
Estamos no século XXI e observa-se um acréscimo de notícias sobre pessoas feridas ou mortas pela utilização voluntária de facas — uma das ferramentas mais antigas da Humanidade, praticamente tão antigas quanto o próprio ser humano!
Na Idade da Pedra Lascada, as facas eram feitas de sílex ou de obsidiana e usavam-se para cortar carne, preparar alimentos, trabalhar madeira e pele e, embora longe daquilo que mais tarde viriam a ser, já tinham a função de corte. Na Idade do Bronze surgiram facas metálicas, mais resistentes e, na Idade do Ferro, tornaram-se duráveis e afiadas começando a parecer-se com as facas modernas. No entanto, assim que existiram como ferramenta, também passaram a ser usadas como arma, pois eram fáceis de fabricar, e apresentavam-se como objectos portáteis e eficazes. A Civilização avançou, mas não eliminou a sua agressividade inata, apenas aprendeu a controlá-la, regulando-a e empurrando-a para limites mais restritos. Na base, sempre esteve a tendência para a violência.
Filósofos como Thomas Hobbes defenderam que: sem regras, a vida humana tende ao conflito; já Sigmund Freud falava de ímpetos como a agressividade e o impulso de destruição, que designava de: pulsão de morte. Por este facto se mantém o recurso a facas em contextos de conflito, e com prevalência na actualidade!DD Pessoas que estudam a matéria explicam que a sua utilização como arma surge em circunstâncias muito concretas, como por exemplo inserida em momentos de emoções intensas: ciúme, raiva e humilhação; em conflitos pessoais: relacionamentos amorosos, familiares ou entre colegas e vizinhos; em situações de perda momentânea de controlo; e também em quadros sociais difíceis: exclusão ou marginalização. Assim, o instrumento — faca, nunca deixou de assumir dois significados interessantes: uma ferramenta doméstica → próxima, banal; mas também o seu poder de matar → causador de ambiguidade moral. Dir-se-ia que o foco não está no objecto, mas na intenção e na situação humana, como um postulado de Hannah Arendt: muitos actos violentos não vêm de “monstros”, mas de pessoas comuns em certas conjunturas, a designada banalidade do mal.
Esta reflexão surge perante o facto de, em 2025, em Portugal, terem ocorrido 110 homicídios, o número mais elevado dos sete anos anteriores. Uma grande fatia desses homicídios aconteceu entre pessoas que se conheciam: parceiros íntimos, familiares ou conhecidos próximos e, quando se tratou de rixas entre jovens, também se verificaram em grupos de amigos/inimigos ou conhecidos, desenvolvidas em bares, festas, nos bairros e nas escolas, sendo que, nesta contagem, não estão incluídos os casos de apenas ferimentos. Na maior parte destas situações a arma utilizada foi uma faca. Parece que continuam a existir hábitos ancestrais que incluem o transporte desse objecto, seja dentro de um bolso, inserido entre a meia e a perna ou numa mala/mochila, como se fosse um porta-moedas ou um telemóvel. O que dizer deste hábito sempre actual, que vem desde a Idade da Pedra Lascada?
Alice Caetano
Alice Caetano: Formação académica: Curso professores do 1º ciclo pela Universidade de Aveiro.
Licenciatura em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de ciências da Educação de Lisboa.
Profissão – professora do Primeiro Ciclo.
Livros publicados:
Poesia: “Depois do Ninho, a Água”; “Transmutações”.
Prosa poética: “Maçã de Zinco”.
Poesia, teatro e conto – “Espelho Convexo” (recomendado por Francisco Louçã).
Histórico-Biográfico: “Palco Sombrio – Guiné – Guerra Colonial e Actos Cénicos” (recomendado por Francisco Louçã).
Livros em coautoria:
“Arranja-me um Emprego – crónicas e poesia para salvar o dia” – Editora Versbrava.
“Orgânico – Cinco Poetas, a mesma causa” (livro com carácter social) – Edição de autor.
“Xafir e a Feiticeira do Pântano” (infantil) – Alfarroba Publicações.
Participação na Antologia da Moderna Poética Portuguesa.
Participação em iniciativas do Movimento Democrático de Mulheres – MDM – com textos temáticos.
Membro do júri do Concurso “Aveiro Jovens Criadores”.
Poemas traduzido para italiano e publicados nas revistas Emergenza Climatica e Articoli Liberi.
Publicada pelo Jornal literário “RelevO” de Curitiba.
Realização de programas de rádio local de âmbito literário.
Escrita de prefácios em diversos livros de poesia.
Colunista na imprensa regional com artigos de opinião e crónicas políticas.
Segunda vencedora do 1º concurso de literatura polaco-português.
Distinguida pela Direcção Regional de Cultura do Centro como mulher de destaque no panorama cultural da Região Centro.
Elemento da Direcção do Grupo Poético de Aveiro.
Elemento do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal Manuel Alegre em Águeda.










