
… mas o que são as Intervenções Assitidas por Animais?
Depois da breve História das Intervenções Asssitidas por Animais (IAA) no artigo anterior, é tempo de saber, afinal, do que se tratam.
As intervenções assistidas por animais definem-se como intervenções que incorporam animais e que são orientadas para determinados objetivos multidisciplinares, seja da saúde ou da educação, entre outros meramente lúdicos ou recreativos, com impacto positivo nos seres humanos.
Há, no entanto, alguma dificuldade de se chegar a um consenso quanto à terminologia definidora das IAA no que respeita à distinção das suas intervenções e práticas, pelo que se resume, com base na fundamentação bibliográfica existente, as diferentes e principais expressões das IAA:
– Educação Assistida por Animais (EAA) – nesta modalidade de IAA os animais são integrados em atividades de educação com o objetivo de melhorar o nível de aprendizagem escolar dos utentes, que podem ser crianças ou adultos, com ou sem necessidades especiais. Quanto é direcionada para a melhoria concreta da leitura, denomina-se de Leituras Assistidas por Animais (LAA). É aplicada a um só utente de cada vez e a equipa de IAA deve incluir sempre um docente e um elemento que seja certificado em IAA e/ou LAA, este último, se o objetivo for o da melhoria da leitura do utente. Ou seja, a EAA é uma IAA em que o processo de educação e aprendizagem é assistido por animais e tal como a TAA, é também estruturada e orientada para objetivos concretos, que neste caso são educacionais e académicos.
– Terapia Assistida por Animais (TAA) – nesta forma de IAA os animais são utilizados em atividades que seguem uma metodologia com um conjunto específico de critérios e de objetivos. Esta modalidade de IAA tem um carácter intencionalmente terapêutico, em que o animal integra atividades ou exercícios que cumprem os objetivos predefinidos por um profissional de saúde. Esta modalidade de IAA pode ser direcionada a um só utente ou a um grupo muito pequeno de utentes (em número nunca superior a 10). A equipa de IAA, devendo, preferencialmente, ser multidisciplinar, nesta modalidade, deve incluir sempre um profissional de saúde da condição a tratar, e pelo menos um elemento certificado em IAA.
Fig.1- TAA e EAA (origem: Google)- Atividades Assistidas por Animais (AAA) – os animais são integrados em atividades diversas de carácter lúdico e recreativo, motivacionais e interativas, sem, no entanto, seguir um conjunto específico de critérios ou uma metodologia com objetivos definidos. Ou seja, até pode ter motivações terapêuticas ou educacionais subjacentes, mas não há objetivos finais, nem é necessário um plano ou uma avaliação contínua ou final das mesmas. Pode ser feita em grupo (preferencialmente de pequena ou média dimensão) e a equipa de IAA, devendo preferencialmente incluir um agente certificado em IAA, não terá necessariamente de ser alguém com experiência ou especialidade na saúde ou na educação, como nas modalidades anteriores, podendo mesmo as AAA estarem a cargo de voluntários em parceria com animais. No entanto, tendo em conta a melhoria e qualidade das práticas de IAA e a garantia da segurança tanto de seres humanos como de animais, é recomendável que todos os manipuladores de IAA recebam formação e sejam avaliados junto de organizações certificadas.
As AAA podem ocorrer numa variedade de locais, como hospitais, lares de idosos, escolas, bibliotecas, entre outros, funcionando na maioria das vezes como uma visita de animais a uma população especifica para lhes oferecer companhia, convívio e melhor qualidade de vida.
E é aqui que se gera alguma dificuldade no consenso da definição de IAA dado que, na prática, e tendo em conta a natureza destas intervenções, assentes na vinculação ser humano-animal não humano, a verdade é que as AAA também podem ter impacto na saúde humana como na redução do stresse, ou assemelhar-se a atividades educacionais, mesmo não tendo tais propósitos; as TAA, por sua vez, podem incluir recreio e atividades educativas sem se desviar do seu propósito terapêutico; e também as EAA podem “educar brincando” e, através dos animais, quebrarem barreiras da aprendizagem como o são algumas patologias mentais – a exemplo, a ansiedade, a depressão ou o stresse, revertendo as EAA numa modalidade terapêutica mesmo que o seu objetivo não o seja.
Todo este processo transformador, e em desenvolvimento, das IAA e da sua terminologia é um reflexo da vasta literatura que, assim, vem requerer uma melhor clarificação de conceitos e uma “taxonomia” inequívoca para esta prática de parceria entre animais e seres humanos para benefício da saúde humana.
