
Perdoas-me,
Maria,
pelas
cartas de amor
abortadas
em pensamento.
Perdoas-me
pelos silêncios.
O amor
ainda é pedra
rija e fria,
por lapidar
em mim.
Abandono
o calor
do teu colo
para abraçar
a madeira
fria e morta
no romper
da alvorada.
Em alto
mar,
teu amor
é a única
certeza
que conservo.
É fé
e âncora.
Tua voz
é farol.
Reza,
Maria.
Reza.
Voltarei
carregado
de todos os
tesouros
do mar.
E quando
a noite
recolher as velas,
acenderemos
a fogueira
do nosso
lar
outra vez.
*
Disseram-lhes
que o lugar delas
era em casa,
a cuidar
da família.
Tentaram
roubar
suas vozes.
Disseram
que não nasceram
para pensar,
acreditar,
criar,
realizar.
Fazem-nas
acreditar
que são inferiores,
que seus corpos são
para gerar.
Rostos
para enfeitar.
Violentam-nas.
Desvalorizam-nas.
Tentam
silenciá-las.
Mas,
como o sol
que rasga
a madrugada,
elas
levantam-se.
Mais fortes.
Mais firmes.
Mais vivas.
Faça sol,
faça chuva,
elas
erguem-se.
We stand up.
Women
still rise up.
*
A noite
escorre
pelas paredes.
A lua
vigia
o meu silêncio.
Hoje
abro
um confessionário.
A minha
morte
ou a minha
sorte.
Bon voyage.
O destino
deixou-te
este poema.
Como
doeu
amar-te.
Era
uma dor
já conhecida,
a que faz
gemer.
*
A que atravessa
os ossos,
estrangula
a garganta.
É como a dor
da moléstia
que se arrasta
consumindo
o crânio.
Um
parasita.
Hoje,
antes
de partir,
abro
um
confessionário.
Como
doeu
amar-te.
Parto
leve
pelo paraíso
que também
foi.
*
Sh…
não contes
a ninguém
como éramos
tão imperfeitos
na nossa forma
de amar.
Abro
o confessionário
ardente
como a febre.
E no fim
de tudo
tu foste
o amor
que me
arrancou
da morte.
HERA DE JESUS
[Maputo, Moçambique,1989]
Começou a escrever desde tenra idade. De 2013 a 2017, participou e foi distinguida em alguns concursos internacionais de poesia. Tem textos publicados nas antologias “Soletras Esse Verso” (2018); “Fique em Casa” (2020); “Linguagens e suas Tecnologias, Manual do professor” (2020); E ” No Cais do Amor” (2022).
Tem contribuído para as revistas Lidilisha, Soletras, Ómnira, Contioutras, Por Dentro de África, Escamandro, Avenida Sul, Mallamargens , Folhinha Poética, Cultural Traços/ Alta Cultura, Germinaliteratura, e Incomunidade. É membro da Confraria Brasil/Portugal.










