Cultura

Um bom encontro | Clécio Branco

Foto de Ryan Cheng na Unsplash

Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Nise da Silveira.

 

O tempo do pequeno príncipe não é o mesmo do piloto. Na verdade, o tempo das crianças não coincide com o tempo dos adultos. O tempo dos adultos é segmentado pela ordem social; o das crianças ainda será — algo necessário, mas, algumas vezes, também lamentável.

 

Cabe aqui um breve desvio para inserir O pequeno príncipe no contexto da cultura ocidental (cristã). Ele questiona o piloto quanto ao seu avião enterrado na areia:

 

— Então você também veio do céu! De qual planeta você é?.

Foi aí que eu percebi um raio de luz no mistério de sua presença, e lhe perguntei diretamente:

— Quer dizer que você veio de outro planeta?

Mas ele não me respondeu, balançava a cabeça suavemente, observando meu avião:

— É, em cima disso aí, você não conseguiria vir de muito longe, não…1 (Saint-Exupéry, 2019, p. 13–4).

O que é o homem senão o conjunto dos pedaços de sua cultura? Fisicamente, somos feitos de ossos, carne, pele, química, músculos e nervos. Mentalmente, somos emoções, sentimentos, paixões, desejos e sonhos. Socialmente, somos feitos de fragmentos da cultura do lugar em que vivemos. O autor não escapa dos condicionamentos de sua cultura, e é assim mesmo. Afinal, todo pensador é prisioneiro do pensamento de seu tempo.

 

O texto apresenta a figura simbólica da serpente, a vinda de um príncipe, a pureza de caráter, a transparência de suas qualidades, o deserto como lugar de metamorfose: ele é portador de boas novas. Uma nova forma de conceber a vida, a amizade, o amor e o mundo. Ele mostra como deve ser a relação com as coisas pequenas, essas coisas que os adultos perderam de vista: a sonoridade do mundo, os aromas, os animais, as pessoas e a natureza.

 

As crianças são portadoras de boas novas, a esperança para o mundo. Quando nasce uma criança, nascem também um pai, uma mãe, os avós e novas relações sociais com o núcleo familiar. Dentre as crianças que nascem hoje, talvez exista uma que traga uma nova suavidade, um novo afeto para o mundo dos adultos. E talvez até mesmo mude de novo as coisas que não estão indo tão bem. A figura do pequeno príncipe lembra o menino de Nazaré, que esqueceu os pais e permaneceu no templo judaico discutindo as leis sagradas com os adultos do templo. As crianças são assim: elas escapam dos olhos dos pais, seguem o fluxo e deixam as linhas da segmentaridade dos adultos. Por essa razão, elas precisam ser cuidadas bem de perto, mas os cuidados não devem impedir que elas criem seus próprios trajetos e mapas.

 

— De onde você veio, meu menino? Onde fica a sua casa? Para onde você pretende levar meu carneiro?

Após algum tempo meditando em silêncio, ele me respondeu:

— O bom disso tudo é que a caixa que você me deu servirá de casa para ele, à noite2 (Saint-Exupéry, 2019, p. 14).

 

O imaginário é o maior recurso da mente das crianças. Elas olham o céu pintado de nuvens, juntam os pedaços e subtraem figuras, imaginam cavalos alados, carruagens de fogo, peixes que voam, deuses e rainhas em seus tronos. A imaginação, a arte de confabular, portanto, é uma característica das crianças, algo que lamentavelmente deixamos de lado quando nos tornamos adultos. Perdemos de vista esse mundo das confabulações. Ficamos sérios demais e sufocamos a criança em nós.

