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Poemas | Célia Aldegalega

Foto de Matt Hoffman na Unsplash

Quando me sinto um osso oco

assesto um olho

e perscruto-me 

                                    periscópio.

Art is not meant to be created in stolen moments only.

                                    Clarissa Pinkola Estés, Women Who Run With the Wolves

*

8 e pouco

 

Horizontal 

seria eterno 

o oito vertical no calendário

mas aquoso março agita marés vazas

em parte, a data vexa

celebrar metade da humanidade

por decreto

evidencia os assimétricos desígnios 

 

agradeço as rosas

as elegias

todas as dedicatórias

tatuadas na pele das redes

onde marulhamos como peixes vagos

mas não celebrem por hoje

ser mãe, e tudo o mais que encaixa

nas mãos, nos braços, nas vísceras e entrepernas das mulheres

                                            são méritos postiços 

queremos que nos elogiem as vontades

as coisas que fazemos à revelia de costumes

e da anatomia

 

agora mesmo

interrompi os versos

para lavar roupa interior

aproveitando uma pausa na chuva

e

aconcheguei o que resta da minha mãe

 

assim se repartem as mulheres 

entre tarefas espurcas

zelos

e (di)versos

gestoras plurivalentes da inexatidão dos dias.

 

fotografia de Célia Aldegalega.

Célia Aldegalega: Licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas -PT e EN- pela FLUL, e pós-graduada em Produção pela ESTC, foi profissional na Música durante 27 anos; passou pelo Teatro, Rádio e Jornalismo, e pela docência.

Publicou Multiverso em 2021, poesia escrita durante o confinamento. Presente em antologias e algumas publicações. Publicou o ensaio World Music: o planeta da (di)visibilidade, em 2024. Diz em sessões de poesia. 

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