Cultura

Excripta em PANMIXIA | Luís Serguilha

Imagem: Caminho da Estrela

“Excripta em Panmixia_1”: Pintura de Georgia O’Keeffe.uma EXCRIPTA: bolsa de urostomia a eclodir, ganchos rugosamente manejáveis e laços vilosos  do fecho velcro rupturam-se, uma mão-vitiligada tenta tamponar o estoma, sua envolvência oclusora falha, lacera-se, secreções sanguinolentas carregadas de muco evadem-se terrificamente pelos dedos: um LAHAR em convecção e ressurgência pelo orifício devorador da pele: uma EXCRIPTA acontece na traceria de idioletos autofágicos, assimila a ociosidade do abandono, oxigena-se ao esgarçar-se no olho do albatroz, faz do prolapso arterial e das esfoladuras purulentas um espelhamento da espalação com exsudatos a rebrilhar pelas ruínas: há uma física de impacto das agudezas descamativas onde um dicionário sôfregamente silencioso e meândrico se lasca e se rendilha simultaneamente: uma cabeça se propaga esfacelada pelo aranhadiço do impensável, um verbo falha fistulado e um tensionamento cardíaco cria sentido perante a hematose do horror: uma EXCRIPTA afasta as lises das crostas, esculpe o que move pelo tornar-se informe, desconhecendo as fibrinas da sua existência: há uma gigantesca hiância feita de esboços de prófagos, de obscuridades, da física dos alvoroços, de vazios rítmicos, de rasgaduras heteróclitas, de equívocos camaleónicos, de sarandalhas clásticas, de olhos que não conseguem estagnar, atingindo por meio das fendas puras do tempo uma cegueira arreica: EXCRIPTAR dentro de LONGSORAN com nervos desumanizadores entre estiletes do delírio e os arquivos das reminiscências envolvidas por uma colossal-LÍNGULA em deformação omnívora, micorrízica, alheia, sismonástica, arreica, micelial, autotrófica, hamuli, latifoliada, alofila, hifal, saprófita, iliofágica, ádvena e autotómica: uma LÍNGULA da LÍNGUA-A-LÍNGUA-voçoroca, exodal e intemperística: uma língua entre salpas, larvas e rotíferos: uma língua em carstificação: uma língua-hepática-talóide, uma língua-rizóide e uma língua-amíctica com quelíceras pegajosas a capturar presas: uma língua anastomosada vinda da reperfusão e da ressecção do mangue: uma língua a embater nos utrículos, nos sáculos e no ducto colear, provocando NISTAGMOS: uma língua-opúncia, heteróclita, filária, serícea, forófita-epífita pelo propágulo de uma mão-vitiligada à volta de um gigantesco hadroma: língua-bicha-cadela e anfivasal: uma língua em ZOOCORIA: uma língua-LAHAR pelas  mescalinas, wachumas, amanitas  muscarianas, ibogas, juremas e ayahuascas transmuta-se em Hãpaya: bico do pássaro Txaná-janipim a esculpir baptismalmente uma língua com um empapado de malagueta-sani yutxi: ecoam cantos e rezas ancestrais: há palavras-sons, estribilhos avermelhados e uma dança de NIXI PAE: escutam-se chocalhos e uma flauta yapuru: uma língua pela folha chacrona: há silabações, vocalises, ditongos e cantos repetidos alucinadamente: uma língua pela jaguba dos espíritos se torna palavra-canora-rítmica: uma língua-exuvial-ecdisona em metacrose: uma língua morfogenética: uma LÍNGUA-DRÓSERA: uma Língua-Mimosa pudica-Melissa-fecha-a-porta com cataplasmas arroxeados, bolinhas de lá rosáceas e pontos esbranquiçados: uma vagem espinhenta, abrolhosa, baça e terrulenta a fender-se alucinadamente:  uma Língua-cobra-branca, uma Língua-mamona-ricina, uma Língua-caja-lobo, uma Língua-taxus-baccata, uma Língua-mamona, uma Língua-guisante-de-rosário, uma Língua-aconitum, uma Língua-cicuta, uma Língua-noz-vómica, uma Língua-olho-de-boneca, uma Língua-oleandro-ageratina, uma Língua-alamanda-lantana, uma Língua-cerbera-odollam, uma Língua-beladona, uma Língua-trombeta-de-anjo, uma Língua-espirradeira, uma Língua-manchineel e uma Língua-chirívia entre palpitações, rasgos vasculares, abrinas e glicosídeos do  fascínio: uma língua a vibrar entre acresções e ruínas a bater no fluxo  retrógrado de um ventrículo: dizem: uma aurícula em coro, um átrio ruidista, um pulmão a rumorizar o desconhecido, cordas tendíneas polifónicas, um orifício em contração palimpséstica, uma trabécula neumática, um diafragma monódico, pontos de inserção das versonates, alguns vasos fonéticos, uma válvula glossolalíaca, bulhas coronárias em diplofonia e uma voz epicórmica pelo vazio do excesso:  uma língua em nó-borboleta com alças de desvio na ancoragem turbilhonar: uma língua em nó cego e de correr na guimba do azorrague: uma língua em nó de cadafalso e de fateixa entre solavancos, amantilhos e arinques: uma língua com nó orográfico-paramillo: uma língua com nó de gancho e um barbante  a dobrar-se pela própria emulsão: uma língua a passar pela esticagem dos poleames surdos: uma língua em nó górdio insolúvel a fazer escambo eutrofizada: uma língua em nó catau com reforço ininterrupto pelas amarrações celtas: uma mão-OLHAL com defensas de açaflor e atracadouros cheios de manilhas e de RIZOS a içar um anzol-de-chapinha e uma garanteia de uma língua-mestra, transportando  restos de guaiás, de muçuns, de siriri, de cernambi e vôngole pelo abate da sua afasia: folhas apodrecidas pelas entalpias de um arcabouço apinhado de estromas e de favos miasmáticos: por baixo, uma gamela ferrugínea e com fios ondulados transborda contra uma malhadeira de ar: uma língua forrageira absorve hifas, lodos, hilos, mondando mucilagens até à muda que a arremessa para um germoplasma com óleo de tungue rés a uma semeação ruderal: uma excripta crespa abala-se com acréscimos crustais e com palavras suspensas ao lado do abissal e voltadas para a frente da combustão,  abocando-se simultaneamente para fora de uma brecha ferruginosa: palavras encontram-se disfarçadamente isomorfas diante de dobras com fechamento para cima das imagens em arremesso para a frente da folheatura de uma excripta, cruzando um arco magmático da mão, deformando-a: uma excripta se torna baixio anterior, aluimento vindouro, cristalografia de bruços, arrancamento dorsal e apófise movediça adjacente  à drenagem das fácies sedimentares  onde dedos rebentam pelo meio das gretas da lateral, elevam-se através da iluviação dos próprios ínfimos, eluviando-se: há uma  dissecação craniana, caudal, externa, embrenhada, dérmica, densa, crassa, posterior e plantar: aqui-agora: palavras e imagens aparam, desbastam e lamelam suas dobras mais intrincadas até meteorizar rejeitos pelas leveduras de um gigantesco peneiramento lêntico: uma excripta em curvatura, dilatação e afastamento, aduzindo-se com catracas da aridez e circunduções resinosas a envolver uma mão de bruços que se supina de seguida, invertendo falhas lístricas a partir de uma queda eutrófica, virando-se para baixo e fazendo da posição prona uma calha emersiva: uma excripta a rebentar por meio da espícula de uma cabeça, do pescoço orógeno, da marga do tórax, da irrigação do abdômen, da massa de ar pélvico, dos membros superiores e inferiores pela falha de cavalgamento: por vezes, de impulso, transpondo e virando contra um mélange verbal: uma língua pelo nó de ajuste e de escota a enlaçar a adriça, desfraldando para ajaezar junto aos fluxos colatícios: uma mão apinhada de afídeos escava suas aleias e se torna amarrio de aparas com arrochos arqueados sobre uma atemóia de casca mais fina: uma língua com nós de estribos a abordarem-se, abocando tenazmente uma argola, uma alavanca e uma taramela adjacente ao arranquio de outra língua-em-mó, fermentando suas estaquias até atingir fios-reversos: uma língua com nó de trança, de andaime, de anzol, de pinha do arganéu e um lenço com lábia avermelhada rebrilha à volta de uma baga carnosa e de um balaio de palha: uma língua de nó de  