 

É preciso que nós, adultos, olhemos o mundo com estranhamento, assim como estranhamos o bicho-pau, olhando sem saber e sendo conduzidos por ele a uma zona indiscernível. Os poetas nunca perdem esse olhar de estranhamento, por isso são especialistas em estados de fluxo. O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi investiga essa habilidade nos artistas, ou seja, a capacidade de entrar em estado de fluxo contínuo. O que é estado de flow? É uma linha infinita. O artista tocando piano, violino ou qualquer outro instrumento entra em flow e se deixa levar por uma sucessão de fluxos. O pianista japonês e cego de nascença, Nobuyuki Tsujii, toca Amadeus Mozart, Johannes Brahms, Frédéric François Chopin e qualquer outro compositor, ele mesmo é compositor. O músico entra em estado de flow ao seguir os sons e as emoções.

 

As crianças autistas, mal compreendidas, são exatamente assim: elas seguem essa lógica dos fluxos, ligando fluxos a fluxos. Nós vivemos em um mundo de códigos, e as crianças consideradas “normais” ligam códigos a códigos. É como se, em um mundo de códigos e signos ligados aos códigos correspondentes, não houvesse lugar para outras formas de existir. Os indivíduos que ligam fluxos a fluxos nunca serão compreendidos em um mundo de códigos com seus signos correlatos. Daí a impotência da linguística diante das formas dos signos que não se conectam aos códigos da língua. A estrutura do fonema ao morfema, o ordenamento da fala oficial, apenas compreendida dentro do regime de signos, tudo isso exclui os indivíduos de falas estranhas, as falas de outros regimes.

 

Há, na verdade, uma linguagem não reconhecida nos fluxos. A narrativa autista, a narrativa esquizofrênica e a narrativa do artista pertencem a outro plano de linguagem. Por exemplo, Jackson Pollock, René François Ghislain Magritte e Pablo Picasso, dentre outros, têm a potência da estranha linguagem da arte, trabalhando em uma linha infinita de fluxos. Essa longa lista de “estranhos”, que são olhados com desconfiança, são os outsiders da linguagem. Dentre eles, incluo Frida Kahlo, Clarice Lispector, James Joyce, Fernando Pessoa… A lista é grande demais… heterólogos que inventam uma língua dentro da língua oficial para dizer de outra forma tudo aquilo que a língua maior não é capaz de dizer.

 

O flow na sociedade de desempenho

 

Não são apenas esses (os estranhos, outsiders, menores) que são olhados com estranheza. Há uma ordem de indivíduos que circulam por linhas alternativas, em que o próprio indivíduo da subjetividade social é, ele mesmo, um estranho para si. Freud é, ao mesmo tempo, odiado e amado por ter revelado o sujeito do inconsciente, o sujeito estranho dentro do sujeito da consciência. E por ter dito que o senhor da casa não é o “eu” consciente, mas o inconsciente, que é puro desejo. É a negatividade estrutural de todo sujeito da subjetividade em contraposição ao mundo da positividade e da alta performance, em que o império da positividade é a ordem, e a felicidade é perpétua, tendo o consumismo como fundamento e meta.

 

Nesse mundo, surge um estranho fora dos códigos. Sobre o excesso de positividade, criamos, conforme observa Han, uma sociedade doente — uma sociedade de alto desempenho, mas doente. Nós temos tecnologia, pensamento positivo, atitude positiva, psicologia positiva, e tudo isso nos leva a pensar em um excesso de poder-ser.

 

O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade de desempenho. O plural coletivo da afirmação Yes, we can expressa precisamente o caráter de positividade da sociedade de desempenho. No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados3.

 

A sociedade disciplinar é a sociedade do panóptico, com uns poucos vigiando muitos. O grande estudioso desse modelo de sociedade é Michel Foucault. Em sua obra Vigiar e punir (2021), ele aborda os dispositivos da disciplina: da casa à escola, da escola à igreja, da igreja à fábrica, da fábrica à caserna e daí em diante, o sujeito da disciplina está pronto. Com um superego tirano, o sujeito se torna seu próprio disciplinador. Controle ostensivo pela disciplina em tempo integral. Nesse modelo, segundo Han, por excesso de disciplina, produziam-se os “loucos e delinquentes”, mas, na sociedade atual — a sociedade do desempenho —, produzem-se os “fracassados e deprimidos”.

