Cultura

Tardes brancas, de Afonso Borges | Lisa Alves

Foto: Afonso Borges

“Tardes brancas, de Afonso Borges_1”.

O livro chegou até mim pela generosidade de uma troca, dessas que não se explicam muito, apenas acontecem. Era setembro de 2025, eu me preparava para o 13º Fliaraxá (festival de literatura que acontece aqui no Brasil), cujo tema era literatura, encruzilhada e memória. Palavras que carregam bifurcações, desvios, escolhas, desescolhas e silêncios. Quando abri Tardes Brancas, tive a sensação imediata de que o livro inteiro se movia por essas mesmas forças, como se cada conto fosse uma dobra do caminho, um ponto em que a vida suspende o passo para decidir se continua ou se cai. Nada ali é reto.

 

Afonso Borges escreve como quem conhece intimamente o silêncio das palavras. Há na sua prosa uma economia sensível, uma precisão que não endurece; ao contrário, cria espaços para que o leitor respire dentro da cena. Ele não narra apenas, ele enquadra. Antes de explicar, ilumina. Antes de concluir, recorta. Em muitos momentos, a impressão é de que há uma câmera posicionada onde a vida começa a fraturar suas certezas. 

 

“Todo dia, em silêncio, Helena toma banho; em silêncio, se deita; em silêncio, adormece.” 

(A mentira, o botox e a noite sem estrelas)

 

Os títulos longos, quase como legendas fotográficas, acompanhados de subtítulos explicativos entre parênteses, antecipam essa estética do flagrante: 

 

“O coiote, o perfume e a sala fria do PS

(Como o açude fez Mário se encontrar)”

 

 “O vulcão, o rum e a bola dividida entre continentes

 (Como Lígia apareceu do nada e Deus, só no final)”

 

Eles soam como coordenadas de um mapa secreto, em que cada palavra carrega uma pista emocional, um desvio, uma armadilha suave. São pequenas cenas lapidadas até à essência, instantes suspensos em que violência, ternura, memória e espanto convivem numa mesma respiração. Muitas histórias partem de situações aparentemente banais, mas ganham profundidade justamente no ponto em que algo se rompe por dentro. E a ruptura é uma sensação que atravessa o livro inteiro. 

 

Dentro desses quadros iluminados, a vida brasileira pulsa com força. O assalto que vira espetáculo diante das câmeras do shopping, a mãe que se perde de si mesma num consultório de botox, o imigrante que sangra seu sonho no deserto, a mulher atravessada por 1969, o menino que cresce entre jagunços, tiros e uma garrafa de Coca-Cola que insiste em não quebrar. Às vezes a violência aparece como um estampido; outras, como um rumor. Em O coiote, o perfume e a sala fria do PS, a queda é seca: “Acordou pelado, babando, numa sala gelada e branca. ‘Tô morto’, pensou.” E, no mesmo conto, a travessia se resolve no corpo: 

 

“Ouviu um estampido e sentiu uma fisgada quente na perna, caiu do outro lado. Sangue, dor. Mas só depois. Agora era correr.” 

 

Há também momentos em que o universo literário entra em cena como se atravessasse a rua para caminhar ao lado do autor. Em A encruzilhada, o assovio e as garças, Murilo Rubião e Bartolomeu Campos de Queirós surgem como presenças que literalmente tomam o narrador pelos braços: 

 

“Murilo Rubião veio andando, sem parar, segurou em um braço do rapaz… Bartolomeu Campos de Queirós acompanhou os passos e segurou no outro braço. Começaram a levitar. Entendeu a encruzilhada, o caminho a tomar. E ouviu o assovio.” 