cirurgião e de arnês a esgalhar-se pelo eileiramento: outros dizem: ligames de sirga a abrochar, a cingir o que os açambarca e interrompe, ocultando suas terminações: uma língua dá uma volta por meio do guincho e do arrasto religando outra corda-linguada, rebocando em torção um bebedouro com brácteas e miíases entre uma voz por vir e um besouro rola-bosta: betumar e emboçar a língua com ar da retranca, reserva e hesitação em torno de betumes, brotações e bulbos: uma língua em nó heráldico a espiralar-se com gavinha e anel abotoado em curva sigmoidal: outras vezes, uma língua com nó de moringa e de laçada suspende falas estranhas no seixo rolado: uma língua com nó em oito extrai de um brunidor, resquícios de cactos e de cânhamo ao redor de vestígios de calagem: uma língua lais de guia no arcabouço de um náufrago com alguns talos na boca gomosa e uma drupa pelo ângulo lúteo reluz: uma língua em nó balso pelo seio corrediço com duplas levantaduras de carnaúba a testemunhar um salto de anjo e um sabugo pelo rolo-faca entre seda bruta: uma língua de polpa de cártamo sobre as reversões do carbúnculo e do carcoma: uma língua  em nó prússio e com nó de pescador a decantar uma debulhadeira por meio de uma rosca em V: uma língua com nó-volta-do-calafate e volta-tortor em reviramento com veios de um necrófago onde uma tarraxa vibra cheia de cio pelo corta-fogo: uma língua com alças em giro, encapeladuras com retornos pelo laço da derriça, seios a arregaçarem-se pelo desbaste,  apêndices a oscilar nas polias, vínculos a cruzarem-se nas linhas de gotejamento, restos de extremos de amarras a impregnar volteaduras nas emendas com gaxetas de válvulas e êmbolos entre embaraços crepusculares e junções de trama: dizem: língua-rádula e segadora com ancinhos, ciscadores, rastelos e engraços sobre a rocha vítrea e o sisal  de um vertedouro da excripta: uma língua-sedeira de saúvas, peçonhas e raivas onde uma serapilheira de estolhos e de estercos é roçada por minúsculas enxadas rotativas: uma fenda profunda da  língua absorve pirólises de carvão e criadouros de pingentes e uma excripta abrolha das entressafras de loucura a desossar-se com fósforos, hulhas e mucos à volta de um espeque da encostia em estancamento: de quando em vez, depósitos de poça da língua se tornam resíduos de fibras trilhadoras com cortes rasos plenos de defesos de cumarinas: ainda há uma língua de cormo e de colmo a desbrotar entre refugos cupulados e carragenas a abrasar o íleo e o jejuno: uma excripta com eitos e escoramentos na desrama enzimática de uma língua a eclodir pelas frieiras vitiligadas de uma mão: língua que é fio torcido, espata e espádice pela leiva de limalhas e míldios a explantar-se com garrotes ínfimos na esgalha: uma língua-placenta-de-cacau sulcada por gravetos ao redor de uma catabiose e uma excripta com uma eclusa avermelhada revela estrias conjuntivas com fugazes fustes por dentro de uma moenda: oh cibirra milagreira pinçada por uma língua coloidal batendo noutra língua-de-cepa-rizomorfa com enfiadas de brincos fosforescentes pela excripta a encoiavar-se carregada de apotécios ancestrais ainda em compostagem próximos aos samburás: uma taioba na boca edáfica abalroa uma língua que a penetra com pedaços de cipó, tornando-se numa ensilagem: uma língua esporífera e ilegítima: uma língua rudácea atritada pelo germes da secagem em vernalização, trilhando suas grotas e taludes: uma língua a esbarrar no ruminadouro efervescente e se transmuta em prensa de vagens secas à volta de uma terrífica sêmola na embocadura da excripta com piso falso: dizem: cascalho grampeado por dentes-de-cão no arrasto da corda com algumas pegas laterais: outros dizem: um calço, uma cornija, um tálus e um recorte evasivo se fazem batedores epifreáticos, e agora, a excripta se