 

Nossa sociedade é a dos transtornos de ansiedade, da síndrome de burnout e da depressão. Somos fracassados em meio ao sucesso do alto desempenho e da elevada performance. A questão da sociedade do cansaço é que nada jamais será suficiente. A sociedade do desempenho trabalha com a exaustão de toda matéria que possa ser anexada a capital-dinheiro. Nós exaurimos o planeta. Por essa razão, estudamos a colonização das estrelas. Cada planetinha por onde o pequeno príncipe passou remete a essa analogia da presença humana nas estrelas. Mas o fato é que nós apenas deslocaríamos nossas práticas e nosso narcisismo para outro lugar. Nosso ego, nosso desejo por poder e toda a paranoia humana do domínio e do controle, tudo isso nos acompanhará aonde formos.

 

O pequeno príncipe nos deixa a seguinte mensagem: não mudaremos o mundo habitando outros mundos; nossa única chance é mudarmos a nós mesmos no mundo que temos. O mundo por vir é aquele dentro do mundo; são os moradores do mundo que devem mudar seu mundo interno, para que o mundo externo possa ser o porvir almejado. Ailton Krenak, seguindo a sabedoria indígena, aponta para o conceito de novo mundo da sociedade capitalista, semelhante a trocar sapato velho por novo, algo estranho que adultos pensam sem (se) darem conta de que temos que cuidar e não de outro. Na esteira de produção, podemos trocar um colaborador improdutivo por outro produtivo, uma peça desgastada por outra, mas nunca poderemos trocar florestas e rios por urbanização especializada. Esse modelo é de destruição por progresso. O retorno é a destruição das vidas, e de tudo que resulta do chamado progresso, as cidades e suas fábricas, submersas nas catástrofes da natureza, acontecem nos espaços urbanos demasiadamente especializados. Nesse momento em que assistimos catástrofes de tal ordem, parlamentares impulsionados por lobistas, tentam aprovar leis de desmatamento, depois lamentarão o mundo como se ele fosse o pior dos mundos. Precisamos educar as crianças para mudar a mentalidade dos futuros eleitores e dos homens que legislam.

 

A mudança de sociedade disciplinar para sociedade de desempenho não é exatamente uma descontinuidade. Os elementos do primeiro modelo de sociedade permanecem incorporados no segundo. Os anos em que a humanidade viveu em disciplina formam a estrutura do inconsciente social da sociedade que vai suceder à disciplina: “o desejo de maximizar a produção”. Todo aprendizado e todo aparato disciplinar estão a serviço da produtividade. Anula-se apenas “o esquema negativo da proibição [que] se choca rapidamente com seus limites”4. O desejo do consumidor é despertado para o consumismo. Assim, em cadeia, forma-se uma onda de treinamento ao alto desempenho, e as ciências do comportamento ficam a serviço da produção desenfreada, o que leva a natureza e o ser humano à exaustão. Isso leva à abolição da negatividade em detrimento da disciplina, que a substitui “pelo paradigma do desempenho ou pelo esquema positivo do poder, pois, a partir de um determinado nível de produtividade, a negatividade da proibição tem um efeito de bloqueio, impedindo um maior crescimento”5. O excesso de positividade chega com a negatividade da negatividade: nesse admirável mundo novo, ninguém pode ser gordo, feio, demonstrar tristeza, ser pobre, lento ou exercer seu direito à preguiça. Ser diferente do padrão de desempenho significa estar “fora do esquema”. A grande árvore e suas raízes definem o modelo ideal do homem do desempenho. A palavra de ordem é a meta da meta — nada abaixo disso será aceito na sociedade do desempenho.

 

E o que seria a negatividade do desempenho? A disciplina tem uma negatividade imposta pelo limite, pelo refreamento e pelas condições de controle em que a disciplina perderia seus dispositivos de controle disciplinar. A disciplina pressupõe limites, imposições e cortes. No momento da Primeira Revolução Industrial, o modelo disciplinar se mistura com o modelo de controle: a disciplina do corpo junto à esteira de produção.

