Cultura

Walter Benjamin – cultura, contratempo, contrapelo e História: apresentação da autora sobre o seu mais recente livro | Lucyane De Moraes

Foto: Walter Benjamin (1892-1940)

Em oposição a uma ideia atribuída de que Walter Benjamin era apenas um crítico literário, cabe afirmar, tanto quanto possível, a importância de seu legado teórico em sentido mais amplo, evidenciando suas contribuições nas diversas áreas do conhecimento. Para além do que se atribui, Benjamin não foi simplesmente um autor nostálgico, melancólico, místico e enigmático. Refiro-me a um pensador da história e da sociedade, cuja reflexão se torna um instrumento para questionar interpretações dominantes que perduram do passado e repensar a relação entre memória, cultura e experiência histórica, encontrando na cultura ocidental elementos críticos que possibilitam a superação da ideia de filosofia em termos tradicionais, aferindo a essa um sentido singular.

 

Como assinalou Theodor Adorno, «seu filosofar tem o olhar de Medusa», metáfora atemporal de um olhar petrificante que desafia sistemas hegemônicos, fazendo dele um símbolo de resistência. Torna-se evidente, portanto, o quanto seu pensamento atende, inclusive, às questões do tempo presente e como se faz consequente na medida em que postula a necessidade de outras formas de pensar a história no sentido da articulação entre esta e uma sociedade autônoma.

 

A reflexão de Benjamin sobre cultura e tempo histórico revela uma crítica aguda à ideia de progresso moderno. Segundo ele, a história não deve ser entendida como uma trajetória linear de desenvolvimento inevitável, mas como um tecido fragmentado, marcado por rupturas, lacunas e pela lembrança constante daqueles que foram derrotados ou esquecidos.

 

Dessa forma, o progresso deixa de ser uma sequência natural de avanços e se mostra como um mecanismo que consolida desigualdades, promove o esquecimento e esconde a continuidade da barbárie. O historiador, então, não tem a missão de reproduzir a versão dos vencedores, mas de quebrar o fluxo contínuo da narrativa histórica, fazendo emergir, no instante presente, fragmentos de um passado silenciado, com vistas a lançar luz sobre o agora.

 

Cabe ao historiador materialista, portanto, desestabilizar essa percepção linear do tempo, libertando o passado do conformismo que o aprisiona, de modo a revelar imagens dialéticas capazes de questionar criticamente o presente. Nesse sentido, a concepção benjaminiana de “história a contrapelo” propõe uma leitura alternativa, contrária à narrativa teleológica, que enfatiza momentos de resistência, sofrimento e esperanças que permaneceram à margem da história oficial. 

 

Para tanto, destacam-se categorias como superestrutura, mediação, mercadoria, contradição, técnica, fantasmagoria e forças produtivas, possibilitando abordagens alternativas de fenômenos subjetivos, em contraste com a lógica da cultura industrial coletivizada contemporânea. Essas categorias podem ser compreendidas a partir de uma interpretação material da realidade, como propôs Benjamin em As Passagens, fundamentando-se no método de Marx e em seus pressupostos: a teoria deve representar, como ideal, os traços constitutivos do objeto real. Dessa forma, o método se ajusta às demandas do próprio objeto de estudo, reconhecendo que qualquer construção metodológica precisa estar em consonância com a natureza do que se investiga.

 

E ao assumir um caráter ensaístico, sua escrita vai muito além de um simples exercício formal ou estilístico, voltada para uma interpretação da história guiada pela necessidade de compreender criticamente os processos sociais de seu tempo, sem perder de vista os significados atribuídos ao passado. Sob esse enfoque, o livro sobre Walter Benjamin recorre a conceitos que não apenas estruturam a reflexão teórica, mas também servem como meio para repensar a história e analisar a cultura como um espaço de disputas sociais e políticas. Nesse contexto, a literatura e a estética surgem como meios privilegiados para fazer avançar as experiências sociais mediante suas contradições históricas, sob uma dialética sem fim nem começo que continua sempre.