 

E é nesse mesmo território de memória e fantasmagoria que surge o conto A brisa, a queda, o Gueto de Vilna (Sobre o dia da morte de Abraham e outro, de gratidão), em que o narrador se aproxima do poeta Abraham Sutzkever, sobrevivente do Gueto de Vilna, misturando história, imaginação e trauma num ritmo oblíquo, como quem caminha por ruínas ainda quentes. O texto culmina numa das passagens mais intensas do livro:

 

“Acorda no escuro, gosto de sangue na boca. Cadáveres acima e ao redor. Luta, desesperado, para sair. Aos poucos, vê a luz do dia. Terra, sujeira, horror e sangue. Sai dali sem olhar para trás. Corre, chega no ponto combinado um dia antes. Espera. O pequeno avião pousa e o leva para a Rússia. Era abril de 1943.” 

 

O título do livro começa então a fazer sentido como metáfora. Tardes brancas são tardes suspensas, lavadas pela luz, em que o tempo parece não avançar, apenas observar. Em Tarde branca, sem sentido, Père-Lachaise, essa suspensão vira fantasma e retorno, como se a vida passasse por nós em estado de vigília. 

 

“Preferia não estar ali. Mas era tarde. Passeava pelos túmulos como se estivesse num parque. O cemitério Père-Lachaise era literário. Ali estavam os corpos decompostos de Oscar Wilde, Marcel Proust, Honoré de Balzac, Paul Éluard, La Fontaine e Cyrano de Bergerac..” 

 

Ao final, Afonso Borges nos presenteia com cinco poemas que funcionam como um suspiro, o mesmo olhar contido, agora mais musical, mais entregue ao tempo suspenso. Em O tempo quando para, o verso parece sintetizar o livro: 

 

“O tempo se parasse

atravessaria planos e faria ver

outros tantos desencantos

que a idade esconde

(…)

e a cor e a cor e a cor

destruindo ossos

aos poucos demolindo

poços de luz e memória”

 

Fecho o livro com a sensação de que Tardes Brancas é um mapa, não de lugares, mas de encruzilhadas invisíveis, dessas que atravessamos sem perceber. E voltei ao gesto inicial, a troca de livros, esse ato simples e antigo. Afonso me deu palavras, eu dei as minhas, e no meio desse cruzamento nasceu uma tarde branca só minha. Talvez seja isso que o livro de contos e poemas mais ensina: toda história é uma encruzilhada. 

 

E agora essa travessia também cruza o oceano, já que Tardes Brancas foi lançado, em 2025, em Portugal pela Editora Nós. 

 

Leiam, Afonso Borges!

 

“Tardes brancas, de Afonso Borges_2”: fotografia de Afonso Borges.

Afonso Borges (Brasil, 1962) é  jornalista, escritor e gestor cultural. Tem publicado o livro de contos Tardes brancas (Ed. Autêntica, 2024) e o infantil O menino, o assovio e a encruzilhada (Ed. Nós, 2022). É presidente da Associação Cultural Sempre um Papo e criou, em 1986, o projeto de incentivo à leitura @SempreumPapo e os festivais literários @fliaraxa (2012), @flitabira (2021), @fliparacatu (2023) e o @flipetropolis (2024). Atualmente, integra os Conselhos da ACMinas, do Instituto Terra e da SP Leituras – Associação Paulista de Bibliotecas e Leitura –, sediada em São Paulo. Há 26 anos, apresenta o programa/podcast “Mondolivro”, diário, na Rádio Alvorada FM, em Belo Horizonte.

“Tardes brancas, de Afonso Borges_3”: fotografia de Lisa Alves. Autor da foto: Fernando Rabelo.

 Lisa Alves (1981, Brasil) é escritora, videoartista e roteirista, com atuação na literatura e no audiovisual. É autora dos livros Arame Farpado (Coletivo Púcaro, 2015), Quando tudo for possível (Mirada, 2022) — uma poética da lesbiandade — e Jardim de Pragas (Patuá, 2025), uma contranarrativa patriarcal estruturada a partir das dez pragas do Egito.

Em 2025, venceu o Prêmio Nacional CEPE de Literatura pelo romance infantojuvenil A menina que não queria ver Deus, com publicação prevista para 2026, e recebeu também o Prêmio Nacional Motus de Melhor Leitura Crítica, promovido pelo projeto de extensão Motus da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA).

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