 

Foi Charles Chaplin, com sua mudez e sua sátira, que mostrou a disciplina e o controle em Tempos modernos, e disse tudo isso sem falar nem uma palavra sequer. A positividade como limite está na quantidade de parafusos que um operário é capaz de apertar. A positividade se espalha por todo o salão da fábrica — é a lei que diz “não pode parar”, “não pode falhar”, “não pode introduzir um elemento indisciplinado”, o que seria negativo ao modelo de produção. As regras e a vigilância do chefe por trás do vidro da sala de controle são o superego tirano, que se estende até o interior das casas.

 

O desempenho, por sua vez, se caracteriza pela autonomia do sujeito: os mecanismos de desempenho são interiorizados, formando, então, um subconsciente coletivo de controle de si mesmo. Os patrões já não precisam mais estar presentes no ambiente de trabalho, pois cada trabalhador desempenha o papel de vigilante de si mesmo. Os donos da fábrica atual vão olhar apenas os algoritmos; eles são apenas gerenciadores dos dados fornecidos pelos algoritmos. E o trabalhador precisa e deseja desempenhar, pois não se trata mais de uma vigilância de fora; na verdade, ela foi interiorizada e assumida em forma de autonomia. Nesse modelo, a negatividade foi excluída em níveis mais elevados do que em Tempos modernos, de Chaplin. Todos somos donos e chefes de nosso próprio destino. Desejamos exibir elevados níveis de desempenho. Afinal, somos livres para desempenhar. Por isso, sentimo-nos fracassados quando não alcançamos esse objetivo e fracassados quando adoecemos — situações que consistem em negatividade. A negatividade é a parada do processo: uma febre, um esforço repetitivo que leva à inflamação dos nervos (ler), o burnout ou o vírus que derruba e interfere em nosso ritmo. É a própria natureza e a natureza da biologia que impõem os limites pela negatividade. A natureza embaralha o processo da máquina social do desempenho.

 

Assim o inconsciente social do dever troca de registro para o registro do poder. O sujeito de desempenho é mais rápido e mais produtivo que o sujeito da obediência. O poder, porém, não cancela o dever. O sujeito de desempenho continua disciplinado. Ele tem atrás de si o estágio disciplinar6 (Han, 2015, p. 16–7).DD

 

Disciplina e controle se juntam na sociedade do desempenho, encontrando-se para dar ao indivíduo controle sobre si mesmo. Desse casamento, nasce o modelo do cansaço, segundo o qual as pessoas estão aproveitando ao máximo o tempo disponível para se dedicar ao desempenho.

 

Surgiu, então, o trabalho híbrido, para facilitar o desempenho máximo — sem chefe por perto, o colaborador se sente controlado e vigiado em casa. No quarto, na rua, na cama, na cozinha ou no banheiro, em todos os lugares há desempenho. A mão invisível ou os olhos do controlador estão em toda parte; onde o celular estiver, ali estará o controlador do desempenho. Estamos com excesso de luz onde e quando deveria escurecer, mas o escurecer se transformou em negatividade — as pausas, o descanso e a preguiça constituem negatividade.

 

A natureza, com seus ciclos, perdeu o papel de dirigir o organismo ao dormir e ao despertar. O cérebro não sabe mais se é noite ou dia, se produz ou não produz essa ou aquela substância. Nós mesmos descobrimos uma pílula para cada estado de humor: pílulas para ficarmos acordados ou doses de cafeína para estimular nossa atenção contínua. Chips em forma de pílulas, para isso ou aquilo. O cigarro eletrônico, por exemplo, sustenta a tese da positividade, uma chama que se eleva em ritmo de positividade, chama que não se apaga e não interrompe o processo de produção. Com o antigo cigarro, gasta-se tempo saindo do prédio para fumar. E nenhum tempo deve ser desperdiçado — essa é a lei da positividade, que garante a maximização do desempenho.

