Cultura

Poemas | Hera de Jesus

Foto de Chris Becker na Unsplash

Perdoas-me,

Maria,

 

pelas

cartas de amor

abortadas

em pensamento.

 

Perdoas-me

pelos silêncios.

 

O amor

ainda é pedra

rija e fria,

por lapidar

em mim.

 

Abandono

o calor

do teu colo

para abraçar

a madeira

fria e morta

no romper

da alvorada.

 

Em alto

mar,

 

teu amor

é a única

certeza

que conservo.

 

É fé

e âncora.

 

Tua voz

é farol.

 

Reza,

Maria.

 

Reza.

 

Voltarei

carregado

de todos os

tesouros

do mar.

 

E quando

a noite

recolher as velas,

 

acenderemos

a fogueira

do nosso

lar

outra vez.

 

*

Disseram-lhes

que o lugar delas

era em casa,

a cuidar

da família.

 

Tentaram

roubar

suas vozes.

 

Disseram

que não nasceram

para pensar,

acreditar,

criar,

realizar.

 

Fazem-nas

acreditar

que são inferiores,

que seus corpos são

para gerar.

 

Rostos

para enfeitar.

 

Violentam-nas.

Desvalorizam-nas.

 

Tentam

silenciá-las.

 

Mas,

 

como o sol

que rasga

a madrugada,

 

elas

levantam-se.

 

Mais fortes.

Mais firmes.

Mais vivas.

 

Faça sol,

faça chuva,

 

elas

erguem-se.

 

We stand up.

Women

still rise up.

 

*

A noite

escorre

pelas paredes.

 

A lua

vigia

o meu silêncio.

 

Hoje

abro

um confessionário.

 

A minha

morte

ou a minha

sorte.

 

Bon voyage.

 

O destino

deixou-te

este poema.

 

Como

doeu

amar-te.

Era

uma dor

já conhecida,

a que faz

gemer.

 

*

A que atravessa

os ossos,

estrangula

a garganta.

 

É como a dor

da moléstia

que se arrasta

consumindo

o crânio.

Um

parasita.

 

Hoje,

antes

de partir,

abro

um

confessionário.

 

Como

doeu

amar-te.

Parto

leve

pelo paraíso

que também

foi.

 

*

 

Sh…

não contes

a ninguém

como éramos

tão imperfeitos

na nossa forma

de amar.

 

Abro

o confessionário

ardente

como a febre.

 

E no fim

de tudo

tu foste

o amor

que me

arrancou

da morte.

 

Hera de Jesus

HERA DE JESUS 

[Maputo, Moçambique,1989]

Começou a escrever desde tenra idade. De 2013 a 2017, participou e foi distinguida em alguns concursos internacionais de poesia. Tem textos publicados nas antologias “Soletras Esse Verso” (2018); “Fique em Casa” (2020); “Linguagens e suas Tecnologias, Manual do professor” (2020); E ” No Cais do Amor” (2022). 

Tem contribuído para as revistas Lidilisha, Soletras, Ómnira, Contioutras, Por Dentro de África, Escamandro, Avenida Sul, Mallamargens , Folhinha Poética, Cultural Traços/ Alta Cultura, Germinaliteratura, e Incomunidade.  É membro da Confraria Brasil/Portugal.

 

 

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