Política

A depressão europeia | António Pedro Dores

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Resumo: a velha Europa está deprimida. Sente-se marginalizada pelas sedes imperiais que tomaram posse depois dela. Está na altura de se transformar. O que será uma transformação que nos orgulhe de ser ocidentais?

  

A Europa não é um continente: é uma ideia de supremacia ocidental em relação ao Oriente e ao resto do mundo. Representa um plano imperial à conquista da Índia, i.e., o continente euroasiático, no sentido anunciado por Camões, em Os Lusíadas. O poeta pretendeu actualizar Homero cujas Ilíadas unificaram as margens do Mediterrâneo. O próprio participou na construção da modernidade atlântica conquistadora, sequela da Reconquista, vingança católica pela queda do Império Romano.

 

A guerra contra os turcos vitimou D. Sebastião oito décadas depois do tratado de Tordesilhas, em que a Igreja Católica ofereceu o mundo a explorar aos dois reinos ibéricos. Oito décadas depois, esses reinos unificaram-se contra o resto do mundo, quando às riquezas da Índia já tinham acrescentada as da Terra Nula dos índios das Américas. Os Filipes bateram-se contra os Países Baixos e a Inglaterra que se entendiam com direitos de saque e lhes iriam suceder historicamente como sede do império ocidental. A sede do império foi subindo para Norte e a exploração do Sul foi intensificada.

 

A identidade do ocidente reforçou-se com as Revoluções Americana e Francesa. A iniciativa das monarquias imperiais foi substituída pelas ainda mais agressivas repúblicas imperiais. No meio de duas Guerras Mundiais, a sede imperial mudou-se mais uma vez, agora para os EUA. As lutas pela supremacia nacional na exploração da Terra institucionalizaram-se na ONU.

 

Quando a humanidade parecia estar a reconhecer-se unificada, em torno da globalização, todas as contradições emergiram vigorosas: as alterações climáticas, os refugiados, os genocídios, as ameaças nucleares, a corrida aos armamentos, a violação do direito humanitário e das regras democráticas.

 

No século XIX, a ostracização imperial do mundo metamerizou-se em luta de classes e colonização. A primeira parte do século XX dedicou-se a abolir formalmente o capitalismo e os impérios, enquanto intensificava e alargava a competição própria da missão imperial, a exploração da Terra e das pessoas. Durante a Guerra Fria, os cientistas notaram o surgimento de riscos ambientais associados às armas nucleares e à poluição industrial. A esperança na globalização, na Pax Americana, revelou-se um pesadelo. A democracia que alegava ser útil para favorecer transições pacíficas de poder entre elites serviu de pretexto para guerras preventivas e de mudança de regime onde houvesse petróleo ou interesses estratégicos. A democracia que nunca funcionou para outros deixou paulatinamente de funcionar também nos EUA e na Europa, levando consigo o respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito.

 

O império cru, sem moral com que possa recobrir-se, é um rei nu que mais parece um palhaço, um bobo. Procura desesperadamente inimigos para sacrificar e distrair as atenções dos eleitores. Mas não pode, evidentemente, prescindir da missão imperial, a fonte do seu poder hegemónico e também de todas as crises económicas, bélicas e humanitárias. 

 

A Europa imperialista, humilhada e desprezada não pelos genocídios em que participa (isso não parece afectá-la), mas por não ser ouvida superiormente, tem acompanhado os movimentos do Presidente Trump, mesmo que não se vislumbre alguma regra moral ou geopolítica ou económica que possa justificá-lo. É mera dependência. Constatado o facto, a resposta das elites europeias tem sido organizar uma economia de guerra. Como se as rivalidades nacionalistas europeias não constituíssem uma profecia de guerra intestina que se auto-realizará com grande probabilidade.

 

Foi o Ocidente que inventou a agência humana, a ideia de a vida não seguir os padrões das tragédias anunciadas. Porém, a sensação de se estar a reviver o espoletar de outra guerra mundial persegue-nos. Foi assim que a Inglaterra cedeu a sede imperial para os EUA. Será assim que os EUA cederão o seu lugar actual a quem vier depois?