 

Em No enxame, Han descreve o barulho ensurdecedor que os algoritmos produzem ao abrirmos uma janela. Uma enxurrada de informações, produtos para compra e venda, negócios, ofertas, política, mentiras em meio a verdades. Informações ao modo de hipertexto, desses que trazem no corpo do texto palavras destacadas em cores diferentes — ao tocar na palavra, um universo de outros textos conectados se abrem, e outros e mais outros. É esse ruído que levamos para nossas noites insones e para nossos recônditos mais privados, mas que não são mais só nossos. Afinal, o mundo está em toda parte. Onde houver um aparelho eletrônico, não haverá mais o lugar privado.

 

Estar conectado é, ao mesmo tempo, estar sendo vigiado. Tudo está sendo vigiado, até mesmo o vigia que nos observa: o Big Data. O grande algoritmo desenvolve o Small Date para dar conta de micropercepções, estudos de preferências individuais e subjetividades, nada mais está em segredo. Os técnicos da informática são os grandes apropriadores de tudo que escapa à positividade. A teoria do flow — antes uma exclusividade dos artistas e das crianças, sobretudo dos bebês — foi apropriada pela positividade e pelo desempenho. Hoje, entrar em estado de fluxo é entrar em desempenho máximo, desligando-se do mundo para produzir o máximo.

 

Na verdade, nunca se recorreu tanto a Pavlov e Skinner para controlar comportamentos — estímulo e recompensa, punição e recompensa — que passam a ser estados de flow. A mente capaz de se concentrar em seu objeto, como se saísse do mundo para respirar o ar fresco antes de sufocar, agora respira o único ar da positividade. A teoria está certa, é justo o que acontece, mas esse estado, antes considerado uma negatividade, foi inteiramente desenvolvido para promover o desempenho. A estranheza da obra de arte, olhada sob o desempenho, é o mais sublime estado de flow, o fluxo original que se liga ao fluxo, por isso não há empresa neoliberal das artes.

 

Os artistas são os rebeldes da supremacia negativa. Nesse ponto, há uma lacuna nas teses de Byung-Chul Han, o esquecimento da alteridade das linhas revolucionárias dos artistas, dos estranhos outsiders e dos casos considerados diagnósticos psiquiátricos, os autistas, os esquizofrênicos e outros. Saint-Exupéry entra no jogo de negatividade versus positividade:

 

A prova de que o pequeno príncipe existiu é que ele era realmente encantador, que ele ria e queria um carneiro e, quando uma pessoa quer um carneiro, é porque essa pessoa existe. Eles vão encolher os ombros e dizer que vocês não passam de crianças. Mas, se vocês disserem que “o planeta de onde ele veio é o asteroide B612”, os adultos vão acreditar em tudo, deixando vocês em paz, sem muitas perguntas. Eles são assim mesmo!7 (Saint-Exupéry, 2019, p. 35 ).

 

É o que parece ser, acreditar em uma fábula de criança vai parecer negatividade, mas acreditar em fábulas de adultos é, com certeza, positividade.

 

Os economistas prometem “desenvolvimento econômico ilimitado num planeta limitado”, os empresários exigem “desempenho ilimitado em corpos limitados”, essas são fábulas de adultos. Os consumidores gostam de consumo ilimitado, mas nunca se importam com a forma de produção e o destino do descarte que o consumo produz. Não querem saber se o lixo eletrônico é jogado em pequenos países pobres como o Haiti, e se esquecem de que lá também há crianças. Não querem pensar que esse lixo descartado nesses países vai produzir doenças e que a população desses lugares não dispõe de recursos para tratar essas doenças.

 

A civilização adulta, como já visto, acredita em números, mas esses números podem ser selecionados, contam-se algumas coisas para fazer crer que tudo é apenas assim, porém não contam outras, que se opõem às primeiras. O pequeno príncipe existe, é a imagem do tipo ideal de ser humano; ele existe em forma de gente grande e nas crianças, essas que conversam sozinhas ou com os animais. Nos adultos, ele vive no interior da alma, à espera de uma oportunidade para sair.