transmuta em verruma divulsionada pela língua em gancho orbital: é uma punção a espelhar cruelmente uma fiandeira de sementes de paiol e uma tremenda queda do ziper diante de um vislumbre-ponto-roseta: uma língua  ádevna rebuça-se, embaraça-se, abjura-se, encorrilha-se, estorcega-se insolitamente, coa-se com abjecções, deserta-se, infecta-se e contagia ao esvurmar sua doblez: uma língua forânea sempre em catástrofe germinativa a ritmizar-se por meio de uma estilização caótica e acósmica: aqui-agora: uma alidade da mão mostra a terra de fundo da excripta e uma ampola circinada ecoa no jarro canópico com resíduos de evisceração onde se retira memórias dos órgãos do morto envolvidos por madeira, pedra, barro, gomos, escaras e alabastro: nas tampas do jarro há cabeças de um homem, de um chacal guardião dos mortos, de um babuíno com tremendos caninos, de um falcão cinza-azulado e de uma contorcionista de astros a proteger fígados, pulmões, estômagos e contorções entéricas: há uma coluna afiada pela mão e uma bainha de tensões de tempo fendida por uma espora oblonga da palavra a cravar-se no zigurate com  restos de osteologia e ferramentas bifaces contra excrescências cheias de escapos florais: outras vezes, artefactos desviam-se do receptáculo alargado da mão e lapidam instrumentos concrescidos pelas próprias percussões da excripta: aqui-agora: uma petrologia escamífera resgata uma zona de escavação das palavras no encontro com imagens coriáceas, apiculadas e falciformes: outras vezes, uma excripa concoidal cria um hipóstolo lapídeo e uma mão em estilete pela varve, absorve um dicionário bilabiado, cartáceo, filiforme, valvular, lanceolado e em crenação pelas ascídias: uma excrita fortemente torcida com andróforos, antelas, verticilos e aquénios a dilatar  pequenas vesículas e utrículos: uma lâmina na convoluta bifidez entre alas faiscantes de uma reminiscência-do-esquecimento: uma língua sobre cápsulas de vidro e folíolos urentes rés às silíquias e à prorrogação de um eixo pela unguíncula dos extremos a rasgar sentidos: dizem: gluma verbal palmada e invaginante e com preflorações cingidas em torno do ápice de uma excripta latescente, lígnea e paludosa: uma língua com baque virado e solto entre batuqueiros, ganzás, gonguês, taróis, tambores e lanças de mão em mão, abençoando: há uma língua de boi pela ressurreição do curandeiro: golas de lantejoulas puxam delirantemente a dança: alfaias rebrilham, há uma toada, um agbê com pancadas cardíacas cabeça acima e cabeça abaixo: campânulas de metal espelham batidas frenéticas dos pés e das mãos-vitiligadas: há uma língua serpentínica pela excripta em PANMIXIA.

 

In Obra Poética  de Luís Serguilha

 

Luís Serguilha, poeta, ensaísta

Fotografia de Luís Serguilha. Autor da foto: Márcia Charnizon.

Luís Serguilha nasceu em Portugal e nos últimos anos percorreu algumas geografias da América do Sul. É poeta, ensaísta e curador de arte ibero afro americana. Publicou 17 livros de poesia e ensaio: Kalahari, Plantar rosas na barbárie, Falar é morder uma epidemia, os esgrimistas de Á-peiron, Hamartía e ACTRIZ ACTRIZ – o Palco do Esquecimento e do Vazio são os títulos de alguns dos seus livros. Em 2022 publicou o 1 volume da sua obra poética no Brasil. Em 2024 e 2025, publicou os volumes 1 e 2 da obra poética em Portugal pelas Edições Húmus.  Radicado no Recife, criou a estética batizada como Laharsismo, estudada em Universidades. Recebeu os prêmios Hermilo Borba Filho e Júlio Brandão ambos da área de Literatura. Tem sido convidado por institudos e várias universidades ibero-americanas para conversar e ministrar conferências sobre os seus ensaios-criativos,  envolvidos por atractores estranhos, que atravessam corpo-arte-pensamento-poesia.

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