inconsciente só pode manifestar-se por parábolas, isto é, indiretamente, é porque ele é uma realidade essencialmente simbólica e como tal está também pelo que não está. Quer dizer, como forma simbólica, é uma existência cujo ser é sempre um excesso e uma falta, presença-ausente, diríamos, com base na Filosofia Fenomenológica de Merleau-Ponty (1942). E parece-nos que esse modo de compreensão é compatível com a maneira de Freud entender a realidade do aparelho psíquico, isto é, como não localizável em elementos orgânicos, mas entre eles” (FRAYZE-PEREIRA, 1999, on-line).

 

18 “’A Interpretação dos Sonhos’, de 1900, é considerada a primeira obra propriamente psicanalítica de Freud. Nesse trabalho, particularmente no capítulo VII, já se encontra uma teoria geral do aparelho psíquico, formulada a partir dos estudos de Freud sobre os sonhos, que são, segundo ele, a ‘via régia de acesso ao conhecimento do inconsciente na vida mental’”. (CHENIAUX, 2006, on-line).

 

19 “Para Freud, o sonho constitui “uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)”. Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono, em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência. Todavia o sonho atua como “o guardião do sono”. Em função de uma solução de compromisso entre o id e o ego – que é a instância que exerce a repressão -, é permitida uma gratificação parcial das pulsões, diminuindo a força delas e, conseqüentemente, possibilitando que o indivíduo continue a dormir. Essa gratificação se dá através de uma fantasia visual (o conteúdo manifesto do sonho), que é o resultado de um processo regressivo: o fluxo da energia psíquica, ao invés de seguir em direção às vias motoras, retorna às vias sensoriais”. (CHENIAUX, 2006, on-line).

 

20 “O simbolismo e a simbolização inauguraram a psicanálise baseada em sintomas psiconeuróticos e seu significado “simbólico”, principalmente a conversão histérica. Assim, descobrindo as relações entre sintomas evidentes e seus significados latentes que refletem conteúdos inconscientes reprimidos, Freud descobriu e ao mesmo tempo explorou os processos de simbolização individual relacionados a uma função psíquica essencial”. (SMADJA, 2022, on-line).

 

21 “O pesadelo ou sonho de angústia revela ser um sonho interrompido, um sonho que não se deixa sonhar, um sonho que se quebra por uma angústia aterrorizadora, angústia que promove o despertar, e a mente, desse modo, fica livre de prosseguir em sua função de informar a respeito dos desejos inconscientes. O recalcamento se impôs diante da possibilidade de uma representação insuportável, intolerável. O pesadelo, desse modo, funciona como uma proteção enfática para que não se possam experimentar, mesmo que em sonho, cenas traumáticas que ainda se acham “proibidas” à consciência”. (VIEIRA,2015, on-line).

 

22 “O trabalho tanto do sonho quanto do tratamento analítico consiste em reencontrar esses bolsões de arcaísmos e de sofrimento, em desfazer as defesas que refreiam a ferida psíquica, em encontrar um novo modus vivendi entre as partes em conflito, com vistas a levar o eu a reconhecer o objeto do desejo censurado, o que supõe que ele tenha sido destituído de sua carga edipiana. Consiste em permitir que a libido contida seja descarregada por vias indiretas, como a sublimação. Ao lado da dor induzida pela renúncia edípica, a outra fonte de sofrimento do homem é a oposição radical que os dois grandes sistemas psíquicos do consciente e do inconsciente mantêm entre si, oposição resolvida, de maneira sempre efêmera e precária, sob a égide do princípio do prazer, por um compromisso sempre interessado e “oportunista”. Como se vê, é por apagarem as fronteiras entre as duas grandes instâncias psíquicas e fazerem com que elas se enfrentem que os processos do sonho e do tratamento analítico têm condições de realizar uma transformação psíquica”. (ROLLAND, 2015, on-line).

fotografia de Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2017, lançou seu primeiro livro de crônicas, “O sussurro cálido da negação”, publicado virtualmente. Logo, em 2018, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020, os livros de contos “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021, o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; em 2022, a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando; em 2024, o livro de contos “Amparo secreto”, pela editora Urutau, e o romance “Viver morrendo”, pela editora Folheando; agora, um novo romance, em 2025, “Arraia-ralé”, pela editora Urutau. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

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