 

Nota

 

Mas qual é o problema de a tese do flow ser aplicada ao mundo dos negócios?

 

Não há problema algum, desde que não anule sua originalidade. O estado de flow ou de fluxos suspende a consciência do tempo cronológico, lançando-a em fluxos puros. Não é algo da atualidade — isso existe desde sempre. Pelo contrário, na contemporaneidade é que se perdeu. Por isso, uma escola psicológica busca seu retorno. Um pianista entra em fluxo tocando Chopin, ou um violinista tocando Paganini. Nem um nem o outro têm relação com quantidade, mas sim com intensidade: velocidade, repouso e lentidão, segundo Espinosa. Atingir a virtude no ato de tocar um instrumento é o mesmo que entrar em fluxo: na verdade, é o próprio fluxo que se apropria do indivíduo e o conduz.

 

O que, então, estamos querendo dizer com o caráter negativo dos fluxos? É que o resultado “não produtivo” dos fluxos, o flow, passa por fora da linha da quantidade, mas introduz as intensidades, que não são estatísticas. O mau uso do flow se apropria das quantidades e da mais-valia do trabalho. Se não estiver produzindo e vendendo produtos, de nada vale. Nesse caso, trata-se de positividade exclusiva. Exclusão de tudo que não produz produtos é negatividade, portanto é excludente. Por outro lado, excluímos os fluxos que produzem o produzir. Nesse último caso, ressalta-se a negatividade. E é nesse aspecto que precisamos prestar atenção.

 

Na natureza, existe a produção de produção. Alguém talvez imagine existir na natureza algo da ordem “para nada serve”, porque olhou com as lentes da positividade excludente. Uma erva daninha ou um inseto podem estar condenados à extinção por se situarem nessa ordem do imprestável. Esse, porém, é um mal-entendido acerca dos insetos, pois são eles os responsáveis pela frutificação e a proliferação das plantas e dos alimentos de todo ser vivo. Ter amigos, por exemplo, pode ser algo que não produz produtos, mas produz o produzir. Hoje, uma pessoa pode ter cinco mil amigos digitais nas redes sociais, contudo, na verdade, talvez esteja vivendo sem amigos ou não tenha tempo para amigo algum, porque quem tem cinco mil amigos não tem nenhum. No ato de somar cinco mil ou dez mil amigos, não há dúvida que se oculta a intenção de produzir produtos, e não amigos de primeira ordem — ou seja, produzir afetos e encontros sem se vender.

 

Os influencers têm milhões de amigos-seguidores, mas não têm amigos verdadeiros. É possível que alguns estejam refletindo sobre a questão do isolamento das pessoas. No entanto, ainda é preciso propor uma teoria de superação do isolamento sem que o único objetivo seja o de vender produtos e imagens de uma felicidade mecânica. Para se ter um amigo, é preciso dedicar tempo. E não se produzem amigos por atacado, assim como são produzidos celulares e outras coisas. Eles não são amigos; são apenas números na cabeça. Se os amigos entrarem na agenda de lucros, esqueceremos os únicos amigos que nos restam, aqueles que só produzem o produzir, e não produtos.

 

Esquecer um amigo é algo um tanto triste. Nem todos tiveram um amigo de verdade. Ademais, se eu esqueço um amigo, corro o risco de me tornar como as pessoas grandes, que já não se interessam por mais nada além dos seus códigos numerados…8 (Saint-Exupéry, 2019, p. 36).

 

Os adultos estão muito sozinhos. Há uma solidão pesada na existência das pessoas. Muitos vivem e morrem sozinhos. Estar sozinho é mais do que estar desacompanhado; é estar fechado em uma caixinha de crenças, embora na companhia de muitos, mas todos sem conexão. O isolamento do mundo é a falta de conexão. E nós temos aparelhos para nos conectarmos às pessoas, porém a verdade é que estamos conectados aos aparelhos, e não às pessoas. É mais fácil conectar-se a aparelhos porque nós os deletamos quando bem entendemos — deletamos as pessoas de nossas vidas, assim como as deletamos das redes sociais. Por isso, estamos em um mundo de pessoas que vivem em solidão, imersas na multidão.