 

A agência é imperial e fonte das contradições em que vivemos. Mas a agência também é abolicionista. Há vergonha e respostas contra a escravatura, o patriarcalismo, o clericalismo, a exploração, o colonialismo, o totalitarismo e tudo o que parece demais.

 

A depressão europeia actual é mais uma oportunidade de escolha entre continuar a permitir a intensificação da missão imperial, das desigualdades sociais, da miséria humana, da acumulação de lixo, do extrativismo, das guerras, ou reconhecer o erro original de confundir libertação das tradições com subordinação à missão de nulificar a Terra e a humanidade. 

Final feliz?

 

Face à falência da prosápia de economistas e banqueiros que diziam ser impossível ocorrer uma crise financeira, pois os seus computadores estavam a controlar a situação, em 2008 debateram-se duas explicações para o sucedido: uma moralista e outra mecanicista. a) O império financeiro, como o Romano antes dele, estaria a ruir por razões morais: a ganância de alguns banqueiros; b) o império financeiro seria apenas um espelho do modo de produção que se caracteriza por emperrar ciclicamente, a precisar de revisão, como os automóveis.

 

A ideia de a missão imperial ser imoral, por definição, e de isso contaminar tudo o resto, as empresas, os estados, as relações internacionais, as profissões, as instituições, não foi equacionada. Terá chegado a hora de o ser? Estarão criadas as condições para que por democracia se passe a entender a criação de condições de libertação das pessoas, dos trabalhadores, dos cidadãos, da parte imperial das suas identidades pessoais e sociais?

 

As condições objectivas estão criadas. Mas, de momento, prevalece a recusa dessa democracia tão necessária. Quem mais sente que a vida não corre bem tem preferido recorrer à irracionalidade, à autoflagelação neonazi-fascista, na esperança de preservar a supremacia que a missão imperial promete. Quem ainda não sente directamente a degradação das condições de vida tenta acreditar que tudo voltará ao normal, como se não fosse a normalidade imperial a causa da nossa depressão colectiva.

 

Na Europa, os apelos à guerra a pretexto de evitar a guerra substituíram a retórica sobre a supremacia pacifista e economicista dos valores ocidentais. A retórica da paz serviu para continuar os negócios que estavam a correr bem. A guerra serve para substituir os negócios que estão a correr mal. Sempre no quadro da mesma semimilenar e imoral missão imperial.

 

As ténues e passageiras esperanças de outra globalização possível da viragem do século e da Primavera Árabe que parecia corroborar com elas uma década depois revelaram-se insuficientes para evitar a continuação do mais brutal autoritarismo e o correspondente actual aumento das depressões e do burnout. A Guerra Infinita que, em 2003, usando a mentira, apelou às Cruzadas através dos representantes dos estados ibéricos e anglo-saxónicos prevaleceu. E com ela a missão imperial e o sofrimento ético de quem com ela colabora para viver, para desperdiçar a vida. 

 

O abandono popular da participação eleitoral notado por Saramago antecede e corresponde ao abandono da doutrina da comunidade internacional de substituir a violência pelo confronto racional de argumentos. Em termos domésticos, recrudescem as lutas de classes. A nível internacional, impotentes, a diplomacia e as organizações internacionais limitam-se a tentar manter os respectivos empregos. O vulgo assiste aos eventos extremos, uns mais climáticos outros mais bélicos.

 

Pode imaginar-se um final feliz para a situação actual?

 

À falta de melhor, a ideia de a China ser um império pacifico, como o nome do oceano que a banha, tem animado quem esteja disposto a abandonar o barco em afundamento. Infelizmente, a China nunca experimentou a democracia respeitadora dos direitos humanos, sequer formalmente. Só se tornou rival dos EUA porque adoptou para si a persecução da missão imperial ocidental. Revelou-se mais eficaz em levá-la a cabo, o que tornou (mais uma vez) as elites ocidentais admiradoras do totalitarismo.

 

Face ao resultado prático da globalização, que é o sucesso maior da missão imperial inventada pelo ocidente, como europeus cabe-nos assumir moralmente as nossas responsabilidades e corrigir o tiro: recuperar as ideias de humanidade, aldeia global, sociedade do conhecimento, tão admirada por todo o mundo cosmopolita, mas agora num sentido positivo, abolindo a exploração da Terra e das pessoas. Será uma alternativa ao mero reconhecimento de facto da maior efectividade da China totalitária no cumprimento da missão imperial.