Neste ponto, há que acrescentar que Ristol et al., (2013) também inclui (e bem) dentro das IAA, os Programas de Animal Residente (PAR) em instituições públicas ou privadas, locais de trabalho, etc., quando um ou mais animais residem permanentemente com os recetores (que podem ser múltiplas populações) e participam no seu quotidiano, o que não impede que estes mesmos animais possam também integrar outros programas de IAA na mesma instituição/residência/local, como as TAA e EAA/LAA.
Apesar da mencionada dificuldade em chegar a um consenso na terminologia das IAA e até de alguma disparidade da mesma em vários estudos, tem sido globalmente aceite que estas são um largo espectro de modalidades que envolvem animais e profissionais certificados na área, com impacto positivo para os utentes sujeitos a estas intervenções. Claro que esta terminologia continua em debate e até numa fase ainda inicial de acordo com alguns autores, pois até há bem poucas décadas a sua prática era meramente empírica, mesmo que a compreensão sobre a vinculação entre os seres humanos e os animais não humanos já remonte à História antiga.
Mas a aceitação da prática terapêutica das IAA tem assentado em vários trabalhos científicos, como por exemplo o de Friedman sobre o efeito da interação regular de pessoas com animais, que aumenta a probabilidade de sobrevivência em doentes coronários; ou o de O`Haire que incidiu sobre a terapia assistida por animais em pessoas com perturbações do espectro de autismo; ou o de Majic et al. que investigou as IAA em pessoas com demência; entre outros estudos que apontam para os benefícios significativos para a saúde com contraindicações mínimas para a implementação das IAA.
Nas últimas cinco décadas, esta aceitação (das IAA) tem crescido ao ponto de incluir o conceito de assistência terapêutica por animais em seres humanos, defendendo que desta interação positiva interespécie resulta um ambiente terapêutico facilitador da recuperação de pacientes, seja ao nível físico ou mental.
Os animais, e mais comumente os denominados animais de companhia (sobretudo os cães), têm vindo a ser recomendados por médicos e psicólogos, inclusive como prescrição terapêutica para uma variedade de patologias físicas e psicológicas (incluindo doenças mentais crónicas), que incluem necessidades especiais, perturbações por uso de substâncias aditivas, hipertensão arterial, distúrbios associados aos processos de envelhecimento, e também na intervenção clínica em pessoas sexualmente abusadas. As interações com animais podem diminuir o colesterol, fortalecer o sistema imunitário e melhorar os níveis de depressão. Causam redução do cortisol salivar, hormona libertada durante períodos de stresse, tendo sido o facto notado num estudo com uma amostra de crianças com autismo que interagiram com um cão em contexto de IAA. Sendo o cortisol apontado como causa de défices de funcionamento do cognitivo, há reconhecidos benefícios das IAA na motivação para a aprendizagem (tanto nos animais como em pessoas), até porque aumenta o neurotransmissor dopamina.
Ainda de acordo com a American Heart Society, “a detenção de animais de companhia, em particular de cães, pode constituir uma recomendação razoável para a diminuição do risco de doença cardiovascular” .
E o que é fundamenta, afinal, esta influência dos animais na saúde e bem-estar de pessoas? É o vínculo ser humano-animal não humano : as IAA servem múltiplos propósitos relacionados com a saúde física e mental de variados utentes e contribuem igualmente para a melhoria das suas relações sociais, na medida em que os animais possibilitam uma maior interação entre pessoas, tornando-as mais comunicativas e sociáveis, além de se cultivar um vínculo adicional entre o animal e o utente que se detalhará oportunamente num próximo artigo.
Sílvia Vasconcelos, médica veterinária, doutorada, e a finalizar um pós-doutoramento em ciências veterinárias, ramo biomédico. Tem incidido a sua investigação no ramo da microbiologia alimentar, mas sobretudo, nos últimos dez anos, na díade ser humano-animal aprofundando a investigação sobre os benefícios dos animais de companhia para a saúde física e mental do ser humano, tendo investigado os mesmos, até agora, quer na população prisional quer na população idosa, de onde resultou o livro de sua autoria “Benefícios dos animais de companhia para a saúde mental dos idosos” .
Paralelamente, fez teatro no TEF; foi autora e co-autora de publicações técnicas e científicas e publicou um livro de poesia “Arestas”, além de escrever regularmente no Jornal da Madeira e no Jornal Económico.