 

O narrador reconhece seus limites em fazer desenhos para crianças, e reconhece também a dificuldade de entender a linguagem infantil: “Quem sabe eu já não seja um pouco parecido com as pessoas grandes? Afinal, o tempo passou, e eu envelheci”9.

 

Lembranças dos “menores”

 

Existem as exceções em meio à massa de humanos que caminham como zumbis, com suas maquininhas nas mãos. Existem aqueles que a filosofia classifica como menores — esses se importam com menos desempenho e mais criação, estão em toda parte, não são barulhentos, trabalham em silêncio, mas são muito potentes naquilo que fazem.

 

No teatro, Carmelo Bene e Antonin Artaud são máquinas de guerra contra a morte da arte. No cinema, Federico Fellini, Ingmar Bergman, Akira Kurosawa… a lista é muito grande para citar todos. Na literatura, Zelda Fitzgerald, Francis Scott Key Fitzgerald, Adeline Virginia Woolf, James Joyce, Samuel Beckett. Todos eles inventam outro código, criando outras formas de dizer as coisas. São os ditos menores da lista de Deleuze/Guattari, como o grupo dos que criam uma linha alternativa a tudo que é oficial: literatura menor, cinema menor, teatro menor, arte menor. Mas “menores” é apenas um termo para dizer que eles correm por fora da linha oficial.

 

Carmelo Bene se interessa muito pelas noções de Maior e Menor. Ele lhes dá um conteúdo vívido. O que é um personagem “menor”? Antes de tudo, CB diz que é besteira se interessar pelo começo ou pelo fim de qualquer coisa, pelos pontos de origem ou de término. O interessante nunca é a maneira pela qual alguém começa ou termina. O interessante é o meio, o que se passa no meio10 (Deleuze, 2010, p. 34).

 

Não é estranho que o personagem de Saint-Exupéry apareça bem no meio do deserto e comece a falar pelo meio? “Desenha um carneiro para mim”, esse pedido não está fora dos códigos da língua oficial? Acaso ele não deveria começar se apresentando, demonstrando curiosidade pela grande e estranha máquina quebrada? O pequeno príncipe é um personagem conceitual, um autista ou esquizo. Ele anda entre as coisas, entre os mundos e as estrelas.

 

Você consegue imaginar o pequeno príncipe deitado em um divã de analista? Não, ele não diz “papai” e “mamãe”. Ele fala de carneiros, baobás, flores, raposas e Universo. É preciso descer ou subir ao nível das crianças, entrar em seu mundo cintilante de distribuições temporárias. O diálogo com uma criança, em seu autismo, é sempre muito breve e provisório. São as crianças que instauram com sucesso — até que um adulto atrapalhe — um novo fundamento para a linguagem, um afundamento, na verdade. Em seu nomadismo, as crianças asseguram um desabamento universal na estrutura da comunicação. É o adulto que precisa reverter seus modos de escutar e falar.

 

Ele traz o fluxo das estrelas, está submerso em seu planeta, do qual vem seu pedido: “Desenha um carneiro para mim?” Os afetos do seu planeta, da flor que deixou para trás, é que vieram com ele para o deserto. São os blocos da infância que inspiram o adulto. Dirão que é loucura, por isso Nise da Silveira declarou: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata.” E o menino disse: “Seguindo em linha reta, ninguém poderia ir muito longe…”11 Daí considerarmos as linhas erráticas das crianças, dos animais, dos autistas e dos esquizos. Tanto na compreensão do outro como nas sensações individuais, é preciso andar em zigue-zague.