 

Na nossa frente está a mais profunda tarefa que imaginar se possa: transformar as nossas identidades europeias ajustadas e submissas à missão imperial noutras identidades capazes de a abolir na prática, e não apenas de jure. As abolições do colonialismo, do totalitarismo, do imperialismo, foram consensuais nas décadas da globalização que se viveram entre a queda do muro de Berlim, em 1989, e 2015, ano em que a União Europeia foi admoestada pela ONU por violação dos direitos dos refugiados sírios e em que violou expressamente a vontade dos eleitores gregos de se libertarem da política de austeridade imposta aos países do Sul da Europa. Nessas décadas, o capitalismo continuou a florescer por a direcção da missão imperial ter transferido as fábricas e a exploração de trabalhadores dos países desenvolvidos para a China. Concebido para ser um instrumento de uma missão supremacista, o capitalismo produziu na China aquilo para que foi desenhado para produzir: exportar socialmente discriminações sociais, hierarquizações crescentes, confusão mental.

 

Os liberais convenceram-se da supremacia da sua ideologia e das suas crenças. Que a industrialização apenas serviria os seus interesses, mesmo na China. Atrapalhados, perceberam que se enganaram. Os chineses, ou melhor, os herdeiros do milenar império chinês também sabem distinguir aquilo que dizem (que são comunistas) daquilo que fazem (com Deng Xiaoping, decidiram aderir à missão imperial ocidental). O Partido Comunista Chinês desenvolveu de forma planeada a transformação das identidades dos chineses para se tornarem outra vez orgulhosos da sua missão no mundo, ultrapassando o trauma das humilhações ocidentais do século XIX. Fê-lo, infelizmente, envolvendo-se na consecução da mesma missão que construiu o ocidente em torno dos ódios à natureza e à humanidade.

 

Os europeus estão em posição privilegiada para participarem positivamente na mudança de identidades dominantes produzidas globalmente pela missão imperial. Povos como o português, sabem bem que a subordinação à missão imperial pode parecer lisonjeira para alguns durante algum tempo, mas acaba por ser penosa para quase todos no longo prazo. Os povos do Extremo Oriente ainda mantêm memória amistosa dos animados portugueses que, séculos atrás, lhes transmitiram as novidades ocidentais. Nesse tempo, nem uns nem outros sabiam dos males que o capitalismo haveria de revelar existirem no seio da missão imperial. Mas hoje, são os portugueses quem, no mundo, sabe de experiência historicamente feita o que é servir o imperador e ser humilhado e abusado ao serviço da sua missão.

 

Recuperar o orgulho de ser português não passa, como pensam os neonazi-fascistas, por insistir em submetermo-nos à missão imperial. Isso não é orgulho, é automutilação. Recuperar o orgulho de ser português também não passa por aderir à liderança chinesa da missão imperial e esperar que o comunismo seja agora diferente do que foi na União Soviética. Os portugueses viverão orgulhosos quando aprenderem a reconhecer-se nos povos indígenas com que nos orgulhamos de ter convivido e na hospitalidade com que nos receberam, apesar dos negócios imperiais que suscitaram a mobilização dos piores instintos humanos. Tais povos, como os nossos camponeses de que ainda há memórias recentes, mantêm tradições de amor à natureza e de respeito pelas pessoas que nos podem inspirar a ser diferentes do que somos hoje.

 

Claro que há nesta esperança de ressurgimento do orgulho de ser português uma dose de lirismo. Mas não será ele necessário perante as calamidades naturais e bélicas que nos assolam? Não será ele útil para persistir e desenvolver a solidariedade cívica que emerge naturalmente das catástrofes, substituindo o desempoderamento burocrático das pessoas com falsas promessas de ajudas do estado? Não será instrumental para combater o neonazi-fascismo? Não será o discurso poético uma das forças da língua portuguesa? 

Fotografia de António Pedro Dores

António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e  https://libertacao.hypotheses.org/

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