 

Num exercício de pensamento crítico, o livro leva a termo a continuidade das reflexões benjaminianas contrárias a um conjunto de ideias que reproduz modelos estandardizados (im)postos na mesma condição ao mundo contemporâneo. E ao promover a abordagem de assuntos os mais diversos – desde aqueles relacionados ao colapso do ideal burguês até à análise da psicologia social na coletivizada cultura industrial – procura valorizar instâncias ligadas à percepção da experiência autêntica, tal como assinaladas na quase totalidade da obra do filósofo.

 

Por certo, o volume não pretende dar conta da estrutura geopolítica da sociedade germânica à época nem apresenta uma sequência linear dos acontecimentos da vida do filósofo e tampouco ordena sistematicamente a sua obra. O que se buscou foi a construção de uma narrativa temática enquanto livre exposição de suas ideias. Em outras palavras, não se pretendeu fazer uma história completa de seu itinerário, embora um dia se anseie fazê-lo.

 

Com o propósito de ampliar o legado de Benjamin, o livro busca evidenciar aspectos relacionados à percepção da chamada «experiência autêntica» (Erfahrung), conforme concebida pelo filósofo. Tal perspectiva reforça a noção de que, quanto mais abrangente é a consciência do sujeito, maior se torna sua sensibilidade diante da recepção do objeto. Nesse sentido, a obra benjaminiana não é apresentada como um corpo teórico fechado, mas como um pensamento em constante construção.

 

É nesse contexto que o exercício crítico proposto por esta edição se revela cada vez mais indispensável à medida que as sociedades contemporâneas se veem imersas em suas próprias contradições. Sob esse enfoque, evidenciam-se as múltiplas possibilidades de reflexão suscitadas pela obra de Benjamin, experiência que demanda uma leitura rigorosa, ativa e por assim dizer engajada. Desse movimento emerge a crítica às sociedades que, orientadas prioritariamente pela lógica da funcionalidade, tendem a reproduzir modelos hegemônicos como padrão normativo.

 

Tendo em vista que aspectos decisivos dos escritos de Benjamin foram tanto mais esquecidos quanto menos lhes foi conferida satisfatória relevância na abundante literatura dedicada às suas teses, a presente edição resgata aspectos marcantes de um autor de inequívoca demanda pública. É, portanto, um convite ao leitor que deseja se aventurar na apreciação de seus conteúdos, na rememoração de seus primeiros passos, nos rastros de suas últimas passagens.

 

Na tentativa de aproximação a uma experiência-narrativa que difira de uma exposição de mero aspecto comunicativo – e, por isso, mais associada à noção de constelação – estão aqui manifestas temáticas notadamente caras a Walter Benjamin, abrangendo diálogos e reflexões sobre cultura, contratempo, contrapelo e história.

 

Como adquirir:

 

No Brasil o livro pode ser encontrado em sua versão impressa nas livrarias parceiras do Grupo Altabooks ou solicitado diretamente no link: 

https://altabooks.com.br/produto/10-anos-de-remicao/

 

Já em Portugal está disponível em formato Ebook em:

https://www.amazon.com.br/Walter-Benjamin-contratempo-contrapelo-hist%C3%B3ria-ebook/dp/B0G6GD6GBC/ref=tmm_kin_swatch_0

 

Especificidades: 

Editora‏: ‎ Edições 70

Data da publicação: ‎ 31 janeiro 2026

Edição: ‎ 1ª

Idioma: ‎ Português

Número de páginas: ‎ 196 páginas

ISBN-13: ‎ 978-6554273664

Peso: ‎ 350 g

Fotografia de Lucyane de Moraes

Lucyane De Moraes – Doutora em Filosofia. Atualmente vem se dedicando à pesquisa, atuando principalmente nos seguintes temas: Memória, Filosofia Social, Cultura Material e Imaterial e Recepção de Novas Mídias da Imagem e do Som, com ênfase na Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. É também autora do livro Theodor Adorno & Walter Benjamin – Em torno de uma amizade eletiva (2023). @lucyanedemoraes

 

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