 

O esquizo é um modo de ver as coisas e de ser no mundo. Um modo de escapar do conjunto de signos que encaixa o indivíduo em uma caixa reflexa. Uma forma de falar do mundo — e aqui incluo os surrealistas. Se tudo no mundo é dito por um único meio, a língua, a arte e a perspectiva que tenta enquadrar tudo por meio de seus recursos, o surrealista quer dizer que tem um problema nos “óculos do mundo”.

 

A linguagem nos submete e determina o modo de vermos o mundo, impedindo-nos, ao mesmo tempo, de ver as coisas que escapam a essa pequena lente. Sem nos darmos conta, estamos olhando o mundo pela ótica de uma linguagem colonizada. Platão diz, de forma singular, dessa limitação da percepção a partir da caverna, mas, sobre Platão, falaremos em outro momento.

 

Se a linguagem já é uma forma de expressão que limita, uma forma de linguagem capturada e colonizada fecha ainda mais o mundo na perspectiva oficial. Nesse caso, a prática surrealista consiste em dizer de outra forma. Basta olhar as gaiolas, os ovos e os pássaros de René Magritte12: há, em cada um desses traços, outra forma de dizer a realidade. Olhar as coisas pelo seu reverso, por perspectivas que o olhar colonizado não costuma ter: vê-se a simetria, mas não é simétrico; percebe-se um ovo, mas talvez não seja um ovo; a gaiola parece estar fechada, mas também está aberta; a figura do terapeuta parece ser a de um humano, mas talvez seja apenas um arranjo que induz à percepção.

 

Enfim, o olhar surrealista segue na direção de uma perversão do olhar. Na representação do cachimbo (This is not a pipe, Ceci n’est pas une pipe), ainda que a legenda diga em muitas línguas, a insistência da percepção sensorial discordante insiste em permanecer na visão do cachimbo. Mas o que é afinal? Apenas a representação do cachimbo. As escadas, as portas, as gaiolas, os tons azuis de abertura para o mundo exterior no jogo com o interior, a maçã na sala de sonoridade, tudo é uma forma de abrir o mundo em possibilidades outras. Os objetos são demasiadamente grandes para o espaço, são con-fusões, con-fluências de espaço e tempo, situações que só ocorrem nos sonhos, na arte e na loucura.

 

Por tudo isso, Nise da Silveira advertiu para o perigo de as pessoas se curarem demais, e Gilles Deleuze arremata, dizendo que a beleza e o charme de uma pessoa estão no pouco de loucura que ela mantém. Em outro sentido, seria como o modo surrealista: olhar o mundo pelo avesso. Não é o caso de um elogio à loucura e ao sofrimento que ela impõe ao louco. Estamos falando de uma loucura sóbria, que se faz nas artes e na literatura.

Notas

 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, op. cit., p. 13–4.

2 Ibidem, p. 14.

3 HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015, p. 15–6. (Edição Kindle.)

4 Ibidem, p. 15–6.

5 Ibidem, p. 15.

6 Ibidem, p. 16–7.

7 SAINT-EXUPÉRY, Antoine, op. cit., p. 35.

8 Ibidem, p. 36.

9 Ibidem.

10 DELEUZE, Gilles. Sobre o teatro: um manifesto de menos. Tradução: Roberto Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010, p. 34.

11 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, op. cit., p. 26.

12 René Magritte foi desenhista, ilustrador e pintor belga. Destacou-se entre os artistas surrealistas belgas e pertenceu ao principal grupo de surrealistas, sendo amigo de André Breton, Salvador Dalí e Marcel Duchamp, dentre outros. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/rene-magritte/. Acesso em: 14 fev. 2024

fotografia de Clécio Branco

Clécio Branco – Psicólogo Clínico no Rituaali – Brasil

Mestre e Doutor em Filosofia

Doutorando-se em Psicologia (UCES – Argentina)

Autor: Isso Não é um Chapéu: Reflexões a respeito do Pequeno Príncipe, Ensaios de A a Z para mentes Inquietas e Encontros com o Mestre I.

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